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domingo, 4 de outubro de 2020

ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS"














 

ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS" 1


BOAS RECORDAÇÕES






Ainda encontramos na vida momentos que são boas recordações, mesmo os passados quantas vezes, na adversidade da nossa infância, como  dizia o meu amigo José Neves: 

«...onde a carência do pão, era compensada com a festa dos afectos...»  

Das boas recordações que guardo no sótão da memória, apesar de perder muito cedo a minha mãe, é duma infância vivida com a ternura de um pai afectuoso, que soube ser um exemplo de persistência como incentivo para a minha vida. De uma avó carinhosa e sempre presente, sem deixar de ser severa na educação, e de um irmão amigo e companheiro que muito amo. Apesar da adversidade em que vivia, nunca me faltou a alegria de viver, a harmonia e a amizade dos amigos que comigo se cruzaram na universidade da rua.

Como qualquer criança, levada pela ilusão própria da idade (apesar da minha geração ter sido adulta muito cedo), a ansiedade por dias de festas era enorme. As festas eram mimos, atenções, alegrias acrescidas e... como diz o MEC:

«…nós, os portugueses, apenas precisam de um pretexto para comemorar qualquer coisa…».

Bastava um dia de festa e a comida era melhorada, estreava-se uma camisola ou umas sandálias e havia mais alegria nas pessoas e nas ruas.

Para mim os domingos eram sempre uma festa, primeiro porque havia manteiga para pôr no pão, depois porque ao almoço havia cozido à portuguesa, ouvia-se “A Voz dos Ridículos” no rádio e o Salgueiros era uma nação! Logo pela manhã, depois de ser obrigado a ir à missa com a minha avó, ela mandava-me à mercearia do Sousa (que tinha sempre meia porta aberta ao domingo e no passeio o “Mudo” a engraxar sapatos), para comprar dez tostões de manteiga que o Sousa punha num papel vegetal, depois de tirar dum pote de porcelana com uma espátula de madeira. Passava pela padaria do “ Zé Mouco” e trazia os moletes para o café e a regueifa para o almoço. Nestas manhãs de domingo, a minha rua estava sempre alegre, com as janelas abertas, roupa a secar nas cordas esticadas com um pau ao alto e os poucos rádios que haviam, onde durante a semana as mulheres ouviam o “Tide”, tinham o som alto, onde às vezes se ouvia a Maria Rosa Rodrigues cantar:     

 

Pela calçada da serra / Subíamos distraídos

Aos domingos que saudade / Eu e tu muito entretidos     

A olhar p’ra nossa terra / A olhar nossa cidade.

 

Também aos domingos o Sr. Joaquim Corcunda, vinha receber a cota semanal de vinte e cinco tostões para a excursão no verão e tomava nota num cartão com cinquenta quadradinhos onde se lia: Grupo Excursionista “Haja paz e Harmonia”. A Dona Ermelinda que morava na Ramada Alta e vendia ouro a prestações, também vinha receber aos domingos lá na rua, sempre de livro em punho.

De tarde, a malta ia ver o Salgueiros quando jogava em casa. Íamos aos magotes por S. Brás, passávamos ao campo do Porto na Constituição (o FCP já jogava nas Antas desde 1952), metíamos ao Covêlo, descíamos as escadas de S. João e estávamos na rua Augusto Leça, no campo Eng.º Vidal Pinheiro. Á porta pedia-mos: «Meu senhor leve-me consigo...».

E lá entravamos sem pagar, para ver a nossa equipa do coração: Era o Barrigana, Chau, Carvalho, Porcel, Mário, Eleutério, Tito Blanco, Longo, Teixeira, Tai e Benje.

Quando o Salgueiros não jogava em casa, ficava-mos a jogar à bola no campo do Covêlo e nesses dias, o Tino levava a bola de couro e câmara-de-ar que tinha ganho com os rebuçados “Vitória”. O Senhor António, o pai do Tino, era o nosso treinador no Grupo Infantil da Lapa. Treinava-mos nas  Águas Férreas, no campo da “tutoria” (hoje, Tribunal de Menores) para entrar no Torneio Infantil do Salgueiros. Eu era guarda-redes suplente o Gabriel era o titular. Nessa equipa jogavam além do Tino e do irmão, o Zequinha, o Chico ervilha, o Zeca da Amélinha, o Guruga, o Zé Augusto e o Cocas. Tínhamos todos, um cartão da Associação de Futebol do Porto com fotografia e tudo… Mas o cartão que mais me orgulhava era o de sócio infantil do Salgueiros, que o meu pai e a minha madrasta me deram quando fiz dez anos, por nunca ter perdido nenhum ano na escola. A cota naquele tempo era de vinte e cinco tostões por mês.

Só voltei a jogar futebol muitos anos depois na baliza das reservas do Sporting Clube da Cruz, daí fui para os Águias da Areosa, quase na altura da sua fundação no café Cabinda pelo Sr. Avelino, o Sr. Alfredo e outros amigos que não me recorda o nome. Joguei mais a brincar do que outra coisa, com o Zé Guilherme (que mais tarde fez parte comigo, na Comissão de Obras do clube da Bela), o Barbosa (que é primo da Linda, que foi minha namorada) o Lino (que veio a ser meu compadre), o Murça, o Zequita (que ficou em Macau, depois da tropa), o Moka (que trabalhava nos cafés “A Moca” na Areosa), o João (irmão do Zequita que moravam no Bairro Airoso em Pedrouços) e muitos mais... Aliás, foi dali, dos águias da Areosa que (muitos anos mais tarde) saiu para o Boavista o João Pinto que era do bairro do Falcão. Mais ao menos nessa altura, tinham começado os campeonatos de Futebol Amador e os rivais dos Águias, eram o Lusitano de Pedrouços e os Unidos ao Porto do Bairro João de Deus.      

Foi numa época em que na Areosa, ainda existia a fábrica de tecidos do Manuel Pinto de Azevedo, onde trabalhavam centenas de mulheres bonitas, que davam vida ao lugar as chamadas “pataqueiras”. Na altura, ainda haviam os postos da PVT (Policia de Viação e Trânsito) nos cruzamentos da Circunvalação, a estrada que circundava a cidade, era cheia de árvores. Hoje, com viadutos, VCI e outros acessos à auto-estrada, desta estrada fresca por onde íamos ao domingo no 78 (de dois pisos)para a praia, pouco resta.

Neste lugar limítrofe do Porto, tal como o Ameal, Monte dos Burgos, Rio Tinto e outros, vivia muita maralha que era da cidade. Foi aí, através do contacto com essa gente, que tomei conhecimento dum modo curioso de falar em calão. Tão peculiar era o seu linguajar que só uma pessoa do mesmo lugar era capaz de compreender frases completas numa conversação, por exemplo neste diálogo:

 — Ó Zé vamos de frosque, comer uma chavala num tapirete e um escochebi nas mamas?

— Néria... Vou dar uns xochos e tirar uns nabos com a garina, se não, fico na prancha.

— E amanhã de matina, vais ao praiedo?

— Não manjo o praiedo.

Agora a tradução:

— «Ó Zé vamos embora, comer uma sardinha num pão e um copo de vinho nas Mamas Gordas (Casa da zona especialista em iscas)».

 — «Não... Vou dar uns beijos e uns mimos à minha namorada se não ela põe-me de lado».

 — «E amanhã de manhã, vais à praia?»

— «Não gosto de praia».

O Sr. Pereira, distinto empregado do café Cabinda, é que nos aturava e conseguia compreender e traduzir todo o calão. Grandes noites de sábado que passamos naquele café com a nossa tertúlia a ver o “Fugitivo” na TV e comer a celebre “Trinca” (bife com molho inglês e fiambre em pão fresco) que faziam frente aos pregos do Café Pereira na Praça do Marquês.

Haviam naquela época, quatro cafés na Areosa, o Cabinda, que tinha um recanto com sofás e uma vitrina com um ramo seco e pássaros. O Luar que ficava na esquina, num prédio igual aos muitos que haviam nos cruzamentos da Circunvalação e que em tempos idos, serviram de postos aduaneiros para quem entrava na cidade. O Comendador que era o mais moderno e mais tarde foi a sapataria com o mesmo nome. E por último, o S. João que era de uma sociedades de amigos, onde um deles era o Sr. Henrique alfaiate, pai do Agostinho que esteve comigo na guerra em Angola.     

