terça-feira, 27 de outubro de 2020
CHÁVENA COM HISTÓRIA
CAPÍTULO 1
INTRODUÇÃO
Esta é a saga de duas famílias, com um traço de união entre elas, mas que durante mais de oitenta anos nunca se conheceram e bastou uma simples chávena, para que um dia se encontrassem numa esquina do tempo.
Os verdadeiros nomes dos intervenientes foram alterados e outros
inventados por desconhecimento dos mesmos.
A parte final da história, também foi ficcionada. Primeiro, porque
é quase desconhecida uma das famílias. Segundo, porque era assim que eu gostava
que tivesse acontecido.
O Autor
GUIMARÃES
Trata-se de um estojo com mais de cem anos e passou por quatro gerações. É em madeira de nogueira alemã, envernizado e com um lindo fecho de prata. A tampa é adornada em cantos opostos, por dois motivos florais cinzelados, também em prata, destacando-se em diagonal ao centro e em letra gótica, a palavra “Kaffee”, (café em alemão). O interior da caixa é forrado a veludo vermelho e está dividido em seis partes, cada uma guarda uma chávena de porcelana, tendo por dentro da tampa umas presilhas que prendem seis pires, três de cada lado. As peças com belos efeitos decorativos, a bege e verde-mar pintadas à mão, com uma orla em ouro de 18 quilates, foram produzidas na tradicional fábrica de porcelanas Heinrich, na cidade de Selb, na Bavária e têm a marca “Germânia”. Os cinco pires ao centro têm pintado em finíssimas letras pequenas, os nomes dos membros da família: José; Adelaide; Cecília; Leonor e Noémia. O sexto pires, assim como a chávena, não existe... É que... Durante 87 anos, entre 1922 e 2009, este estojo esteve apenas com cinco chávenas, sem nunca se saber que destino levou a que faltava, até que um dia...
Este estojo de chávenas de café foi uma das prendas de casamento que Adelaide Coutinho de Albuquerque recebeu, no dia 15 de Agosto de 1906, quando acrescentou ao seu nome “dos Santos”, ao contrair matrimónio na igreja de S. Tiago, matriz da paróquia de S. Tiago de Gesta, em Guimarães, com José Medeiros dos Santos, antigo empregado e na época, gerente da fábrica de lanifícios de seu pai, o eminente industrial do lugar, Armando Coutinho de Albuquerque.
De olhos lindos, esverdeados como a mãe e a longa trança loira
enrolada na nuca, de vestido branco, véu e grinalda, Adelaide não cabia em si
de contente, naquele dia da Senhora de Assunção, em que finalmente se uniu ao
grande amor da sua vida, com quem começou a namorar à quatro anos atrás
(primeiro às escondidas), ainda sua mãe era viva, apesar dos maldizentes boatos
que corriam no lugar, a cerca das aventuras do mulherengo José de Medeiros. Seu
pai, que a princípio se mostrou um pouco relutante em perder a sua princesa,
cedeu ao pedido de José Medeiros em lhe dar a sua mão, com a promessa de
ficarem a viver lá em casa no solar de Gesta, magnífica e bucólica propriedade
herdada da família Albuquerque e que devia o seu nome ao rio que a atravessava,
o Gesta.
Armando Coutinho de Albuquerque, sabia do valor e da tenacidade
que José sempre punha no trabalho, tinha-o demonstrado várias vezes e mais uma
vez agora, ao ser um dos principais e o mais acérrimo impulsionador da
introdução em Janeiro desse ano, da energia eléctrica em São Tiago de Gesta e
na fábrica que até aí, trabalhava com teares movidos a vapor. Tinha perdido a
esposa à três anos atrás e a idade já lhe pesava nos seus 70 anos. Gostava do
José Medeiros como um filho e tinha esperança que fazendo dele seu genro, havia
de perpetuar a Fábrica de Lanifícios S. Tiago para além da sua existência.
Reconhecia nele a fibra de um líder nato e com dotes próprios de quem sabe
enfrentar as vicissitudes e comandar com diplomacia. Enfim... José Medeiros era
o filho que nunca teve. Conheceu-o, ainda era um rapazinho de doze anos, quando
ajudava nos trabalhos de construção do stand com que orgulhosamente a sua
fábrica marcou presença no extraordinário certame, que foi a Grande Exposição
Industrial de Guimarães em 1884. Nessa época, ainda com 48 anos, andava feliz
com o nascimento da sua Adelaide e com o progresso da sua fábrica de
lanifícios, construída como o seu poder empreendedor e que empregava já, mais
de metade da população de S. Tiago de Gesta, dando um forte incremento à
industria local e de Guimarães em geral, que lhe mereceu a atenção do Reino e
de Sua Majestade o Rei D. Carlos I, com uma comenda.
