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segunda-feira, 26 de outubro de 2020

UM CRUZEIRO DE SONHO



 

UM CRUZEIRO DE SONHO

 





PARTE 1



    
 
 
Tínhamos entrado à muito na era do dinheiro plástico.
       Dessa vez porém, o cartão de banda magnética servia para abrir a porta do nosso camarote. É verdade, íamos a bordo do “Malhoa”, um navio pequeno que embora não tenha todos os luxos dos modernos e enormes paquetes, era um lindo navio com uma lotação de trezentos passageiros, bons camarotes, uma cozinha genuinamente portuguesa, uma tripulação simpátiquissima, e ainda: Piscina, ginásio, cabeleireiro, cinema, tabacaria com venda de jornais, livraria e revistas e uma maravilhosa sala de jantar, que era também salão de festas e de baile, enfim, o necessário conforto para um cruzeiro revigorante pelo Mediterrâneo ao Egipto e à Grécia.
       Era um dos desejos que faziam parte da nossa extensa lista de sonhos por realizar. Tinha chegado agora a ocasião, graças ao prémio obtido no concurso das Selecções Reader’s Digest. Fora das tais sortes que eu penso, sem querer ser pretensioso, há muito tempo que merecíamos.
       Eu tinha tido a experiência do Vera Cruz, na ida para a guerra do Ultramar. Mas... além daquele cruzeiro simpático que fizemos pelo Douro, quem nunca tinha tido o prazer de navegar, era a Olga.
       Ela estava particularmente feliz nessa noite, em que tínhamos dançado depois do jantar, bebido champanhe, e por fim, um passeio pelo convés. A noite estava amena e de um luar luzidio. Sempre tinha sonhado com uma noite assim: A Lua reflectida no mar, o sussurrar das ondas e ela nos meus braços, assim especialmente bonita. O cabelo muito bem arranjado, um vestido comprido de finas alças, de uma seda azul-escuro muito brilhante, com reflexos de azul-cobalto dado pelo luar. Uma écharpe de veludo quase do mesmo tom do vestido, com arabescos em prata. Sapatos de saltos finíssimos cor de prata e a bolsa do mesmo tom. Ainda uma lindíssimas gargantilha de ouro encrostada com lindos rubis, pulseira e brincos iguais, (prenda pelos 30 anos de casada), faziam o conjunto perfeito naquele quadro: “A noite pincelada de luar”, que o destino tinha pintado finalmente.
        Beijamo-nos levados pelo romantismo da noite, mas com tal entusiasmo, que apesar dos nossos cinquenta anos sentimos o desejo acender-se em nossos peitos, éramos dois quase adolescentes novamente.
        Era a nossa primeira noite a bordo e ansiamos tanto por ela, ao lembrarmo-nos que nunca tínhamos tido uma noite de núpcias. Bem!... E com franqueza! Nós já a merecíamos!      
      A decoração do camarote embora não fosse muito moderna era sóbria, o mobiliário de linhas elegantes onde sobressaia um lindo arranjo de rosas amarelo vivo, em cima de uma cardência de estilo americano e ladeada por dois apliques de cristal, que davam ao camarote uma luminosidade quente e confortante.
         
        Depois da écharpe ter voado para cima da cadeira, voltou-se de costas para que lhe desapertasse o fecho eclaire, adoro ouvir-lhe o deslizar. Lentamente da nuca ao fundo das costas. Admirei aquele corpo, que embora não fosse jovem, transmitia uma sensualidade autêntica e bela. Uma langerie vaporosa de cor cinza rato, onde se destacavam as meias de seda, muito finas e de costura, presas pelas molas de um ligueiro de renda da mesma cor do conjunto. Estava fascinante, solta, desinibida. A felicidade tem destas coisas!...        
       Claro que além das flores, eu tinha pedido ao camareiro um champanhe no gelo e duas taças. Tudo estava perfeito. Estávamos quase a realizar um sonho; Proporcionar a nós mesmo, um prémio de trinta anos de vida em comum, uma noite maravilhosa a bordo de um navio num cruzeiro ao Mediterrâneo.
       O som da música de orquestra ouvia-se ainda vinda do salão, o som e a brisa do mar entravam pela vigia aberta. Depois o amor sempre ele, imprescindível nestas ocasiões, misturou-se com o desejo e o champanhe, os beijos e as carícias, a maresia e o prazer!
        Há coisas que com a idade sabem melhor, esquecemos a pressa, adquirimos serenidade, deliciamo-nos em cada bocadinho de prazer com gozo e doçura.           
          — Estás hoje tão docinha!
          — Eu sou feita de açúcar...
       E o açúcar derreteu como mel. O dique que rebentou como um rio que nos inunda de paz, por fim o clique reconfortante. O sonho realizado... O cansaço, o sono e mais uma vez o sonho...
 