 


 

ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS" 2


A ROMARIA DA SRª. DA LAPA

 





Fui um “ganapo” feliz e apesar de tudo e tenho saudade da minha rua, da minha cidade, das coisas simples como os dias festivos que durante o ano aconteciam. Romarias como a da Sr.ª. da Lapa, que ainda hoje ocorre sempre no 1º domingo de Maio. No meu tempo de menino, a festa da Lapa tinha as suas barraquinhas do pão de Avintes, cavacas de Paranhos, caladinhos da Areosa e biscoitos de Valongo. Nunca faltavam as tendas de brinquedos pintados de anilina, como os ciclistas na roda de madeira, que ao andar tocavam uma campainha, as raquetes onde duas galinhas depenicavam movidas pelos pesos que faziam de pêndulos, as espingardas de madeira que disparava um pau movido por uma mola e muitos modelos de carrinhos para as meninas levarem as bonecas de pano. E ainda os brinquedos de folheta, camionetas, motas, cornetas, carros dos bombeiros fogões e máquinas de costura. Brinquedos característicos da zona de Ermesinde, fabricados com o aproveitamento das latas (folha de flandres), de conserva e outras.

Havia todos os anos duas cestas de madeira, que balouçavam encostadas às traseiras do Quartel-general no largo da Lapa. Também nunca faltava junto á fonte de Salgueiros, as barraquinhas de comes e bebes com mesas improvisadas e bancos corridos de madeira, que vendiam iscas, chouriço, vinho e pirolitos (limonada com uma bola de vidro). Por entre as árvores da rua do Paraíso, havia o homem com banca de dados e três copos de madeira para jogar à sorte, sempre pronto a fugir á polícia. Lá estava o “propagandista” que juntavam muita gente á sua volta, para ver a menina que fazia contorcionismo segurando na testa copos de groselha. Tudo para vender a “Pomada santa de jibóia” que curava todos os males. Outro circense que não faltava, era o homem que deitava fogo pela boca enquanto as pessoas atiravam moedas.

Quem nunca faltava nas festas era o tiro ao alvo, em terreno delimitado por uma corda presa ao chão por quatro escápulas de ferro e as espingardas de pressão, que apenas disparavam umas setinhas coloridas para um alvo pendurado numa árvore. O prémio máximo era sempre um galo que nunca premiava ninguém e que permanecia atado ao chão, indiferente ao seu destino.

Toda engalanada com faixas de cetim azul e vermelho e lindas flores em todos os altares, era muito visitada nesse dia a Igreja da Nossa Sr.ª. da Lapa, hoje com mais de 250 anos de existência. Foi construída no mesmo local (na raiz do Monte de Santo Ovídio, em Germalde), onde em tempos tinha existido uma capela em honra de Nossa Sra. da Lapa, erigida pelo reverendo Ângelo Ribeiro de Sequeira, natural de S. Paulo do Brasil. Desta capela resta a sua fachada que fica contigua ao muro da parte sul do cemitério. A igreja actual, foi projectada pelo arquitecto José Figueiredo Seixas e a primeira pedra foi colocada a 17 de Julho de 1756, mas a sua conclusão só se verificou em 1863.

Além de possuir no coro alto o maior órgão da Península Ibérica da autoria do alemão Georg Jann, a igreja da Lapa guarda numa urna de prata no mausoléu da capela-mor, onde se pode ver gravadas as bandeiras de Portugal e do Brasil e ainda na parte superior, as armas do Duque de Bragança, o coração que D. Pedro IV doou á cidade que sofreu com ele o cerco de 1833, cujo a essa heróica resistência das gentes do Porto e das tropas de D. Pedro, se deve a vitória da causa liberal em Portugal.

O cerco do Porto durou mais de um ano, de Julho de 1832 a Agosto de 1833, no qual as tropas liberais de D. Pedro, estiveram sitiadas pelas forças fieis a D. Miguel. A morte do Rei D. Pedro IV ocorreu no palácio de Queluz em 24 de Setembro de 1834 e foi a Imperatriz D. Amélia de Beauharnais por decisão testamentária, que a 5 de Fevereiro de 1835, chegou á barra do Douro com o real legado, que foi transladado para a igreja da Lapa perante o apoio e testemunho de milhares pessoa, ostentando luto carregado e empunhando tochas acesas.  

O cofre com a urna de prata, é aberta de 4 em 4 anos por funcionários da câmara, para que se proceda à mudança do líquido da jarra de cristal onde o coração se encontra inserido.

É com orgulho que a cidade do Porto ostenta no seu brasão esta relíquia régia. Para aqueles que nunca repararam nesse brasão (que também faz parte do emblema do F.C.P.) o coração encontra-se representado ao centro do escudo.

 

Da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, instituída em 1755 pelo Papa Bento XIV, fazem parte além da Igreja e do Hospital, o colégio da Lapa onde Ramalho Ortigão foi professor de francês e o pai, Joaquim da Costa Ramalho director.

Também Eça de Queirós foi aluno interno após a morte da mãe. Aliás, neste lugar da cidade viverem muitos homens de letras, o próprio Ramalho Ortigão residia na Quinta de Germalde na Lapa, Antero de Quental ali perto no Campo da Regeneração e até o filosofo Oliveira Martins na Casa de Pedra na rua das Águas Férreas. O Colégio era um lugar para as elites e por isso, eu nunca o poderia frequentar. Apenas fui crismado na igreja e lá fiz a comunhão solene.

A minha escola primária foi feita na Escola nº 61 em Faria Guimarães, onde fui aluno do severo professor Quaresma. Naquele tempo, havia muito respeito pelos professores que eram como nossos segundos pais. Tudo se levantava quando ele ou alguém entrava na sala. Claro que na parede por cima do quadro em ardósia, lá estavam os senhores da ditadura, Salazar e Craveiro Lopes e entre eles o crucifixo. Ao canto da sala, estava a estante dos sólidos geométricos e não faltava o banco alto dos burros.

Não se pode concordar com alguns métodos de ensino dessa época, no entanto hoje, passou-se de um extremo para outro. Nem tudo que se aprendia era muito importante, como as Linhas do Caminho-de-ferro, mas saber as Serras, Rios e seus afluentes, a História de Portugal, Ciências do corpo humano e a Tabuada, foi fundamental para a malta do meu tempo. Por isso se diz que a 4ª classe antiga é igual ao 7º ano hoje. Aquela cantoria para aprender a tabuada era eficaz, assim como a vantagens dos livros passarem de irmãos para irmãos.

)blet daquela  A primeira saca que tive para levar os cadernos, o livro, a lousa, a pena e caneta de aparo, era de pano e tinha bordado: “Segue sempre o bom caminho”. Depois tive uma de cartão com uma fita para pôr ao tiracolo, castanha por fora e a azulada por dentro, a tampa era ovalada e tinha um fecho cromado.

Das coisas que mais gostava, além das aulas em geral, era daquela sopa e do pão escuro feito na Legião Portuguesa, que davam lá na escola. O que menos apreciava era o óleo de fígado de bacalhau que nos obrigavam a tomar, e de aos sábados de manhã ter que cantar o hino da mocidade, mas pior ainda, só as casas de banho que eram daquelas de cócoras.

O exame de prova oral e escrita da 4ª classe, foi feita na escola de Sto. Ildefonso que já não existe (hoje é o edifício da Junta), na esquina de Gonçalo Cristóvão com o Largo do Bonjardim. Ao lado, havia a escola Raul Dória que foi demolida para dar lugar ao edifício JN. A escola em Faria Guimarães também não existe, no seu lugar está um prédio com uma confeitaria. Mas tudo isto foi pelos finais dos anos 50, em que me lembro de ir de bata branca e bandeirinha na mão, com todos os alunos, aplaudir a Rainha Isabel de Inglaterra à praça da Republica. Estávamos em 1957 e só em Agosto de 1960 voltei para aplaudir na mesma praça, o Joscelino Kubitschek de Oliveira presidente do Brasil, um democrata elegante que alegremente agradecia os aplausos em contrastando com o semblante carregado do Presidente Américo Tomás. 

 

Depois de mais este passeio pela memória, volto à Irmandade da Lapa para vos falar do Cemitério privado que é dos primeiros da cidade e foi inaugurado em 1838. Já em 1833 a Irmandade mostrava interesse em construir um cemitério moderno, pois com a situação deixada pelo Cerco do Porto era difícil conter o surgimento de epidemias muito mortíferas. Foi necessário recorrer ao chão de algumas igrejas que nem estavam totalmente construídas como foi o caso da Trindade.

