domingo, 4 de outubro de 2020
ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS" 1
Ainda encontramos na vida
momentos que são boas recordações, mesmo os passados quantas vezes, na
adversidade da nossa infância, como dizia o meu amigo José Neves:
«...onde
a carência do pão, era compensada com a festa dos afectos...»
Das boas recordações que guardo no sótão da
memória, apesar de perder muito cedo a minha mãe, é duma infância vivida com a
ternura de um pai afectuoso, que soube ser um exemplo de persistência como
incentivo para a minha vida. De uma avó carinhosa e sempre presente, sem deixar
de ser severa na educação, e de um irmão amigo e companheiro que muito amo.
Apesar da adversidade em que vivia, nunca me faltou a alegria de viver, a
harmonia e a amizade dos amigos que comigo se cruzaram na universidade da rua.
Como qualquer criança, levada pela ilusão
própria da idade (apesar da minha geração ter sido adulta muito cedo), a
ansiedade por dias de festas era enorme. As festas eram mimos, atenções,
alegrias acrescidas e... como diz o MEC:
«…nós,
os portugueses, apenas precisam de um pretexto para comemorar qualquer coisa…».
Bastava um dia de festa e a comida era
melhorada, estreava-se uma camisola ou umas sandálias e havia mais alegria nas
pessoas e nas ruas.
Para mim os domingos eram sempre uma festa,
primeiro porque havia manteiga para pôr no pão, depois porque ao almoço havia
cozido à portuguesa, ouvia-se “A Voz dos Ridículos” no rádio e o Salgueiros era
uma nação! Logo pela manhã, depois de ser obrigado a ir à missa com a minha
avó, ela mandava-me à mercearia do Sousa (que tinha sempre meia porta aberta ao
domingo e no passeio o “Mudo” a engraxar sapatos), para comprar dez tostões de
manteiga que o Sousa punha num papel vegetal, depois de tirar dum pote de
porcelana com uma espátula de madeira. Passava pela padaria do “ Zé Mouco” e
trazia os moletes para o café e a regueifa para o almoço. Nestas manhãs de
domingo, a minha rua estava sempre alegre, com as janelas abertas, roupa a
secar nas cordas esticadas com um pau ao alto e os poucos rádios que haviam,
onde durante a semana as mulheres ouviam o “Tide”, tinham o som alto, onde às
vezes se ouvia a Maria Rosa Rodrigues cantar:
Pela
calçada da serra / Subíamos distraídos
Aos
domingos que saudade / Eu e tu muito entretidos
A
olhar p’ra nossa terra / A olhar nossa cidade.
Também aos domingos o Sr. Joaquim Corcunda,
vinha receber a cota semanal de vinte e cinco tostões para a excursão no verão
e tomava nota num cartão com cinquenta quadradinhos onde se lia: Grupo
Excursionista “Haja paz e Harmonia”. A Dona Ermelinda que morava na Ramada Alta
e vendia ouro a prestações, também vinha receber aos domingos lá na rua, sempre
de livro em punho.
De tarde, a malta ia ver o Salgueiros quando
jogava em casa. Íamos aos magotes por S. Brás, passávamos ao campo do Porto na
Constituição (o FCP já jogava nas Antas desde 1952), metíamos ao Covêlo,
descíamos as escadas de S. João e estávamos na rua Augusto Leça, no campo Eng.º
Vidal Pinheiro. Á porta pedia-mos: «Meu senhor leve-me consigo...».
E lá entravamos sem pagar, para ver a nossa
equipa do coração: Era o Barrigana, Chau, Carvalho, Porcel, Mário, Eleutério,
Tito Blanco, Longo, Teixeira, Tai e Benje.
Quando o Salgueiros não jogava em casa,
ficava-mos a jogar à bola no campo do Covêlo e nesses dias, o Tino levava a bola
de couro e câmara-de-ar que tinha ganho com os rebuçados “Vitória”. O Senhor
António, o pai do Tino, era o nosso treinador no Grupo Infantil da Lapa.
Treinava-mos nas Águas Férreas, no campo
da “tutoria” (hoje, Tribunal de Menores) para entrar no Torneio Infantil do
Salgueiros. Eu era guarda-redes suplente o Gabriel era o titular. Nessa equipa
jogavam além do Tino e do irmão, o Zequinha, o Chico ervilha, o Zeca da
Amélinha, o Guruga, o Zé Augusto e o Cocas. Tínhamos todos, um cartão da
Associação de Futebol do Porto com fotografia e tudo… Mas o cartão que mais me
orgulhava era o de sócio infantil do Salgueiros, que o meu pai e a minha
madrasta me deram quando fiz dez anos, por nunca ter perdido nenhum ano na
escola. A cota naquele tempo era de vinte e cinco tostões por mês.
Só voltei a jogar futebol muitos anos depois
na baliza das reservas do Sporting Clube da Cruz, daí fui para os Águias da
Areosa, quase na altura da sua fundação no café Cabinda pelo Sr. Avelino, o Sr.
Alfredo e outros amigos que não me recorda o nome. Joguei mais a brincar do que
outra coisa, com o Zé Guilherme (que mais tarde fez parte comigo, na Comissão
de Obras do clube da Bela), o Barbosa (que é primo da Linda, que foi minha
namorada) o Lino (que veio a ser meu compadre), o Murça, o Zequita (que ficou
em Macau, depois da tropa), o Moka (que trabalhava nos cafés “A Moca” na Areosa),
o João (irmão do Zequita que moravam no Bairro Airoso em Pedrouços) e muitos
mais... Aliás, foi dali, dos águias da Areosa que (muitos anos mais tarde) saiu
para o Boavista o João Pinto que era do bairro do Falcão. Mais ao menos nessa
altura, tinham começado os campeonatos de Futebol Amador e os rivais dos
Águias, eram o Lusitano de Pedrouços e os Unidos ao Porto do Bairro João de
Deus.
Foi numa época em que na Areosa, ainda existia
a fábrica de tecidos do Manuel Pinto de Azevedo, onde trabalhavam centenas de
mulheres bonitas, que davam vida ao lugar as chamadas “pataqueiras”. Na altura,
ainda haviam os postos da PVT (Policia de Viação e Trânsito) nos cruzamentos da
Circunvalação, a estrada que circundava a cidade, era cheia de árvores. Hoje,
com viadutos, VCI e outros acessos à auto-estrada, desta estrada fresca por
onde íamos ao domingo no 78 (de dois pisos)para a praia, pouco resta.
Neste lugar limítrofe do Porto, tal como o
Ameal, Monte dos Burgos, Rio Tinto e outros, vivia muita maralha que era da
cidade. Foi aí, através do contacto com essa gente, que tomei conhecimento dum
modo curioso de falar
— Ó Zé vamos de frosque, comer uma chavala num
tapirete e um escochebi nas mamas?
—
Néria... Vou dar uns xochos e tirar uns nabos com a garina, se não, fico na
prancha.
— E
amanhã de matina, vais ao praiedo?
—
Não manjo o praiedo.
Agora a tradução:
— «Ó
Zé vamos embora, comer uma sardinha num pão e um copo de vinho nas Mamas Gordas
(Casa da zona especialista em iscas)».
— «Não... Vou dar uns beijos e uns mimos à
minha namorada se não ela põe-me de lado».
— «E amanhã de manhã, vais à praia?»
— «Não
gosto de praia».
O Sr. Pereira, distinto empregado do café
Cabinda, é que nos aturava e conseguia compreender e traduzir todo o calão.
Grandes noites de sábado que passamos naquele café com a nossa tertúlia a ver o
“Fugitivo” na TV e comer a celebre “Trinca” (bife com molho inglês e fiambre em
pão fresco) que faziam frente aos pregos do Café Pereira na Praça do Marquês.
