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terça-feira, 27 de outubro de 2020

CHÁVENA COM HISTÓRIA



 

CHÁVENA COM HISTÓRIA


 



CAPÍTULO 1





INTRODUÇÃO

Esta é a saga de duas famílias, com um traço de união entre elas, mas que durante mais de oitenta anos nunca se conheceram e bastou uma simples chávena, para que um dia se encontrassem numa esquina do tempo.

Os verdadeiros nomes dos intervenientes foram alterados e outros inventados por desconhecimento dos mesmos.

A parte final da história, também foi ficcionada. Primeiro, porque é quase desconhecida uma das famílias. Segundo, porque era assim que eu gostava que tivesse acontecido.

 

                                                                                       O Autor

 

 

 

 

 

 

GUIMARÃES

Trata-se de um estojo com mais de cem anos e passou por quatro gerações. É em madeira de nogueira alemã, envernizado e com um lindo fecho de prata. A tampa é adornada em cantos opostos, por dois motivos florais cinzelados, também em prata, destacando-se em diagonal ao centro e em letra gótica, a palavra “Kaffee”, (café em alemão). O interior da caixa é forrado a veludo vermelho e está dividido em seis partes, cada uma guarda uma chávena de porcelana, tendo por dentro da tampa umas presilhas que prendem seis pires, três de cada lado. As peças com belos efeitos decorativos, a bege e verde-mar pintadas à mão, com uma orla em ouro de 18 quilates, foram produzidas na tradicional fábrica de porcelanas Heinrich, na cidade de Selb, na Bavária e têm a marca “Germânia”. Os cinco pires ao centro têm pintado em finíssimas letras pequenas, os nomes dos membros da família: José; Adelaide; Cecília; Leonor e Noémia. O sexto pires, assim como a chávena, não existe... É que... Durante 87 anos, entre 1922 e 2009, este estojo esteve apenas com cinco chávenas, sem nunca se saber que destino levou a que faltava, até que um dia...

    

Este estojo de chávenas de café foi uma das prendas de casamento que Adelaide Coutinho de Albuquerque recebeu, no dia 15 de Agosto de 1906, quando acrescentou ao seu nome “dos Santos”, ao contrair matrimónio na igreja de S. Tiago, matriz da paróquia de S. Tiago de Gesta, em Guimarães, com José Medeiros dos Santos, antigo empregado e na época, gerente da fábrica de lanifícios de seu pai, o eminente industrial do lugar, Armando Coutinho de Albuquerque.

De olhos lindos, esverdeados como a mãe e a longa trança loira enrolada na nuca, de vestido branco, véu e grinalda, Adelaide não cabia em si de contente, naquele dia da Senhora de Assunção, em que finalmente se uniu ao grande amor da sua vida, com quem começou a namorar à quatro anos atrás (primeiro às escondidas), ainda sua mãe era viva, apesar dos maldizentes boatos que corriam no lugar, a cerca das aventuras do mulherengo José de Medeiros. Seu pai, que a princípio se mostrou um pouco relutante em perder a sua princesa, cedeu ao pedido de José Medeiros em lhe dar a sua mão, com a promessa de ficarem a viver lá em casa no solar de Gesta, magnífica e bucólica propriedade herdada da família Albuquerque e que devia o seu nome ao rio que a atravessava, o Gesta.

Armando Coutinho de Albuquerque, sabia do valor e da tenacidade que José sempre punha no trabalho, tinha-o demonstrado várias vezes e mais uma vez agora, ao ser um dos principais e o mais acérrimo impulsionador da introdução em Janeiro desse ano, da energia eléctrica em São Tiago de Gesta e na fábrica que até aí, trabalhava com teares movidos a vapor. Tinha perdido a esposa à três anos atrás e a idade já lhe pesava nos seus 70 anos. Gostava do José Medeiros como um filho e tinha esperança que fazendo dele seu genro, havia de perpetuar a Fábrica de Lanifícios S. Tiago para além da sua existência. Reconhecia nele a fibra de um líder nato e com dotes próprios de quem sabe enfrentar as vicissitudes e comandar com diplomacia. Enfim... José Medeiros era o filho que nunca teve. Conheceu-o, ainda era um rapazinho de doze anos, quando ajudava nos trabalhos de construção do stand com que orgulhosamente a sua fábrica marcou presença no extraordinário certame, que foi a Grande Exposição Industrial de Guimarães em 1884. Nessa época, ainda com 48 anos, andava feliz com o nascimento da sua Adelaide e com o progresso da sua fábrica de lanifícios, construída como o seu poder empreendedor e que empregava já, mais de metade da população de S. Tiago de Gesta, dando um forte incremento à industria local e de Guimarães em geral, que lhe mereceu a atenção do Reino e de Sua Majestade o Rei D. Carlos I, com uma comenda.

O Sr. Armando Coutinho de Albuquerque, sentia orgulho na comenda, até o semanário de Guimarães já lhe chamava: “Comendador Albuquerque”, mas não era coisa que lhe toldasse os sentidos, ou o fizesse esquecer as preocupações que sentia em relação a outras mais importantes. Andava preocupado com a situação que se vivia no país, principalmente com as noticias que chegavam ao norte através do jornal “Vimaranense”, sobre o pedido de demissão de Hintze Ribeiro a D. Carlos e com a nomeação de João Franco para formar o governo. Segunda a noticia, aparentemente algo se passara alguns dias antes, o Rei havia proposto ao chefe do executivo, um certo entendimento com os republicanos, que não colhera as simpatias de Hintze Ribeiro. João Franco, tinha apresentado o seu programa de governo na sede do seu partido em Lisboa, o que era inédito em termos de política portuguesa, dizendo querer governar à inglesa, isto é, com energia, mas dentro do espírito das leis, com mão suave e firme. Proclamava até a tolerância e a liberdade para o país compreender a monarquia. O Comendador Albuquerque, tinha consciência que a Monarquia estava por um fio, desde a 1ª acção militar levada a efeito, com a revolta no Porto a 31 de Janeiro de 1891, já lá iam quinze anos.

 