O Sr. Armando Coutinho de Albuquerque, sentia orgulho na comenda,
até o semanário de Guimarães já lhe chamava: “Comendador Albuquerque”, mas não
era coisa que lhe toldasse os sentidos, ou o fizesse esquecer as preocupações
que sentia em relação a outras mais importantes. Andava preocupado com a
situação que se vivia no país, principalmente com as noticias que chegavam ao
norte através do jornal “Vimaranense”, sobre o pedido de demissão de Hintze Ribeiro
a D. Carlos e com a nomeação de João Franco para formar o governo. Segunda a noticia, aparentemente algo se
passara alguns dias antes, o Rei havia proposto ao chefe do executivo, um certo
entendimento com os republicanos, que não colhera as simpatias de Hintze
Ribeiro. João Franco, tinha apresentado o seu
programa de governo na sede do seu partido em Lisboa, o que era inédito em
termos de política portuguesa, dizendo querer governar à inglesa, isto é, com
energia, mas dentro do espírito das leis, com mão suave e firme. Proclamava até
a tolerância e a liberdade para o país compreender a monarquia. O Comendador
Albuquerque, tinha
consciência que a Monarquia estava por um fio, desde a 1ª acção militar levada
a efeito, com a revolta no Porto a 31 de Janeiro de 1891, já lá iam quinze
anos.
CHÁVENA COM HISTÓRIA
CAPÍTULO 2
José Sebastião Medeiros dos Santos, filho de uma humilde família
de Azurém, nasceu a 14 de Dezembro de 1872 e foi baptizado a 20 de Janeiro, dia
de S. Sebastião padroeiro do lugar. Desde novo mostrou aptidão para as contas e
aos 12 anos já trabalhava na fábrica São Tiago como moço de recados. Foi aí,
que já um homem feito, disputado pelas moçoilas casadoiras que passeavam no
jardim do Turel, ou se exibiam na festas de S. Torcato, que o então exímio
mecânico de teares, conheceu Adelaide, no último dia do século XIX, se bem que
era de opinião, que o último dia do século só seria o 31 de Dezembro de 1900.
Mas nesse ano de 1899, o fim do ano calhou a um sábado e ao fim de mais um dia
de trabalho, o patrão fez uma reunião com todos os operários, na presença da esposa
e da filha, distribuindo gratificações e agradecendo a todos a colaboração no
engrandecimento da Fábrica de Lanifícios S. Tiago, fazendo votos de progresso
para o novo século. Tinha José 27 anos e Adelaide 15. Só daí a quatro anos se
começaram a encontrar às escondidas e só no ano de 1903, tiveram permissão para
namorar, seis meses depois de sua mãe falecer, até que no ano de 1906, o José
com 34 e a Adelaide com 22 casaram. Era vontade dele casarem na capela de Santa
Barbara de quem era devoto. Juntamente com seus pais, nunca faltou a uma missa
ou a uma festa no dia da padroeira das tempestades e trovões. Mas a vontade de
Adelaide e do pai prevaleceu e a cerimónia foi na igreja de S. Tiago, onde os
ancestrais da família Albuquerque sempre se tinham unido pelos respeitosos
laços do matrimónio, há muitos anos atrás.
Foi uma cerimónia bonita, a que não faltaram os convidados de
ambas as partes, embora do lado humilde de José Medeiros, se notasse que não se
sentiam muito à vontade naquelas jaquetas apertadas, num dia de calor de Agosto
como aquele. Não fora o banquete bem bebido à sombra dos amieiros na margem do
idílico rio Gesta e os convivas tinham suado as estopinhas.
A festança correu até às tantas e já um lindo céu de tons vermelho
carregado morria por trás dos ciprestes, quando Adelaide e José se recolheram
ao quarto de núpcias, entre beijos e promessas de amor. O Comendador
Albuquerque nessa noite, foi pernoitar ao hotel “Portucalense” na cidade, para
deixar os pombinhos à vontade no solar, não sem antes passar pelo bar da
Associação dos Industriais de Guimarães, para oferecer aos amigos charutos e
fazer brindes à felicidade da sua “princesa” Adelaide.
O Sol do novo dia já ia alto, quando José Medeiros veio encontrar
a esposa de robe na sala, desfazendo os embrulhos de laços coloridos das
prendas que receberam na véspera. Uma das caixas brilhava com o verniz bem
lacado, era um estojo de café que logo mereceu lugar de destaque em cima do
aparador, junto de outros serviços de porcelana fina.
Adelaide que tanto ansiava não conseguia engravidar, mas nunca
perdeu a fé com preces a S. Tiago e levava à risca as recomendações do Dr.
Clemente, até que em Julho de 1909, foi com muita alegria que anunciou ao
marido que esperava um filho. José Medeiros não coube em si de contente, apesar
das preocupações que agora o afligiam em tomar definitivamente o destino da
fábrica em suas mãos. Tinha acontecido, a partir do dia em que uma grave doença
prostrou o Comendador em Dezembro de 1907. No ano seguinte, andava o país em
alvoroço pelo assassinato do Rei D. Carlos a 1 de Fevereiro. O sogro ainda
esteve dois anos acamado, mas o seu estado agravou-se e a doença levou-o com o
advento da Republica, um mês antes de conhecer a neta a quem puseram o nome de
Cecília (nome da mãe de Adelaide) e que nasceu a 20 de Abril de 1910.