Haviam naquela época, quatro cafés na
Areosa, o Cabinda, que tinha um recanto com sofás e uma vitrina com um ramo
seco e pássaros. O Luar que ficava na esquina, num prédio igual aos muitos que
haviam nos cruzamentos da Circunvalação e que em tempos idos, serviram de
postos aduaneiros para quem entrava na cidade. O Comendador que era o mais
moderno e mais tarde foi a sapataria com o mesmo nome. E por último, o S. João
que era de uma sociedades de amigos, onde um deles era o Sr. Henrique alfaiate,
pai do Agostinho que esteve comigo na guerra em Angola.
ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS" 2
Fui um “ganapo” feliz e apesar de tudo e tenho saudade da minha rua, da minha cidade, das coisas simples como os dias festivos que durante o ano aconteciam. Romarias como a da Sr.ª. da Lapa, que ainda hoje ocorre sempre no 1º domingo de Maio. No meu tempo de menino, a festa da Lapa tinha as suas barraquinhas do pão de Avintes, cavacas de Paranhos, caladinhos da Areosa e biscoitos de Valongo. Nunca faltavam as tendas de brinquedos pintados de anilina, como os ciclistas na roda de madeira, que ao andar tocavam uma campainha, as raquetes onde duas galinhas depenicavam movidas pelos pesos que faziam de pêndulos, as espingardas de madeira que disparava um pau movido por uma mola e muitos modelos de carrinhos para as meninas levarem as bonecas de pano. E ainda os brinquedos de folheta, camionetas, motas, cornetas, carros dos bombeiros fogões e máquinas de costura. Brinquedos característicos da zona de Ermesinde, fabricados com o aproveitamento das latas (folha de flandres), de conserva e outras.
Havia todos os anos duas cestas de madeira,
que balouçavam encostadas às traseiras do Quartel-general no largo da Lapa.
Também nunca faltava junto á fonte de Salgueiros, as barraquinhas de comes e
bebes com mesas improvisadas e bancos corridos de madeira, que vendiam iscas,
chouriço, vinho e pirolitos (limonada com uma bola de vidro). Por entre as
árvores da rua do Paraíso, havia o homem com banca de dados e três copos de
madeira para jogar à sorte, sempre pronto a fugir á polícia. Lá estava o “propagandista”
que juntavam muita gente á sua volta, para ver a menina que fazia
contorcionismo segurando na testa copos de groselha. Tudo para vender a “Pomada
santa de jibóia” que curava todos os males. Outro circense que não faltava, era
o homem que deitava fogo pela boca enquanto as pessoas atiravam moedas.
Quem nunca faltava nas festas era o tiro ao
alvo, em terreno delimitado por uma corda presa ao chão por quatro escápulas de
ferro e as espingardas de pressão, que apenas disparavam umas setinhas coloridas
para um alvo pendurado numa árvore. O prémio máximo era sempre um galo que
nunca premiava ninguém e que permanecia atado ao chão, indiferente ao seu
destino.
Toda engalanada com faixas de cetim azul e
vermelho e lindas flores em todos os altares, era muito visitada nesse dia a
Igreja da Nossa Sr.ª. da Lapa, hoje com mais de 250 anos de existência. Foi
construída no mesmo local (na raiz do Monte de Santo Ovídio, em Germalde), onde
em tempos tinha existido uma capela em honra de Nossa Sra. da Lapa, erigida
pelo reverendo Ângelo Ribeiro de Sequeira, natural de S. Paulo do Brasil. Desta
capela resta a sua fachada que fica contigua ao muro da parte sul do cemitério.
A igreja actual, foi projectada pelo arquitecto José Figueiredo Seixas e a
primeira pedra foi colocada a 17 de Julho de 1756, mas a sua conclusão só se
verificou em 1863.
Além de possuir no coro alto o maior órgão
da Península Ibérica da autoria do alemão Georg Jann, a igreja da Lapa guarda
numa urna de prata no mausoléu da capela-mor, onde se pode ver gravadas as
bandeiras de Portugal e do Brasil e ainda na parte superior, as armas do Duque
de Bragança, o coração que D. Pedro IV doou á cidade que sofreu com ele o cerco
de 1833, cujo a essa heróica resistência das gentes do Porto e das tropas de D.
Pedro, se deve a vitória da causa liberal em Portugal.
O cerco do Porto durou mais de um ano, de
Julho de
O cofre com a urna de prata, é aberta de 4
em 4 anos por funcionários da câmara, para que se proceda à mudança do líquido
da jarra de cristal onde o coração se encontra inserido.
É com orgulho que a cidade do Porto ostenta
no seu brasão esta relíquia régia. Para aqueles que nunca repararam nesse
brasão (que também faz parte do emblema do F.C.P.) o coração encontra-se
representado ao centro do escudo.
Da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa,
instituída em 1755 pelo Papa Bento XIV, fazem parte além da Igreja e do
Hospital, o colégio da Lapa onde Ramalho Ortigão foi professor de francês e o
pai, Joaquim da Costa Ramalho director.
Também Eça de Queirós foi aluno interno após
a morte da mãe. Aliás, neste lugar da cidade viverem muitos homens de letras, o
próprio Ramalho Ortigão residia na Quinta de Germalde na Lapa, Antero de
Quental ali perto no Campo da Regeneração e até o filosofo Oliveira Martins na
Casa de Pedra na rua das Águas Férreas. O Colégio era um lugar para as elites e
por isso, eu nunca o poderia frequentar. Apenas fui crismado na igreja e lá fiz
a comunhão solene.
A minha escola primária foi feita na Escola
nº 61
Não se pode concordar com alguns métodos de
ensino dessa época, no entanto hoje, passou-se de um extremo para outro. Nem
tudo que se aprendia era muito importante, como as Linhas do Caminho-de-ferro,
mas saber as Serras, Rios e seus afluentes, a História de Portugal, Ciências do
corpo humano e a Tabuada, foi fundamental para a malta do meu tempo. Por isso
se diz que a 4ª classe antiga é igual ao 7º ano hoje. Aquela cantoria para
aprender a tabuada era eficaz, assim como a vantagens dos livros passarem de
irmãos para irmãos.
)blet daquela A primeira saca que tive para levar os
cadernos, o livro, a lousa, a pena e caneta de aparo, era de pano e tinha
bordado: “Segue sempre o bom caminho”. Depois tive uma de cartão com uma fita
para pôr ao tiracolo, castanha por fora e a azulada por dentro, a tampa era
ovalada e tinha um fecho cromado.
Das coisas que mais gostava, além das aulas
em geral, era daquela sopa e do pão escuro feito na Legião Portuguesa, que
davam lá na escola. O que menos apreciava era o óleo de fígado de bacalhau que
nos obrigavam a tomar, e de aos sábados de manhã ter que cantar o hino da
mocidade, mas pior ainda, só as casas de banho que eram daquelas de cócoras.
O exame de prova oral e escrita da 4ª classe,
foi feita na escola de Sto. Ildefonso que já não existe (hoje é o edifício da
Junta), na esquina de Gonçalo Cristóvão com o Largo do Bonjardim. Ao lado,
havia a escola Raul Dória que foi demolida para dar lugar ao edifício JN. A
escola
Depois de mais este passeio pela memória,
volto à Irmandade da Lapa para vos falar do Cemitério privado que é dos
primeiros da cidade e foi inaugurado em 1838. Já em
Numa situação de transição, foi preciso
estabelecer um cemitério interino, por detrás da capela-mor da Igreja da Lapa.
O cemitério actual foi começado a construir em 1835 e nele repousam os restos
mortais de Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett, Coronel Pacheco, Soares dos
Passos, entre outras figuras célebres desta cidade das camélias, das
sardinheiras e acácias, a nossa: “Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do
Porto”.
ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS" 3
A Lapa pertence à Freguesia de Cedofeita,
uma das freguesias mais burguesas do burgo tripeiro, mas sempre teve nos seus
limites, bairros de operários de gente modesta e muito bairrista, como a Lapa
com suas ruas, escadinhas e vielas. Eu nasci na rua da Glória que tem a sua
história ligada ao Cerco do Porto, foi assim:
«Tanto Miguelistas como os Constitucionais,
partidários de D. Pedro IV, construíram em redor da cidade as suas linhas de
defesa. Dentro dos limites da freguesia de Paranhos, a linha fortificada dos
Liberais passava pelo Carvalhido (daí o nome da praça do Exercito Libertador),
fortes de S. Paulo, da Glória e de S. Brás, quartéis do Monte Pedral, baterias
de D. Pedro e Aguardente (Marquês do Pombal) e das Medalhas. Redutos do Covêlo
e das Antas. A bateria da Glória, defendia os vales de Paranhos e Regadas,
tendo em frente dela, a bateria das medalhas, dominando o vale de S. Mamede.
Esta bateria das Medalhas situava-se entre o Monte Pedral e a rua de Monsanto,
tomou este nome pelas muitas condecorações que ganharam os seus defensores, na
acção de 9 de Setembro de 1832. Só muito mais tarde nasceu esta rua, no local
onde estava a bateria e que ainda existem vestígios no Monte da Lapa.
Do meu bairro, fazem parte ainda, a rua e
travessa da Sra. da Lapa, a rua e calçada do Monte da Lapa, a rua e travessa,
escadas e largo da Lapa, lugares de onde guardo muita saudade.
Ao passear a lembrança pelas minhas raízes
posso ver ainda todas as “ilhas”, eram pátios cercados de modestas casinhas,
algumas airosos com vasos de avenca, begónias e sardinheiras ás portas. Pelas
paredes brancas e ocres, viam-se andorinhas de barro e azulejos com santos de devoção. Outros pátios eram húmidos e recônditas onde nem o Sol chegava. As
ilhas mais conhecidas da minha rua tinham sempre o nome da pessoa mais
carismática que lá morava, era a ilha do Cego, do Almeida, do Cocas, da
Zirinha, da Amélinha, do Capelas, do Oliveira, do Leites e tantas, tantas por
onde brinquei na minha meninice e fugi descalço á policia, nesse tempo em que a
multa por andar descalço, eram de oitenta escudos com uma coroa.
Recordo no começo da rua Antero de Quental,
na esquina do Monte da Lapa, a Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro que
o Senhor Correia alfaiate e a família zelavam, foi mesmo com uma das suas filhas que
lá aprendi a catequese e era a sua esposa que levava de casa em casa, o altar
da Sagrada Família como era uso naquele tempo. Na rampa, vivia o Mário Rui que
tinha criada para o levar á escola, mas que repartia comigo o lanche que trazia
num guardanapo bordado (assim como, ficava na fila para receber o pão só para
me dar depois).
Ainda mais acima, na calçada do Monte da
Lapa, vivia numa casinha modesta o Carmo que ficou sem o pai no desastre de
Custóias. Bem lá no alto está o Mirante (como lhe chamamos), local onde a
bateria da Glória, no tempo do cerco do Porto, num fogo cruzado com a bateria
do Monte Pedral, impediram uma esmagadora derrota das tropas constitucionais a
9 de Setembro de 1832. O mesmo voltou a acontecer no dia 16, havendo a lamentar
o incêndio que destruiu a bela casa e a capela da Quinta do Covêlo.
Defronte à capela, na Rua Antero de Quental ficam as escadas da
Travessa da Lapa que terminam na travessa de S. Brás, defronte duma oficina de
picheleiro (avô do meu amigo Franclim Simões) onde trabalhava o Mário canalizador. A rua de S. Brás que tinha a
maioria das casa mais baixas que a rua (como acontecia numa boa parte da rua de
Camões), vem dar á rua do Paraíso junto ao largo da Lapa. Depois da escadaria
da Igreja, naquele passeio largo defronte ao cemitério, era onde fazíamos
corridas com carros de rolamentos e deitávamos estrelas ao vento. Nas traseiras
do quartel, ainda existe um enorme portão, onde naquele tempo, os mais pobres
munidos de panelas, faziam fila esperando os restos do “rancho”.
Do lado direito do quartel, fica a rua da
Regeneração onde estava a "Garagem da Lapa" e a casa de pasto "Piramidais" á esquina
da travessa da Regeneração. Esta ruela que se estreita até se transformar por
um lado, numa viela que acaba na rua de Camões junto ao fontanário e por outro
no final da ilha que tinha o seu começo na rua do Paraíso e que já não existe. Ali morava muitos amigos de infância com o Sérgio Marques. Toda essa gente que ali vivia foi para os bairros do Carriçal e do Agra do
Amial. Naquele tempo, a rua do Paraíso era uma rua cheia de árvores, onde havia
uma padaria com a frontaria lindíssima em azulejos, havia o “Prego” (casa de
penhores), que pertencia ao Sr. Reis (pai do grande actor de teatro António Reis) e onde tantas vezes fui com a minha avó
empenhar o fato de meu pai á segunda, para levantar ao sábado. Junto à entrada da
maior ilha da rua, estava o tasco “A Flor do Paraíso”. Havia também o azeiteiro
que tinha uma bomba de manivela (como as de combustíveis para motorizadas),
sobre o balcão, para medir e vender o azeite, onde eu ia a mando da minha vá, buscar um quarteirão de cada vez....
A rua da Lapa também com muitas árvores,
tinha argolas de ferro na parede do quartel que já foi de cavalaria e onde
antigamente prendiam os cavalos. Esta rua termina no largo da Lapa e começa na
praça da Republica á esquina da rua da Boavista, onde está o antigo café que se
chama “Novo”. Esta rua, era a mais central do bairro com muito comércio, desde
o relojoeiro que tinha um relógio de dupla face na frontaria, até ao café e
confeitaria Cristal (que foi a primeira a ter televisão e a miudagem pagava dez
tostões por um copo de leite, para ver os desenhos animados ao domingo),
passando pela afamada Rosa das Iscas, a tabacaria do Campo (Campo porque a
praça da Republica aberta em 1760, se chamou em tempos, Praça de Santo Ovídio e
depois Campo da Regeneração), a drogaria o Pretinho da Lapa e a tabacaria do
Melo na esquina do jardim frente ao quartel e a papelaria do Campo onde
comprava-mos (quando podíamos), as construções de armar em cartolina, o
Mosquito, o Mundo de Aventuras, o Ciclone ou o Mickey.
Ao lado do hospital, era a rua de Salgueiros
(hoje rua de Cervantes), onde além da ilha de Salgueiros, bairro operário onde
vivia muita gente, que hoje vive no Bairro Siza Vieira e em Francos, existe aí a Fonte de Salgueiros a que chamávamos o tanque. Aí
tomávamos banho nas tardes de calor, depois de jogar á bola de trapos. O nosso
“campo da bola”, para mal do Camilo da mercearia, era no largo ao fundo da rua
da Glória, onde tinha o chafariz encostado ao muro do hospital e acabava o muro
com uma rede alta que dava para o local escarpado a que chamávamos
“Quintinhas”. Desse local avistávamos as Águas Férreas, a Figueirôa, a
Carvalhosa, a linha do comboio da Póvoa (que hoje é o Metro), a “Tutoria” (hoje tribunal de
menores), com o seu campo de futebol que por ser mais estreito dum lado, lhe
chamávamos o campo do bacalhau. Era uma vista soberba que em dias de Outono, com as árvores do jardim da Boavista despidas, via-se o Jardim da Rotunda, porque a
monumental estátua à Guerra Peninsular, de autoria do arquitecto Marques da
Silva e do escultor Alves de Sousa, via-se sempre.
Parte da rua Sr.ª. da Lapa é ao longo do
muro do hospital e só tinha casas dum lado. A um lote dessas casas todas
iguais, chamávamos “Casa das Varandas”, onde por baixo havia a loja das
miudezas (retrosaria) da dona Aurora. Havia também as mercearias do Marques, do
Adérito e lá na esquina da Lapa a mercearia fina do Pina, onde a Zirinha no
passeio punha banca de hortaliças aos fins-de-semana e no verão, haviam
mulheres a vender mexilhões, lapas e tremoços. Ás vezes havia um sorveteiro,
com sorvetes de sabor a baunilha, numas latas cromadas onde tinha um visor concavo com um dado dentro, o lado de uma ranhura onde se metia a moeda, premia-se um botão e o dado saltava dizendo com as pintas o tamanho do sorvete (quando saia o 6 era o maior). Por vezes também lá estava o
Alberto bananeiro com a padiola das bananas e muito mais tarde abriu uma frutaria na rua do Bolhão.