Numa situação de transição, foi preciso estabelecer um cemitério interino, por detrás da capela-mor da Igreja da Lapa. O cemitério actual foi começado a construir em 1835 e nele repousam os restos mortais de Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett, Coronel Pacheco, Soares dos Passos, entre outras figuras célebres desta cidade das camélias, das sardinheiras e acácias, a nossa: “Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto”. 

 


 

ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS" 3


O MEU BAIRRO
 

 





A Lapa pertence à Freguesia de Cedofeita, uma das freguesias mais burguesas do burgo tripeiro, mas sempre teve nos seus limites, bairros de operários de gente modesta e muito bairrista, como a Lapa com suas ruas, escadinhas e vielas. Eu nasci na rua da Glória que tem a sua história ligada ao Cerco do Porto, foi assim:

«Tanto Miguelistas como os Constitucionais, partidários de D. Pedro IV, construíram em redor da cidade as suas linhas de defesa. Dentro dos limites da freguesia de Paranhos, a linha fortificada dos Liberais passava pelo Carvalhido (daí o nome da praça do Exercito Libertador), fortes de S. Paulo, da Glória e de S. Brás, quartéis do Monte Pedral, baterias de D. Pedro e Aguardente (Marquês do Pombal) e das Medalhas. Redutos do Covêlo e das Antas. A bateria da Glória, defendia os vales de Paranhos e Regadas, tendo em frente dela, a bateria das medalhas, dominando o vale de S. Mamede. Esta bateria das Medalhas situava-se entre o Monte Pedral e a rua de Monsanto, tomou este nome pelas muitas condecorações que ganharam os seus defensores, na acção de 9 de Setembro de 1832. Só muito mais tarde nasceu esta rua, no local onde estava a bateria e que ainda existem vestígios no Monte da Lapa.

Do meu bairro, fazem parte ainda, a rua e travessa da Sra. da Lapa, a rua e calçada do Monte da Lapa, a rua e travessa, escadas e largo da Lapa, lugares de onde guardo muita saudade.

Ao passear a lembrança pelas minhas raízes posso ver ainda todas as “ilhas”, eram pátios cercados de modestas casinhas, algumas airosos com vasos de avenca, begónias e sardinheiras ás portas. Pelas paredes brancas e ocres, viam-se andorinhas de barro e azulejos com santos  de devoção. Outros pátios eram húmidos e recônditas onde nem o Sol chegava. As ilhas mais conhecidas da minha rua tinham sempre o nome da pessoa mais carismática que lá morava, era a ilha do Cego, do Almeida, do Cocas, da Zirinha, da Amélinha, do Capelas, do Oliveira, do Leites e tantas, tantas por onde brinquei na minha meninice e fugi descalço á policia, nesse tempo em que a multa por andar descalço, eram de oitenta escudos com uma coroa.

Recordo no começo da rua Antero de Quental, na esquina do Monte da Lapa, a Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro que o Senhor Correia alfaiate e a família zelavam, foi mesmo com uma das suas filhas que lá aprendi a catequese e era a sua esposa que levava de casa em casa, o altar da Sagrada Família como era uso naquele tempo. Na rampa, vivia o Mário Rui que tinha criada para o levar á escola, mas que repartia comigo o lanche que trazia num guardanapo bordado (assim como, ficava na fila para receber o pão só para me dar depois).

Ainda mais acima, na calçada do Monte da Lapa, vivia numa casinha modesta o Carmo que ficou sem o pai no desastre de Custóias. Bem lá no alto está o Mirante (como lhe chamamos), local onde a bateria da Glória, no tempo do cerco do Porto, num fogo cruzado com a bateria do Monte Pedral, impediram uma esmagadora derrota das tropas constitucionais a 9 de Setembro de 1832. O mesmo voltou a acontecer no dia 16, havendo a lamentar o incêndio que destruiu a bela casa e a capela da Quinta do Covêlo.

Defronte à capela, na Rua Antero de Quental ficam as escadas da Travessa da Lapa que terminam na travessa de S. Brás, defronte duma oficina de picheleiro (avô do meu amigo Franclim Simões) onde trabalhava o Mário canalizador. A rua de S. Brás que tinha a maioria das casa mais baixas que a rua (como acontecia numa boa parte da rua de Camões), vem dar á rua do Paraíso junto ao largo da Lapa. Depois da escadaria da Igreja, naquele passeio largo defronte ao cemitério, era onde fazíamos corridas com carros de rolamentos e deitávamos estrelas ao vento. Nas traseiras do quartel, ainda existe um enorme portão, onde naquele tempo, os mais pobres munidos de panelas, faziam fila esperando os restos do “rancho”.

Do lado direito do quartel, fica a rua da Regeneração onde estava a "Garagem da Lapa" e a casa de pasto "Piramidais" á esquina da travessa da Regeneração. Esta ruela que se estreita até se transformar por um lado, numa viela que acaba na rua de Camões junto ao fontanário e por outro no final da ilha que tinha o seu começo na rua do Paraíso e que já não existe. Ali morava muitos amigos de infância com o Sérgio Marques. Toda essa gente que ali vivia foi para os bairros do Carriçal e do Agra do Amial. Naquele tempo, a rua do Paraíso era uma rua cheia de árvores, onde havia uma padaria com a frontaria lindíssima em azulejos, havia o “Prego” (casa de penhores), que pertencia ao Sr. Reis (pai do grande actor de teatro António Reis) e onde tantas vezes fui com a minha avó empenhar o fato de meu pai á segunda, para levantar ao sábado. Junto à entrada da maior ilha da rua, estava o tasco “A Flor do Paraíso”. Havia também o azeiteiro que tinha uma bomba de manivela (como as de combustíveis para motorizadas), sobre o balcão, para medir e vender o azeite, onde eu ia a mando da minha vá, buscar um quarteirão de cada vez.... 

A rua da Lapa também com muitas árvores, tinha argolas de ferro na parede do quartel que já foi de cavalaria e onde antigamente prendiam os cavalos. Esta rua termina no largo da Lapa e começa na praça da Republica á esquina da rua da Boavista, onde está o antigo café que se chama “Novo”. Esta rua, era a mais central do bairro com muito comércio, desde o relojoeiro que tinha um relógio de dupla face na frontaria, até ao café e confeitaria Cristal (que foi a primeira a ter televisão e a miudagem pagava dez tostões por um copo de leite, para ver os desenhos animados ao domingo), passando pela afamada Rosa das Iscas, a tabacaria do Campo (Campo porque a praça da Republica aberta em 1760, se chamou em tempos, Praça de Santo Ovídio e depois Campo da Regeneração), a drogaria o Pretinho da Lapa e a tabacaria do Melo na esquina do jardim frente ao quartel e a papelaria do Campo onde comprava-mos (quando podíamos), as construções de armar em cartolina, o Mosquito, o Mundo de Aventuras, o Ciclone ou o Mickey.

Ao lado do hospital, era a rua de Salgueiros (hoje rua de Cervantes), onde além da ilha de Salgueiros, bairro operário onde vivia muita gente, que hoje vive no Bairro Siza Vieira e em Francos, existe aí a Fonte de Salgueiros a que chamávamos o tanque. Aí tomávamos banho nas tardes de calor, depois de jogar á bola de trapos. O nosso “campo da bola”, para mal do Camilo da mercearia, era no largo ao fundo da rua da Glória, onde tinha o chafariz encostado ao muro do hospital e acabava o muro com uma rede alta que dava para o local escarpado a que chamávamos “Quintinhas”. Desse local avistávamos as Águas Férreas, a Figueirôa, a Carvalhosa, a linha do comboio da Póvoa (que hoje é o Metro), a “Tutoria” (hoje tribunal de menores), com o seu campo de futebol que por ser mais estreito dum lado, lhe chamávamos o campo do bacalhau. Era uma vista soberba que em dias de  Outono, com as árvores do jardim da Boavista despidas, via-se o Jardim da Rotunda, porque a monumental estátua à Guerra Peninsular, de autoria do arquitecto Marques da Silva e do escultor Alves de Sousa, via-se sempre.