O parto foi difícil, Adelaide andava fraca, tinha perdido seu pai
muito querido há pouco tempo, mas a vinda daquele anjo de cabelo loirinho à sua
vida, fez com que ganhasse ânimo e ser uma mãe sempre presente ao lado da sua
bebé, ao contrário de José Medeiros que agora se tornara mais ausente com
preocupações na fábrica, na política e outras coisas que ela ouvia os criados
cochichar, mas que Adelaide não queria acreditar.
José Medeiros era um galante, altivo e bem-apessoado com seu
bigode imponente, um elegante cavalheiro que facilmente seduzia as mulheres,
principalmente aquelas da alta-roda vimaranense, que frequentavam os salões de
chã da cidade ou o clube da Associação Comercial e Industrial de Guimarães.
Com a fundação do Banco de Braga, no ano de 1912 (por coincidência
ou mau presságio, na mesma segunda-feira dia 12, em que o “Titanic” se afundou
ao norte do Atlântico), o comércio e a indústria do distrito conseguiram um
novo incremento em todas as suas vertentes.
O Dr. Manuel de Arriaga era agora o 1º Presidente da Republica
constitucionalmente eleito e todos ansiavam a estabilidade do país. José
Medeiros, que na época já era considerado um conceituado industrial de
Guimarães, tinha montado escritório na cidade para estar mais próximo do
telégrafo e outros centros nevrálgicos que em S. Tiago de Gesta não tinha
acesso. Levava a vida entre a fábrica e o escritório, negligenciando um pouco a
sua vida familiar, onde praticamente só ia dormir e muitas vezes tarde da
noite. Empregava agora a quase totalidade da povoação de S. Pedro e muitos de
lugares vizinhos. Tinha conseguido um contrato de exportação para Inglaterra,
onde a qualidade do linho dos seus afamados lençóis tinha chegado. Assim, os
Lençóis S. Tiago solidificaram a sua marca no exterior, com a ajuda de grandes
investimentos em novas tecnologias, a maior parte deles financiados pelo novo
Banco, que punha à disposição dos industriais mais afoitos os seus serviços,
visando como sempre, auferir dos lucros que daí advinham.
O tempo foi passando com o espectro da guerra a pairar sobre a
Europa. Adelaide, depois de rezas e muitas promessas a S. Tiago e S. Torcato,
ficou de novo grávida para grande alegria do marido e deu à luz a segunda filha
do casal no dia 14 de Outubro de 1914, a quem deu o nome da avó paterna,
Leonor. José Medeiros sentiu-se desiludido, por ainda não ser desta vez que a
sua Adelaide lhe dava um rapaz, que ele muito desejava para herdeiro do seu
império. Adelaide desabafava com Joaquina, a antiga criada de seus pais,
falava-lhe do quanto sofria, em ver nos olhos do marido a sua tristeza, rezavam
juntas e faziam promessas, pedindo a S. Tiago que trouxesse àquela casa um
menino.
Um dia, Adelaide questionou-o sobre a sua tristeza e quase indiferença
dele, José para lhe demonstrar agrado, mandou pintar em Barcelos, sem ela
saber, em quatro pires do serviço de café que ela tanto gostava, os nomes da
família: José, Adelaide, Cecília e Leonor. Quando dias depois a surpreendeu com
um beijo e com o estojo na mão, disse-lhe:
— Ainda temos dois pires! Havemos de tentar até Deus nos dar um
filho homem. Adelaide ficou radiante com a ideia, mesmo sabendo o quanto sofria
por tentar mais uma vez engravidar. Conservava o estojo aberto, dentro da
cristaleira da sala, junto de outras peças de cristal e serviços de faiança da
Vista Alegre, que desde 1824 tinha intensificado o aperfeiçoamento de finas e
lindas porcelanas portuguesas.
CHÁVENA COM HISTÓRIA
CAPÍTULO 3
AMARANTE
Distante dali mais de seis léguas e meia, no lugar de Carreiro do
Rei em Amarante, Clara Menezes de Castro, viúva e com uma filha de 12 anos,
pensava na forma de dar um novo rumo à sua vida de miséria. Vivia entre o campo
e a quase escravidão de “servir” senhores da terra, ansiava partir para outros
lugares. Tinha 32 anos, nascera no Lugar de Lindar a 1 de Maio de 1882,
conhecera o Samuel no areal da praia do rio Tâmega em Larim, num domingo quente
de Julho. Servia na época com vinte anos e desde os treze, numa casa senhorial
na Vila de Amarante. Era a terceira filha de sete irmãos e era com ansiedade
que os pais a queriam “arrumada”. Casou grávida de quatro meses, no dia da
Feira do Cavalinho a 12 de Julho de 1902 na Igreja velha de Lindar. Ficou a
viver em casa da sogra, uma velha rabugenta e viúva que não gostava dela. O
marido que em Outubro desse mesmo ano assentou praça no Regimento de Infantaria
18, no Campo de Santo Ouvidio no Porto, teve a infelicidade de ser mobilizado
para Angola no ano seguinte, para fazer parte do regimento que embarcou no
Douro, primeiro para Lisboa e depois para Luanda. Esteve presente no desastre
militar de Pembe, de onde saiu com as pernas decepadas por o rebentamento dum
obus.