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CAPÍTULO 2




José Sebastião Medeiros dos Santos, filho de uma humilde família de Azurém, nasceu a 14 de Dezembro de 1872 e foi baptizado a 20 de Janeiro, dia de S. Sebastião padroeiro do lugar. Desde novo mostrou aptidão para as contas e aos 12 anos já trabalhava na fábrica São Tiago como moço de recados. Foi aí, que já um homem feito, disputado pelas moçoilas casadoiras que passeavam no jardim do Turel, ou se exibiam na festas de S. Torcato, que o então exímio mecânico de teares, conheceu Adelaide, no último dia do século XIX, se bem que era de opinião, que o último dia do século só seria o 31 de Dezembro de 1900. Mas nesse ano de 1899, o fim do ano calhou a um sábado e ao fim de mais um dia de trabalho, o patrão fez uma reunião com todos os operários, na presença da esposa e da filha, distribuindo gratificações e agradecendo a todos a colaboração no engrandecimento da Fábrica de Lanifícios S. Tiago, fazendo votos de progresso para o novo século. Tinha José 27 anos e Adelaide 15. Só daí a quatro anos se começaram a encontrar às escondidas e só no ano de 1903, tiveram permissão para namorar, seis meses depois de sua mãe falecer, até que no ano de 1906, o José com 34 e a Adelaide com 22 casaram. Era vontade dele casarem na capela de Santa Barbara de quem era devoto. Juntamente com seus pais, nunca faltou a uma missa ou a uma festa no dia da padroeira das tempestades e trovões. Mas a vontade de Adelaide e do pai prevaleceu e a cerimónia foi na igreja de S. Tiago, onde os ancestrais da família Albuquerque sempre se tinham unido pelos respeitosos laços do matrimónio, há muitos anos atrás.
Foi uma cerimónia bonita, a que não faltaram os convidados de ambas as partes, embora do lado humilde de José Medeiros, se notasse que não se sentiam muito à vontade naquelas jaquetas apertadas, num dia de calor de Agosto como aquele. Não fora o banquete bem bebido à sombra dos amieiros na margem do idílico rio Gesta e os convivas tinham suado as estopinhas.
A festança correu até às tantas e já um lindo céu de tons vermelho carregado morria por trás dos ciprestes, quando Adelaide e José se recolheram ao quarto de núpcias, entre beijos e promessas de amor. O Comendador Albuquerque nessa noite, foi pernoitar ao hotel “Portucalense” na cidade, para deixar os pombinhos à vontade no solar, não sem antes passar pelo bar da Associação dos Industriais de Guimarães, para oferecer aos amigos charutos e fazer brindes à felicidade da sua “princesa” Adelaide.
O Sol do novo dia já ia alto, quando José Medeiros veio encontrar a esposa de robe na sala, desfazendo os embrulhos de laços coloridos das prendas que receberam na véspera. Uma das caixas brilhava com o verniz bem lacado, era um estojo de café que logo mereceu lugar de destaque em cima do aparador, junto de outros serviços de porcelana fina.
Adelaide que tanto ansiava não conseguia engravidar, mas nunca perdeu a fé com preces a S. Tiago e levava à risca as recomendações do Dr. Clemente, até que em Julho de 1909, foi com muita alegria que anunciou ao marido que esperava um filho. José Medeiros não coube em si de contente, apesar das preocupações que agora o afligiam em tomar definitivamente o destino da fábrica em suas mãos. Tinha acontecido, a partir do dia em que uma grave doença prostrou o Comendador em Dezembro de 1907. No ano seguinte, andava o país em alvoroço pelo assassinato do Rei D. Carlos a 1 de Fevereiro. O sogro ainda esteve dois anos acamado, mas o seu estado agravou-se e a doença levou-o com o advento da Republica, um mês antes de conhecer a neta a quem puseram o nome de Cecília (nome da mãe de Adelaide) e que nasceu a 20 de Abril de 1910.
O parto foi difícil, Adelaide andava fraca, tinha perdido seu pai muito querido há pouco tempo, mas a vinda daquele anjo de cabelo loirinho à sua vida, fez com que ganhasse ânimo e ser uma mãe sempre presente ao lado da sua bebé, ao contrário de José Medeiros que agora se tornara mais ausente com preocupações na fábrica, na política e outras coisas que ela ouvia os criados cochichar, mas que Adelaide não queria acreditar.
José Medeiros era um galante, altivo e bem-apessoado com seu bigode imponente, um elegante cavalheiro que facilmente seduzia as mulheres, principalmente aquelas da alta-roda vimaranense, que frequentavam os salões de chã da cidade ou o clube da Associação Comercial e Industrial de Guimarães.
Com a fundação do Banco de Braga, no ano de 1912 (por coincidência ou mau presságio, na mesma segunda-feira dia 12, em que o “Titanic” se afundou ao norte do Atlântico), o comércio e a indústria do distrito conseguiram um novo incremento em todas as suas vertentes.
O Dr. Manuel de Arriaga era agora o 1º Presidente da Republica constitucionalmente eleito e todos ansiavam a estabilidade do país. José Medeiros, que na época já era considerado um conceituado industrial de Guimarães, tinha montado escritório na cidade para estar mais próximo do telégrafo e outros centros nevrálgicos que em S. Tiago de Gesta não tinha acesso. Levava a vida entre a fábrica e o escritório, negligenciando um pouco a sua vida familiar, onde praticamente só ia dormir e muitas vezes tarde da noite. Empregava agora a quase totalidade da povoação de S. Pedro e muitos de lugares vizinhos. Tinha conseguido um contrato de exportação para Inglaterra, onde a qualidade do linho dos seus afamados lençóis tinha chegado. Assim, os Lençóis S. Tiago solidificaram a sua marca no exterior, com a ajuda de grandes investimentos em novas tecnologias, a maior parte deles financiados pelo novo Banco, que punha à disposição dos industriais mais afoitos os seus serviços, visando como sempre, auferir dos lucros que daí advinham.
O tempo foi passando com o espectro da guerra a pairar sobre a Europa. Adelaide, depois de rezas e muitas promessas a S. Tiago e S. Torcato, ficou de novo grávida para grande alegria do marido e deu à luz a segunda filha do casal no dia 14 de Outubro de 1914, a quem deu o nome da avó paterna, Leonor. José Medeiros sentiu-se desiludido, por ainda não ser desta vez que a sua Adelaide lhe dava um rapaz, que ele muito desejava para herdeiro do seu império. Adelaide desabafava com Joaquina, a antiga criada de seus pais, falava-lhe do quanto sofria, em ver nos olhos do marido a sua tristeza, rezavam juntas e faziam promessas, pedindo a S. Tiago que trouxesse àquela casa um menino.
Um dia, Adelaide questionou-o sobre a sua tristeza e quase indiferença dele, José para lhe demonstrar agrado, mandou pintar em Barcelos, sem ela saber, em quatro pires do serviço de café que ela tanto gostava, os nomes da família: José, Adelaide, Cecília e Leonor. Quando dias depois a surpreendeu com um beijo e com o estojo na mão, disse-lhe:
— Ainda temos dois pires! Havemos de tentar até Deus nos dar um filho homem. Adelaide ficou radiante com a ideia, mesmo sabendo o quanto sofria por tentar mais uma vez engravidar. Conservava o estojo aberto, dentro da cristaleira da sala, junto de outras peças de cristal e serviços de faiança da Vista Alegre, que desde 1824 tinha intensificado o aperfeiçoamento de finas e lindas porcelanas portuguesas.
 

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CAPÍTULO 3




AMARANTE
 
Distante dali mais de seis léguas e meia, no lugar de Carreiro do Rei em Amarante, Clara Menezes de Castro, viúva e com uma filha de 12 anos, pensava na forma de dar um novo rumo à sua vida de miséria. Vivia entre o campo e a quase escravidão de “servir” senhores da terra, ansiava partir para outros lugares. Tinha 32 anos, nascera no Lugar de Lindar a 1 de Maio de 1882, conhecera o Samuel no areal da praia do rio Tâmega em Larim, num domingo quente de Julho. Servia na época com vinte anos e desde os treze, numa casa senhorial na Vila de Amarante. Era a terceira filha de sete irmãos e era com ansiedade que os pais a queriam “arrumada”. Casou grávida de quatro meses, no dia da Feira do Cavalinho a 12 de Julho de 1902 na Igreja velha de Lindar. Ficou a viver em casa da sogra, uma velha rabugenta e viúva que não gostava dela. O marido que em Outubro desse mesmo ano assentou praça no Regimento de Infantaria 18, no Campo de Santo Ouvidio no Porto, teve a infelicidade de ser mobilizado para Angola no ano seguinte, para fazer parte do regimento que embarcou no Douro, primeiro para Lisboa e depois para Luanda. Esteve presente no desastre militar de Pembe, de onde saiu com as pernas decepadas por o rebentamento dum obus.
 
«Foi a 25 de Setembro de 1904, que se produziu a maior derrota dos portugueses em África. No sul de Angola, a cerca de 500 quilómetros da costa, quando uma coluna comandada pelo governador da Huíla, João Aguiar (de que fazia parte Gomes da Costa, mais tarde famoso pela revolução portuguesa de 1926), se internou para lá do rio Cunene, através do vau do Pembe, numa campanha de início contra a poderosa tribo dos Cuanhamas. Os soldados portugueses, foram apanhados numa emboscada, caíram às mãos de outra tribo do grupo dos Ambós, os Cuamatos, que deixaram no local centenas de mortos».
 
 
Samuel foi enviado para casa, onde veio a falecer quatro anos depois, levado pela bebida onde afogava o desgosto, de não ser mais um homem normal e ter que ser empurrado numa cadeira de rodas cedida pelo exército. A filha Isabel tinha seis anos e Clara ficou com uma parca pensão para sustento da filha. Ainda aguentou a trabalhar dobrado, entre a cozedura de pão num forno de Padronelo e como cozinheira numa casa da vila durante 12 anos. Passou pelo racionamento de géneros alimentícios provocados pela guerra, apesar de menos sentido no interior do país. Passou ainda pela “Pneumónica” de 1918, que lhe levou a sogra, mas infelizmente também lhe levou os pais e um irmão, Essa peste que só no norte fez quase 45 mil mortes e desencadeou uma grave crise demográfica no país.
Clara trabalhou até onde pôde, mas a vida era bem adversa, vivia só com a filha, seu irmãos viviam longe, dois tinham ido para o Porto e outro vivia em Salvador, do outro lado da Vila e a irmã mais velha tinha casado, indo viver com o marido para Lisboa. A única companhia de Clara além da filha, era a sua comadre Florinda que tomava conta da pequena enquanto trabalhava. Até que a sua amiga de infância Clotilde, numa das vindas a casa, na festa da Senhora de Lindar, a convenceu a mudar de vida e ir trabalhar para Guimarães, pois sabia de uma família nobre que precisava de cozinheira. Clara ainda hesitou, mas perante a desdita em que vivia, tomou uma solução. Fez uma trouxa, vestiu a sua melhor saia de cotim e a sua blusa de chita, pôs o xaile pelas costas e depois de deixar a filha já moçoila, entregue aos cuidados da madrinha, partiu na camioneta da carreira com a Clotilde para Guimarães a 9 de Agosto de 1920. À passagem por Celorico, Clara ainda soluçava, mas ao passar por Fafe já limpara as lágrimas, arregaçara as mangas disposta a enfrentar a sua nova vida.
 

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CAPÍTULO 4





GUIMARÃES
 
 
Era uma quarta-feira dia 11 de Agosto, quando Clara entrou ao serviço da família Santos em S. Tiago de Gesta. Além de cozinheira, ajudava a Joaquina nas tarefas da casa e como tinha jeito para as crianças, foi ama de Cecília e da Leonor, que nesta altura já tinham 10 e 6 anos. Embora a mais velha na maior parte do dia, estivesse ocupada com a professora dona Mercedes, no estudo do português, francês, história e piano. Sua patroa, dona Adelaide Albuquerque dos Santos, era uma santa senhora, andava grávida de dois meses e rezava aos céus para que desse à luz um menino que o marido tanto desejava. Clara fazia com a senhora longos passeios em landau pelas redondezas, nas tardes amenas de primavera. Paravam na ermida de Santa Barbara para orar, Clara pedia a São Gonçalo, que guardasse a sua filha de maus caminhos e Adelaide pedia a São Tiago que lhe desse o filho que José tanto queria. Foi num desses passeios, que um dia Dona Adelaide mandou o velho Arménio parar os cavalos e pediu a Clara que lhe fosse buscar um chorão (planta de cultura espontânea a que também se dava o nome de monco-de-peru), para que pudesse trincar, pois era esse seu desejo de mulher grávida. Coisas que o povo leva muito a sério...
 