Parte da rua Sr.ª. da Lapa é ao longo do muro do hospital e só tinha casas dum lado. A um lote dessas casas todas iguais, chamávamos “Casa das Varandas”, onde por baixo havia a loja das miudezas (retrosaria) da dona Aurora. Havia também as mercearias do Marques, do Adérito e lá na esquina da Lapa a mercearia fina do Pina, onde a Zirinha no passeio punha banca de hortaliças aos fins-de-semana e no verão, haviam mulheres a vender mexilhões, lapas e tremoços. Ás vezes havia um sorveteiro, com sorvetes de sabor a baunilha, numas latas cromadas onde tinha um visor concavo com um dado dentro, o lado de uma ranhura onde se metia a moeda, premia-se um botão e o dado saltava dizendo com as pintas o tamanho do sorvete (quando saia o 6 era o maior). Por vezes também lá estava o Alberto bananeiro com a padiola das bananas e muito mais tarde abriu uma frutaria na rua do Bolhão. 

Eram ruas com gente boa, prestável e muito amiga. Não é como os tempos de hoje que ninguém se conhece no prédio onde mora. Os vizinhos tinham uma importância muito grande, eram como família quem nos socorriam nas horas más e festejavam com nós os momentos de felicidade. Haviam pessoas boas, mas existiam aquelas que nunca esquecemos como: A Dona Leonor que era enfermeira e dava injecções de graça; A irmã da Julinha peixeira que talhava o medo com orações e as bichas (que deformavam o rosto) com leite, ainda cosia os pés "estorcegados" com um pote de barro e com uma faca rezava ás estrelas para talhar os terçogos.

Depois, lá na rua havia de tudo: O Mário estofador que era filho do Arnaldo sapateiro; O Mesquita que trabalhava na refinaria da SONAP e era pai dos gémeos; O pai do Ervilha e do Berto que era alfaiate; Outro alfaiate era o Henrique onde a Emília era calceira; O Amaral pai da Branca, que era adeleiro em Mártires da Liberdade; O Alfredo Borges campeão de natação do Sporting Clube da Lapa que era litógrafo e foi o padrinho do meu irmão, dirigente no FC Porto e mais tarde abrir a litografia "Inova" na rua Gonçalo Cristovão; O Jaime bombeiro nos Sapadores que tinham o quartel em Gonçalo Cristóvão antes de irem para a Constituição e lá foi construído o Silo Auto: O Senhor António guarda-freio na Carris e pai da Aida; O Neca, que fazia parte do Trio Boreal e tinha uma irmã muito linda, que trabalhava ao balcão na Loja das Coisas em Fernandes Tomás. Ele cantava canções sul-americanas e formou o trio Boreal com a Luísa Salgado que era da Fontinha e o Castelo Branco da Vitória. O Zeferino Pinto que fundou o trio, “Os 3 de Portugal” e moravam em Salgueiros: O Xavier do Comércio do Porto: O Laguela canalizador: A Loscas costureira que era mãe do Zequinha e tinha “Torry” no nome, descendente afastada de um braço genealógico dos “Torry’s” ingleses: O Pirata electricista que moravam enfrente à ilha do Cego; A Sãozinha do tasco que era mãe do Filipe: O Júlio e o Alexandre da mercearia: O Amaral carvoeiro pai da Mariazinha e do Neca; O Zé da barbearia; O Argentino pai da Alexandra, que escrevia cartas a quem era analfabeto e preenchia papéis da Junta quando era preciso pedir um atestado de pobre.

Havia a oficina do Manel dos chapéus defronte à ilha do Miranda, onde morava o Filinto que trabalhava no cinema Júlio Dinis. Também havia a oficina do meu pai, que fazia casinhas, pontes, coretos, castelos e igrejas para as cascatas de S. João, caixas de joias e de costura, até caixinhas para amêndoas pela Páscoa. No Natal fazia presépios com telhados de colmo e manjedouras com espigas (esta palha era tirada das coberturas de garrafas de vinho do Porto que haviam na altura), tudo isto numa casinha que alugou no bairro “Angelina” que depois vendia para o Bazar dos Três Vinténs em Cedofeita, para a Casa Ametista nos Poveiros e os presépios, nas casas de artigos religiosos em Mouzinho da Silveira e na rua das Flores.

 


 

ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS" 4


GENTE DESSE TEMPO
 

 





Nesse tempo, ouviam-se pregões pelas ruas das mais diversas coisas, desde guloseimas até aos artigos mais inverosímeis. Ouvia-se as mulheres que vinham de Rebordosa apregoando: “Merca cadeiras ou baaaancos...” em madeira de pinho, como os que se vendiam na rua da Picaria. O Caramileiro que vendia o “Torrão de Alicante” (que ficava preso aos dentes) e aqueles cumpridos de cor branca com riscas vermelhas e apregoava: “Olha o belo caramilo americano...”. As Vareiras (varinas é em Lisboa), de canastra à cabeça com um oleado e algibeira atada à cinta que apregoavam: “Sardinha viviiiiinha”. As galinheiras com seus cestos de rede à cabeça apregoando: “Merca galinhas ou fraaangos”. As leiteiras, que logo pela manhã andavam de porta em porta com o canado e as medidas de alumínio, com que mediam o Quartilho, que era igual a meio litro. As lavadeiras, que faziam o rol da roupa que lavavam e traziam lavada e vinham da Maia com as trouxas nas camionetas da carreira, aquelas que tinham escadas atrás para subir ao tejadilho e acomodar a bagagem. O azeitoneiro que trazia um pau ao ombro com uma giga de cada lado cheias de azeitonas e apregoavam: “Olha a bela azeitoooona”.

Havia ainda o amolador e guarda-soleiro, com aquela gaita-de-beiços em plástico, a bicicleta que ele transformava em roda livre para afiar as tesouras e facas no esmeril. Este velocípede era uma verdadeira oficina ambulante, onde o funileiro com habilidade conseguia tapar buracos nos tachos e nas panelas de alumínio.  

Recordo comovido, uma mulher magra de xaile preto e um filho pela mão, que trazia uns galhos enormes ainda com rama na ponta e que apregoava numa voz fraca: “Chaminééés...” Mas que nada tinha a ver com os homens chamados “Limpa chaminés”, esses, traziam umas cordas ao ombro e andavam sempre de fato-macaco sujo de fuligem. Também de cordas ás costas e boné com uma placa onde tinha gravado o seu número de profissional, andavam os “Carrejões” ou carregadores que fazia carretos e fretes, transportando bagagens e peças de mobiliário. A maior parte eram galegos e passavam o dia junto ás estações de Campanhã, S. Bento e Trindade, na Praça Filipa de Lencastre junto ás camionetas de Braga, em José Falcão no Linhares da Póvoa, na garagem Atlântica das camionetas de Espinho, na rua de Camões nas camionetas de Felgueiras e de Paços de Ferreira, que paravam no largo das traseiras do “Bonnevile de Oliveira” ou "Efacec" e outros locais como os recoveiros espalhados pela cidade. Também com bonés com chapa numerada, andavam os cauteleiros que vendiam a lotaria pelas ruas e apregoavam a sorte grande pela baixa onde também andavam homens a vender gravatas num pau pendurado ao pescoço, que fazia de expositor.

Na Trindade, junto à viela do Bonjardim (aquela onde tinha um urinol em pedra e é hoje um parque de estacionamento), havia o homem das canetas numa banca onde arranjava todo o tipo de aparos para as canetas de tinta permanente. Quase na esquina da rua Fernandes Tomas, havia um cinzelador numa janela, cinzelando a prata colada à pedra com breu e que delicadamente com o buril ia gravando lindos motivos e desenhos. Outros artistas que me fascinavam eram os marmoristas nas oficinas de Mártires da Liberdade e Avenida Rodrigues de Freitas. Eram autênticos escultores trabalhando o mármore, de onde saíam anjos e outras figuras que embelezam muitas sepulturas nos cemitérios e não só.

Haviam os homens da Água e da Electricidade, que cobravam e contavam (com uma pilha), a luz e a água, embora fossem poucas as casas que tinham estes “luxos”, a maioria na minha rua, tinha candeeiros e máquinas de petróleo da “Hipólito” para cozinhar. A água vinha à cabeça em canecos de madeira do fontanário do largo. Esta água era abastecida pela câmara, mas na fonte de Salgueiros passavam as águas do Ribeirinho (nascente dos Montes de Germalde e do Cativo), que enchiam o tanque da “Fonte dos Ablativos” em Cedofeita enfrente à rua da Torrinha (esta fonte encontra-se exposta no Jardim dos SMAS em Nova Sintra) e tinha a dupla função de servir de abastecimento público, funcionando ainda como reservatório para ser utilizada em caso de incêndio.