«Foi a
25 de Setembro de 1904, que se produziu a maior derrota dos portugueses em
África. No sul de Angola, a cerca de 500 quilómetros da costa, quando uma
coluna comandada pelo governador da Huíla, João Aguiar (de que fazia parte
Gomes da Costa, mais tarde famoso pela revolução portuguesa de 1926), se
internou para lá do rio Cunene, através do vau do Pembe, numa campanha de
início contra a poderosa tribo dos Cuanhamas. Os soldados portugueses, foram
apanhados numa emboscada, caíram às mãos de outra tribo do grupo dos Ambós, os
Cuamatos, que deixaram no local centenas de mortos».
Samuel foi enviado para casa, onde veio a falecer quatro anos
depois, levado pela bebida onde afogava o desgosto, de não ser mais um homem
normal e ter que ser empurrado numa cadeira de rodas cedida pelo exército. A
filha Isabel tinha seis anos e Clara ficou com uma parca pensão para sustento
da filha. Ainda aguentou a trabalhar dobrado, entre a cozedura de pão num forno
de Padronelo e como cozinheira numa casa da vila durante 12 anos. Passou pelo
racionamento de géneros alimentícios provocados pela guerra, apesar de menos
sentido no interior do país. Passou ainda pela “Pneumónica” de 1918, que lhe
levou a sogra, mas infelizmente também lhe levou os pais e um irmão, Essa peste
que só no norte fez quase 45 mil mortes e desencadeou uma grave crise
demográfica no país.
Clara trabalhou até onde pôde, mas a vida era bem adversa, vivia
só com a filha, seu irmãos viviam longe, dois tinham ido para o Porto e outro
vivia em Salvador, do outro lado da Vila e a irmã mais velha tinha casado, indo
viver com o marido para Lisboa. A única companhia de Clara além da filha, era a
sua comadre Florinda que tomava conta da pequena enquanto trabalhava. Até que a
sua amiga de infância Clotilde, numa das vindas a casa, na festa da Senhora de
Lindar, a convenceu a mudar de vida e ir trabalhar para Guimarães, pois sabia
de uma família nobre que precisava de cozinheira. Clara ainda hesitou, mas
perante a desdita em que vivia, tomou uma solução. Fez uma trouxa, vestiu a sua
melhor saia de cotim e a sua blusa de chita, pôs o xaile pelas costas e depois
de deixar a filha já moçoila, entregue aos cuidados da madrinha, partiu na
camioneta da carreira com a Clotilde para Guimarães a 9 de Agosto de 1920. À
passagem por Celorico, Clara ainda soluçava, mas ao passar por Fafe já limpara
as lágrimas, arregaçara as mangas disposta a enfrentar a sua nova vida.
CHÁVENA COM HISTÓRIA
CAPÍTULO 4
GUIMARÃES
Era uma quarta-feira dia 11 de Agosto, quando Clara entrou ao
serviço da família Santos em S. Tiago de Gesta. Além de cozinheira, ajudava a
Joaquina nas tarefas da casa e como tinha jeito para as crianças, foi ama de
Cecília e da Leonor, que nesta altura já tinham 10 e 6 anos. Embora a mais
velha na maior parte do dia, estivesse ocupada com a professora dona Mercedes,
no estudo do português, francês, história e piano. Sua patroa, dona Adelaide
Albuquerque dos Santos, era uma santa senhora, andava grávida de dois meses e
rezava aos céus para que desse à luz um menino que o marido tanto desejava.
Clara fazia com a senhora longos passeios em landau pelas redondezas, nas
tardes amenas de primavera. Paravam na ermida de Santa Barbara para orar, Clara
pedia a São Gonçalo, que guardasse a sua filha de maus caminhos e Adelaide
pedia a São Tiago que lhe desse o filho que José tanto queria. Foi num desses
passeios, que um dia Dona Adelaide mandou o velho Arménio parar os cavalos e
pediu a Clara que lhe fosse buscar um chorão (planta de cultura espontânea a
que também se dava o nome de monco-de-peru), para que pudesse trincar, pois era
esse seu desejo de mulher grávida. Coisas que o povo leva muito a sério...