O tempo passou e no dia 14 de Fevereiro de 1921, com José Medeiros preparado com charutos para os amigos, nervoso de ansiedade e roendo as unhas de desespero, andava pelos corredores à espera de ouvir um choro de criança que fosse o rapaz que tanto queria, gritando por novas a Joaquina e Clara, que ajudavam a parteira e o velho doutor Clemente, naquele acto misterioso de dar à luz. Ao fim de longas horas de ansiedade, ecoou pela casa um choro de criança vinda ao mundo e José no corredor deu saltos de alegria, perguntando aos gritos se era um barão. Até que o bom doutor Clemente saiu do quarto a descer as mangas com cara de desalento, para dar as tristes novidades ao seu amigo de tantas cavaqueiras. Tinha nascido mais uma menina, linda e bem formada, mas... a sua Adelaide não aguentou e Deus tinha-a chamado à sua presença esvaída em sangue e sofrimento. José Meneses era pai pela terceira vez, mas para sua desventura, acabava de ficar viúvo e sem um barão legitimo herdeiro dos seus sonhos. Desde os tempos mais primitivos que o filho (barão) primogénito, ocupava uma posição honrada na família e era aquele que sucedia à chefia da casa. Ele herdava uma porção dupla da propriedade do pai. Como diz o provérbio indiano: “Todo o pai nasce de novo, num filho seu”.
 
Dona Adelaide foi sepultada no jazigo de família no cemitério de S. Tiago e José Medeiros andou um tempo cabisbaixo, bebendo e fumando sem sair do quarto nem para comer. Diariamente um moço de recados, trazia-lhe uma pasta de documentos e o correio que se amontoava, José de Medeiros desmotivado nem os lias, deixando-se abater pelo desânimo. Até que um dia e depois da visita de alguns amigos que à muito notavam sua falta, convenceram-no a enfrentar a vida, quanto mais não fosse, pelas filhas e pelo pessoal da fábrica que ele tanto estimava. José acordou daquele torpor, mandou preparar um banho, vestiu-se elegantemente, beijou as filhas recomendando a Joaquina e Clara a governação da casa e partiu para a fábrica. As preocupações pessoais não se podiam sobrepor ás do trabalho, ergueu a cabeça e atirou-se ao trabalho com afinco.
     
“A guerra tinha terminado há três anos e durante o período, de 1914 a 1918 em que decorreu a 1ª Guerra Mundial, Portugal proclamou a sua aliança com a Inglaterra em 7 de Agosto de 1914 e pediu para entrar nas operações militares contra a Alemanha. Em 17 de Setembro partiu uma primeira expedição para reforçar as colónias em África. Em Fevereiro de 1916 Portugal apresou os barcos alemães que estavam nos seus portos, e a Alemanha declarou-lhe guerra a 9 de Março. Um submarino alemão bombardeou a cidade do Funchal na ilha da Madeira, em Dezembro de 1916, o que causou grande emoção em Lisboa. Foi então que uma expedição portuguesa, o CEP – Corpo Expedicionário Português, partiu para a frente ocidental em 1917, sob o comando do General Tamagnini de Abreu; em 9 de Abril de 1918, ficaram debaixo de forte ataque alemão na batalha de La Lyz, onde morreram muitos portugueses.  O total de efectivos portugueses enviados para a França, entre 1917 e 1918, foi de 55.083. Tivemos 2.086 mortos e 5.524 feridos, o custo do baptismo de fogo, que o governo da República insistiu dar a Portugal para defender o seu Império Colonial”.
     
Estávamos em 1921 e embora surgisse uma grave crise financeira na Europa do pós-guerra, outros mercados nasciam para serem conquistados. José de Medeiros iniciou contactos com a América do sul e firmou contactos com o Brasil.
      
“Em Portugal, as greves começaram a constituir palavra de ordem. Em Agosto de 1922, à greve geral contra a carestia de vida, seguiram-se outras levadas a cabo ao longo do ano de 1923. As eleições sucediam-se. António José de Almeida chegou a dar posse a dezasseis chefes de governo. Só entre Janeiro de 1920 e Março de 1921, sucederam-se sete. No ano de 1921, investiu mais seis. O ano de 1922 foi reservado para três governos de António Maria da Silva, conseguindo-se finalmente uma certa acalmia”.
 
Os compromissos com o banco sucediam-se nas datas acordadas e José Medeiros aguentava a investida, chegando a vender alguns bens, como a propriedade de S. Torcato, que tinha comprado anos atrás para as filhas. Segurou os seus operários como pode, dando-lhes confiança e prometendo-lhes melhores dias. Na Europa, a matéria-prima começava a escassear e foi obrigado a importar algodão dos Estados Unidos e da Argentina, para manter a fábrica em elaboração.
Por casa, as empregadas iam tratando das filhas, com a supervisão da Clara, agora mais governanta que criada. José Medeiros começou a olhá-la com mais atenção e chamava-lhe Clarinha na intimidade, sim, porque não levou muito tempo, que José Medeiros começasse a arrastar a asa nas noites em que ficava em casa. Clara era uma mulher bonita e sem o avental e a touca engomada, de blusa de chita aos folhos e com sua longa trança desfeita, José começava a reparar nas suas formas bem femininas, que lhe turvava os sentidos, até ao dia em que não se conteve e a levou para a cama. Clara engravidou e apesar de pensar que era um homem livre, os preconceitos da época não o deixaram assumir um passo mais corajoso. Passava o ano de 1922, a Cecília já tinha 12 anos e a Leonor 8, não iam compreender o seu gesto, tão perto da morte da mãe, apenas tinha passado um ano. A 20 de Maio, depois de arranjar, por intermédio de um cliente amigo, uma casa modesta, mas bem apetrechada de conforto, na freguesia de Vilar no Porto, partiu com a Clara grávida de um mês e de malas cheias para lhe pôr casa, Queria fazer dela uma mulher à sua altura, havia de voltar dali a uns anos a Guimarães, casado e com o seu filho nos braços, sua meninas haviam de compreender. Tinha a convicção que Clara era a mãe do seu rapaz, tinha tanto a certeza disso, que meteu ao bolso, embrulhado em papel de seda, uma chávena e um pires do serviço de café da família e lhe deu para guardar como primeira prenda para o filho. Clara compreendeu a atitude de José Medeiros e acreditava nas suas intenções, era por pouco tempo, talvez dois anos e voltaria casada, depois, tinha grande fé em Santo António, que o filho que trazia no ventre, seria um rapaz.
José de Medeiros, deixou-a na sua nova casa com dinheiro suficiente para o que precisasse, depois de contratar uma tal dona Rosinda para lhe fazer companhia e ajudá-la com a casa, partiu com a ideia que estava a fazer o melhor. Chegado a São Tiago, mandou pintar no quinto pires do estojo de café, o nome da terceira filha, Noémia, que era o nome de sua avó materna de Chaves. Fez crer às filhas e à resmunguenta Joaquina, que Clara tinha regressado a Amarante com graves problemas familiares. Só o fiel motorista Macedo, tinha conhecimento do sucedido, embora Joaquina com a sua experiência de vida, ouvidos atentos e sabedoria intuitiva, também soubesse mais, muito mais que aquilo que o patrão pensava.

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CAPÍTULO 5



PORTO 
 
A 20 de Janeiro de 1923, por coincidência ou destino, no mesmo dia do pai, a Clara deu à luz no Hospital de Santo António no Porto, um rapaz. José Medeiros mal soube, apresentou-se no Porto desvairado de alegria, não lhe faltou com nada e proporcionou-lhe toda a assistência necessária. Passado alguns dias, ordenou de novo ao motorista Macedo que o levasse ao Porto, transportando na mala do carro um enxoval completo para o filho. Na altura tinha um “Panhard” modelo “Labory” de 1920, que em pouco mais de duas horas e meia, o pôs de Guimarães a Vilar. Não cabia em si de contente, finalmente tinha um filho! Deixou algum dinheiro á Clara e a promessa que mal pudesse e os negócios o deixassem, viria visitá-la de novo, ou mandaria o Macedo com novas provisões. Não queria que nada lhe faltasse, a ela e ao filho, mas... explicou-lhe que era melhor para já, registar o menino como filho de pai incógnito, com a promessa de mais tarde o perfilhar, era só até poder acautelar o património das filhas em relação às dívidas que entretanto se tinham acumulado com o banco. Clara registou a criança na Junta de Freguesia de Vilar como: Maciel Meneses de Castro, filho de Clara Meneses de Castro, viúva e natural de Lindar, Amarante, sendo filho de pai incógnito. 
Clara tinha muitas vezes a visita de Macedo com o envelope lacrado com dinheiro e palavras escritas, que dava à dona Rosinda para ler por ser analfabeta. José Medeiros, apenas a visitava mês a mês, sempre para passar a noite, leva-a a passear a Cadouços e à praia dos ingleses, acompanhado de Rosinda que levava o Maciel num carrinho de bebé. Deixava o aluguer pago, e partia depois de beijar o filho, babado por finalmente ter a quem deixar o seu império, que embora periclitante, tinha fé que as coisas melhorassem de novo.
Mas no ano de 1924, os negócios não andavam nada bem, as dividas ao banco e mesmo a alguns fornecedores, acumulavam-se.
 