Em casa, o caneco da água tinham uma tampa e um púcaro de alumínio pendurado para beber. Nesse tempo, havia prateleiros nas cozinhas decorados com tiras de papel estampado com diversos motivos florais. A minha avó fazia-os com jornal, pacientemente recortado a imitar renda. Havia fogões a carvão como o de lá de casa e aos sábados (depois do meu pai receber), ia-mos ao carvoeiro comprar petróleo e álcool para a máquina, carqueja, carvão de choça, de pedra, briquetes e lamas para abafar os assados. Este carvão vinha até ás Antas, no Monte Aventino, em cestas tipo teleférico, desde as minas de S. Pedro da Cova. A carqueja era vendida pelas carquejeiras que subiam a rampa da Corticeira nas Fontaínhas com grandes molhos, vindas de barco pelo Douro para abastecer padarias e carvoarias da cidade.

A carne comprava-se no talho da Lapa, acima da mercearia da Pina e junto ao “Damaneto” que vendia mobílias a prestações, ou no talho do Zé à entrada de Mártires da Liberdade, pegado ao portal  onde era a famosa "Japoneza" e onde a Guidinha apanhava malhas nas meias de vidro. Ás terças, passava a Emilinha “Fressureira” que era do Campo Lindo e vendia de porta em porta tripas enfarinhadas, fígado e outras miudezas a que se chamava fressuras. A pobreza em que se vivia não deixava comer muita carne, os bifes eram raros, por isso naquele tempo haviam muita gente com a saúde debilitada e em grande estado de fraqueza. Era um tempo de muitas doenças e dos lenços tabaqueiros, suficientemente grandes e vermelhos para camuflar as hemoptises da maldita tuberculose que minava a cidade.   

Vendiam-se doces e biscoitos ao quilo, havia mesmo uma mulher das Cruzes (para os lados das Barrocas), que vendia “Caladinhos” (cornucópias recheadas de creme), mas a nossa predilecção ia para o homem das farturas, com um carro de bicicleta que tinha vidros de correr como uma montra, que cortava as farturas com a tesoura, polvilhava com canela e açúcar para vender a cinco tostões. Ao descer a íngreme rua da Glória, a preocupação maior deste homem, era travar bem o carro, para não acontecer como o Fausto varredor da câmara, a quem destravaram a carroça do lixo e o desgraçado do cavalo foi morrer contra o muro do hospital.

Nos dias de muito calor vinha um homem da Areosa que vendia água fresca da Fonte dos Cortiços, trazia um cântaro de barro coberto com eras e pendurado ao ombro por uma correia de cabedal. No Outono, não faltavam os vendedores de castanhas com cestos e saco de serapilheira e os “Castanheiros” que as assavam no carvão e ficavam cinzentas do sal. Na esquina do jardim do Marquês com João Pedro Ribeiro, mesmo à porta do Asilo do Terço (onde havia uma sala de cinema coberto com uma lona e que nos dias de chuva vinham homens, no intervalo do filme, com uns paus empurrar a lona para escorrer a água da chuva que empoçava), havia aí um assador de castanhas do feitio de uma máquina do comboio, que misturava o fumo com o nevoeiro da cidade.

Também haviam os homens que vinham da Régua com os cestos de rebuçados e na Primavera, vinham mulheres de Gaia vender “Camarinhas” que apanhavam no areal do Senhor da Pedra. Em Maio as vendedeiras de fruta traziam cereja de Resende, pêssegos do Douro e ameixas vermelhas, bem melhores das que apanhávamos das árvores do jardim da Praça da Republica. Neste jardim do “Campo”, assim como no de Arca de Água e do Marquês, o SNI (Secretariado Nacional de Informação, organismo criado durante o Estado Novo), organizava durante o verão, sessões de cinema ao ar livre. Sentado na relva nas noites de calor, vi: “O Cerro dos enforcados”; “Os Saltimbancos”; “Frei Luís de Sousa”; “Os Três da Vida Airada” e muitos outros filmes portugueses. Também cheguei a ir com a minha avó, ouvir a “Música do pau teso”, como ela chamava ás bandas de música que tocavam no coreto do Marquês, enquanto nos bancos do jardim, as “Sopeiras” e os “Magalas” namoravam.

Mas tudo isto foi no tempo em que se fumavam Definitivos, Provisórios, Paris, Três Vintes e outros que se vendiam avulso nos quiosques. Em que haviam jornais a 10 tostões como o J.N., Comércio do Porto, O Primeiro de Janeiro, Norte Desportivo e o Diário do Norte. Em que haviam revistas como O Século Ilustrado, Crónica Feminina, Modas e Bordados, Flama, Plateia e muitas outras que o Estado Novo nos impingia. Nessa altura, os livros do Vilhena eram proibidos e nem sei como se vendia o Cara Alegre que ás vezes trazia anedotas com desenhos de mulheres que nos deliciavam.

Nesse tempo, os nossos heróis eram O Mandrake, o Mascarilha, o Davy Crockett, o Buffalo Bill, o Príncipe Valente e outros que se lia aos quadradinhos no Ciclone, no Condor, no Mosquito, no Falcão, no Cavaleiro Andante e nas bandas desenhadas dos jornais, como o “Reizinho” do Primeiro de Janeiro, que eu recortava e colava tira a tira com sabão, para dar cinema numa caixa de sapatos com uma manivela de arame e cobrava aos outros a entrada na ilha a dois botões. Sim porque qualquer coisa servia para brincar. Com um simples fio estávamos horas a brincar à cama do gato. Com um caco riscava-se no passeio um quadrado e diagonais para jogar ás pedrinhas ou com regos na terra se faziam corridas com sameiras  (caricas em Lisboa) que para se tornarem mais pesadas se punham casca de laranja. As meninas jogavam à macaca ou á corda, mas... Sempre ao ar livre, nunca como hoje sentados nos sofás agarrados ás playstations.  

 


 

sábado, 3 de outubro de 2020

ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS" 5


OUTROS DIAS DE FESTA

 




Outros dias festivos eram nas férias da escola, os passados na Colónia (porque tive o privilegio de num ano, o sindicato a que pertencia o meu pai ter essa regalia). A Colónia era junto aos Socorros a Náufragos no Castelo da Foz, lá andávamos de babeiros ás riscas e panamá, brincando no areal da praia dos Ingleses com baldes, pás e ancinhos de chapa. Os jogos de praia eram nesse tempo, as construções na areia, o “Prego”, o “Anel” e o “Tesouro dos Piratas”.

Festa? Eram os dias de aniversário, principalmente os meus inesquecíveis seis anos, quando o meu pai me levou pela primeira vez ao cinema, ver o “Marcelino Pão e Vinho” no Coliseu com Pablito Calvo. Depois fomos ao café Palladium (onde quase trilhava os dedos na porta giratória que nunca tinha visto), para comer uma torrada e um copo de leite. Mas o melhor desse dia foi ao jantar, a minha avó deu-me bife com batatas fritas e um ovo estrelado. Foi um dia memorável.

No fundo, todos os dias eram de festa nas brincadeiras de rua com os meninos como eu: Jogando a bola de trapos, a casquinha, o hóquei com troços de couve, o peão, a sameira., á corda queimada, ás escondidas, aos Cow-boys, à Cabra cega e aos policias e ladrões.

Quem do meu tempo, não se lembra daquela célebre lengalenga:

Aniki bó-bó /  Aniki baú-bau / Passarinho totó

Cheribau, Cavaquinho / Salomão, São cristão

Policia, Ladrão 

Também brincávamos com as meninas ás “Casinhas”, ás rodinhas cantando o Manel Tim-Tim que era assim: 

Ó Manel tim-tim /  Ó Manel tim-tão

Dá-me a canastrinha / Dá co’cu no chããão

 

Ou a Machadinha que era assim:

        

Ah ah ah minha machadinha

Quem te pôs a mão sabendo que és minha

Sabendo que és minha, também eu sou tua

Salta machadinha p’ró meio da rua

 

Com as “catraias”, também fazíamos jogos como: Farinha olé, Prendinhas do Sr. Abade, Minha mãe dá-me licença? Reis e as Rainhas ou ao Bom Barqueiro. Esta brincadeira consistia em dois de nós de braços levantados e dando as mãos, formar um arco por onde os outros passavam em fila atrelados ás ancas a cantar:        

Bom barqueiro, bom barqueiro / Deixa-me passar

Tenho filhos pequeninos / Não os posso criar 


A que os dois barqueiros respondiam:

 

Passarás, passarás /Mas algum ficará

Se não for o da frente / Há-de ser o de trás 

E fechando o arco, aprisionavam o último da fila que se posicionava atrás de um dos barqueiros. Assim sucessivamente até que no final, cada barqueiro com a sua equipa puxavam com força, agarrados às ancas uns dos outros, até conseguirem separar o arco original.