        Tínhamos saído da doca de Alcântara, em Lisboa, pela madrugada desse dia. O primeiro dia a bordo foi passado um pouco à descoberta das coisas, a percorrer todos os cantos do navio, conhecer bem o seu leve baloiçar (a Olga não esqueceu os comprimidos para o enjoo ),  dos ruídos característicos do mar, conhecer ”In loco”  o reflexo do Sol no mar, aquele que só conhecemos visto da praia, ou pintado em quadros. Experimentar a primeira tarde a bordo, o banho na piscina, as cadeiras de lona espalhadas pelo deck, todo o “Malhoa” em suma, para exploramos com a curiosidade própria de quem nunca se viu em tal aventura.
         Fascinante, é sempre a imensidão do mar que nos faz tão pequeninos, que no coloca no lugar certo em relação à natureza no universo. Chega a meter medo quando tanto horizonte a nossa vista alcança, sem no entanto conseguir ver um pouco de terra que seja. A temperatura média no Mediterrâneo é de 15 graus. Nesse dia porém, o calor era sufocante. Com uma área de 2.500.000 Km2, o Mediterrâneo tem a profundidade máxima de 5.267 Metros. Comunica com o Indico pelo Canal de Suez, O Mar de Màrmara, pelo estreito de Dardanelos, que separa a Turquia europeia da asiática. E o oceano Atlântico através do estreito de Gibraltar.
         Este estreito com uma largura de 12.7 Km. Entre a costa de Espanha e a de Marrocos, deve o seu nome à colónia com 6 Km2 e 30 mil habitantes, que está sob o domínio inglês desde 1713 e é uma importante base militar da coroa britânica.
        Inesquecível para nós foi aquele primeiro jantar a bordo, uma espécie de “Boas-vindas” dadas pelo comandante. Pessoa muito simpática, ainda novo, sem barba, sem cachimbo e nem sequer binóculos a tiracolo, o que desgostou o nosso imaginário de “Velho comandante”.        
        O Jantar foi acompanhado de música ambiente com uma orquestra privativa. A sala lindíssima com mesas redondas, todas elas com lindos arranjos florais. Toalhas e guardanapos de linho. Louça de fina porcelana e copos em cristal ao lado de talhares de belo design.
        Abundavam pela sala de jantar grandes jarrões de japoneiras, onde lindas camélias brancas (as flores da nossa cidade do Porto), davam à sala um ar festivo. Dois lampiões estilo arte-nova, no começo dos corrimãos das largas escadas de quatro degraus apenas, forrados de passadeira carmim, que desciam do salão de baile, davam à sala um ar acolhedor. Os criados de laço e avental verde garrafa, estavam impecáveis nas suas camisas brancas e seus sorrisos afáveis.        
      A ementa constava de: Creme verde: Escalopes de vitela; Ervilhas de quebrar à minhota e pudim laranja de caramelo. O vinho era tinto maduro, da região da Bairrada. Depois do café, foi servida uma boa aguardente velha “Aliança”.
      Desejaram-se votos de uma viagem inesquecível, brindou-se com champanhe à alegria do saber (e poder) viver a vida da melhor maneira. Depois, bem depois um bolero encheu a noite de lindos sons, e nos braços um do outro dançamos como se ainda tivéssemos vinte anos...
      Soube depois, que durante o jantar o navio tinha parado, prosseguindo viagem no começo do baile.
      Deixamos nessa noite do nosso lado esquerdo, as Ilhas Baleares. Milhões de luzinhas como estrelas, lá estavam ao longe, as famosas ilhas espanholas de rara beleza, e conhecidas pelo seu clima: Ibiza, Minorca e Maiorca, com a sua capital “ Palma” reflectindo mais luz.
       Atracamos pela manhã em Hammamet, na Tunísia. Uma baía mediterrânica lindíssima, ao longe viam-se soberbas praias, banhadas por aquele mar de águas cálidas e calmas, eram um convite ao relaxamento.
       Autocarros turísticos esperavam-nos no cais, (soube depois que muitos passageiros, optavam por permanecerem a bordo) fomos transportados ao “Aziza”, um hotel de luxo virado à praia. O nosso quarto tinha terraço, ar condicionado e mini-bar. No terraço depois dum banho a dois, secamo-nos deitados em cadeiras longas de lona, sob um toldo branco que filtrava a luz do Sol. Em baixo podia-se ver duas piscinas enormes, lindos jardins, toldos de várias cores, campos de ténis e uma vereda para passear a cavalo, que terminava num largo picadeiro para a prática de equitação. Ao fundo o mar muito azul diluía-se num céu da mesma cor. Desfrutámos aquela paisagem soberba respirando aquele ar calmo da nossa primeira manhã a norte do continente africano.
 
 
          
        
 
    

UM CRUZEIRO DE SONHO





 

PARTE 2
 
 
 
       


    Eram 11.00h e foi dada a partida de autocarro para um passeio, aliás facultativo ao programa, a Tunes onde visitamos os Souks, pequenos labirintos de lojas onde encontramos todo o típico artesanato do país. Segui-se uma leve visita ao Museu do Bardo, onde podemos apreciar a maior colecção de azulejos do mundo. Paramos depois em Cartago a 12 Km de Tunes. A antiga capital púnica é hoje um bairro de Tunes e um sítio arqueológico e turístico importante, tendo sido classificado Património Mundial pela UNESCO em 1979. Outrora, disputava com Roma o controle do Mar Mediterrâneo. Essa disputa deu origem ás três guerras Púnicas, após as quais, Cartago foi destruída.
      Paramos para o almoço (pois passavam já das 13.00h.), visitamos as suas célebres ruínas. Passamos ainda pela vila piscatória de Sidi Bousaid, onde apreciamos, como é de tradição, o famoso chã de pinhões numa das típicas casas de chã árabes. Regressamos a Hammamet para jantar e pernoitar.
      À noite demos um belo passeio pela paia. Vestimo-nos à vontade, eu de ganga, camisa de meia manga e pulóver pelas costas. Ela de saia branca rodada e cinta alta, blusa azul cabeada ás pintas brancas e um pequeno casaco de malha pelas costas. Um lenço estampado com motivos do mar cobria-lhe o cabelo que esvoaçava com a brisa. Uma pequena aragem fresca mas agradável junto à praia onde as ondas rebentavam na areia a nossos pés, tornava aquele passeio ainda mais belo. Íamos descalços, de mãos dadas apreciando aquele momento que nunca tínhamos tido o prazer de saborear na vida. Haviam muitos casais deitados pela praia, indiferentes uns outros, distraídos, absorvidos pelos gestos, pelos beijos. Demos aquela praia o nome de “Praia dos beijos”. Chegamo-nos também a sentar, deitar, beijar e... claro a namorar.              
       Dormimos bem e estávamos frescos e prontos para embarcar, depois do pequeno almoço admirável que o  Aziza nos proporcionou, e um adeus à (nossa) Praia dos beijos, retornamos ao nosso camarote a bordo do “Malhoa”, este fez-se de novo ao mar, quase à hora do almoço. Pequenas embarcações rodeavam o navio tentando vender artigos locais aos turistas. Depois de algumas fotos, dissemos adeus à Tunísia e prometemos voltar em breve. Era com efeito, uma terra linda e era pena ter-mos tão pouco tempo de visita.
        Passamos através do Canal da Tunísia no mar da Cecília, enquanto almoçávamos. Víamos a paisagem através das amplas janelas da sala  e apesar do dia límpido não conseguimos ver essa ilha da ponta de Itália, terras de Siracusa, Palermo Catânia, etc., pois íamos muito junto à costa da Líbia.
        Descansávamos um pouco ao Sol, nas cadeiras do convés, quando avistamos ao longe e do nosso lado esquerdo, a ilha de Malta, cuja capital é La Valletta, com 316 Km2 e 370.000 habitantes. Navegávamos rumo à nossa próxima paragem o Egipto.       
     