“A Crise no país agudizou-se, com um crescendo de insegurança e da instabilidade política. A carestia de vida afectava essencialmente os operários, que mobilizados pelas correntes sindicais, provocavam manifestações como a 22 de Fevereiro que descambou em violência e confrontos. A 14 de Julho registam-se em Lisboa confrontos entre militares, envolvendo o Exército e a Guarda Nacional Republicana, a que se dizia, não estarem alheias movimentações de tendência fascista. Em 1925 os golpes militares sucederam-se e a crise agudizou-se”.
 
José Medeiros repara que seu filho, agora com dois anos, não anda bem e pede a Clara que o leve a uma consulta ao Dr. Aragão, seu velho amigo de Guimarães, a exercer medicina no Hospital da Ordem da Trindade. O menino, além de chorar muito, tem febre alta, vómitos, diarreia e não se tem de pé. Ele que já começava quase a andar... O médico, depois de o ver atentamente, envia-o com urgência para o Hospital de Santo António, onde é diagnosticado ao pequeno Paralisia Infantil.
      
“Na época ainda não se tinha descoberto a cura para esta infecção viral causada pelo poliovírus, que deu o nome à Poliomielite. Não haviam antibióticos específicos para esta doença que geralmente afecta as pernas  atrofiando os músculos. Só muito mais tarde, em 1955 Albert Sabin e Jonas Salk descobrem a vacina que ainda hoje (a de Sabin) é administrada por via oral e obrigatória a todas as crianças”.  
José Medeiros desanimava, mais uma vez Deus lhe negou o herdeiro que ele queria, ou seria castigo? Ou seria mais um desafio na sua vida? Não, ele não queria ver um aleijado à frente do seu império e começou lenta e covardemente a desviar-se das suas obrigações. Muitas vezes no quarto, sozinho com a sua consciência, soluçava de impotência e raiva. Joaquina ouvia através da porta o pranto abafado do patrão, batia levemente para lhe levar uma tisana de cidreira, com o intento de acalmá-lo.
Clara tinha agora 43 anos, sofria ao ver desmoronar-se o seu sonho. Tinha dado à luz, com muito custo devido à sua idade, o filho que José tanto queria, mas... Deus castigou-a, lembrava-se agora tanto de seu marido, naquela cadeira de rodas e da pouca atenção que lhe dera. Lembrava-se da filha que não via há muito tempo. Só o motorista Macedo ainda a visitava com o envelope cada vez mais leve a mando de patrão. Dona Rosinda acabou por ir embora, sentia-se constrangida pela desgraça que assolava aquela triste casa, depois, compreendia perfeitamente qual seria o destino daquela mãe, quando lia nas entrelinhas das cartas que José Medeiros lhe mandava, pois muitas das coisas que lia, mas não lhe dizia para não lhe destruir a ilusão em que Clara vivia. Rosinda acabou por inventar uma desculpa com saudades da família e voltou para Nevogilde. Clara ficou só a chorar a sua vida desdita, com o pequeno Maciel a gatinhar, arrastando os joelhos pelo soalho da casa.
Em Janeiro de 1926 Maciel fez três anos. O tempo foi passando e seu pai, o grande industrial de Guimarães, estava cada vez mais debilitado economicamente e não lhe podia valer, como lhe chegou a aconselhar o Dr. Aragão, para que metesse o pequeno num hospital de reabilitação, até ser possível adaptar um aparelho ortopédico às pernas. A crise económica era tal, que José Medeiros chegou a vender, com muita pena sua e das filhas, a propriedade do Solar de Gesta e mudou-se para uma propriedade mais pequena em Colares, com as filhas e a boa Joaquina. Cecília tinha agora 16 anos, as irmãs, 12 e 5.       
  
“Coincidindo com o momento crítico para o governo presidido por António Maria da Silva. No ambiente de frenética intriga política que se vivia, pois os boatos de um golpe de estado desde há muito que corriam, sendo seguro que existiam múltiplos convites ao general Gomes da Costa para dirigir esse golpe, como sempre “regenerador”, que “salvasse a Pátria”. No dia 28 de Maio de 1926, pelas 6:00 da madrugada, iniciou-se uma sublevação militar, com acompanhamento e apoio civil, incluindo do operariado da região, organizando-se uma coluna que partiu de Braga sobre Lisboa.
A 3 de Junho as tropas de Gomes da Costa chegaram a Sacavém de comboio e entraram em Lisboa sem resistência. Nesse mesmo dia em Lisboa, Mendes Cabeçadas organizou o novo governo, entregando a Gomes da Costa as pastas da Guerra e interino da Marinha e Colónias. Para as Finanças escolhe António Oliveira Salazar. Estava preparado o cenário para o Estado Novo. A 7 de Junho, o general Gomes da Costa tomou posse das pastas para que fora nomeado e comandou um impressionante desfile militar de vitória ao longo da Avenida da Liberdade. Desfilam 15 000 homens perante o aplauso de centenas de milhar de pessoas. Gomes da Costa tomou depois, posse como Chefe de Estado e como Presidente do Ministério, assumindo interinamente todas as pastas. A 8 de Julho, as forças mais conservadoras, agora lideradas por Óscar Carmona, assumem a liderança e o general Gomes da Costa é feito prisioneiro no Palácio de Belém, sendo posteriormente deportado para Angra do Heroísmo, nos Açores. A revolução acabou por destruir o seu principal obreiro e criador. Tinha começado o Estado Novo, que viria a durar 48 anos de opressão e fascismo”.
      
A crise estava instalada no país, há muitas indústrias não aguentaram. Em S. Tiago do Gesta, na fábrica de Lanifícios, os efectivos operários foram reduzidos, a produção baixou e muitas máquinas pararam. José Medeiros quase esqueceu a Clara, agora, apenas lhe pagava o aluguer de casa e pouco mais. Deixou de a visitar.
Clara começou a pensar em trabalhar mas não tinha onde deixar o filho, arranjou serviço como criada de servir, numa casa onde duas senhoras idosas lhe deixavam levar o menino durante o dia e à noite, regressava a casa com ele ao colo, cada vez mais pesado, nunca mais andou pelo seu pé, nem havia esperança de alguma vez vir a andar. Viveu assim quase dois anos, até que por intermédio dessas bondosas senhoras, teve conhecimento que um doutor, de nome Henrique Gomes de Araújo, tinha fundado na Foz do Douro o “Refúgio da Paralisia Infantil”.
 
“Tratava-se de uma instituição de assistência aos deficientes motores com poliomielite. Este médico dedicou-se ao tratamento, primeiro com choques eléctricos, pesos e outras experiências, depois com a obtenção do soro antipoliomielítico (que passou a ser aplicado a partir de 1940), até obter resultados satisfatórios como por exemplo, virem a andar com aparelhos ortopédicos ou muletas”.
 
Clara conseguiu o internamento do filho nessa instituição em 1928, tinha o Maciel cinco anos.
Trabalhava na casa das boas senhoras em Aldoar e visitava o pequeno, todas as semanas. Eram visitas dolorosas, custava muito vê-lo deitado com aqueles pesos presos às pernas. Por esta altura só o Macedo ainda a visitava, até lhe trazer uma carta onde José Medeiros lhe dava conta que não conseguia mais satisfazer o compromisso de a sustentar, apenas continuava a pagar-lhe o aluguer de casa. Como sabia que ela agora trabalhava e que o pequeno está bem entregue, pedia-lhe que aceitasse as suas desculpas e o perdão, por não conseguir ser mais coerente como gostava.
Clara, infeliz com esta forma de abandono, encheu-se de orgulho, pediu às duas senhoras, se a deixavam viver lá em casa até tomar novo rumo para a sua vida. As senhoras aceitaram e Clara, agora com 46 anos e a ajuda das senhoras na venda de algum mobiliário, instalou-se num quarto dos fundos com a mobila de quarto que tinha, uma mala de roupa e um saco de pertences, entre eles, a chávena de porcelana que guardou para o filho como recordação do pai.
 

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CAPÍTULO 6




GUIMARÃES
 
“Em 1929, instalou-se a crise económica mundial, deu-se um desastre súbito do capitalismo, os preços das acções na Bolsa americanas, estavam muito acima do efectivo valor das empresas. O dinheiro então era desviado da produção para reforçar mais negócios com títulos de acções, ou seja para reforçar a especulação. Alguns economistas mundiais afirmavam que a economia americana estava super valorizada, pois os empréstimos dos bancos haviam saltado de 2 biliões de dólares (em 1926) para quase 7 biliões em Outubro de 1929. A depressão alastrou dos Estados Unidos para outros países no mundo e aqueles cujas economias dependiam muito da exportação das matérias-primas, viram a sua situação agravar-se, quando estes reduziram drasticamente as suas importações devido às dificuldades económicas e financeiras. Daí a acumulação de stocks ou a sua destruição para tentar evitar a contínua descida de preços. Estes países fornecedores de matérias-primas deixaram de ter por seu lado, capacidade financeira para adquirir produtos da Europa e dos EUA. O comércio mundial entrou deste modo, numa fase de grande depressão. O colapso deu-se no dia 24 de Outubro, quando a Bolsa de Valores de Nova York, caiu de maneira drástica, fazendo perder no mundo inteiro, milhões e milhões de dólares”. 
 