Éramos felizes, quando corríamos pelas ruas de número nas costas preso com alfinetes e guiador de arame debruado a fio de cor. Quando juntávamos cromos de jogadores para colar na caderneta e jogávamos ao “virinha” com os repetidos. Para isso, batíamos com a mão em concha tentando virar os cromos e quando o cromo ficava em pé encostado a qualquer coisa, era “Esquinete”, mas quando alguém cuspia na mão para colar ao cromo, era batota. Passávamos horas a ditar uns aos outros os repetidos que trazíamos numas carteirinhas de cartão com fitas de nastro feitas por nós e que dobravam e abriam para os dois lados. Também com os repetidos metidos numa cova, jogávamos à “Coca”, atirando contra a parede uma moeda previamente côncava, tentando ficar o mais perto possível da cova. Também juntávamos os “Vitórias” com a esperança de obter um carimbado (o cabrito, a cobaia ou bacalhau), que vinham embrulhados em rebuçados a tostão e que podíamos ganhar uma bola de couro, quando conseguíamos encher a caderneta. Ás vezes as moedas que ganhávamos num recado feito ás vizinhas, eram desviadas para a confeitaria, para comprar cinco tostões de “Raleio” (que eram restos de pasteis e bolos que ficavam nos tabuleiros), ou então para a compra do Mosquito no quiosque do Melo.

Era uma festa dos afectos, quando meu pai nos aconchegava a roupa da cama, beijava-nos a testa afagando-nos o rosto e dizia: “Portem-se bem, não arreliem a vossa avó que está velhinha e cansada, ela tem-me ajudado muito a criar-vos, desde que a vossa mãe nos faltou.”

Também era uma festa, aquelas manhãs de domingo no verão, em que ia com meu pai e meu irmão no 17 até á praia do Molhe, brincávamos na areia enquanto ele lia o jornal no banco de pedra que ainda lá está no paredão. Voltávamos à hora de almoço cheios de apetite para o cozido.

Durante estes passeios de eléctrico, o nosso pai contava-nos acontecimentos sobre os lugares por onde passávamos, ensinando-nos muitas coisas. Lembro-me, ao passar no Pinheiro Manso, nos falar do ciclone de Fevereiro de 1947 (um sábado), que derrubou um enorme pinheiro manso que lá havia. Disse-nos ainda: Que a primeira linha de eléctrico do Porto, foi a da Restauração em 1895; Que em 1855 teve inicio na cidade a iluminação pública a gás; Que só em 1888 foi inaugurada a rede de distribuição de energia a particulares e que a rede de esgotos só foi instalada no Porto em 1907. Contava-nos feitos históricos, como a dos obeliscos que estão no jardim do Passeio Alegre, que vieram da Quinta da Prelada e por entre eles passaram os 7.500 soldados do exército liberal, os bravos do Mindelo. Eram lições de história, esses passeios com meu pai. Tenho a certeza que foi ele que incutiu em mim, este interesse, admiração e amor pela minha cidade.

Vi desaparecer ao longo do tempo, muitos locais da minha infância, onde joguei à bola, como a Quinta Amarela nas Antas. Onde vi o circo como o Campo do Luso. Onde vi ciclismo como o Estádio do Lima. Salas onde mais tarde vi cinema, como o Central Cine da Carcereira, o Odéon em Pinto Bessa, o Vitória na Circunvalação, o Cine Foz junto ao castelo e ainda, o Águia D’ouro, Olímpia, Vale Formoso, Trindade, Carlos Alberto, Terço, Júlio Dinis e muitos outros.

Cafés que foram pontos de encontro na baixa portuense, autênticas tertúlias de amigos em tempo de liberdade proibida, como o Palladium onde se jogava ténis de mesa, bilhar, damas e até tinha barbearia. O Astória, sala de visitas para quem chegava ao Porto pela estação de S. Bento. O monumental café Imperial que é hoje a MacDonal’s (mudança directamente relacionada, com a perda de influência do Porto enquanto centro de negócios, se até bancos, companhias de seguros e outras instituições foram deslocadas para Lisboa!) O Rialto frequentado por Egito Gonçalves, Papiniano Carlos, Daniel Filipe, Rebordão Navarro. Na mesma Praça de D. João I, havia o Odin que veio para S. Brás e era o café dos salgueiristas, muitos, muitos cafés que faziam parte do património cultural desta cidade.             

Cafés que também tinham engraxadores (ás vezes bufas) e tabacarias onde não se vendiam isqueiros a quem não tivesse licença. Era um Porto amordaçado, mas que a nossa imaginação não deixava morrer, como no café Cidade Nova em Costa Cabral, onde alguns amigos se juntavam depois de todos lerem o último livro da colecção “Vampiro” (sem as últimas 5 folhas), para adivinharem por dedução, o final do livro policial.  

Também existiu esplanada da “CUFP” que acabou (quando a fábrica da cerveja mudou para a Maia e é agora a UNICER), era ali junto à Praça da Galiza, onde se bebiam aquelas canecas gigantes de cerveja (as Girafas) e era muito frequentada pela malta que estudava como eu à noite, na escola industrial Infante D. Henrique.

Para os “Pregos em pão”, a malta tinha o café Pereira no Marquês. Para as Francesinhas, além da Regaleira (casa onde nasceram na década de 60 no Bonjardim), havia o Mucaba em Gaia e o café Portugal á entrada da rua Costa Cabral, que já não existem.

O Porto sempre foi especial na sua gastronomia, não se pode esquecer que foi nesta cidade que nasceram também o Bacalhau à Gomes Sá, criado pelo portuense José Luís Gomes de Sá Júnior falecido em 1926. E claro, temos as afamadas Tripas à Moda do Porto de onde herdamos o nome de “Tripeiros” desde que demos ao Infante todas as carcaças das reses para a campanha de Ceuta e só ficamos com as tripas para comer.

Mas voltando aos cafés antigos, mesmo os cafés que ainda resistem, como o Aviz, o Ceuta, o Progresso, o Estrela, ou ainda o Guarany, o Majestic e a Brasileira (recentemente remodelados), o Piolho, o Embaixador e outros, sentem imensas dificuldades, pois já pouca gente mora na cidade e ao fim da tarde, quando encerram todos os estabelecimentos, o Porto fica um deserto. Salva-se a “Movida” aos fins-de-semana.

Longe vai o tempo em que o Sérgio Godinho (que também nasceu no Porto) cantava ao contrário:

      Ai, eu estive quase morto no deserto

      E o Porto aqui tão perto...

            


 

ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS" 6


VIVER A CIDADE
 

 





A revolta e a saudade aumenta, quando vejo a cidade da minha infância ficar descaracterizada, dia para dia mais impessoal e principalmente a ficar desertificada. Quanto me dói a falta do verde, na avenida dos Aliados ou nos Leões, trocada pela cinza do empedrado. Ou todas as casas entaipadas que vejo pelas ruas quase desertas. Ou ainda, a tristeza das pessoa que têm que viver emigradas na sua própria cidade.

Esta êxodo da população, levada a cabo desde os anos 60 pela política de erradicação das “ilhas”, deu forma às ilhas ao alto que são os bairros sociais, mas não se interessaram das raízes culturais nem dos aspectos sociais dessas pessoas.

Esvaziaram o centro da cidade de gente, mas não requalificaram, nem reconstruíram nesse lugares, casas para manter as pessoas ligadas às suas raízes. Para ter qualidade de vida as pessoas devem ser felizes e as ilhas, embora fossem lugares insalubres, as ilhas sempre foram a ligação dos tripeiros ao seu bairro e á sua cidade.

As pessoas que habitam os bairros sociais, tinham aprendido pela sua experiência, que podiam tirar desse ambiente adverso em que viviam a sua felicidade. Levaram consigo os seus ideais de solidariedade e de bairrismo com a necessidade de se associarem para compensar as suas carências. Tentaram criar grupos desportivos, centros de convívio e outros, que pudessem agregar pessoas à sua volta para colmatar a falta dos amigos e dos vizinhos que deixaram ao serem separados do seu habitat. Alguns conseguiram, mas a maioria desagregou-se e já não conheciam ninguém como os vizinhos e amigos de tantos anos. Acabaram os grupo excursionista, o clube de futebol, os amigos do tasco e a caixa de vinte amigos.