O tempo passou e no dia 14 de Fevereiro de 1921, com José Medeiros
preparado com charutos para os amigos, nervoso de ansiedade e roendo as unhas
de desespero, andava pelos corredores à espera de ouvir um choro de criança que
fosse o rapaz que tanto queria, gritando por novas a Joaquina e Clara, que ajudavam
a parteira e o velho doutor Clemente, naquele acto misterioso de dar à luz. Ao
fim de longas horas de ansiedade, ecoou pela casa um choro de criança vinda ao
mundo e José no corredor deu saltos de alegria, perguntando aos gritos se era
um barão. Até que o bom doutor Clemente saiu do quarto a descer as mangas com
cara de desalento, para dar as tristes novidades ao seu amigo de tantas
cavaqueiras. Tinha nascido mais uma menina, linda e bem formada, mas... a sua
Adelaide não aguentou e Deus tinha-a chamado à sua presença esvaída em sangue e
sofrimento. José Meneses era pai pela terceira vez, mas para sua desventura,
acabava de ficar viúvo e sem um barão legitimo herdeiro dos seus sonhos. Desde os tempos mais primitivos que o filho (barão)
primogénito, ocupava uma posição honrada na família e era aquele que sucedia à
chefia da casa. Ele herdava uma porção dupla da propriedade do pai. Como
diz o provérbio indiano: “Todo o pai nasce de novo, num filho seu”.
Dona Adelaide foi sepultada no jazigo de família no cemitério de
S. Tiago e José Medeiros andou um tempo cabisbaixo, bebendo e fumando sem sair
do quarto nem para comer. Diariamente um moço de recados, trazia-lhe uma pasta
de documentos e o correio que se amontoava, José de Medeiros desmotivado nem os
lias, deixando-se abater pelo desânimo. Até que um dia e depois da visita de
alguns amigos que à muito notavam sua falta, convenceram-no a enfrentar a vida,
quanto mais não fosse, pelas filhas e pelo pessoal da fábrica que ele tanto
estimava. José acordou daquele torpor, mandou preparar um banho, vestiu-se
elegantemente, beijou as filhas recomendando a Joaquina e Clara a governação da
casa e partiu para a fábrica. As preocupações pessoais não se podiam sobrepor
ás do trabalho, ergueu a cabeça e atirou-se ao trabalho com afinco.
“A
guerra tinha terminado há três anos e durante o período, de 1914 a 1918 em que
decorreu a 1ª Guerra Mundial,
Portugal proclamou a sua aliança com a Inglaterra em 7 de Agosto de 1914 e pediu para entrar nas operações
militares contra a Alemanha. Em 17 de Setembro partiu uma primeira expedição
para reforçar as colónias em África. Em Fevereiro de 1916 Portugal apresou os barcos alemães que
estavam nos seus portos, e a Alemanha
declarou-lhe guerra a 9 de Março. Um submarino alemão bombardeou a
cidade do Funchal na ilha da Madeira, em Dezembro de 1916, o que causou grande
emoção em Lisboa. Foi
então que uma expedição portuguesa,
o CEP – Corpo Expedicionário Português, partiu
para a frente ocidental em 1917, sob o comando do General Tamagnini de Abreu; em 9 de Abril de 1918, ficaram debaixo de forte ataque alemão na batalha de La
Lyz , onde morreram muitos portugueses. O total
de efectivos portugueses enviados para a França, entre 1917 e 1918, foi de 55.083. Tivemos 2.086 mortos e 5.524 feridos, o custo do baptismo de fogo, que o governo da
República insistiu dar a Portugal para defender
o seu Império Colonial”.
Estávamos em 1921 e embora surgisse uma grave crise financeira na
Europa do pós-guerra, outros mercados nasciam para serem conquistados. José de
Medeiros iniciou contactos com a América do sul e firmou contactos com o
Brasil.
“Em
Portugal, as greves começaram a
constituir palavra de ordem. Em Agosto de 1922, à greve geral contra a carestia
de vida, seguiram-se outras levadas a cabo ao longo do ano de 1923. As eleições
sucediam-se. António José de Almeida chegou a dar posse a dezasseis chefes de
governo. Só entre Janeiro de 1920 e Março de 1921, sucederam-se sete. No ano de
1921, investiu mais seis. O ano de 1922 foi reservado para três governos de
António Maria da Silva, conseguindo-se finalmente uma certa acalmia”.
Os compromissos com o banco sucediam-se
nas datas acordadas e José Medeiros aguentava a investida, chegando a vender
alguns bens, como a propriedade de S. Torcato, que tinha comprado anos atrás
para as filhas. Segurou os seus operários como pode, dando-lhes confiança e
prometendo-lhes melhores dias. Na Europa, a matéria-prima começava a escassear
e foi obrigado a importar algodão dos Estados Unidos e da Argentina, para
manter a fábrica em elaboração.