Em Portugal a crise foi notada de tal maneira, que abalou com a economia de centenas de empresas, que faliram e despejaram no desemprego milhares de trabalhadores. Alguns bancos que faliram e arrastando consigo muitas empresas. Um deles, foi o Banco de Braga que durou apenas 17 anos e arrastou consigo para o abismo muitas empresas do Minho, empresas que tinham apostado nos banco para o seu desenvolvimento, que tinham agora grandes responsabilidades em investimentos que fizeram a contar com os empréstimos, entre elas estava a Fábrica de Lanifícios de S. Tiago de Gesta. José de Medeiros não aguentou o desaire, era o caos, a desonrara e o fim de um sonho. Na Sexta-feira, 3 de Janeiro de 1930, o semanário “O Vimaranense”, trazia em primeira página esta notícia:
    
“Mais um empresário, destacado e muito querido desta terra, faleceu ontem às primeiras horas do dia. Trata-se do conceituado Industrial vimaranense, José Madeiros dos Santos, de 58 anos, que deixa três filhas. As autoridades suspeitam de um suicídio, causado pela crise económica que atravessamos e que tem levado centenas de empresas á falência. O funeral realiza-se amanhã, sábado dia 4, pelas 15h00, depois de exéquias na capela de Santa Barbara, onde se encontra depositado em câmara ardente, para ir a exumar em jazigo de família no cemitério de s. Tiagos. À família enlutada, os nossos sentidos pêsames”.
      
Acabava assim a vida de um homem, dum pai, dum empresário, dum honrado cidadão, da qual muitas vidas dependiam. O Dr. Orlando, advogado e amigo da família, tratou de informou a Cecília, que ela e as irmãs estavam salvaguardas com a pequena propriedade que o pai lhes deixara, uma vez que estava em nome dela como mais velha (a Cecília tinha agora 20 anos), de resto, o passivo da fábrica entre máquinas e propriedade, eram suficientes para saldar as dívidas à banca e a fornecedores. Leonor tinha 16 e a Noémia apenas 9 anos. A velha Joaquina já com quase 64, vivia com as meninas que tinha visto nascer, assim como tinha assistido, há 46 anos atrás, ao parto de Dona Cecília de Albuquerque, quando Dona Adelaide (mãe das meninas) veio à luz. 
Durante muito tempo ninguém entrou no escritório, até ao dia em que Joaquina resolveu dar uma arrumação à dependência. Escondeu bem o revólver que a polícia devolveu depois do incidente e tratou de limpar tudo, abriu as janelas para a divisão apanhar ar, mas as portas ainda continuaram por muito tempo encerradas. Noémia foi a que mais sentiu, por não compreender muito bem como tudo aconteceu, pois tinham-lhe poupado muitos dos pormenores daquele dia fatídico.
 

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CAPÍTULO 7



 


PORTO


Clara só soube do sucedido, no primeiro de Maio desse ano, uma sexta-feira (que ainda não era feriado em Portugal), quando o Macedo apareceu em Vilar com uma garrafa de vinho do Porto, provando que não se esqueceu dela e querendo festejar os seus 48 anos. Quis saber como ia a sua vida e como andavam os tratamentos do pequeno Maciel. Por fim, acabou por lhe dar a notícia do desaparecimento do seu finado patrão, José de Medeiros e de como andava a vida das meninas e da velha Joaquina. Falou-lhe como tinha arranjado emprego de motorista em Águas Santas na Maia. Durante a conversa, Clara acabou por desabafar e contar como apareceu em Guimarães para trabalhar há dez anos atrás. Desfiou-lhe o rosário da vida que passou, que era viúva (quase duas vezes...) que nada sabia dos irmãos nem da filha que tinha deixado entregue à comadre em Amarante, que nunca mais visitou e tinha muitas saudades. Macedo comprometeu-se a levá-la a Amarante, mais para o verão e em data a combinar. Despediu-se, mas ficou entre eles um certo sentimento que ia além da amizade, com a promessa de a visitar mais vezes.
 
GUIMARÃES
  
Em S. Tiago de Gesta, as quatro mulheres vestidas de luto, iam levando a vida e confortando-se mutuamente. Joaquina, a quem pegar numa enxada nunca meteu medo, amanhou a terra e tirava assim algum do sustento para alimentar as quatro bocas da casa. Conseguiam mais uns cobres para fazer compras na venda, com os bordados que Cecília fazia, sentada no terraço ao sol e muitas vezes aos serões. Leonor depressa aprendeu a bordar e ajudava a irmã, mas por essa altura, já arrastava a asa a um rapaz mais velho oito anos, acabado de voltar de Coimbra com o curso de direito. Era filho de um criador de gado duma freguesia vizinha, gente de bem e abastados quanto possível. Começou a namorar com o consentimento da irmã e veio a casar no começo do ano seguinte, indo viver para Vila do Conde, onde o marido tinha montado um escritório de advocacia, especializado direito sucessório. Ao partir, prometeu ajudar às irmãs sempre que possível e visitá-las assim que pudesse.
Cecília que em 1932, fez vinte e dois anos e embora tivesse alguns pretendentes, sentia a responsabilidade de olhar pela irmã mais nova, afastando assim qualquer ideia de casar ou sair de casa. Noémia, aos onze anos entrou para o liceu de Guimarães, com a ajuda do Dr. Clemente que a hospedou em sua casa na cidade. Era uma menina prendada, estudiosa mas triste, com saudades das irmãs. O bom doutor não tinha filhos e Noémia, era o Sol daquele lar, mas sempre ansiosa pelas férias da Páscoa, de verão, das festas de Santa Barbara ou do Natal, para voltar a casa cheia de saudades.
  
PORTO
  
Clara voltou nesse ano a Amarante para visitar a filha e os irmãos, foi no dia dos festejos da Senhora de Lindar, mas... não foi muito bem recebida pela família, por acharem que ela os tinha esquecido e abandonado a filha ao Deus-dará. Isabel estava uma mulher com 28 anos, casada sem filhos e a viver na casa da madrinha que entretanto tinha morrido. Mesmo contando os infortúnios por que passou, não consegiu demover a família do que sentiam e a Clara voltou mais triste, amargurada e arrependida da visita. Todos lhe viravam a cara, até as amigas doutros tempos. Clara de olhos molhados, jurou que tão cedo não voltaria a Amarante. Macedo que agora era mais do que um simples amigo, aconselhou-a dar nova volta à sua vida, uma vez que uma das senhoras onde vivia tinha falecido e a outra estava muito doente e com os parentes a rondar a casa como abutres, levando jóias e outras coisas de valor. Antes que pudesse ser responsável pela lapidação do património das velhas senhoras e sem esperar qualquer agradecimento de tal gente, tratou de procurar uma prima que também vivia no Porto, para os lados de Paranhos, disposta a dar uma viragem na sua vida. Clara soube através dessa prima, de uma casinha para alugar na rua da Flora na Lapa por vinte escudos por mês. Era o ideal.
      
“A Lapa ainda hoje pertence à Freguesia de Cedofeita, em tempos, foi uma das Freguesia mais burguesas do burgo tripeiro, mas que sempre teve nos seus limites, bairros de operários de gente pobre mas muito bairrista, era o caso do bairro da Lapa com suas ruas estreitas, escadinhas e vielas, que tem a sua história ligada ao Cerco do Porto que durou quase um ano, de Julho de 1832 a Agosto de 1833, no qual as tropas liberais de D. Pedro, estiveram sitiadas pelas forças fieis a D. Miguel. É neste bairro que se encontra guardado o coração, que o Rei soldado doou á cidade Invicta, que sofreu com ele o cerco e cujo a essa heróica resistência das suas gentes, se deve a vitória da causa liberal em Portugal.
 A morte do Rei D. Pedro IV, ocorreu no palácio de Queluz em 24 de Setembro de 1834 e foi a Imperatriz D. Amélia, por decisão testamentária, que a 5 de Fevereiro de 1835, chegou á barra do Douro com o real legado, que foi transladado para a igreja da Lapa perante o testemunho de milhares pessoa, ostentando luto carregado e empunhando tochas acesas. O cofre com a urna de prata, é aberta de 4 em 4 anos por funcionários da câmara, para que se proceda à mudança do líquido da jarra de cristal onde o coração se encontra inserido”.
       
 
Macedo, com os poucos conhecimentos que tinha, arranjou à Clara trabalho numa padaria no Largo Moinho de Vento (propriedade dos seu novos patrões), para padeira e já com uma venda fixa na zona da rua de Camões. Tinha que se levantar de madrugada para estar na padaria às seis horas, para depois de canastra à cabeça, percorrer as ruas na entrega do pão. Clara aproveitou o ensejo que a vida lhe dava, fez as trouxas, emalou as roupas e foi morar para a rua da Flora na Lapa. Como recordação de Guimarães e dum tempo que gostava de poder esquecer, entre a roupa levou a tal chávena e o pires de porcelana que José Medeiros lhe tinha dado.
 
 
Assim se passaram alguns anos, Muitas feridas o tempo apagou, outras continuavam à espera de cicatrizarem. Como o tempo tudo apaga e ameniza as dores como bálsamo, Clara ia levando a sua vida, entre a venda do pão e as visitas ao Refugio para ver o Maciel. De vez em quando, dava uns passeios com o seu companheiro, que a visitava amiúde. Aproveitavam os lindos passeios (chamados passeios pelo rio acima) em batelões pelo rio Douro, fazendo piqueniques nas margens, com bailaricos animados em Ribeira d’Abade, onde ainda davam pequenos passeios pela tarde, em “Valboeiros” da pesca do sável. Conseguiam assim levar uma vida pacata, mas com alguma alegria. Chegaram a levar num desses passeios o Maciel, numa das ocasiões em que veio a casa de férias, dando os primeiros passos com as muletas a que ainda não se habituara bem.