Arrumaram a cidade para debaixo do tapete, como fizeram com grande parte do bairro da Sé para dar lugar á avenida da Ponte que ainda hoje continua com a escarpa como ruína. Muitas vezes o Porto foi governado, por quem não teve a sensibilidade de entender o bairrismo, essa palavras que muitos hoje acham “pirosa” e sem sentido, porque não conhecem o orgulho que sentem as pessoas da Lapa, de Aldoar, das Eirinhas, da Fontinha, da Sé, de Miragaia, da Vitória ou de Paranhos em serem desses lugares.

Os bairros eram uma espécie de fortaleza, era o nosso castelo, os miúdos da Lapa não brincavam com os do Monte Pedral. O rapaz que ia namorar uma rapariga da Areosa, tinha que pagar uns copos no tasco á malta de lá e mostrar que vinha em paz para ser bem recebido. Havia o nosso espaço, o nosso clube, a nossa gente. Mesmo no futebol, quando o Cruz ia jogar ao Progresso, ou o Ramaldense ia jogar ao Foz, alguns desentendimentos surgiam durante o desafio, no final do jogo tudo era superado com um “negus” (copo de tinto) e uma sardinha frita num bocado de broa.

A cidade, eram todos os bairros juntos, eram a comunidade orgulhosa de ser portuense, de ser bairrista. De trocar os bês e ser tripeira. A diferença hoje? É simples! Dizer: «O meu bloco», não tem nada a ver com aquele sentimento de brio e orgulho quando se diz: «A minha rua!».

Nesta era da globalização, o conceito de bairrismo, de vizinhança, e de solidariedade perdeu-se. Hoje há quem saia da garagem para fazer compras no supermercado do shopping, volte á garagem, suba no elevador e entre em casa, sem conhecer o vizinho do lado, nem saber na mercearia do bairro que o homem da senhora Aninhas está doente e que o merceeiro assentou no livro os doze tostões da posta de bacalhau demolhado que levou. Hoje há quem vá almoçar ao domingo á Póvoa, sem precisar de ir numa excursão. Hoje são os bancos que procuram clientes com ofertas tentadoras de crédito, já ninguém precisa de levantar dinheiro numa caixa de amigos, ou empenhar a coberta da cama para se valer numa aflição.

Cresceu o egocentrismo e a petulância dos políticos e o novo-riquismo de alguns, veio tapar a pobreza encoberta, a degradação dos princípios, o flagelo da droga, o aumento do desemprego e a ruína das famílias, para dar lugar a esta farsa de uma vida melhor, onde quatro quintos da população vive por decreto, com subsídios de inserção social, fundo de desemprego e pensões de miséria.

Acabaram com as escolas industriais, viveiros de instrução de onde saíram os serralheiros, os electricistas, os mecânicos e outras profissões, que começavam como aprendizes até serem mestres nas mais variadas profissões que agora ninguém tem, para darem lugar aos “doutores” em excesso, que depois de adquirirem o canudo, ingressam no exercito dos desempregados onde um quinto da população tem que sustentar, à custa dum sistema de previdência quase em ruína.

“A juventude não é boa nem má, é produto da época em que vive”, esta é uma frase do escritor Manfred Gregor. A juventude de hoje não é como a dos anos 50 e 60, mas é a que vive a vida que lhe dão, com outros obstáculos, com outras carências, que mesmo com toda a tecnologia actual, em certos aspectos, não sei se será mais feliz do que fomos.

A minha geração inventava os seus brinquedos de criança, desde a bola de trapos ao carro de rolamentos. A de hoje tem toda a panóplia de tecnologia, desde jogos de computadores, leitores de mp3, filmes de vídeo, telemóveis de 4ª geração, etc., mas não sabem como é bom viver ao ar livre, andar descalço, correr com o vento na cara.

A lembrança da opressão e das carências do passado, persegue os pais e avós de hoje, quando a liberdade e a democracia surgiram de braço dado com insegurança a falta de respeito e a quebra de princípios fundamentais da família. As crianças de hoje tornaram-se super protegidas, autênticos bibelots, já não se sentam no colo das mães nos transportes públicos e ocupam lugar deixando as mães em pé. Não vão de saca a tiracolo para a escola com os livros e a ardósia, hoje são os pais que carregam a mochila.

Os meninos agora não fazem arranhões que se curavam com uma folha de couve e azeite, não trazem os joelhos sujos de terra, nem põem papas de linhaça ou papel mata-borrão nas pisaduras, nem sequer comem sopas de vinho com ovos e açúcar para a anemia ou óleo de fígado de bacalhau para o raquitismo. Agora quando fazem dói-dói, têm pomadas, anti inflamatórias, antibióticos, vitaminas e outros fármacos. Os bebés não andam ao colo das mães, hoje há carrinhos, alcofas, sacos de lona com presilhas e cadeirinhas diversas.

As mamãs preferem dar leite em pó e outros produtos substitutos aos bebés, umas porque não têm tempo de dar de mamar aos filhos, outras porque têm medo de deformar a estética dos seios. Mas as crianças são mais felizes?

Ainda bem que juventude de hoje não enfrenta o medo cruel da guerra aos vinte anos, nem o desconforto de viver no obscurantismo dum pais decrépito e analfabeto. Mas, sabem enfrentar o dia de amanhã? Ou tornaram-se nuns meninos mimados e arrogantes, a quem tudo aparece feito sem qualquer esforço e ás vezes com tanto exagero, que os faz procurar para a vida respostas em atitudes cobardes como a droga?

Na minha geração três pessoas a conversar no passeio, era considerado um ajuntamento e logo o polícia dizia: “Toca a circular, toca a circular”. Claro que também era proibido beijar na via pública, mas o amor é melhor hoje? Ama-se mais que antigamente?

Sei muito bem que as preocupações hoje são diferentes, não acredito no estigma da geração rasca. A geração de hoje tem o que lhe dão, a falta de esperança, o desemprego, a insegurança, ainda a angústia de viver com o crédito da habitação a altos juros, a inflação no topo e o medo de constituir família, ter filhos e viver.

A corrida ao consumismo chega ao cúmulo de se importarem ideias para gastar o que não se tem. Agora dá-se muito valor aos americanizados dias de S. Valentim e das Bruxas (Halloween), por exemplo. As grandes superfícies comerciais, possuem corredores com alas inteiras de produtos impensáveis há 50 anos. Vejam o caso dos cães e gatos, com este súbito amor aos animais (ou moda?), vendem-se almofadas, alcofas, ossos de borracha, champô, escovas, alimentos diversos, lacinhos e outros artefactos. Abrem-se lojas para animais (pet-shop’s), clínicas veterinárias e hospitais para cães.

Inverteram-se os valores do racionalismo, os cães hoje até têm hotéis especializados e são agora mais importantes que os seres humanos, quando existem pessoas que dormem pelos passeios e remexem os contentores do lixo em busca de alimentos, em vez dos cães vadios ou os vira-latas do meu tempo. Tantos cãezinhos ao colo das madames e tantas crianças para serem adoptadas...

Mesmo a festa mais consagrada á família como o Natal, está a tornar-se uma corrida louca ao consumismo, quantas vezes com desperdícios enormes... Compreendo a euforia dos primeiros anos da revolução de Abril, em que os portugueses finalmente tiveram acesso a tudo que nunca tinha tido, desde as revistas pornográficas aos filmes proibidos como o “Último tango em Paris”. Já não era preciso ir comprar ás escondidas em Cedofeita, no Sérgio alfarrabista, o “Copacabana Posto C” da Cassandra Rios, nem ter 20 anos de idade para ver “Helga, o segredo da maternidade”. Também minha alegria foi enorme, quando pude comprar no Natal de 77, com o primeiro 13º mês que recebi na vida, uma caixa de “Legos” para dar ao meu filho. Recordo que fui eu quem brincou toda a noite, com aquelas peças de encaixar que me fascinavam há tantos anos.