Eram ruas com gente boa, prestável e muito
amiga. Não é como os tempos de hoje que ninguém se conhece no prédio onde mora.
Os vizinhos tinham uma importância muito grande, eram como família quem nos
socorriam nas horas más e festejavam com nós os momentos de felicidade. Haviam
pessoas boas, mas existiam aquelas que nunca esquecemos como: A Dona Leonor que
era enfermeira e dava injecções de graça; A irmã da Julinha peixeira que
talhava o medo com orações e as bichas (que deformavam o rosto) com leite,
ainda cosia os pés "estorcegados" com um pote de barro e com uma faca rezava ás
estrelas para talhar os terçogos.
Depois, lá na rua havia de tudo: O Mário
estofador que era filho do Arnaldo sapateiro; O Mesquita que trabalhava na
refinaria da SONAP e era pai dos gémeos; O pai do Ervilha e do Berto que era
alfaiate; Outro alfaiate era o Henrique onde a Emília era calceira; O Amaral
pai da Branca, que era adeleiro em Mártires da Liberdade; O Alfredo Borges
campeão de natação do Sporting Clube da Lapa que era litógrafo e foi o padrinho
do meu irmão, dirigente no FC Porto e mais tarde abrir a litografia "Inova" na rua Gonçalo Cristovão; O Jaime bombeiro nos Sapadores que tinham o quartel
Havia a oficina do Manel dos chapéus
defronte à ilha do Miranda, onde morava o Filinto que trabalhava no cinema
Júlio Dinis. Também havia a oficina do meu pai, que fazia casinhas, pontes,
coretos, castelos e igrejas para as cascatas de S. João, caixas de joias e de
costura, até caixinhas para amêndoas pela Páscoa. No Natal fazia presépios com
telhados de colmo e manjedouras com espigas (esta palha era tirada das
coberturas de garrafas de vinho do Porto que haviam na altura), tudo isto numa
casinha que alugou no bairro “Angelina” que depois vendia para o Bazar dos Três
Vinténs em Cedofeita, para a Casa Ametista nos Poveiros e os presépios, nas
casas de artigos religiosos em Mouzinho da Silveira e na rua das Flores.
ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS" 4
Nesse tempo, ouviam-se pregões pelas ruas
das mais diversas coisas, desde guloseimas até aos artigos mais inverosímeis.
Ouvia-se as mulheres que vinham de Rebordosa apregoando: “Merca cadeiras ou
baaaancos...” em madeira de pinho, como os que se vendiam na rua da Picaria. O
Caramileiro que vendia o “Torrão de Alicante” (que ficava preso aos dentes) e
aqueles cumpridos de cor branca com riscas vermelhas e apregoava: “Olha o belo
caramilo americano...”. As Vareiras (varinas é em Lisboa), de canastra à cabeça
com um oleado e algibeira atada à cinta que apregoavam: “Sardinha viviiiiinha”.
As galinheiras com seus cestos de rede à cabeça apregoando: “Merca galinhas ou
fraaangos”. As leiteiras, que logo pela manhã andavam de porta em porta com o
canado e as medidas de alumínio, com que mediam o Quartilho, que era igual a
meio litro. As lavadeiras, que faziam o rol da roupa que lavavam e traziam
lavada e vinham da Maia com as trouxas nas camionetas da carreira, aquelas que
tinham escadas atrás para subir ao tejadilho e acomodar a bagagem. O
azeitoneiro que trazia um pau ao ombro com uma giga de cada lado cheias de
azeitonas e apregoavam: “Olha a bela azeitoooona”.
Havia ainda o amolador e guarda-soleiro, com
aquela gaita-de-beiços em plástico, a bicicleta que ele transformava em roda
livre para afiar as tesouras e facas no esmeril. Este velocípede era uma
verdadeira oficina ambulante, onde o funileiro com habilidade conseguia tapar
buracos nos tachos e nas panelas de alumínio.
Recordo comovido, uma mulher magra de xaile
preto e um filho pela mão, que trazia uns galhos enormes ainda com rama na
ponta e que apregoava numa voz fraca: “Chaminééés...” Mas que nada tinha a ver
com os homens chamados “Limpa chaminés”, esses, traziam umas cordas ao ombro e
andavam sempre de fato-macaco sujo de fuligem. Também de cordas ás costas e
boné com uma placa onde tinha gravado o seu número de profissional, andavam os
“Carrejões” ou carregadores que fazia carretos e fretes, transportando bagagens
e peças de mobiliário. A maior parte eram galegos e passavam o dia junto ás
estações de Campanhã, S. Bento e Trindade, na Praça Filipa de Lencastre junto
ás camionetas de Braga,
Na Trindade, junto à viela do Bonjardim
(aquela onde tinha um urinol em pedra e é hoje um parque de estacionamento), havia o homem das canetas numa banca
onde arranjava todo o tipo de aparos para as canetas de tinta permanente. Quase
na esquina da rua Fernandes Tomas, havia um cinzelador numa janela, cinzelando
a prata colada à pedra com breu e que delicadamente com o buril ia gravando
lindos motivos e desenhos. Outros artistas que me fascinavam eram os
marmoristas nas oficinas de Mártires da Liberdade e Avenida Rodrigues de
Freitas. Eram autênticos escultores trabalhando o mármore, de onde saíam anjos
e outras figuras que embelezam muitas sepulturas nos cemitérios e não só.
Haviam os homens da Água e da Electricidade,
que cobravam e contavam (com uma pilha), a luz e a água, embora fossem poucas
as casas que tinham estes “luxos”, a maioria na minha rua, tinha candeeiros e
máquinas de petróleo da “Hipólito” para cozinhar. A água vinha à cabeça em
canecos de madeira do fontanário do largo. Esta água era abastecida pela
câmara, mas na fonte de Salgueiros passavam as águas do Ribeirinho (nascente
dos Montes de Germalde e do Cativo), que enchiam o tanque da “Fonte dos
Ablativos” em Cedofeita enfrente à rua da Torrinha (esta fonte encontra-se
exposta no Jardim dos SMAS
Em casa, o caneco da água tinham uma tampa e
um púcaro de alumínio pendurado para beber. Nesse tempo, havia prateleiros nas
cozinhas decorados com tiras de papel estampado com diversos motivos florais. A
minha avó fazia-os com jornal, pacientemente recortado a imitar renda. Havia
fogões a carvão como o de lá de casa e aos sábados (depois do meu pai receber),
ia-mos ao carvoeiro comprar petróleo e álcool para a máquina, carqueja, carvão
de choça, de pedra, briquetes e lamas para abafar os assados. Este carvão vinha
até ás Antas, no Monte Aventino, em cestas tipo teleférico, desde as minas de
S. Pedro da Cova. A carqueja era vendida pelas carquejeiras que subiam a rampa da Corticeira nas Fontaínhas com grandes molhos, vindas de barco pelo Douro para abastecer padarias e carvoarias da cidade.
A carne comprava-se no talho da Lapa, acima
da mercearia da Pina e junto ao “Damaneto” que vendia mobílias a prestações, ou
no talho do Zé à entrada de Mártires da Liberdade, pegado ao portal onde era a famosa "Japoneza" e onde a
Guidinha apanhava malhas nas meias de vidro. Ás terças, passava a Emilinha
“Fressureira” que era do Campo Lindo e vendia de porta em porta tripas
enfarinhadas, fígado e outras miudezas a que se chamava fressuras. A pobreza em
que se vivia não deixava comer muita carne, os bifes eram raros, por isso
naquele tempo haviam muita gente com a saúde debilitada e em grande estado de
fraqueza. Era um tempo de muitas doenças e dos lenços tabaqueiros,
suficientemente grandes e vermelhos para camuflar as hemoptises da maldita
tuberculose que minava a cidade.