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CAPÍTULO 8



GUIMARÃES
 
 
 
Chegou o ano de 1939 e a Noémia regressou a casa com o curso do Liceu e 18 anos feitos. Cecília, quase com 39, tinha casado com o Dr. Orlando o velho amigo e antigo advogado da família, que muito a tinha ajudado na liquidação da massa falida da fábrica e de toda a burocracia inerente à quitação. Ficou a viver lá em casa no quarto que era do falecido pai, não queria abandonar a mana mais nova. Nesse mesmo ano, enterraram a velhinha Joaquina com 73 anos, cheios de trabalho e canseira.
Leonor todos os anos passava as férias em S. Tiago, com o marido e os três filhos que agora tinha. A vida no campo corria na paz dos anjos, até que em Maio desse ano, surgem nos jornais as notícias do flagelo da Guerra na Europa, que se espalhou pelo mundo e provocou em Portugal enormes efeitos ao nível económico, social e político.
 
“Salazar no dia 1 de Setembro, declara a sua neutralidade no conflito e até 1940, o país mal sentiu os efeitos da guerra, mas a partir de 1941, começa a disputa do volfrâmio entre as potências beligerantes. A partir de 8 de Outubro de 1943, Portugal cedeu a base das Lages nos Açores aos EUA, mas continuou com a sua politica de neutralidade. Devido ao desequilíbrio dos sistemas de produção da maioria dos países europeus, Portugal ficou privado de importações e isto causou um aumento na produção nacional, mas também trouxe consigo o racionamento dos bens de primeira necessidade (arroz, açúcar, massa, etc.), o que fez disparar a inflação. Cada família, em função das pessoas que constituíam o agregado familiar, recebia mensalmente, senhas com que podiam fazer compras nas lojas tradicionais. Só havia direito a dois pães por dia por pessoa, formavam-se grandes filas às portas das padarias. As senhas eram vendidas a um preço imposto pelo Governo, mas o que é verdade, é que os produtos acabavam sempre por aparecer no mercado negro. A fome grassava nas ruas das cidades”.
 
 
 
PORTO
 
Foi neste cenário de grande privação, e depois de ter estado 11 anos no Refugio de Paralisia Infantil, que Maciel (agora com 16 anos) regressou a casa a andar de muletas. Não era o ideal, mas para quem por destino tinha andado de rastos, era uma boa maneira de enfrentar o mundo com alguma esperança. Tinha estudado até ao segundo, ano no colégio Brotéro na Foz, passou muito tempo na biblioteca do colégio, leu muito e com a inteligência que tinha, bem acima da média e com o seu dom para trabalhos manuais e desenho, não sentia medo de enfrentar a adversidade que o esperava. Não queria ser um peso para a mãe, apesar da sua condição. Sentia-se muitas vezes rejeitado pelas palavras cruas da mãe, quando desanimada da vida ficava de mau humor, mas ele nunca esmoreceu, com a simpatia pessoal, a educação e a fluência no trato adquirida no colégio, tratou de mostrar o que valia. Arranjou maneira de fazer encadernações em casa, com arte e gosto burilava as lombadas com desenhos a ouro. Depois, ainda dobrava até altas horas da noite, resmas folhas de papel para livros encomendados às tipografias. Ainda escrevia cartas e preenchia documentos quando os vizinhos lhe pediam, porque o analfabetismo, nessa altura, era de 55% no país. Começou a granjear simpatia e amigos, que já o viam como um igual sem reparem que era “aleijado”, aliás, palavra que sempre detestou pela vida fora. Em 1941, com 18 anos e a ajuda do Sr. Correia (um bom vizinho) como avalista, fez o pedido à Santa Casa de Misericórdia e obteve a chapa com número de licença para vender lotaria nas ruas do Porto e tornou-se cauteleiro. Não gostava, sentia até um grande constrangimento, mas todos os dias pela manhã, de fato de cotim e boné, com as cautelas presas por uma mola ao peito, lá ia ligeiro nas suas muletas de madeira e almofadadas por ele, apregoando a sorte grande. Era filho dum famoso industrial de Guimarães sem saber, era a sorte grande apregoada na rua, por um rejeitado da vida e sem sorte.
A Clarinha padeira, como era conhecida lá na rua, era amiga de todos, depressa se tornou considerada pela vizinhança. A carência com que se vivia naquele bairro operário da cidade, fazia crescer a solidariedade entre todos os que povoavam as chamadas “ilhas”, que eram colmeias de gente pobre. A casa de Clara resumia-se a uma sala, onde tinha o guarda-fato, a cómoda, uma mesa com dois bancos corridos, um lavatório em louça com um jarro e um divã onde dormia. No pequeno quarto onde dormia o Maciel, só cabia a cama e uma mesinha com o candeeiro de petróleo. Aos pés, uma cortina de chita num arame, escondia uma arca e algumas roupas. Não tinha porta, apenas um cortinado. A cozinha era muito pequena, mas tinha um fogão a carvão, uma mesa pequena e um louceiro na parede para os pratos e tigelas, com as prateleiras forradas de papel recortado como renda, como se usava para ornamentar as cozinhas. Entre o louceiro e a entrada, uma pequena mísula servia de suporte ao candeeiro de petróleo e num canto, um banco com o caneco de madeira com tampa, era o depósito da água que se trazia do fontanário do largo, por cima e pendurado num prego, estava o púcaro de esmalte por onde se bebia. Por baixo da mesa, uma tina esmaltada para os dias de banho. Na parede da sala, dois caixilhos com as imagens de Santo António e do Sagrado Coração de Maria. Só muito tempo depois, a Clara comprou ao Sr. Amaral adeleiro em Mártires da Liberdade (a pagar aos poucos), um móvel louceiro de portas, com duas gavetas para os talheres e toalhas, tendo por cima duas portas de vidro com prateleiras e ganchos para as canecas do café. Foi ali que Clara pendurou a chávena que dizia, ser a única prenda que o pai de Maciel lhe deixara.
       
 
“A guerra tinha terminado em 1945, deixando atrás de si, mais 50 milhões de mortos. Com o final da guerra, o governo fascista de Salazar decretou luto oficial de três dias pela morte de Hitler e encomendou mais uma manifestação “espontânea” no Terreiro do Paço, para o povo lhe manifestar agradecimento por não ter entrado na guerra, apesar dos festejos por todo o país e principalmente no Porto, serem de júbilo pela vitória dos Aliados. O ditador iniciou então uma série de reformas políticas de fachada após a derrota das ditaduras, para se manter no poder”.
       
 
       
AMARARANTE
 
 
Nesse ano em Amarante, morreu de tuberculose a Isabel com 41 anos. Não deixou filhos “porque Deus não quis”, diziam os vizinhos. Clara soube pela prima de Paranhos, um mês depois. Nunca mais tinha voltado a ver a filha, desde 1932.