Por casa, as empregadas iam tratando das filhas, com a supervisão
da Clara, agora mais governanta que criada. José Medeiros começou a olhá-la com
mais atenção e chamava-lhe Clarinha na intimidade, sim, porque não levou muito
tempo, que José Medeiros começasse a arrastar a asa nas noites em que ficava em casa. Clara era uma
mulher bonita e sem o avental e a touca engomada, de blusa de chita aos folhos
e com sua longa trança desfeita, José começava a reparar nas suas formas bem
femininas, que lhe turvava os sentidos, até ao dia em que não se conteve e a
levou para a cama. Clara engravidou e apesar de pensar que era um homem livre,
os preconceitos da época não o deixaram assumir um passo mais corajoso. Passava
o ano de 1922, a Cecília já tinha 12 anos e a Leonor 8, não iam compreender o
seu gesto, tão perto da morte da mãe, apenas tinha passado um ano. A 20 de
Maio, depois de arranjar, por intermédio de um cliente amigo, uma casa modesta,
mas bem apetrechada de conforto, na freguesia de Vilar no Porto, partiu com a
Clara grávida de um mês e de malas cheias para lhe pôr casa, Queria fazer dela
uma mulher à sua altura, havia de voltar dali a uns anos a Guimarães, casado e
com o seu filho nos braços, sua meninas haviam de compreender. Tinha a
convicção que Clara era a mãe do seu rapaz, tinha tanto a certeza disso, que
meteu ao bolso, embrulhado em papel de seda, uma chávena e um pires do serviço
de café da família e lhe deu para guardar como primeira prenda para o filho.
Clara compreendeu a atitude de José Medeiros e acreditava nas suas intenções,
era por pouco tempo, talvez dois anos e voltaria casada, depois, tinha grande
fé em Santo António ,
que o filho que trazia no ventre, seria um rapaz.
José de Medeiros, deixou-a na sua nova casa com dinheiro
suficiente para o que precisasse, depois de contratar uma tal dona Rosinda para
lhe fazer companhia e ajudá-la com a casa, partiu com a ideia que estava a
fazer o melhor. Chegado a São Tiago, mandou pintar no quinto pires do estojo de
café, o nome da terceira filha, Noémia, que era o nome de sua avó materna de
Chaves. Fez crer às filhas e à resmunguenta Joaquina, que Clara tinha
regressado a Amarante com graves problemas familiares. Só o fiel motorista
Macedo, tinha conhecimento do sucedido, embora Joaquina com a sua experiência
de vida, ouvidos atentos e sabedoria intuitiva, também soubesse mais, muito
mais que aquilo que o patrão pensava.
CHÁVENA COM HISTÓRIA
CAPÍTULO 5
PORTO
A 20 de Janeiro de 1923, por coincidência ou destino, no mesmo dia
do pai, a Clara deu à luz no Hospital de Santo António no Porto, um rapaz. José
Medeiros mal soube, apresentou-se no Porto desvairado de alegria, não lhe
faltou com nada e proporcionou-lhe toda a assistência necessária. Passado
alguns dias, ordenou de novo ao motorista Macedo que o levasse ao Porto,
transportando na mala do carro um enxoval completo para o filho. Na altura
tinha um “Panhard” modelo “Labory” de 1920, que em pouco mais de duas horas e
meia, o pôs de Guimarães a Vilar. Não cabia em si de contente, finalmente tinha
um filho! Deixou algum dinheiro á Clara e a promessa que mal pudesse e os
negócios o deixassem, viria visitá-la de novo, ou mandaria o Macedo com novas
provisões. Não queria que nada lhe faltasse, a ela e ao filho, mas...
explicou-lhe que era melhor para já, registar o menino como filho de pai
incógnito, com a promessa de mais tarde o perfilhar, era só até poder acautelar
o património das filhas em relação às dívidas que entretanto se tinham
acumulado com o banco. Clara registou a criança na Junta de Freguesia de Vilar
como: Maciel Meneses de Castro, filho de Clara Meneses de Castro, viúva e
natural de Lindar, Amarante, sendo filho de pai incógnito.
Clara tinha muitas vezes a visita de Macedo com o envelope lacrado
com dinheiro e palavras escritas, que dava à dona Rosinda para ler por ser
analfabeta. José Medeiros, apenas a visitava mês a mês, sempre para passar a
noite, leva-a a passear a Cadouços e à praia dos ingleses, acompanhado de
Rosinda que levava o Maciel num carrinho de bebé. Deixava o aluguer pago, e
partia depois de beijar o filho, babado por finalmente ter a quem deixar o seu
império, que embora periclitante, tinha fé que as coisas melhorassem de novo.
Mas no ano de 1924, os negócios não andavam nada bem, as dividas
ao banco e mesmo a alguns fornecedores, acumulavam-se.
“A Crise no país agudizou-se, com um
crescendo de insegurança e da
instabilidade política. A carestia de vida afectava essencialmente os operários,
que mobilizados pelas correntes sindicais, provocavam manifestações como a 22
de Fevereiro que descambou em violência e confrontos. A 14 de Julho registam-se
em Lisboa confrontos entre militares, envolvendo o Exército e a Guarda Nacional
Republicana, a que se dizia, não estarem alheias movimentações de tendência
fascista. Em 1925 os golpes militares sucederam-se e a crise agudizou-se”.