        Eram 09.30h do quarto dia da nossa viagem quando o “Malhoa” aportou ao cais da Cidade de Rashid, depois de termos passado ao largo da famosa cidade de Alexandria. Ali tinha sido construído em 270 a C. o maior farol do mundo (na época) com 120 Metros de altura, destruído em  1375 durante um terramoto e apesar das “novas” maravilhas do mundo, e ainda faz parte, em 7º lugar, das Sete Maravilhas do nosso planeta.
       Maravilhosos autocarros panorâmicos fizeram o trajecto do cais de Rashid até ao hotel “Ramses Hilton” no extremo norte da cidade do Cairo  
       Com uma assistência cuidada e uma grande capacidade de organização, por parte da agência de viagens, sem dúvida digna de louvor, ainda não eram treze horas, (hora portuguesa) e já estávamos instalados e preparados para o almoço. Da ementa constava mariscos diversos como entrada. Seguindo-se garoupa do Nilo assada no forno e acompanha de arroz de caril. A sopa de agriões e à sobremesa, queijo de cabra, especialidade de Tebas. (Claro que tive de pedir outro arroz, caril não é com a Olga!). A sala onde almoçamos era moderna, com arcos em pedra envidraçados, onde a luz entrava a rodos. Ambiente magnífico para um primeiro almoço em terras de Faraós.
       A tarde estava livre para conhecer o Cairo. A cidade capital do Egipto, é chamada de al-Qahira em árabe. Está situada nas margens do rio Nilo e tem cerca de 16 milhões de habitantes. Foi fundada em 969, conquistada pelos turcos em 1517. Ocupada pelos franceses entre 1798 e 1801. É sede da Liga Árabe. O Cairo é uma cidade que é um museu aberto, composto por uma mistura de antigo e moderno que convivem nos seus bairros, ruas, ruelas e becos. O Cairo religioso é cheio de contrastes, cidade cosmopolita em culturas e gentes, que revela diferentes civilizações. 
       Começamos por visitar as famosas mesquitas de Al-Azhar e de Mehemet Ali do  (séc. X). Passamos junto à portagem do famoso Canal Suez. Por um folheto ilustrado, soubemos que tem 161 km de comprido e foi nacionalizado por Nasser em 1956, o que provocou a invasão do Egipto por tropas anglo-franco-israelitas.
Apanhamos o moderno metro do Cairo para nos dirigirmos ao Museu Egípcio de Antiguidade, onde se encontra a mais bela colecção arqueológica de todo o mundo. O fabuloso tesouro de Tutankhamon reúne as mais interessantes peças e de maior destaque no museu.  
       Tivemos ainda tempo para visitar a Cidadela de Saladino e a sua linda mesquita.  Compramos e enviamos postais ilustrados para os filhos, netos e pessoas amigas. Escrevi uma carta mais longa ao Passos, sobre a decoração da nova moradia que compramos, embora seja o encarregado (competente) da obra em geral, penso que em matéria de decoração, eu e a Olga temos importantes sugestões a dar, em como queremos a nossa nova casa decorada. Para os reposteiros, carpetes e cortinados, recomendamos-lhe a “Criabel” como empresa experta na matéria, desde de que respeite as amostras de cores e texturas que escolhemos.
         
        Regressamos ao Ramsés Hilton para jantar. Depois de um banho reconfortante, descemos ao salão.
        O embaixador de Portugal no Cairo fez questão de estar presente, numa recepção de boas vindas aos seus conterrâneos como era usual (viemos a saber depois),
        O comandante do navio, e alguns oficiais da tripulação, espalharam-se simpaticamente pelas mesas dos passageiros, num gesto de cortesia.
        O Senhor embaixador e esposa, saudaram-nos com um drink de boas-vindas, desejando-nos boa estadia. Na mesa da embaixada, dois galhardetes sobressaíam dum lindo arranjo de flores, o de Portugal e o do Egipto. Era um gesto que fazia lembrar a presença de Eça de Queiroz como jornalista convidado na inauguração do Canal Suez, aquando da sua inauguração oficial em 17 de Novembro de 1869. O Jornal português Diário de Noticias, publicou a reportagem escrita pelo grande escritor.
       O Jantar constava de: Carneiro à Sheik, assado com beringelas e acompanhado de batata escaldada em azeite, azeitonas descaroçadas e tiras de limas e ainda alperces a enfeitar. Á sobremesa foi servida uma salada de abacaxi com rum. O café era forte com sabor tradicional árabe.
       Jantou na nossa mesa um casal de Aveiro, donos duma pequena frota de pesca, muito simpáticos e conversadores, falamos do celebre bacalhau à São Bernardo tão apreciado pelas gentes do norte, falamos da Ria, da nova ponte de S. Jacinto, obra notável da engenharia portuguesa, e por fim falamos da pesca e dos ovos moles. As conversas são como as cerejas...
       Foi servido numa sala ao lado whisky, e por amabilidade do Sr. Embaixador, um bom charuto da Líbia. As senhoras tinham à disposição cigarrilhas e licor de tâmara. Foi um jantar muito agradável.
        No Salão de baile, pomposamente chamado de “Cleópatra” já se ouviam os acordes do “Danúbio Azul”, o Embaixador abriu o baile, a noite prometia...
        A bonita arquitectura árabe do salão, (dizia ao meu companheiro de Aveiro, amante de cinema como eu) faz-me recordar o quartel britânico, onde o oficial T. E. Lawrence entraria a qualquer momento, depois de estacionar a sua “Norton” à porta de armas, no grande filme Lawrence da Arábia. Filme que faz inevitavelmente parte, dos vinte melhores filmes do mundo, na minha lista de preferências.
        O meu companheiro falava todo entusiasmado noutros títulos do seu agrado. Mas... A hora passava e eu ainda queria dançar um pouco, sentia-me em forma, esta viagem estava-nos a fazer bem. De resto não nos tínhamos que preocupar, graças a muitos anos de trabalho e ás “Selecções” claro!
       Fui buscar a Olga, pois já tinha reparado de longe no seu ar de (estar a ser simpática sem querer), que me dizia: Vem-me buscar depressa que já não aguento mais!...   Dançamos, sorrindo aos nossos amigos aveirenses, enquanto me contava ao ouvido, que a aveirense era uma pedante, diz que tem barcos de pesca e uma fábrica de conservas, enfim! (Armadora diz ela... É mas é armante que rima com petulante).
       Depois de dois boleros, uma rumba e dois tangos, demos por finda a nossa noite de dança, principalmente quando os ritmos começaram a ser mais fortes, era divertido, mas não tínhamos propriamente vinte anos. Subimos para os nossos aposentos, estávamos maçados o dia tinha sido cansativo, andamos muito a pé. Adormecemos nos braços um do outro, ao som da Barbra Streisand cantando “Memory” muito baixinho, no aparelho de rádio do quarto do hotel. 
             
        Para o segundo dia da nossa estadia no Egipto, temos um programa maravilhoso, vamos visitar as pirâmides e outros monumentos de interesse. A partida no ”Nile Emerald” está marcada para as 09.00h em ponto, no cais sul do rio Nilo. Iremos subi-lo e apreciar a paisagem.
       Do programa faz parte a visita ás célebres e milenárias pirâmides de Gizé e à simbólica e enigmática Esfinge. Após o almoço iremos visitar Sakkara, Mastaba de Ti e pirâmide escalonada de Djoser, considerada a mais antiga do Egipto. Faz ainda parte do itinerário, a visita ás pirâmides de Dahsour, descobertas no início do século e abertas ao mundo em Setembro de 96. O regresso ao hotel está marcado para as 20.00h.
             