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CAPÍTULO 9





PORTO


Maciel, só muitos anos depois, soube que teve uma irmã. Por agora e apesar da sua condição, era disputado pelas raparigas de lá da rua da Flora. Tinha um certo encanto na forma de falar, além de ser uma figura de homem bonito. Com o timbre de voz que possuía, em 1946 foi escolhido por um anúncio do Portuense Rádio Clube, quando procuravam gente para fazer pequenos papéis para o chamado, teatro radiofónico que foi o antecessor das novelas de hoje. Conheceu nessa altura: Mena Matos, João Manuel, Fernando Gonçalves e outras vozes da rádio. Como ganhava pouco e não era sempre, Maciel arranjou emprego numa oficina da rua de Mártires da Liberdade, mesmo defronte à rua dos Bragas. Seu trabalho consistia em forrar a veludo ou cetim caixas de jóias, fazia aplicações de motivos de prata em estojos diversos, envernizava caixas de costura, montava porta-retratos, e muitos outros artigos em madeira, decorava ainda álbuns de fotografias com aplicações em prata. Como era da confiança do patrão, este mandava-o muitas vezes à Contrastaria na Av. Rodrigues de Freitas, para ser aplicado o punção do contrate nas peças de prata, que levava numa pequena saca pendurada ao pescoço por dentro da camisa. Pertencia na época ao sindicato dos ourives e no dia de Santo Elói tinha sempre feriado. Não ganhava muito, mas finalmente tinha um ordenado semanal, que depois de pagar ao Sr. João do tasco onde almoçava, por dois escudos diários, dava para entregar o restante em casa, para ajudar a mãe nas despesas e não se sentir um inútil.
Foi por esta altura, que se mudou para a rua da Flora, mais propriamente para a “ilha do Mesquita”, vinda do Carvalhido, fugida aos maus-tratos que o marido lhe dava, a Maria Inês, conhecida por “Miquinhas”, com as suas três filhas. A Zeza de 19 anos e a mais nova, a Lina de 14. A Mariana, que era a filha do meio, tinha quase 16 anos, trabalhava como gaspeadeira de malas na rua de Alferes de Malheiro. Em pouco tempo se tornou uma das raparigas mais bonitas da rua. Dizia quem a conheceu: «A Mariana era uma carinha de riso, era mesmo um encanto vê-la de caneco da água à cabeça subindo a rua, sempre com um sorriso nos lábios e uma palavra de agrado para toda a gente».       
Mariana encontrava-se com Maciel todos os dias a caminho do trabalho, desciam a Lapa e no Campo da Republica, cada um tomava a sua direcção. Muitas vezes ficavam a conversar no banco do jardim e em pouco tempo se enfeitiçaram de amores, Ela, pelos seus galanteios, pela sua firmeza e convicções. Ele, pela sua beleza e nobreza de carácter. Começaram a namorar em segredo, com bilhetinhos às escondidas e encontros furtivos. Ele tinha 23 e ela, 16 anos.
O Maciel na oficina onde trabalhava e como era bom em contas e a escrever, pois fora dos melhores alunos em caligrafia, o patrão mudou-o de lugar e pô-lo no escritório. Passou a ser empregado de escritório com toda a responsabilidade na escrita. O cargo era melhor remunerado e mais a seu gosto. Maciel andava feliz, agora vestia fato e gravata de acordo com a sua posição, mas... duas coisas o traziam preocupado. A primeira, era a certeza absoluta que o amor que Mariana lhe tinha, não queria a pena dela, mas amor verdadeiro, queria que fosse o suficiente para nunca se arrepender, de casar com um homem diminuído fisicamente como ele, tanto, que chegou a fazer que tropeçava de propósito em plena rua, só para ver a reacção dela. Felizmente foi a melhor, ajudando-o com firmeza, sem se importar com o que ouvia das pessoas que paravam, como: “coitadinho do aleijado”, insurgindo-se mesmo, não consentindo que o tratassem assim. A segunda coisa, que trazia Maciel preocupado, era saber se em caso de descendência, seus filhos teriam a mesma doença que o tinha afectado a ele. Para isso, consultou o velho Dr. Gomes de Araújo, que lhe tirou todas as dúvidas, afirmando que a poliomielite, não é uma doença transmissível nem hereditária. Desfeitas estas preocupações, tratou de pedir à Senhora “Miquinhas” autorização para namorar a Mariana. Depois de ela fazer 17 anos em Agosto, casaram em 7 de Dezembro de 1947, na Igreja de Cedofeita, tendo como padrinhos o Sr. Lopes e a esposa, vizinhos lá da rua. Foi uma cerimónia modesta só com a família de ambas as partes, onde nem mesmo o sogro faltou. Afastado da família o Sr. Sousa, apresentou-se no casamento da sua Mariana, para lhe dar um envelope com cem escudos e uma bonita caneca em vidro para o vinho. O Sr. Sousa, era “Carrejão” de profissão e tinha poiso na Estação de Campanhã.
 
«“Carrejão” era o nome que se dava aos homens, ou moços de fretes, que carregavam coisas diversas às costas. Nas cidades, estavam normalmente junto às estações de caminho-de-ferro, ou de camionagem. Nas aldeias, carregavam com um burro e eram chamados de “Almocreves”. Os “Carrejões” pertenciam ao mesmo sindicato dos estivadores e carregadores. Usavam muitas vezes um saco se serapilheira na cabeça que lhes descia pelas costas e umas cordas com que prendiam a carga». 
 
Assim, com o ordenado dele e da Mariana, mais o que a mãe ganhava na padaria, dava para viverem os três sem grandes “folestrias”. Ocuparam o quarto do Maciel e tudo correu na normalidade, até Mariana ficar grávida, deixando o emprego de maleira para ajudar a Clara com a venda do pão.
Pelo S. João, Mariana estava de seis meses, naquele ano ficou sentada à porta de casa com o Maciel, vendo a festa lá na rua. Enquanto a Clara, andava atenta à fogueira na rua, onde à meia-noite e como mandava a tradição, se fazia o café e torrava o pão com manteiga para todos.
       
“Com tradições muito antigas o S. João da Lapa, que ficou na história com a célebre quadra:
          Eu fui ao S. João a Lapa / E da Lapa fui ao Bonfim
         Estava tudo embandeirado / Com bandeiras de cetim.
Era dos mais populares da cidade e nesse dia de Junho, as ruas do bairro ficavam engalanadas com ramalhos que faziam arco, presos com uma arame a meio, um balão feito de papel de seda, era iluminado com velas. Depois um festão colorido ligava os vários arcos de uma ponta a outra da rua.
Durante dias, andavam os homens com rebanhos de carneiros para vender. Ali mesmo na rua, depois de tosquiados á tesoura e a lã amarrada, os homens matavam e esfolavam os carneiros. Na véspera de S. João, preparava-se a assadeira para levar ao forno da padaria. O anho era temperando com azeite e colorau e sentia-se no ar um cheiro bom a loureiro e alhos, coentros e alecrim. Os miúdos faziam as cascatas nos passeios, com musgo, pedrinhas e um pratinho para as moedas. Havia sempre o altar dos três santos populares, depois, pediam assim aos que passavam:
— Meu senhor, dê-me um tostãozinho para o S. João...
Mulheres vendiam vasos de manjerico, com quadras de S. João impressas em papel colorido e coladas em arames finos como se fossem bandeirinhas, vendiam também alho-porro e a erva-cidreira. Nas lojas, vendiam-se os pirilampos e os balões feitos de papel, para serem lançados ao ar com uma mexa embebida em petróleo depois de bem abertos á custa de abanadores que insuflavam o ar. Eram os característicos balões de S. João e não havia rua que não lançasse um, eram como estrelas luzidias que pairavam no ar, naquela noite de 23 para 24 de Junho.      
As fogueiras pela rua abaixo crepitavam e faziam curiosos bailados de sombras nas paredes. Casais de namorados saltavam-nas com cuidado para não se queimarem nem entornar a cafeteira do café, ou a grelha das sardinhas que assavam no fogo. Dizia-se naquele tempo, que quem saltasse a fogueira na noite de S. João, em número impar de saltos e no mínimo três vezes, fica por todo o ano protegido de todos os males.
As Rusgas passavam rua abaixo com alegria, ranchos de gente dançando e festejando o S. João. Vinham doutros bairros e os homens traziam ramalhos e balões, tocavam bombo, concertina, viola e ferrinhos e as mulheres batiam com testos e panelas, cantando:
Orvalhadas, orvalhadas / E viva o rancho das mulheres casadas
E repenica, repenica, repenica/O S. João a mijar em bica
Era assim o S. João daquele tempo...”
 
Nessa noite, a Mariana sentiu uma vontade enorme de ir na rusga da rua, como fazia com as irmãs, quando morava no Carvalhido, mas com aquela barriga, nem pensar.        
A 20 de Setembro de 1948, Mariana deu à luz na Maternidade de Júlio Dinis, um menino robusto e perfeito, para alegria e alívio do pai Maciel. Tinha dado um neto à sua mãe, a Clara era avó aos 66 anos. O rapaz foi registado na Freguesia de Cedofeita com o nome de Marcelo de Sousa Meneses de Castro, Filho de Maciel Meneses de Castro e de Mariana da Silva Sousa. Foi uma alegria, embora a vida ainda não estivesse estabilizada para isso, mas como a avó Clara dizia: “Antes de tirar a sopa, chega sempre para mais um”.
Havia uma vizinha, a dona Palmira, senhora de 32 anos que vivia mesmo defronte com uma filha, a Filomena de dez anos, que estudava no colégio Liverpool na rua da Torrinha. A Palmirinha era uma senhora “fina”, solteira e resguardada pelo pai da filha, um homem da classe alta e chefe dos escritórios da CUF. Senhora de boa índole e sempre pronta a colaborar com os vizinhos. Como gostava muito do casal e da criança agora nascida, resolveu ajudá-los como podia, oferecendo roupas para a caminha do bebé, etc., e assim nasceu uma grande amizade que havia de durar pela vida fora.
Pelo S. João de 49 a Mariana ficou de novo grávida e em Fevereiro do 1950, no dia 1, nasceu o segundo rapaz, que se veio a chamar Alberto de Sousa Meneses de Castro. A vida não corria de feição, mas sobreviviam como podiam até ao dia em que a Mariana adoeceu com uma inflamação do peritónio, tendo que ser operada de urgência no Hospital de Santo António, a intervenção cirúrgica complicou-se e a Mariana entrou em coma, vindo a falecer de uma Peritonite aguda, no dia 1 de Setembro de 1950. Tinha apenas vinte anos e Maciel em pranto, dizia que foi um roubo de Deus. Foi a catástrofe total para ele, viúvo com dois filhos e a mãe com quase 70 anos.
 

CHÁVENA COM HISTÓRIA

 





CAPÍTULO 10




GUIMARÃES
 
 
Nesse ano de 1950 em Guimarães, Noémia tinha 29 anos e apresentou à irmã e ao cunhado, alguém que conhecera na cidade, numa visita ao Museu Martins Sarmento, era filho de uma família de antiquários com estabelecimento no Porto, tinha dele excelentes referências e boas intenções, querendo namorar para casar. Cecília nem queria acreditar, finalmente a esquisita Noémia, encontrara alguém de sua feição. Namorou pouco tempo com o Rui Meireles. Casaram nesse mesmo ano e partiram para o Porto. Foram viver para a casa dos pais dele, por cima do Antiquário Meireles na rua Mouzinho da Silveira.
Ao fim de algum temo, o pai de Rui adoecera, seu filho ficou à frente do estabelecimento. Cecília, na hora da partida de Noémia lembrou-se e disse-lhe:
— Como vais ser antiquária e és a mais nova, levas este estojo contigo, está na família desde o casamento de nossos pais em 1906, como sabes, falta uma chávena, mas talvez um dia a encontres.
 