Vendiam-se doces e biscoitos ao quilo, havia
mesmo uma mulher das Cruzes (para os lados das Barrocas), que vendia
“Caladinhos” (cornucópias recheadas de creme), mas a nossa predilecção ia para
o homem das farturas, com um carro de bicicleta que tinha vidros de correr como
uma montra, que cortava as farturas com a tesoura, polvilhava com canela e açúcar
para vender a cinco tostões. Ao descer a íngreme rua da Glória, a preocupação
maior deste homem, era travar bem o carro, para não acontecer como o Fausto
varredor da câmara, a quem destravaram a carroça do lixo e o desgraçado do
cavalo foi morrer contra o muro do hospital.
Nos dias de muito calor vinha um homem da
Areosa que vendia água fresca da Fonte dos Cortiços, trazia um cântaro de barro
coberto com eras e pendurado ao ombro por uma correia de cabedal. No Outono,
não faltavam os vendedores de castanhas com cestos e saco de serapilheira e os “Castanheiros”
que as assavam no carvão e ficavam cinzentas do sal. Na esquina do jardim do
Marquês com João Pedro Ribeiro, mesmo à porta do Asilo do Terço (onde havia uma
sala de cinema coberto com uma lona e que nos dias de chuva vinham homens, no
intervalo do filme, com uns paus empurrar a lona para escorrer a água da chuva
que empoçava), havia aí um assador de castanhas do feitio de uma máquina do
comboio, que misturava o fumo com o nevoeiro da cidade.
Também haviam os homens que vinham da Régua
com os cestos de rebuçados e na Primavera, vinham mulheres de Gaia vender
“Camarinhas” que apanhavam no areal do Senhor da Pedra. Em Maio as vendedeiras
de fruta traziam cereja de Resende, pêssegos do Douro e ameixas vermelhas, bem
melhores das que apanhávamos das árvores do jardim da Praça da Republica. Neste
jardim do “Campo”, assim como no de Arca de Água e do Marquês, o SNI
(Secretariado Nacional de Informação, organismo criado durante o Estado Novo),
organizava durante o verão, sessões de cinema ao ar livre. Sentado na relva nas
noites de calor, vi: “O Cerro dos enforcados”; “Os Saltimbancos”; “Frei Luís de
Sousa”; “Os Três da Vida Airada” e muitos outros filmes portugueses. Também
cheguei a ir com a minha avó, ouvir a “Música do pau teso”, como ela chamava ás
bandas de música que tocavam no coreto do Marquês, enquanto nos bancos do jardim, as
“Sopeiras” e os “Magalas” namoravam.
Mas tudo isto foi no tempo em que se fumavam
Definitivos, Provisórios, Paris, Três Vintes e outros que se vendiam avulso nos
quiosques. Em que haviam jornais a 10 tostões como o J.N., Comércio do Porto, O
Primeiro de Janeiro, Norte Desportivo e o Diário do Norte. Em que haviam
revistas como O Século Ilustrado, Crónica Feminina, Modas e Bordados, Flama,
Plateia e muitas outras que o Estado Novo nos impingia. Nessa altura, os livros
do Vilhena eram proibidos e nem sei como se vendia o Cara Alegre que ás vezes
trazia anedotas com desenhos de mulheres que nos deliciavam.
Nesse tempo, os nossos heróis eram O
Mandrake, o Mascarilha, o Davy Crockett, o Buffalo Bill, o Príncipe Valente e
outros que se lia aos quadradinhos no Ciclone, no Condor, no Mosquito, no Falcão,
no Cavaleiro Andante e nas bandas desenhadas dos jornais, como o “Reizinho” do
Primeiro de Janeiro, que eu recortava e colava tira a tira com sabão, para dar
cinema numa caixa de sapatos com uma manivela de arame e cobrava aos outros a
entrada na ilha a dois botões. Sim porque qualquer coisa servia para brincar. Com um simples fio estávamos horas a brincar à cama do gato. Com um caco
riscava-se no passeio um quadrado e diagonais para jogar ás pedrinhas ou com
regos na terra se faziam corridas com sameiras (caricas em Lisboa) que para se tornarem mais
pesadas se punham casca de laranja. As meninas jogavam à macaca ou á corda,
mas... Sempre ao ar livre, nunca como hoje sentados nos sofás agarrados ás
playstations.
sábado, 3 de outubro de 2020
ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS" 5
Outros dias festivos eram nas férias da
escola, os passados na Colónia (porque tive o privilegio de num ano, o
sindicato a que pertencia o meu pai ter essa regalia). A Colónia era junto aos
Socorros a Náufragos no Castelo da Foz, lá andávamos de babeiros ás riscas e
panamá, brincando no areal da praia dos Ingleses com baldes, pás e ancinhos de
chapa. Os jogos de praia eram nesse tempo, as construções na areia, o “Prego”,
o “Anel” e o “Tesouro dos Piratas”.
Festa? Eram os dias de aniversário,
principalmente os meus inesquecíveis seis anos, quando o meu pai me levou pela
primeira vez ao cinema, ver o “Marcelino Pão e Vinho” no Coliseu com Pablito
Calvo. Depois fomos ao café Palladium (onde quase trilhava os dedos na porta giratória que nunca tinha visto), para comer uma torrada e um copo de leite.
Mas o melhor desse dia foi ao jantar, a minha avó deu-me bife com batatas
fritas e um ovo estrelado. Foi um dia memorável.
No fundo, todos os dias eram de festa nas
brincadeiras de rua com os meninos como eu: Jogando a bola de trapos, a
casquinha, o hóquei com troços de couve, o peão, a sameira., á corda queimada,
ás escondidas, aos Cow-boys, à Cabra cega e aos policias e ladrões.
Quem do meu tempo, não se lembra daquela célebre lengalenga:
Aniki
bó-bó / Aniki baú-bau / Passarinho totó
Cheribau,
Cavaquinho / Salomão, São cristão
Policia, Ladrão
Também brincávamos com as meninas ás “Casinhas”, ás rodinhas cantando o Manel Tim-Tim que era assim:
Ó
Manel tim-tim / Ó Manel tim-tão
Dá-me a canastrinha / Dá co’cu no chããão
Ou a Machadinha que era assim:
Ah
ah ah minha machadinha
Quem
te pôs a mão sabendo que és minha
Sabendo
que és minha, também eu sou tua
Salta
machadinha p’ró meio da rua
Com as “catraias”, também fazíamos jogos como: Farinha olé, Prendinhas do Sr. Abade, Minha mãe dá-me licença? Reis e as Rainhas ou ao Bom Barqueiro. Esta brincadeira consistia em dois de nós de braços levantados e dando as mãos, formar um arco por onde os outros passavam em fila atrelados ás ancas a cantar:
Bom
barqueiro, bom barqueiro / Deixa-me passar
Tenho filhos pequeninos / Não os posso criar
A que os dois barqueiros respondiam:
Passarás,
passarás /Mas algum ficará
Se não for o da frente / Há-de ser o de trás
E fechando o arco, aprisionavam o último da
fila que se posicionava atrás de um dos barqueiros. Assim sucessivamente até
que no final, cada barqueiro com a sua equipa puxavam com força, agarrados às
ancas uns dos outros, até conseguirem separar o arco original.
Éramos felizes, quando corríamos pelas ruas
de número nas costas preso com alfinetes e guiador de arame debruado a fio de
cor. Quando juntávamos cromos de jogadores para colar na caderneta e jogávamos
ao “virinha” com os repetidos. Para isso, batíamos com a mão em concha tentando
virar os cromos e quando o cromo ficava em pé encostado a qualquer coisa, era
“Esquinete”, mas quando alguém cuspia na mão para colar ao cromo, era batota.