        


 

ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS" 7


O MEU NATAL

 





Hoje o Natal modernizou-se, perdeu-se um pouco da magia desse dia. Embora durante muitos anos, tivesse a felicidade de ter a mesa cheia com filhos e netos, tirando a tristeza da minha filha Leninha que partiu muito cedo, penso muitas vezes no meu Natal de criança, onde não tive a presença de minha mãe, peça fundamental no “meu presépio”, o que me levou mais tarde a escrever: 

Ó minha mãe, minha santa / Se pudesses cá voltar

Tinha tanta coisa, tanta / Minha mãe p’ra te contar

Dos filhos tenho meiguices / P’ra compensar teus afectos

Ó minha mãe se tu visses!... / Que lindos são os teus netos

Saudoso de teu amor / Rezo à virgem por ti

Minha vida era melhor /  Se tu estivesses aqui 

Meu pai, minha avó e meu irmão, eram a minha família numa casa pequenina da rua da Glória. Meu Natal era simples, mas tinha um sabor doce e alegre, mesmo limitado por carências de toda a espécie. Mas isso, só mais tarde pude entender.

Logo no dia da mãe, no feriado de oito de Dezembro, meu pai fazia a árvore de Natal. O pinheiro era plantado em areia num vaso forrado a papel colorido. Eu e meu irmão ajudávamos, pendurando os enfeites que ficavam de uns anos para outros, pingentes, sinos e bolas de vidro coloridas, estrelinhas douradas e pequenos chocolates embrulhados em prata de cor com lacinhos de fitas douradas. Havia ainda anjos recortados em cartão e presos com linha, por fim, era colocado o terminal no carrapito do pinheiro. Passava-se depois à colocação de pequenas velas de cera, metidas em molas de chapa e presas ao pinheiro em locais precisos. Guardavam-se duas para a entrada do presépio. A árvore estava quase pronta, faltavam os fios prateados, os meridianos em volta do nosso mundo. Por fim, a neve que vinha comprimida num pacotinho de celofane, era aberta com cuidado e espalhada por todo o pinheiro como algodão finíssimo. Como era bonita a auréola de luz, que a chama das velas deixava por entre a neve artificial. Depois havia o presépio que meu pai construía com galhos, palha para o telhado, musgo e areia para o chão. Eram então colocadas cuidadosamente nos lugares, as figuras de barro que se comprava na rua d’Assunção. O burro, a vaca e os três reis magos, S. José e Maria, o pastor e o anjo da anunciação. O menino Jesus como só nascia na noite de 24 para 25, era guardado para essa hora. As velas eram acesas só nessa noite e ficavam a arder durante a toda a consoada.

O resto dos dias de Dezembro, eram passados numa ansiedade constante á espera da grande noite. Ficou-me até hoje essa sensação boa que me traz o Natal, não pela sua vertente religiosa (que me perdoem os crentes), mas pelo sentido humano da união familiar, o carinho, os afagos do meu pai, pela harmonia e paz vividos nessa noite especial de verdadeira magia. Pelo fim da tarde do dia da consoada. O cheirinho a canela espalhava-se pela casa. Minha avó fritava as rabanadas, fazia o creme e aletria onde desenhava traços com canela em pó. Eu e meu irmão de volta dela, esperávamos a hora de rapar o tacho e chupar as cascas do limão e paus de canela.

Nas noites próximas ao Natal, ia-mos para a rua com outros amigos, com o nariz vermelho e as mãos geladas, cantar as boas-festas pelos vizinhos, numa cantilena que era assim: 

Vimos dar as boas-festas / Boas-festas vimos dar

Com respeito ao ano novo / Temos muito que contar

Pastores, pastores / Vamos todos a Belém

Adorar o Deus menino / Que nossa Senhora tem 


Se nos davam umas moedas, agradecíamos:

 

A senhora desta casa / É bonita de raiz

Por nos dar a consoada / Tenha um Natal feliz

 

Se nem a porta abriam, então cantava-mos:

 

A senhora desta casa / É feia mas não importa

Não nos deu a consoada / Cagamos-lhe aqui á porta

      

Claro que não passávamos das palavras, mas ficávamos tristes por não ter uma guloseima (como agora com a americanice do Halloween) ou uma moeda para juntar ao “bolo” e depois dividir por todos. A noite era fria, bafejava-mos as mãos de volta a casa, onde havia o “borralho”, um balde de zinco com cinzas, que minha avó trazia da padaria “Porto” onde ela era padeira, no Largo Moinho de Vento.

Na noite da consoada, lá estava na mesa a toalha branca bordada por minha mãe (usada só em dias especiais), com pratos de nozes, avelãs e pinhões, pratinhos de creme, aletria e ainda a travessa das rabanadas. Havia o vinho do Porto, que o Júlio da mercearia oferecia aos clientes e o Bolo-rei, que o senhor Teixeira da “Cunha”, todos os anos dava ao meu pai. Lembro-me bem, quando eu ia à confeitaria em Santa Catarina, entregava-lhe o cartão do meu pai, ele lia e dizia para o empregado: «Embrulha um de quilo para este mariola!».

Para a ceia, vinha sempre a Ermelindinha, uma senhora que vivia sozinha e minha avó sempre convidava. Quando chegava a hora de fazer o molho no prato, com azeite, umas gotas de vinagre, pimenta e muitos alhos, começava a sentir água na boca. Minha avó chegava com a atravessa de batatas, bacalhau, pencas e grelos a fumegar, servia-nos e dizia: «Comam com Deus e bom Natal a todos». E meu pai dizia: «Nesta noite posso estar teso, mas faço tudo p’ra que não falte nada em casa» E acendendo as velas na árvore, beijava cada um de nós dizendo: «Bom Natal a todos». O resto do serão era passado a jogar o Rapa com pinhões. Tratava-se de uma pequena piasca de madeira de quatro faces, cada face tinha uma letra: R de Rapa, T de Tira, D de Deixa, P de põe. A cada jogador era distribuído uma quantidade igual de pinhões, cada um rodava a piasca na sua vez, executando a ordem que lhe cabia em sorte. Partiam-se nozes que se iam comendo, junto com peras e figos secos que a dona Ermelinda trazia sempre.

Nós, os mais pequenos já sonolentos, ansiávamos pela manhã para ver os brinquedos na chaminé. Chegada a meia-noite, era hora de colocarmos na manjedoura do presépio o menino Jesus, e só depois íamos dormir.

Pela manhã, corríamos ao fogão onde tínhamos deixado as botas de carneira (aquelas em que passávamos sebo por causa da chuva), esperando a prenda do Pai Natal. Lembro-me duma caixa de lápis de cor e um livro com figuras para colorir, duas espadas de chapa com bainha, com que eu e meu irmão tanto esgrimamos, depois de nosso pai nos contar as aventuras dos três Mosqueteiros. Nessa altura, já começava a compreender as dificuldades que meu pai tinha (e não o Pai Natal), para comprar brinquedos.

Como já disse atrás, naquela época nós inventávamos os nossos brinquedos, com as coisas mais simples que tínhamos á mão imitava-mos os grandes heróis. Bastava um jornal para fazer o capacete e uma vareta de guarda-chuva com um fio forte, para fazer um arco e flecha para imitar o Robin dos Bosques. Com umas tábuas tiradas dum caixote de sabão e alguma habilidade, construía-se um bom carro. Depois haviam os extras: Napa para o acento e costas, um bocado de pneu para o travão, tecido para forrar a corda da direcção para não aleijar, mas o principal eram os rolamentos que comprávamos no farrapeiro na Trindade.

Para conseguir dinheiro para tal compra, passávamos tardes inteiras de sábado aos chumbinhos que caíam na rua de Salgueiros, quando havia tiro aos pombos no Clube de Caçadores no Monte Cativo. De colher em punho, tirávamos a terra em volta dos paralelos, passávamos depois de mão para mão sempre a soprar, até a terra sair e ficarem só os chumbos por serem mais pesados. Quando a latinha estava cheia, levávamos ao farrapeiro que pesava o chumbo até ter o necessário para os rolamentos. Grandes corridas se faziam pelos passeios, imitando o Sterling Moss, ou o Filipe Nogueira nas corridas de 1958 no Castelo do Queijo.

Na manhã do dia de Natal, a criançada lá da rua juntava-se, para mostrar uns aos outros os brinquedos que ganharam do Pai Natal. Éramos todos amigos, unia-nos a alegria e os sonhos numa meninice, onde a alegria de ser menino se media pela solidariedade de todos terem com que brincar, mesmo que fosse pouco.      

 


 

ENQUANTO ME LEMBRO...