José Medeiros repara que seu filho, agora com dois anos, não anda
bem e pede a Clara que o leve a uma consulta ao Dr. Aragão, seu velho amigo de
Guimarães, a exercer medicina no Hospital da Ordem da Trindade. O menino, além
de chorar muito, tem febre alta, vómitos, diarreia e não se tem de pé. Ele que
já começava quase a andar... O médico, depois de o ver atentamente, envia-o com
urgência para o Hospital de Santo António, onde é diagnosticado ao pequeno
Paralisia Infantil.
“Na
época ainda não se tinha descoberto a cura para esta infecção viral causada
pelo poliovírus, que deu o nome à Poliomielite. Não haviam antibióticos
específicos para esta doença que geralmente afecta as pernas atrofiando os músculos. Só muito mais tarde,
em 1955 Albert Sabin e Jonas Salk descobrem a vacina que ainda hoje (a de
Sabin) é administrada por via oral e obrigatória a todas as crianças”.
José Medeiros desanimava, mais uma vez Deus lhe negou o herdeiro
que ele queria, ou seria castigo? Ou seria mais um desafio na sua vida? Não,
ele não queria ver um aleijado à frente do seu império e começou lenta e
covardemente a desviar-se das suas obrigações. Muitas vezes no quarto, sozinho
com a sua consciência, soluçava de impotência e raiva. Joaquina ouvia através
da porta o pranto abafado do patrão, batia levemente para lhe levar uma tisana
de cidreira, com o intento de acalmá-lo.
Clara tinha agora 43 anos, sofria ao ver desmoronar-se o seu
sonho. Tinha dado à luz, com muito custo devido à sua idade, o filho que José
tanto queria, mas... Deus castigou-a, lembrava-se agora tanto de seu marido,
naquela cadeira de rodas e da pouca atenção que lhe dera. Lembrava-se da filha
que não via há muito tempo. Só o motorista Macedo ainda a visitava com o
envelope cada vez mais leve a mando de patrão. Dona Rosinda acabou por ir
embora, sentia-se constrangida pela desgraça que assolava aquela triste casa,
depois, compreendia perfeitamente qual seria o destino daquela mãe, quando lia
nas entrelinhas das cartas que José Medeiros lhe mandava, pois muitas das
coisas que lia, mas não lhe dizia para não lhe destruir a ilusão em que Clara vivia. Rosinda
acabou por inventar uma desculpa com saudades da família e voltou para
Nevogilde. Clara ficou só a chorar a sua vida desdita, com o pequeno Maciel a
gatinhar, arrastando os joelhos pelo soalho da casa.
Em Janeiro de 1926 Maciel fez três anos. O tempo foi passando e
seu pai, o grande industrial de Guimarães, estava cada vez mais debilitado
economicamente e não lhe podia valer, como lhe chegou a aconselhar o Dr.
Aragão, para que metesse o pequeno num hospital de reabilitação, até ser
possível adaptar um aparelho ortopédico às pernas. A crise económica era tal,
que José Medeiros chegou a vender, com muita pena sua e das filhas, a
propriedade do Solar de Gesta e mudou-se para uma propriedade mais pequena em
Colares, com as filhas e a boa Joaquina. Cecília tinha agora 16 anos, as irmãs,
12 e 5.
“Coincidindo
com o momento crítico para o governo presidido por António Maria da Silva. No
ambiente de frenética intriga política que se vivia, pois os boatos de um golpe
de estado desde há muito que corriam, sendo seguro que existiam múltiplos
convites ao general Gomes da Costa para dirigir esse golpe, como sempre
“regenerador”, que “salvasse a Pátria”. No dia 28 de Maio de 1926, pelas 6:00
da madrugada, iniciou-se uma sublevação militar, com acompanhamento e apoio civil,
incluindo do operariado da região, organizando-se uma coluna que partiu de
Braga sobre Lisboa.
A 3 de Junho as tropas de Gomes da Costa chegaram a Sacavém
de comboio e entraram em Lisboa sem resistência.
Nesse mesmo dia em Lisboa, Mendes Cabeçadas organizou o novo governo,
entregando a Gomes da Costa as pastas da Guerra e interino da Marinha e
Colónias. Para as Finanças escolhe António Oliveira Salazar. Estava preparado o
cenário para o Estado Novo. A 7 de Junho, o general Gomes da Costa tomou posse das
pastas para que fora nomeado e comandou um impressionante desfile militar de
vitória ao longo da Avenida da Liberdade. Desfilam 15 000 homens perante o
aplauso de centenas de milhar de pessoas. Gomes da Costa tomou
depois, posse como Chefe de Estado e como Presidente do Ministério, assumindo
interinamente todas as pastas. A 8 de Julho, as forças mais conservadoras,
agora lideradas por Óscar Carmona, assumem a liderança e o general Gomes da
Costa é feito prisioneiro no Palácio de Belém, sendo posteriormente deportado
para Angra do Heroísmo, nos Açores. A revolução acabou por destruir o seu
principal obreiro e criador. Tinha começado o Estado Novo, que viria a durar 48
anos de opressão e fascismo”.