 

UM CRUZEIRO DE SONHO

 





PARTE 3





 
 
      E assim, partimos ao encontro da aventura, pelo terceiro rio maior do mundo, o Nilo, com 6.670 km. Este rio que desde tempos imemoriais, é a base de tudo para as populações ribeirinhas a ele. Era o Nilo que fornecia a água necessária à sobrevivência e do plantio do Egipto. No período das cheias, as águas do Nilo transbordam o leito normal, cerca de 20 km. E inundam as margens, depositam aí uma camada riquíssima de húmus, aproveitada com sabedoria pelos egípcios. Mal o período de enchentes passa, aproveitam ao máximo o solo fértil para cultivo. Actualmente o Nilo garante a sobrevivência de um décimo da população africana.
       O turismo tem sido muito importante para o Egipto e para o conhecimento do mundo antigo pelo mundo moderno e avaro de saber as suas origens. Pena é que a indústria turística tenha entrado em declínio a partir dos anos 90, quando os fundamentalistas islâmicos começaram a atacar turistas ocidentais. O seu objectivo era pressionar o governo para uma maior islamização. O resultado foi um rápido declínio no número de visitantes e um rombo nas receitas do comércio externo do país.
       As cidades do Egipto estão ligadas por estradas capazes, mas o caminho de ferro é o principal transporte do país. O metropolitano foi recentemente inaugurado no Cairo (1987); E o Canal de Suez é uma rota marítima internacional de grande importância para o mundo, e muito importante para economia do Egipto.
             
      Com uma população de 63 milhões de habitantes, o Egipto tem uma taxa de natalidade fora do comum. Não fora o envio de remessas dos egípcios que trabalham no estrangeiro. As portagens do Canal de Suez e a produção de algodão, juntamente com os rendimentos do petróleo e do gás, principais riquezas do país, o Egipto estavam em maus lençóis. Mas as disparidades de riqueza são muito acentuadas. A comunidade cristã, fundamentalmente urbana, é o grupo com o nível de vida mais alto. Depois o regresso de muitos trabalhadores dos Estados do Golfo (em guerra) agravou as condições de emprego nas zonas rurais.
       Enfim, é este o Egipto actual tão diferente do tempo das tribos estabelecidas no vale do Nilo, com uma organização social vinda do ano 3.500 a C. Passando em 1967 pelo grande conflito com Israel (Guerra dos Seis Dias). Até aos acordos de Camp David em 1981 e pelo assassinato de Sadat por integralistas muçulmanos.
       
      Conversava eu sobre este tema, (história do Egipto), com o meu amigo Tavares de Aveiro, quando reparei que tínhamos chegado ao cais de Sakkara. Porto fluvial do Nilo. O barco em que viajávamos o “Nile Emerald”, era veloz e muito bem equipado, com um bar enorme e bem apetrechado, um deck (esplanada) a todo o comprimento, assim como toldos que davam uma sombra apetecível, e nos protegia daquele Sol sufocante do deserto. Íamos assim confortávelmente instalados em cadeirões e mesas com bebidas frescas.
      O calor era já insuportável. Ainda nós por recomendação da nossa guia, íamos à vontade, de ténis e fato de treino, o da Olga de cor verde-claro e muito solto, ficava-lhe bem, e além disso, um lenço de seda verde-escuro, amarrava-lhe o cabelo apanhado em puxo, fazendo sobressair umas largas argolas à cigana e óculos de sol.                     
      Desembarcamos e seguimos a guia em direcção à primeira construção piramidal erguida pelos egípcios: A  Djoser, a pirâmide em degraus ou escalonada como lhe chamam. Magnifica nos seus 62 mts. Mandada construir por “Inhtep” em 2.900 a C., que lhe pôs o nome do Rei Egípcio da 3ª dinastia, “Djoser”.
     Dali seguimos em visita à “Mastava de Ti”, túmulo de forma trapezoidal, ornado com baixos-relevos ao deus do Sol “RÁ”.
      Almoçamos num restaurante local, tratava-se de uma tenda enorme com o solo coberto de lindas carpetes onde abundavam almofadas em veludo à volta de mesas baixas e onde todos descalços tiveram um almoço ligeiro de pão árabe, achatado e redondo, feito á base de leite morno e trigo. Acompanhado de Bikli, porção de legumes curtidos em conserva. O prato principal era carne de frango aos pedaços e grelhada a que dão o nome de Kebabs, com salada de thaina. Tudo regado com Karkadeh, uma bebida refrescante feito de pétalas da flor de hibisco, embora fosse servido chá e limonada gelada.
      Descansamos um pouco, e prosseguimos a visita desta vez ás milenárias pirâmides (Datadas de 2.690 a C.) de “Mikerinos” com 62 metros de altura; “Kefren” com 136 e “Kheops” com 137.2 metros de altura, considerada a grande pirâmide.
      Foi aqui que em 21 de Julho de 1798 e depois de ver destroçada por Nelson toda a armada francesa, isolando no Egipto o exercito napoleónico, que Napoleão Bonaparte pronunciou a apóstrofe que ficou célebre: “Soldados, do alto dessas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam”.
      E não admira que Bonaparte o tenha dito, qualquer ser humano fica como um grão de areia, perante tal monumentalidade. Sem conseguir compreender como foi possível tal proeza construída por seres humanos, sem as mínimas condições de trabalho e com a tecnologia da época, que ainda está por esclarecer na realidade, quiçá grandes estudos feitos, desde 1926, ano em que foram feitas escavações de grande importância para a arqueologia mundial. Foi precisamente a partir desta data, que o mundo pode admirar a famosa Esfinge, depois de protegida mais de dois mil anos por areia.      
      A Esfinge é o monumento mais enigmático do Egipto. Tem sobrevivido ao longo dos séculos, para guardar os túmulos dos Faraós. Continua no entanto, a ser um mistério este marco artístico da civilização ao longo do tempo. Quem a construiu? Trata-se de uma obra de colossais dimensões, cortada no próprio rochedo, e à qual se atribui a tarefa de vigiar as três principais pirâmides do Egipto.Com o corpo de leão e a cabeça de um humano, há quem pense tratar-se da representação do deus Rá, esta obra considerada a mais antiga escultura existente.
      Hoje corre grande perigo: a erosão do vento e a poluição tem contribuído para a gradual destruição do monumento. Esperamos que o tempo não se esgote, sem que os artistas e engenheiros desenvolvam esforços no sentido de salvarem a relíquia mais preciosa do Egipto.
        