 
 
PORTO
 
 
        
Em 1951, o patrão de Maciel, um homem já com idade avançada e muito doente, como não tinha ninguém a quem deixar a oficina, resolveu encerrá-la. Indemnizou os poucos empregados que tinha e fechou. Maciel viu-se desempregado de um momento para o outro, com dois filhos para criar. Mas não desanimou, acreditou mais uma vez nas suas capacidades de iniciativa, começou então a fazer em casa artesanalmente, casinhas em cartão para as cascatas de S. João. Vendia pelas casas da especialidade, principalmente na rua da Assunção, nas casas que vendiam bonecos de barro que vinham de Barcelos para as cascatas e presépios. Mais tarde começou por fazer também presépios para o Natal, que vendia em casas de artigos religiosos. Pela Páscoa, fazia caixinhas para amêndoas e pelo Carnaval, chapéus de papel crepe e gaitas coloridas. Os pedidos cresceram e pensou em arranjar mais espaço, a mesa da sala já não suportava tanto trabalho.
Em 1952 deu-se de vago uma pequena casa num bairro da mesma rua (O Bairro Angelina), mesmo defronte a sua casa, aluga-a e adapta-a ás suas necessidades, montando a sua oficina. A inauguração foi no dia 23 de Novembro, com a presença da mãe com 70 anos, dos filhos que já tinham respectivamente, 4 e 2 anos e ainda com alguns amigos que sempre acreditaram nele, assim como a amiga Palmirinha.
Para desenvolver mais o seu trabalho, Maciel encontrou uma pequena máquina de serrar de tico-tico na Casa Escol, na rua Sá da Bandeira. Esta firma alemã que já não existe, estava vocacionada para artigos de combate a fogos, como extintores etc., no entanto, tinha esta máquina na montra à consignação. O gerente era o Sr. Brucher, um alemão que acreditou na palavra de Maciel e lhe entregou a máquina, depois ouvir atentamente toda a sua história, vendo naquele homem de muletas, uma vontade enorme de vencer na vida com o seu esforço e trabalho, dizendo num português arranhado:
— Leve a máquina e paga-me quando puder.
Maciel pediu dinheiro emprestado e com ajuda de uma rapariga como empregada, começou a fabricar novos modelos de presépio para esse Natal. As expectativas foram ultrapassadas, pagou a máquina e o que devia, ficando com um fundo de maneio para continuar. Assim, logo para o Carnaval, fabricou com apetrechos próprios para fazer pequenas aspirais de fino arame em aço, as chamadas “línguas da sogra” (boquilhas com “gaita” de papel, que ao serem sopradas desenrolavam até ao rosto da pessoa próxima, para voltarem à posição inicial). Além destas, fez diversos modelos de chapéus fantasiados em papel crepe. Para a Páscoa, começou a fabricar caixas de amêndoas, algumas com música e outras com figuras decorativas alusivas à época pascal, etc. Para as cascatas de S. João, continuou com as tais casinhas, pontes, coretos, castelos, igrejas, etc. Ainda na época estival, fez para os fabricantes de baldes de praia em chapa para criança, as pás e os ancinhos em madeira. Aperfeiçoou melhor o método de fazer as manjedouras para os presépios, com as espigas secas de palha, que comprava nos armazéns do vinho do Porto, dos restos de palha que utilizavam na altura como invólucros para envolver as garrafas armazenadas.
A 23 de Novembro de 1953, a oficina fez o seu primeiro ano de existência, como a casa pegado ficou devoluta, Maciel aluga-a e mudou a oficina para lá, fazendo da primeira o local das máquinas, com mais uma serra circular com lixadeira copulada. O progresso era visível, enquanto a avó Clara ia olhando pelos netos, Maciel leva a sua oficina a bom porto, agora com mais dois empregados. Tornou-se um exemplo de tenacidade e começou a ser muito respeitado pelos vizinhos. Palmirinha, sua amiga vizinha, depois de um namoro discreto, acaba por ceder aos seus encantos e casaram no dia 30 de Novembro desse mesmo ano. Palmirinha depressa se tornou sua companheira em casa e no trabalho, ajudando-o nas tarefas da oficina com muita habilidade. Conseguiram uma casa na mesma rua, quase defronte à oficina, para onde foram viver com os filhos de ambos. A avó Clara, já reformada da vida de padeira, apegada à sua casinha, não a quis abandonar e ficou a viver só, embora pertinho do filho e dos netos. Mais um ano passou, outra casa do bairro foi alugada pelo Maciel, aumentou à oficina abrindo portas interiores entre as casas, fez desta vez uma secção de pintura manual e onde se mergulhava as peças de madeira em anilina de diversas cores. Começou ainda a fabricar brinquedos em madeira com modelos originais que eram bem acolhidos pelos bazares do Porto, como Bazar Dos Três Vinténs, Bazar Paris, Bazar Londres e Casa Ametista, etc.,. Em 1959, já tem cinco casas seguidas e a oficina torna-se numa fabriqueta com seis empregados. Com um pracista e um catálogo feito por Maciel, começou a vender os brinquedos para a capital e chega mesmo às antigas províncias ultramarinas. Nesta altura já tem ajuda dos filhos, o Marcelo com 11 anos e o Alberto com 9, trabalhando depois da escola.
A 25 de Julho de 1960, cansada e com o coração fraquinho, a avó Clara faleceu com 72 anos, na sua cama, como dantes morriam as pessoas. Chamou o neto Alberto, passou-lhe a mão enrugada sobre a cabeça como se lhe desse a bênção e fechou os olhos com o baixa-mar, eram nove horas da noite.
 
Clara partiu sem nunca desvendar a Maciel, quem era seu pai e qual tinha sido a sua ascendência. Só muito depois de Clara descansar em paz, no Cemitério de Agremonte no Porto e por entre papéis, cartas e documentos antigos, Maciel conheceu o pai José Medeiros dos Santos, por uma fotografia de cor sépia e desbotada. Do espólio da pequena casa de sua mãe, algumas recordações de família foram guardadas, entre elas, as colchas que punha à janela na Páscoa, uma de cetim azul-claro com rosas vermelhas bordadas a ponto cheio, outra de croché e linho, ainda a caneca de vidro que o sogro lhe deu e a célebre chávena de porcelana que sua mãe guardava com muito cuidado e carinho, prenda de seu pai, como ela dizia.      
 
  
Em 1962, Maciel vivia uma vida mais ao menos estabilizada e sem grandes aflições, casado com a Palmira, seus filhos e enteada. Já no Natal de 1961, tinha sido dos primeiros moradores da rua a ter uma TV em casa. Foi por causa daquele “caixote” da Philips com luz e imagem que a fábrica parou em 2 de Março de 1962, para todos assistirem ao Benfica ganhar 5 a 3 ao Real Madrid na Final do Campeonato da Europa. Mas como diz o ditado ”Grande nau, grande tormenta”, tinha atingido um grau de responsabilidade que exigia cada vez mais de si. A fábrica progredia, mas tinha que levar novo rumo nas instalações. Aquelas casinhas do bairro já não serviam as suas necessidades de expansão.
Por intermédio de um cliente e amigo, o Sr. Machado, comerciante de visão que tinha banca de quinquilharias no mercado do Bolhão, encontrou uma local perfeito na rua Dr. Julião da Maia, (antigo lugar da Cruz) junto á rua Costa Cabral, com instalações próprias para a fábrica num rés-do-chão e ainda com um vasto terreno nas traseiras, onde era possível construir um pavilhão para as máquinas, era o ideal. Além disso, o primeiro andar era uma boa residência com seis divisões. Assinou o contrato de arrendamento e fez a mudança em Agosto de 1963. Com a nova fábrica, agora com nova designação comercial, “Mirita” – Fábrica de Brinquedos e Utilidades em Madeira, Lda., dando inicio a uma nova página de sua vida.
     
«Apesar do país cinzento em que se viva, com a guerra no ultramar no auge e um ditador cego que governava pelo medo e a mordaça, criticado pelos países democráticos, como se pode ver no seu discurso de 18 de Fevereiro, na tomada de posse da nova comissão executiva do único partido possível, a União Nacional, ao fazer um balanço da guerra que durava á quatro anos, que no seu entender era positivo e dizia: «Assim, bastantes povos africanos nos parecem agora mais compreensivos das realidades e mais moderados de atitude. Eis o ganho positivo desta batalha em que os portugueses, europeus e africanos, combatemos sem espectáculo e alianças, orgulhosamente sós». Claro que essa solidão não impedia que a política portuguesa fosse geralmente criticada no exterior (para não falar da contestação interna, cada vez maior, com a repressão policial), Isso ficou bem patente durante a visita de Caetano a Londres em 1973, pontuado por manifestações hostis e manchetes violentas nos jornais. Mas estava perto o golpe militar de 25 de Abril de 1974, logo transformado em processo revolucionário de cariz popular. Portugal iria fazer as pazes com o mundo.

ENQUANTO ME LEMBRO...