Passávamos horas a ditar uns aos outros os repetidos que trazíamos numas
carteirinhas de cartão com fitas de nastro feitas por nós e que dobravam e
abriam para os dois lados. Também com os repetidos metidos numa cova, jogávamos
à “Coca”, atirando contra a parede uma moeda previamente côncava, tentando
ficar o mais perto possível da cova. Também juntávamos os “Vitórias” com a
esperança de obter um carimbado (o cabrito, a cobaia ou bacalhau), que vinham
embrulhados em rebuçados a tostão e que podíamos ganhar uma bola de
couro, quando conseguíamos encher a caderneta. Ás vezes as moedas que
ganhávamos num recado feito ás vizinhas, eram desviadas para a confeitaria, para
comprar cinco tostões de “Raleio” (que eram restos de pasteis e bolos que
ficavam nos tabuleiros), ou então para a compra do Mosquito no quiosque do
Melo.
Era uma festa dos afectos, quando meu pai
nos aconchegava a roupa da cama, beijava-nos a testa afagando-nos o rosto e
dizia: “Portem-se bem, não arreliem a vossa avó que está velhinha e cansada,
ela tem-me ajudado muito a criar-vos, desde que a vossa mãe nos faltou.”
Também era uma festa, aquelas manhãs de
domingo no verão, em que ia com meu pai e meu irmão no 17 até á praia do Molhe,
brincávamos na areia enquanto ele lia o jornal no banco de pedra que ainda lá
está no paredão. Voltávamos à hora de almoço cheios de apetite para o cozido.
Durante estes passeios de eléctrico, o nosso pai
contava-nos acontecimentos sobre os lugares por onde passávamos, ensinando-nos
muitas coisas. Lembro-me, ao passar no Pinheiro Manso, nos falar do ciclone de
Fevereiro de 1947 (um sábado), que derrubou um enorme pinheiro manso que lá havia.
Disse-nos ainda: Que a primeira linha de eléctrico do Porto, foi a da
Restauração em 1895; Que em 1855 teve inicio na cidade a iluminação pública a
gás; Que só em 1888 foi inaugurada a rede de distribuição de energia a
particulares e que a rede de esgotos só foi instalada no Porto em 1907.
Contava-nos feitos históricos, como a dos obeliscos que estão no jardim do
Passeio Alegre, que vieram da Quinta da Prelada e por entre eles passaram os
7.500 soldados do exército liberal, os bravos do Mindelo. Eram lições de
história, esses passeios com meu pai. Tenho a certeza que foi ele que incutiu
em mim, este interesse, admiração e amor pela minha cidade.
Vi desaparecer ao longo do tempo, muitos
locais da minha infância, onde joguei à bola, como a Quinta Amarela nas Antas.
Onde vi o circo como o Campo do Luso. Onde vi ciclismo como o Estádio do Lima.
Salas onde mais tarde vi cinema, como o Central Cine da Carcereira, o Odéon
Cafés que foram pontos de encontro na baixa
portuense, autênticas tertúlias de amigos em tempo de liberdade proibida, como
o Palladium onde se jogava ténis de mesa, bilhar, damas e até tinha barbearia.
O Astória, sala de visitas para quem chegava ao Porto pela estação de S. Bento.
O monumental café Imperial que é hoje a MacDonal’s (mudança directamente relacionada,
com a perda de influência do Porto enquanto centro de negócios, se até bancos,
companhias de seguros e outras instituições foram deslocadas para Lisboa!) O
Rialto frequentado por Egito Gonçalves, Papiniano Carlos, Daniel Filipe,
Rebordão Navarro. Na mesma Praça de D. João I, havia o Odin que veio para S.
Brás e era o café dos salgueiristas, muitos, muitos cafés que faziam parte do
património cultural desta cidade.
Cafés que também tinham engraxadores (ás
vezes bufas) e tabacarias onde não se vendiam isqueiros a quem não tivesse
licença. Era um Porto amordaçado, mas que a nossa imaginação não deixava
morrer, como no café Cidade Nova
Também existiu esplanada da “CUFP” que
acabou (quando a fábrica da cerveja mudou para a Maia e é agora a UNICER), era ali
junto à Praça da Galiza, onde se bebiam aquelas canecas gigantes de cerveja (as
Girafas) e era muito frequentada pela malta que estudava como eu à noite, na
escola industrial Infante D. Henrique.
Para os “Pregos em pão”, a malta tinha o
café Pereira no Marquês. Para as Francesinhas, além da Regaleira (casa onde
nasceram na década de 60 no Bonjardim), havia o Mucaba em Gaia e o café
Portugal á entrada da rua
O Porto sempre foi especial na sua gastronomia, não se pode esquecer que foi nesta cidade que nasceram também o Bacalhau à Gomes Sá, criado pelo portuense José Luís Gomes de Sá Júnior falecido em 1926. E claro, temos as afamadas Tripas à Moda do Porto de onde herdamos o nome de “Tripeiros” desde que demos ao Infante todas as carcaças das reses para a campanha de Ceuta e só ficamos com as tripas para comer.
Mas voltando aos cafés antigos, mesmo os
cafés que ainda resistem, como o Aviz, o Ceuta, o Progresso, o Estrela, ou
ainda o Guarany, o Majestic e a Brasileira (recentemente remodelados), o
Piolho, o Embaixador e outros, sentem imensas dificuldades, pois já pouca gente
mora na cidade e ao fim da tarde, quando encerram todos os estabelecimentos, o
Porto fica um deserto. Salva-se a “Movida” aos fins-de-semana.
Longe vai o tempo em que o Sérgio Godinho
(que também nasceu no Porto) cantava ao contrário:
Ai, eu estive quase morto no deserto
E o Porto aqui tão perto...
ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS" 6
A revolta e a saudade aumenta, quando vejo
a cidade da
minha infância ficar descaracterizada, dia para dia mais impessoal e
principalmente a ficar desertificada. Quanto me dói a falta do verde, na
avenida dos Aliados ou nos Leões, trocada pela cinza do empedrado. Ou todas as
casas entaipadas que vejo pelas ruas quase desertas. Ou ainda, a tristeza das
pessoa que têm que viver emigradas na sua própria cidade.
Esta êxodo da população, levada a cabo desde
os anos 60 pela política de erradicação das “ilhas”, deu forma às ilhas ao alto
que são os bairros sociais, mas não se interessaram das raízes culturais nem
dos aspectos sociais dessas pessoas.
Esvaziaram o centro da cidade de gente, mas não
requalificaram, nem reconstruíram nesse lugares, casas para manter as pessoas
ligadas às suas raízes. Para ter qualidade de vida as pessoas devem ser felizes
e as ilhas, embora fossem lugares insalubres, as ilhas sempre foram a ligação dos
tripeiros ao seu bairro e á sua cidade.
As pessoas que habitam os bairros sociais,
tinham aprendido pela sua experiência, que podiam tirar desse ambiente adverso
em que viviam a sua felicidade. Levaram consigo os seus ideais de solidariedade
e de bairrismo com a necessidade de se associarem para compensar as suas
carências. Tentaram criar grupos desportivos, centros de convívio e outros, que
pudessem agregar pessoas à sua volta para colmatar a falta dos amigos e dos
vizinhos que deixaram ao serem separados do seu habitat. Alguns conseguiram,
mas a maioria desagregou-se e já não conheciam ninguém como os vizinhos e
amigos de tantos anos. Acabaram os grupo excursionista, o clube de futebol, os
amigos do tasco e a caixa de vinte amigos.
Arrumaram a cidade para debaixo do tapete,
como fizeram com grande parte do bairro da Sé para dar lugar á avenida da Ponte
que ainda hoje continua com a escarpa como ruína. Muitas vezes o Porto foi
governado, por quem não teve a sensibilidade de entender o bairrismo, essa
palavras que muitos hoje acham “pirosa” e sem sentido, porque não conhecem o
orgulho que sentem as pessoas da Lapa, de Aldoar, das Eirinhas, da Fontinha, da
Sé, de Miragaia, da Vitória ou de Paranhos em serem desses lugares.