       Eram quase 20h00 quando regressamos ao hotel.
       Passamos uma noite agradável, a última no Egipto, e após o pequeno-almoço, regressamos não ao cais de Rashid, mas sim ao cais do aeroporto do Cairo. É verdade íamos para a Grécia, directamente de avião. Depois das formalidades de embarque, saímos num voo da Egiptair rumo a Atenas.
Fazia parte do programa, esta viagem de avião, viemos a saber posteriormente, que a via marítima entre o Egipto e a Grécia, é muito demorada devido à enorme quantidade de ilhas do Mar de Creta. Disse-nos a nossa guia, (a linda, elegante, culta e simpática Gilda) que enquanto o “Malhoa” demorava mais de um dia a chegar ao cais de Atenas, passando primeiro pelo estreito de Carpatos, entre a ilha do mesmo nome e a tal ilha de Rodes, (Também chamada Ilha do Sol), onde em 280 a C. foi construída a considerada 4ª maravilha do mundo: O Colosso de Rodes, com 47 metros de altura, que dorme no fundo do mar desde a sua destruição em 224 a C. Depois da ilha de Milos (onde foi descoberta a Vénus do mesmo nome), passando pela Ilha de Lindos, (onde foi filmado o famoso filme “Os canhões de Navarone”), e antes de chegar à ilha de Lesbos (a tal onde só viviam mulheres) e que deu o nome ao (Lesbianismo), passando pelo Canal de Kafiréus para entrar finalmente em Atenas muito depois do pôr-do-sol.
      De avião até à capital da Grécia bastavam nem duas horas de viagem. Assim poupava-se tempo no itinerário previamente programado, e todos nós podíamos visitar Atenas mais à vontade.
      Chegamos ao aeroporto de Atenas passava das onze da manhã. Depressa e sem contratempos, embarcamos em autocarros do próprio hotel o ”Athens Imperial” e em pouco tempo estávamos acomodados nos nossos quartos e prontos para o almoço. O primeiro em terras da Grécia, um menu à grego que nos deslumbrou pois constava de: Espargos gratinados; Filetes de peixe com molho de laranja; Sonhos de arroz com favas e Canapés doces de alperce para a sobremesa. O vinho era delicioso ou não estivéssemos nós em terras de Dionísio, o Deus do Vinho.
      Foi este almoço divino, regado e muito bem falado, pois havia uma excitação no ar pela coincidência curiosa que tivemos, ao encontra-mos na gare de chegada do aeroporto, a equipa do Futebol Clube do Porto, que ia disputar um jogo da Liga dos Campeões Europeus, com o Olympiakos de Atenas. Faziam parte do grupo A, cuja liderança, na altura, era do Ajax, com 7 pontos, tantos quantos o Olympiakos que estava em 2º lugar. Tratava-se do penúltimo jogo da primeira fase e o F.C.P, (soube no dia seguinte), tinha sido derrotado por 2-1 depois de ter perdido a oportunidade de marcar um pénalti, sendo assim, foi afastado da competição numa noite em que os Deuses foram mesmos Gregos.
      Soubemos mais tarde, que tinham surgido alguns problemas com a viagem, pois o avião em que viajaram, tinha sido alugado pela indonésia e fretado pela agência grega que transportou o F. C. P. à Grécia. A equipa sentia-se desconfortável num avião dum país, o qual Portugal tinha cortado relações diplomáticas. A Indonésia tinha ocupado indevidamente a província de Timor, (depois de Portugal a ter abandonado?) sem que o povo timorense tivesse tempo de se organizar em democracia, escolhendo como queria viver a sua liberdade.
      Mas voltando a Atenas. Logo depois de almoço partimos em autocarros de turismo, numa visita panorâmica à cidade, acompanhados de uma guia local (não dispensando, está claro, a nossa Gilda, que nos traduzia o inglês arranhado da bonita ateniense). Vimos assim o Estádio Olímpico, onde a Rosa Mota já venceu uma maratona, e onde em 2004 se realizaram os jogos Olímpicos, os primeiros do novo milénio. Numa cidade que honra a sua tradição desportiva, desde os tempos remotos da mitologia grega, onde divindades como Hércules, eram tidas como exemplos a seguir. Passamos ainda pelo Palácio Real, a Academia, a Universidade, o Museu Arqueológico, o Templo de Zeus, o Teatro Dionísio.
      Todos os monumentos de uma arquitectura fantástica. Foi bonito de ver “In loco” todas aquelas maravilhas que até aqui só conhecíamos dos filmes, das enciclopédias e das gravuras em postais, etc.
      Quando no dia seguinte, logo após o pequeno-almoço no hotel, partimos no autopllman que nos levou à Acrópole, onde podemos admirar o Partenon, o Erectum e o Templo da Vitória. Aí nesses lugares, sente-se que algo nos é familiar, foi ali que a civilização europeia nasceu, aquele chão, aquela terra, foi a terra dos nossos parentes ancestrais, dos nossos avós.
      Depois de almoçarmos em Tripolis, partimos no chamado Circuito Peloponeso até Olímpia, centro de culto de Zeus e berço dos Jogos Olímpicos. Visitamos o Estádio, o Templo de Zeus, o Pai dos Deuses e dos homens. Adorado como divindade do céu. A sua estátua esculpida por Fídias, foi considerada uma das maravilhas artísticas do mundo helénico. Visitamos ainda no Museu a estátua de Hermes, o Deus do Comércio o equivalente ao Deus Romano Mercúrio, filho de Zeus e Maia. Jantamos e ficamos alojados no Hotel Stanley na Cidade de Olímpia.
       No terceiro dia de estadia na Grécia, partimos logo pela manhã para Delfos, a bordo dum lindo navio de recreio da companhia Royal Olympic Cruiser. Passamos por Patras, onde a Grécia possui a sua maior refinaria de petróleo, atravessamos o estreito de Andrion e chegamos a Delfos. Aqui, além do seu Museu, numa paisagem deslumbrante podemos visitar, o famoso Monte Parnaso considerado a residência das Musas e do Deus Apolo.               
       Da parte da tarde, visitamos o Oráculo Apolo, um dos mais sagrados santuários da Grécia. Partimos em seguida para Atenas passando por Arakhova, célebre pelos seus tapetes maravilhosos e multicores.
       Compramos lembranças para todos, mas aquele anel o “Sortelha” com poderes de “magia”, assim diz a lenda, compramos para a Leninha. Ela bem precisa dum pouco de magia e sorte na vida. Que este anel seja um sortilégio e a sua vida se encha de bons fluídos e tenha um fado ou destino melhor que até aqui.

UM CRUZEIRO DE SONHO

 





PARTE 4      
 
 
   




   Chegamos a Atenas à hora de jantar, deitamo-nos cedo, tínhamos que descansar, a partida para o cais de Pireus (Porto de mar de Atenas, onde nos espera o “Malhoa”, ancorado desde ontem de manhã,) era muito cedo. Tínhamos que preparar toda a bagagem para o para o regresso a casa.
      Partimos ás 9h30 de Atenas. Dissemos adeus à Grécia, “ás duas”, sim existem duas; Atenas e o resto. As assimetrias regionais são claras e indisfarçaveis. Contrastando com a Grécia campesina, agrícola e subdesenvolvida, há a Grécia opulenta dos iates no Pireu. Aqui na sua marginal, há restaurantes que se tem que pagar a entrada (cerca de 700 escudos), há moradias luxuosas, grandes clubes. Aqui ainda mais se justificava uma regionalização. No entanto, tal não sucede. Na União Europeia, só Portugal e a Grécia renegam tal solução de descentralização.
        A explicação que os gregos dão, diz respeito ao caracter histórico do país: A Grécia tem um passado de guerras e de divisões, ainda antes de Cristo, entre Atenas e Esparta que protagonizaram duas civilizações de índole contrária. Atenas era uma cidade de escritores, pensadores e artistas e Esparta de militaristas. O conflito foi inevitável.
     Por outro lado na Grécia existiu a tradição das cidades-estado, ou seja, centros urbanos que se organizavam como países. É contra esta tradição e pelo medo do retorno a rivalidades sangrentas, que se inibem os gregos de darem o seu voto à regionalização.
      Portugal nunca teve essa tradição, o único estado que existiu foi o condado Portucalense, que depois se expandiu na luta contra os Mouros, e veio a ser o Portugal que hoje conhecemos. Embora tenha passado, noutras épocas, por ser um império no mundo, pelos muitos países que colonizou e extraiu riquezas, que nunca soube aproveitar. Fazendo isso sim, a miséria de muitos, em prol de alguns. Foi assim até à revolução de Abril e está a ser hoje, embora em menor escala, com o aparecimento do novo-riquismo e o crescimento de muita miséria escondida, chamada “Pobreza envergonhada”. Mas ignorante e conservadora, incapaz de dar passos em frente, que vota contra o Aborto e a Regionalização, nos dois referendos de 1998. E fica admirada de sermos os eternos atrasados da Europa, com aldeias sem luz, sem esgotos, sem progresso e sempre à espera que seja o Terreiro do Paço a resolver-lhes os problemas. Porque não quiseram tomar conta dos seus destinos, guardando para si os impostos e as suas riquezas, para investirem em seu próprio proveito, no seu merecido bem-estar e desenvolvimento cultural e social, pois são eles que produzem essa mesma riqueza.  
              