Os bairros eram uma espécie de fortaleza,
era o nosso castelo, os miúdos da Lapa não brincavam com os do Monte Pedral. O
rapaz que ia namorar uma rapariga da Areosa, tinha que pagar uns copos no tasco
á malta de lá e mostrar que vinha em paz para ser bem recebido. Havia o nosso
espaço, o nosso clube, a nossa gente. Mesmo no futebol, quando o Cruz ia jogar
ao Progresso, ou o Ramaldense ia jogar ao Foz, alguns desentendimentos surgiam
durante o desafio, no final do jogo tudo era superado com um “negus” (copo de
tinto) e uma sardinha frita num bocado de broa.
A cidade, eram todos os bairros juntos, eram
a comunidade orgulhosa de ser portuense, de ser bairrista. De trocar os bês e
ser tripeira. A diferença hoje? É simples! Dizer: «O meu bloco», não tem nada a
ver com aquele sentimento de brio e orgulho quando se diz: «A minha rua!».
Nesta era da globalização, o conceito de
bairrismo, de vizinhança, e de solidariedade perdeu-se. Hoje há quem saia da
garagem para fazer compras no supermercado do shopping, volte á garagem, suba
no elevador e entre em casa, sem conhecer o vizinho do lado, nem saber na
mercearia do bairro que o homem da senhora Aninhas está doente e que o merceeiro
assentou no livro os doze tostões da posta de bacalhau demolhado que levou.
Hoje há quem vá almoçar ao domingo á Póvoa, sem precisar de ir numa excursão.
Hoje são os bancos que procuram clientes com ofertas tentadoras de crédito, já
ninguém precisa de levantar dinheiro numa caixa de amigos, ou empenhar a
coberta da cama para se valer numa aflição.
Cresceu o egocentrismo e a petulância dos
políticos e o novo-riquismo de alguns, veio tapar a pobreza encoberta, a
degradação dos princípios, o flagelo da droga, o aumento do desemprego e a
ruína das famílias, para dar lugar a esta farsa de uma vida melhor, onde quatro
quintos da população vive por decreto, com subsídios de inserção social, fundo
de desemprego e pensões de miséria.
Acabaram com as escolas industriais,
viveiros de instrução de onde saíram os serralheiros, os electricistas, os
mecânicos e outras profissões, que começavam como aprendizes até serem mestres
nas mais variadas profissões que agora ninguém tem, para darem lugar aos
“doutores” em excesso, que depois de adquirirem o canudo, ingressam no exercito
dos desempregados onde um quinto da população tem que sustentar, à custa dum
sistema de previdência quase em ruína.
“A juventude não é boa nem má, é produto da
época em que vive”, esta é uma frase do escritor Manfred Gregor. A juventude de
hoje não é como a dos anos 50 e 60, mas é a que vive a vida que lhe dão, com
outros obstáculos, com outras carências, que mesmo com toda a tecnologia
actual, em certos aspectos, não sei se será mais feliz do que fomos.
A minha geração inventava os seus brinquedos
de criança, desde a bola de trapos ao carro de rolamentos. A de hoje tem toda a
panóplia de tecnologia, desde jogos de computadores, leitores de mp3, filmes de
vídeo, telemóveis de 4ª geração, etc., mas não sabem como é bom viver ao ar
livre, andar descalço, correr com o vento na cara.
A lembrança da opressão e das carências do
passado, persegue os pais e avós de hoje, quando a liberdade e a democracia
surgiram de braço dado com insegurança a falta de respeito e a quebra de
princípios fundamentais da família. As crianças de hoje tornaram-se super
protegidas, autênticos bibelots, já não se sentam no colo das mães nos
transportes públicos e ocupam lugar deixando as mães
Os meninos agora não fazem arranhões que se
curavam com uma folha de couve e azeite, não trazem os joelhos sujos de terra,
nem põem papas de linhaça ou papel mata-borrão nas pisaduras, nem sequer comem
sopas de vinho com ovos e açúcar para a anemia ou óleo de fígado de bacalhau
para o raquitismo. Agora quando fazem dói-dói, têm pomadas, anti inflamatórias,
antibióticos, vitaminas e outros fármacos. Os bebés não andam ao colo das mães,
hoje há carrinhos, alcofas, sacos de lona com presilhas e cadeirinhas diversas.
As mamãs preferem dar leite em pó e outros
produtos substitutos aos bebés, umas porque não têm tempo de dar de mamar aos
filhos, outras porque têm medo de deformar a estética dos seios. Mas as
crianças são mais felizes?
Ainda bem que juventude de hoje não enfrenta
o medo cruel da guerra aos vinte anos, nem o desconforto de viver no
obscurantismo dum pais decrépito e analfabeto. Mas, sabem enfrentar o dia de
amanhã? Ou tornaram-se nuns meninos mimados e arrogantes, a quem tudo aparece
feito sem qualquer esforço e ás vezes com tanto exagero, que os faz procurar
para a vida respostas em atitudes cobardes como a droga?
Na minha geração três pessoas a conversar no
passeio, era considerado um ajuntamento e logo o polícia dizia: “Toca a
circular, toca a circular”. Claro que também era proibido beijar na via
pública, mas o amor é melhor hoje? Ama-se mais que antigamente?
Sei muito bem que as preocupações hoje são
diferentes, não acredito no estigma da geração rasca. A geração de hoje tem o
que lhe dão, a falta de esperança, o desemprego, a insegurança, ainda a
angústia de viver com o crédito da habitação a altos juros, a inflação no topo
e o medo de constituir família, ter filhos e viver.
A corrida ao consumismo chega ao cúmulo de
se importarem ideias para gastar o que não se tem. Agora dá-se muito valor aos
americanizados dias de S. Valentim e das Bruxas (Halloween), por exemplo. As
grandes superfícies comerciais, possuem corredores com alas inteiras de
produtos impensáveis há 50 anos. Vejam o caso dos cães e gatos, com este súbito
amor aos animais (ou moda?), vendem-se almofadas, alcofas, ossos de borracha,
champô, escovas, alimentos diversos, lacinhos e outros artefactos. Abrem-se
lojas para animais (pet-shop’s), clínicas veterinárias e hospitais para cães.
Inverteram-se os valores do racionalismo, os
cães hoje até têm hotéis especializados e são agora mais importantes que os
seres humanos, quando existem pessoas que dormem pelos passeios e remexem os
contentores do lixo em busca de alimentos, em vez dos cães vadios ou os
vira-latas do meu tempo. Tantos cãezinhos ao colo das madames e tantas crianças
para serem adoptadas...
Mesmo a festa mais consagrada á família como
o Natal, está a tornar-se uma corrida louca ao consumismo, quantas vezes com
desperdícios enormes... Compreendo a euforia dos primeiros anos da revolução de
Abril, em que os portugueses finalmente tiveram acesso a tudo que nunca tinha
tido, desde as revistas pornográficas aos filmes proibidos como o “Último tango
em Paris”. Já não era preciso ir comprar ás escondidas em Cedofeita, no Sérgio
alfarrabista, o “Copacabana Posto C” da Cassandra Rios, nem ter 20 anos de
idade para ver “Helga, o segredo da maternidade”. Também minha alegria foi
enorme, quando pude comprar no Natal de 77, com o primeiro 13º mês que recebi
na vida, uma caixa de “Legos” para dar ao meu filho. Recordo que fui eu quem
brincou toda a noite, com aquelas peças de encaixar que me fascinavam há tantos
anos.
ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS" 7
Hoje o Natal modernizou-se, perdeu-se um pouco da magia desse dia. Embora durante muitos anos, tivesse a felicidade de ter a mesa cheia com filhos e netos, tirando a tristeza da minha filha Leninha que partiu muito cedo, penso muitas vezes no meu Natal de criança, onde não tive a presença de minha mãe, peça fundamental no “meu presépio”, o que me levou mais tarde a escrever:
Ó minha mãe, minha santa / Se pudesses cá
voltar
Tinha tanta coisa, tanta / Minha mãe p’ra te
contar
Dos filhos tenho meiguices / P’ra compensar
teus afectos
Ó minha mãe se tu visses!... / Que lindos
são os teus netos
Saudoso de teu amor / Rezo à virgem por ti
Minha vida era melhor / Se tu estivesses aqui
Meu pai, minha avó e meu irmão, eram a minha
família numa casa pequenina da rua da Glória. Meu Natal era simples, mas tinha
um sabor doce e alegre, mesmo limitado por carências de toda a espécie. Mas
isso, só mais tarde pude entender.
Logo no dia da mãe, no feriado de oito de
Dezembro, meu pai fazia a árvore de Natal. O pinheiro era plantado em areia num
vaso forrado a papel colorido. Eu e meu irmão ajudávamos, pendurando os
enfeites que ficavam de uns anos para outros, pingentes, sinos e bolas de vidro
coloridas, estrelinhas douradas e pequenos chocolates embrulhados em prata de
cor com lacinhos de fitas douradas. Havia ainda anjos recortados em cartão e
presos com linha, por fim, era colocado o terminal no carrapito do pinheiro.
Passava-se depois à colocação de pequenas velas de cera, metidas em molas de
chapa e presas ao pinheiro em locais precisos. Guardavam-se duas para a entrada
do presépio. A árvore estava quase pronta, faltavam os fios prateados, os
meridianos em volta do nosso mundo. Por fim, a neve que vinha comprimida num
pacotinho de celofane, era aberta com cuidado e espalhada por todo o pinheiro
como algodão finíssimo. Como era bonita a auréola de luz, que a chama das velas
deixava por entre a neve artificial. Depois havia o presépio que meu pai
construía com galhos, palha para o telhado, musgo e areia para o chão. Eram
então colocadas cuidadosamente nos lugares, as figuras de barro que se comprava
na rua d’Assunção. O burro, a vaca e os três reis magos, S. José e Maria, o
pastor e o anjo da anunciação. O menino Jesus como só nascia na noite de 24
para 25, era guardado para essa hora. As velas eram acesas só nessa noite e
ficavam a arder durante a toda a consoada.
O resto dos dias de Dezembro, eram passados
numa ansiedade constante á espera da grande noite. Ficou-me até hoje essa
sensação boa que me traz o Natal, não pela sua vertente religiosa (que me
perdoem os crentes), mas pelo sentido humano da união familiar,
o carinho, os afagos do meu pai, pela harmonia e paz vividos nessa noite
especial de verdadeira magia. Pelo fim da tarde do dia da consoada. O cheirinho
a canela espalhava-se pela casa. Minha avó fritava as rabanadas, fazia o creme
e aletria onde desenhava traços com canela
Nas noites próximas ao Natal, ia-mos para a rua com outros amigos, com o nariz vermelho e as mãos geladas, cantar as boas-festas pelos vizinhos, numa cantilena que era assim:
Vimos dar as boas-festas / Boas-festas vimos dar
Com respeito ao ano novo / Temos muito que contar
Pastores, pastores / Vamos todos a Belém
Adorar o Deus menino / Que nossa Senhora tem
Se nos davam umas moedas, agradecíamos:
A senhora desta casa / É bonita de raiz
Por nos dar a consoada / Tenha um Natal feliz
Se nem a porta abriam,
então cantava-mos:
A senhora desta casa / É feia mas não importa
Não nos deu a consoada / Cagamos-lhe aqui á porta
Claro que não passávamos
das palavras, mas ficávamos tristes por não ter uma guloseima (como agora com a americanice do Halloween) ou uma moeda para juntar ao “bolo” e depois dividir
por todos. A noite era fria, bafejava-mos as mãos de volta a casa, onde havia o
“borralho”, um balde de zinco com cinzas, que minha avó trazia da padaria
“Porto” onde ela era padeira, no Largo Moinho de Vento.
Na noite da consoada, lá
estava na mesa a toalha branca bordada por minha mãe (usada só em dias
especiais), com pratos de nozes, avelãs e pinhões, pratinhos de creme, aletria
e ainda a travessa das rabanadas. Havia o vinho do Porto, que o Júlio da
mercearia oferecia aos clientes e o Bolo-rei, que o senhor Teixeira da “Cunha”,
todos os anos dava ao meu pai. Lembro-me bem, quando eu ia à confeitaria
Para a ceia, vinha sempre
a Ermelindinha, uma senhora que vivia sozinha e minha avó sempre convidava. Quando
chegava a hora de fazer o molho no prato, com azeite, umas gotas de vinagre,
pimenta e muitos alhos, começava a sentir água na boca. Minha avó chegava com a
atravessa de batatas, bacalhau, pencas e grelos a fumegar, servia-nos e dizia:
«Comam com Deus e bom Natal a todos». E meu pai dizia: «Nesta noite posso estar
teso, mas faço tudo p’ra que não falte nada em casa» E acendendo as velas na
árvore, beijava cada um de nós dizendo: «Bom Natal a todos». O resto do serão
era passado a jogar o Rapa com pinhões. Tratava-se de uma pequena piasca de
madeira de quatro faces, cada face tinha uma letra: R de Rapa, T de Tira, D de
Deixa, P de põe. A cada jogador era distribuído uma quantidade igual de
pinhões, cada um rodava a piasca na sua vez, executando a ordem que lhe cabia
Nós, os mais pequenos já
sonolentos, ansiávamos pela manhã para ver os brinquedos na chaminé. Chegada a
meia-noite, era hora de colocarmos na manjedoura do presépio o menino Jesus, e
só depois íamos dormir.
Pela manhã, corríamos ao
fogão onde tínhamos deixado as botas de carneira (aquelas em que passávamos
sebo por causa da chuva), esperando a prenda do Pai Natal. Lembro-me duma caixa
de lápis de cor e um livro com figuras para colorir, duas espadas de chapa com
bainha, com que eu e meu irmão tanto esgrimamos, depois de nosso pai nos contar
as aventuras dos três Mosqueteiros. Nessa altura, já começava a compreender as
dificuldades que meu pai tinha (e não o Pai Natal), para comprar brinquedos.
Como já disse atrás,
naquela época nós inventávamos os nossos brinquedos, com as coisas mais simples
que tínhamos á mão imitava-mos os grandes heróis. Bastava um jornal para fazer
o capacete e uma vareta de guarda-chuva com um fio forte, para fazer um arco e
flecha para imitar o Robin dos Bosques. Com umas tábuas tiradas dum caixote de
sabão e alguma habilidade, construía-se um bom carro. Depois haviam os extras:
Napa para o acento e costas, um bocado de pneu para o travão, tecido para
forrar a corda da direcção para não aleijar, mas o principal eram os rolamentos
que comprávamos no farrapeiro na Trindade.
Para conseguir dinheiro
para tal compra, passávamos tardes inteiras de sábado aos chumbinhos que caíam
na rua de Salgueiros, quando havia tiro aos pombos no Clube de Caçadores no
Monte Cativo. De colher em punho, tirávamos a terra em volta dos paralelos,
passávamos depois de mão para mão sempre a soprar, até a terra sair e ficarem
só os chumbos por serem mais pesados. Quando a latinha estava cheia, levávamos
ao farrapeiro que pesava o chumbo até ter o necessário para os rolamentos.
Grandes corridas se faziam pelos passeios, imitando o Sterling Moss, ou o
Filipe Nogueira nas corridas de 1958 no Castelo do Queijo.
Na manhã do dia de Natal,
a criançada lá da rua juntava-se, para mostrar uns aos outros os brinquedos que
ganharam do Pai Natal. Éramos todos amigos, unia-nos a alegria e os sonhos numa
meninice, onde a alegria de ser menino se media pela solidariedade de todos
terem com que brincar, mesmo que fosse pouco.