        Deixamos para trás a Grécia, rodeada pelos mares: Egeu, Jónico e de Creta. Com as suas mais de 2.000 ilhas, e uma população de 10.5 milhões de habitantes, onde apenas um terço da terra é cultivada. Tem uma grande tradição marítima e conta com alguns dos maiores armadores do mundo. Das grandes preocupações do momento, é sem dúvida as exigências da província grega da Macedónia, manifestada pela antiga república jugoslava da Macedónia.
      Vínhamos a navegar em águas calmas e muito azuis, desde o Mar Jónico, onde entramos pelo Canal de Cerigo, entre a Grécia e a grande Ilha de Creta.
        Depois do Canal de Malta, passamos ao largo de Agrigento na Cecília, para a seguir “roçar-mos” o sul da Sardenha sempre pelo Mediterrâneo. Era já noite dentro, quando ancoramos ao largo da costa francesa, na Bacia de Leon, mesmo defronte de um dos maiores portos de mar da França, Marselha. Àquela hora da madrugada a cidade dormia iluminada, guardando dentro de si a história do Conde de Monte Cristo e da sua Mercedes.
         Aí passamos uma noite calma esperando pelo dia. Soube que muitos passageiros desembarcaram, rumo a França numa lancha da agência. A sua viagem na nossa companhia terminava ali. Tinham no seu itinerário, a continuação por: França e Benalux até aos Países da Escandinava.
         Logo que a manhã surgiu, com um Sol radioso e convidativo ao “bronze”, partimos em direcção ás Baleares, essas ilhas paradisíacas de Espanha, onde terminaríamos o nosso passeio ao Mediterrâneo, antes de chegar ao Porto.
       Navegamos junto à afamada Costa Brava até Barcelona, depois junto à Costa Dourada onde deixamos ao longe Terragona para rumar-mos à direita para Palma de Maiorca.
       Desembarcamos muitos de nós, para o Ferry-boat que nos levou à costa da ilha de Maiorca. Ainda íamos ficar o resto da semana a apanhar Sol naquelas praias. A agência de viagens tinha estruturado toda a nossa viagem de acordo com a nossa vontade. Assim, depois de todas as formalidades a bordo estarem normalizadas embarcamos para a costa da ilha. O “Malhoa” prosseguia viagem para Lisboa. Despedimo-nos ali daquela tripulação fantástica, que durante dez dias nos acompanhou com a maior das simpatias, numa atitude louvável de prestar aos passageiros o máximo de conforto com uma organização irrepreensível. Escrevi no livro de bordo um louvor a essa gente simpática, desde o Comandante ao Camareiro, passando pelo Barman ao pessoal auxiliar, sem esquecer essa bonita e elegante menina que foi a guia da nossa viagem, a Gilda.
           Á hora de almoço, estávamos na linda sala de jantar do hotel Saratoga na praia de Palma. O representante da nossa agência tinha tudo resolvido: estadia, alojamento e moeda espanhola ao câmbio local.
      Fazia uma temperatura de 35º e o menu à base de saladas frescas, soube-nos bem. Passamos a tarde no terraço do hotel, deitados em cadeiras de lona, guarda-sol aberto e um constante vaivém ao frigorifico-bar do quarto. É que o gim, o limão e o gelo, eram a nuvem fresca naquela tarde sufocante. A Olga não gosta muito, limonada com água lisa é mais do seu agrado.
      Que vida boa aquela! Estávamos os dois de calções, os dela eram brancos, curtos e muito justos. O que me levou a convida-la a sentar-se no meu colo, talvez tivesse sido, além dos calções, a abertura da camisa de seda verde-salsa, por onde espreitavam duas meias luas brancas e uma renda suave de cor verde-garrafa muito atraente. O Sol convidava à nudez, o terraço era discreto e nada nos incomodava, afinal a vida era bela e as almofadas das cadeiras amovíveis. Foi quando nos lembramos de forrar o chão do terraço com elas, e nos deitamos...
     Durante dias aquelas praias de areia finíssima foram o nosso mundo. Ali descansamos de verdade, sem horas de partir ou de chegar, dias houve que nem nos apeteceu ir jantar ao hotel. Ficávamos sentados na praia deslumbrados com o pôr-do-sol. Nestas ilhas os fins de tarde são maravilhosos. O céu torna-se colorido de amarelo, laranja e vermelho, para depois se tornar em tons de azul diversos, desde a turquesa ou quase preto no patamar da noite, de tão escuro.
        Assistimos a divertidos concertos  ao ar livre de musica espanhola. Convívios fantásticos nos jardins do hotel, com orquestras espanholas de baile, tabelados encerados e ornamentados de flores e luz, muita luz. Churrascos e Paelhas servidas ao ar livre, muita alegria e gente jovem e bonita, sem preocupações de estar a vestir bem ou mal, mas à vontade sem preconceitos ou pudores. Enfim, um mundo a que não estamos abitados a viver, tão diferente do nosso modo de encarar a vida. Depois digam que o dinheiro não interessa! Pode não ser tudo, mas que é importante é.
Ao 3ºdia despedimo-nos daquela Palma maravilhosa.      
        Depois do avião descolar, e tomar a altitude desejada. A hospedeira de bordo disse:
       — Senhoras e cavalheiros podem desapertar os cintos e descontraíam-se. Os Transportes Aéreos Portugueses desejam a todos os passageiros uma óptima viagem na nossa companhia. Voamos a uma altitude 8.000 metros à velocidade de 600 Km/h. O nosso destino é o Aeroporto de Pedras Rubras (nunca me habituei a dizer Sá Carneiro), na cidade do Porto, o que pela nossa tabela, aterraremos às 12h e 45 minutos. Obrigado.
       A Olga para minha admiração, estava calma, toda refestelada no seu lugar de janela, (que depois trocou comigo), embora agarrada ao meu braço e ainda digerindo todo aquele pânico que é andar de avião pela segunda vez. Almoçamos a bordo; Um escalope de vitela, uma forma de arroz seco, brócolos e cenoura cozida. Enfim, suficiente para aquele comentário da Olga:
       — Estou mortinha por chegar a casa! (Onde é que já ouvi isto?)                                                                                                                                                    
        Passavam dez minutos da uma da tarde, estávamos a abraçar os filhos e alguns netos que nos vieram esperar ao aeroporto. Estava um domingo soalheiro como todos os domingos devem ser. Distribuímos a bagagem pelos dois carros e partimos pela variante da Maia rumo à VCI. Abri a janela do meu lado, o Porto tem um cheirinho tão bom!... Porque será que a saudade nunca dorme?
       Como não entramos na auto-estrada e fomos sair a S. Roque, perguntei: — Onde é que nos levam, isto é um rapto? Surpresa! Vamos almoçar fora que hoje pagamos nós! Disse a Nelinha. — Ó Mãe não faças essa cara! Não digas que querias ir agora fazer o almoço! Depois temos tanto que conversar, tive tantas saudades vossas!...
      — Não é isso filha — respondeu a Olga— Mas estamos tão cansados, gostava tanto de tomar um banho, mas está bem... Ainda aguentamos até logo. Vamos lá a esse almoço que também morro de fome!...            
     Estacionamos no parque do bonito restaurante o “Choupal dos Melros”. Dantes estava-se bem no alpendre, mas agora com as modificações feitas, a sala era no interior. O ambiente agradável. Que bem que nos soube aquele cabrito assado no forno a lenha, o arroz seco com morcela e aqueles grelos salteados com alhos. Aquele vinho bom da região do Douro e aquele creme queimado com cheirinho a canela.
       — Não há dúvida — Dizia a Olga — Estamos em casa! Nós os portugueses? é que sabemos cozinhar!... Lá por onde andamos, é tudo muito bonito não há dúvida. Pode até ter sido ali o berço da nossa civilização, não ponho isso em causa, Mas cozinhar! Isso? Fomos nós que inventamos. Com esses povos não aprendemos de certeza! O curioso é que foi lá no Oriente, em África, que fomos buscar os condimentos para a nossa cozinha.      
       — Resumindo — Disse o Toni — tinham o material só não o sabiam utilizar!
     Já em casa foi uma algazarra com os mais pequenos: O abrir das malas, as lembranças, as saudades. A Leninha comovida com o anel da sorte, o sortelha... As estátuas em miniatura dos deuses gregos que distribuímos pelos netos; A caneca de cerveja egípcia para o Tony; A Esfinge em Jade para a Tania (fica guardada até ela cá vir), a pirâmide de Gize em mármore para a Nelinha.
       Trouxemos ainda uma linda reprodução da Acrópole em mármore róseo, para oferecer ao Passos, pela nossa amizade e “serviços prestados”.
        Era já tarde da noite quando nos retemperamos com um bom banho e nos fomos deitar. Tínhamos no dia seguinte uma entrevista marcada com o amigo Passos, queríamos saber como iam as obras e decoração da nossa nova casa. E queríamos falar com o Futuro sobre a marcação das escrituras no notário. Vamos tentar faze-las todas de uma vez: A nossa vivenda em Gueifães na Maia; O andar do Toni na Palmilheira e o andar da Leninha em Rio Tinto. A Nelinha quis ficar com aquele onde morávamos, afinal já é dela há muito tempo.
            
        Era quase dia de Anos da Olga, agora vivíamos já na nossa casa nova. Este ano, íamos festejar os nove. Apesar dos anos anteriores não correrem bem, com desenlaces, separações e outros desgostos à mistura. Mas tentamos superar todos esses contratempos estúpidos de uma maneira simples, agarrando-nos ao mais importante, àquele nó que nunca se pode desatar, “ A Família”, ou o que resta dela...
       O aniversário da Olga é sempre uma data importante, mas este ano fazia 60, era de facto uma data importante. A família estava unida, apesar de por vezes existem casos insuperáveis. Mesmo assim, íamos tentar sentarmo-nos à volta da mesa os nove: Eu e a Olga, os nossos três filhos e os quatro netos, três da Leninha e um do Tony. A nossa neta Tania vivia longe com o marido e o nosso bisneto. O neto João estava com a mãe e o padrasto.
      Passamos uma tarde agradável a contar as nossas aventuras e os lugares que visitamos. Graças às novas tecnologias, foi possível durante a manhã o Tony gravar para CD todas as fotos (e eram muitas!) que tiramos com a nossa digital. O almoço tinha sido um desejo da Olga: Bacalhau cosido, grelos e batatas. O azeite era da região de Vila Flor, tinha-o trazido o Toni.
       
     Na nova casa, tenho uma sala enorme só para mim, com estantes nos três lados da sala. Cada estante corresponde a um filho. Assim, cada uma terá os livros, os filmes, as músicas e as recordações que escolherei para cada um deles. Assim como os meus poemas, as minhas letras os meus fados, os milhares de recortes, jornais e revistas e os livros que escrevi. Depois tenho os netos, os filhos de cada um dos filhos, todos diferentes nos seus gostos. Tenha eu tempo para classificar, separar e ordenar tudo isso, será o meu trabalho daqui em diante, além de escrever como agora. O pior é que passo a vida a adiar, depois tenho medo de não ter tempo. E...Não ter tempo, é das minhas maiores angustias, dos maiores medos!
 
É na fogueira do tempo / Que meu tempo se consome
Na raiva de não ter tempo / E morrer com essa fome
Se um dia alguém tiver tempo / De lembrar que eu existi
 Que não seja por lamento / De algum tempo que perdi.
  
Temos um lindo jardim, para onde dá a quarta parede da “minha sala”. Toda envidraçada por onde entra o Sol a partir do meio da manhã, até desaparecer no horizonte ao final da tarde. E por onde vejo o mar lá ao longe, devido ao ponto bastante alto onde está esta vivenda. O jardim cuidadosamente arquitectado pela Olga de modo a poder ter desde os gládios coloridos, que ele tanto gosta, até ás rosas amarelas e violetas, flores da minha preferência, passando pelas margaridas, cíclames e cravos vermelhos e claro, as estrelícias da Leninha.
         No lago de azulejo azul-turquesa, existe à superfície um nenúfar onde pousam borboletas. Os caminhos do jardim são de granito em bruto, e por entre alguns deles passa a água que sobra da fonte e desagua no lago. Esta fonte em pedra lavrada, tem como principal figura, uma linda e elegante moura, com seu traje de sarracena, segurando um cântaro por onde sai a sua água cristalina e fresca. Num dístico na pedra gravada lê-se. “Fonte da Bela” em homenagem á lenda e ao lugar onde moramos tantos anos e cresceram os nossos filhos.
        Claro que o resto do jardim é uma área relvada, onde os netos podem brincar no baloiço ou no escorrega, e os adultos se deliciarem no camaranchão de colunas em granito tipo esteios, onde a sombra deliciosa convida ao descanso e à leitura. Por fim a piscina para alegria de todos e concretização do sonho da Nelinha! Claro que não podia faltar uma pequena parte reservada ao quintal da Olga, onde ela tem o capoeiro, e cultiva diversos legumes. Quase junto da fonte, fica a lavandaria, depois a adega e a entrada das traseiras da garagem.       
       Os dois grandes e lindos jarrões, estilo ânforas romanas com aquelas plantas ornamentais de folhas largas, chamadas “pata de cavalo”, na entrada principal, foram uma genial ideia do Passos.
    Entrando no hall de chão revestido a mármore, encontra-se à direita uma cardência em talha dourada com tampo de cristal lapidado, encimada por um espelho de cristal e moldura do mesmo estilo. Do lado esquerdo, no chão, um enorme elefante em porcelana de rabo virado para a entrada, (como manda a tradição), dá as boas vindas ás visitas e sorte à casa. Ao lado de um cabide de pau-santo, estilo tocheiro medieval, fazendo par com um pingador para guarda-chuvas. Na parede em bronze, o brasão heráldico da família Carvalho cinzelada, cruzado por duas espadas da mesma época. O tapetão cinza escuro com arabescos dourados faz a passagem deste hall de entrada para outro, através dum arco alongado. Dá este hall para as escadas centrais de largos degraus em mármore, forrados a meio com uma passadeira de cor e motivos iguais ao tapetão da entrada. Os corrimãos são de metal e terminam com dois candeeiros de três braços, com globos brancos. São estas escadas o acesso principal aos quartos e casas de banho no primeiro andar. Sobressai ainda na parede do patamar, um quadro cinzelado a bronze com uma quadra que diz assim:
            
             “ Não se compra nem vende amizade./É algo que se ganha que se dá
                Tem à mistura amor, sinceridade. / E é linda como o Sol da manhã.”
            
     Do lado direito das escadas encontra-se a entrada para a “minha” sala, seguida da entrada para o quarto de arrumos, e que eu teimo sempre em chamar de quarto de recordações, pelas muitas caixas e arquivos fotográficos que lá vou guardando ao longo do tempo.
        Do lado esquerdo a sala de estar, lugar de reunião da casa, com longos sofás de couro, rodeando a lareira. Por cima desta, um lindo quadro da matriarca da família, genialmente pintado por José Luís Lapa. Uma mesa de tampo de vidro em cristal lapidado, e suportada por quatro dragões em metal, faz contraste numa carpete oval de tons verdes que trouxemos de Arakhova na Grécia.
         Num plano superior, com acesso por dois baixos e largos degraus, a toda a largura da sala, e ladeados por duas varandas de metal com o mesmo design da escada, encontra-se a sala de jantar. De chão em tijoleira gravada, onde uma carpete de Arraiolos, com um belo desenho do Alentejo, faz conjunto a meio da sala. Numa mesa cumprida de mogno, um soberbo arranjo de orquídeas destaca-se do conjunto. De um aparador e uma cristaleira de grandes prateleiras electrificadas, vêem-se colecções da Vista Alegre, Cristais D’arques e outros. Uma baixela completa com o nosso monograma gravado a ouro fino, destaca-se na cristaleira. Nas paredes dois maravilhosos quadros, um de Graça Morais mostrando uma vista da Foz do Douro, em dia soturno de nevoeiro, com o eléctrico ao fundo na Cantareira. Outro de Maluda com uma paisagem da Ribeira do Porto. Os quadros são ladeados por lindos apliquem em cristal fazendo conjunto com o do tecto, onde lindos reflexos brilhavam com as cores do pôr-do-sol        
       O ambiente era de felicidade. As crianças brincavam no chão da carpete. Os mais velhos tinham-se esgueirado para o computador, experimentando os novos jogos. Os adultos à volta da mesa brindavam à alegria, à saúde e bem-estar, com champanhe e o bolo da Olga. Finalmente reinava o amor e a harmonia, os maus tempos tinham passado para todos, desde a Leninha que despertou da sua letargia, ao Tony que começou a ter a sorte do seu lado. Quanto á Nelinha, essa é forte e aguenta tudo, até os desaires dos outros.
       Apeteceu-nos jogar o Loto. Escolheram-se os cartões e o Tony falou alto: 
        — Treze! E a Olga gritou: — É meu! 
 

ENQUANTO ME LEMBRO...