A crise estava instalada no país, há muitas indústrias não
aguentaram. Em S. Tiago do Gesta, na fábrica de Lanifícios, os efectivos
operários foram reduzidos, a produção baixou e muitas máquinas pararam. José
Medeiros quase esqueceu a Clara, agora, apenas lhe pagava o aluguer de casa e
pouco mais. Deixou de a visitar.
Clara começou a pensar em trabalhar mas não tinha onde deixar o
filho, arranjou serviço como criada de servir, numa casa onde duas senhoras
idosas lhe deixavam levar o menino durante o dia e à noite, regressava a casa
com ele ao colo, cada vez mais pesado, nunca mais andou pelo seu pé, nem havia
esperança de alguma vez vir a andar. Viveu assim quase dois anos, até que por
intermédio dessas bondosas senhoras, teve conhecimento que um doutor, de nome
Henrique Gomes de Araújo, tinha fundado na Foz do Douro o “Refúgio da Paralisia
Infantil”.
“Tratava-se
de uma instituição de assistência aos deficientes motores com poliomielite.
Este médico dedicou-se ao tratamento, primeiro com choques eléctricos, pesos e
outras experiências, depois com a obtenção do soro antipoliomielítico (que
passou a ser aplicado a partir de 1940), até obter resultados satisfatórios
como por exemplo, virem a andar com aparelhos ortopédicos ou muletas”.
Clara conseguiu o internamento do filho nessa instituição em 1928,
tinha o Maciel cinco anos.
Trabalhava na casa das boas senhoras em Aldoar e visitava o
pequeno, todas as semanas. Eram visitas dolorosas, custava muito vê-lo deitado
com aqueles pesos presos às pernas. Por esta altura só o Macedo ainda a
visitava, até lhe trazer uma carta onde José Medeiros lhe dava conta que não
conseguia mais satisfazer o compromisso de a sustentar, apenas continuava a
pagar-lhe o aluguer de casa. Como sabia que ela agora trabalhava e que o
pequeno está bem entregue, pedia-lhe que aceitasse as suas desculpas e o perdão,
por não conseguir ser mais coerente como gostava.
Clara, infeliz com esta forma de abandono, encheu-se de orgulho,
pediu às duas senhoras, se a deixavam viver lá em casa até tomar novo rumo para
a sua vida. As senhoras aceitaram e Clara, agora com 46 anos e a ajuda das
senhoras na venda de algum mobiliário, instalou-se num quarto dos fundos com a
mobila de quarto que tinha, uma mala de roupa e um saco de pertences, entre
eles, a chávena de porcelana que guardou para o filho como recordação do pai.
CHÁVENA COM HISTÓRIA
CAPÍTULO 6
GUIMARÃES
“Em
1929, instalou-se a crise económica mundial, deu-se um desastre súbito do
capitalismo, os preços das acções na Bolsa americanas, estavam muito acima do
efectivo valor das empresas. O dinheiro então era desviado da produção para
reforçar mais negócios com títulos de acções, ou seja para reforçar a
especulação. Alguns economistas mundiais afirmavam que a economia americana
estava super valorizada, pois os empréstimos dos bancos haviam saltado de 2
biliões de dólares (em 1926) para quase 7 biliões em Outubro de 1929. A
depressão alastrou dos Estados Unidos para outros países no mundo e aqueles
cujas economias dependiam muito da exportação das matérias-primas, viram a sua
situação agravar-se, quando estes reduziram drasticamente as suas importações
devido às dificuldades económicas e financeiras. Daí a acumulação de stocks ou
a sua destruição para tentar evitar a contínua descida de preços. Estes países
fornecedores de matérias-primas deixaram de ter por seu lado, capacidade
financeira para adquirir produtos da Europa e dos EUA. O comércio mundial
entrou deste modo, numa fase de grande depressão. O colapso deu-se no dia 24 de
Outubro, quando a Bolsa de Valores de Nova York, caiu de maneira drástica,
fazendo perder no mundo inteiro, milhões e milhões de dólares”.
Em Portugal a crise foi notada de tal maneira, que abalou com a
economia de centenas de empresas, que faliram e despejaram no desemprego
milhares de trabalhadores. Alguns bancos que faliram e arrastando consigo
muitas empresas. Um deles, foi o Banco de Braga que durou apenas 17 anos e
arrastou consigo para o abismo muitas empresas do Minho, empresas que tinham
apostado nos banco para o seu desenvolvimento, que tinham agora grandes
responsabilidades em investimentos que fizeram a contar com os empréstimos,
entre elas estava a Fábrica de Lanifícios de S. Tiago de Gesta. José de
Medeiros não aguentou o desaire, era o caos, a desonrara e o fim de um sonho.
Na Sexta-feira, 3 de Janeiro de 1930, o semanário “O Vimaranense”, trazia em
primeira página esta notícia:
“Mais
um empresário, destacado e muito querido desta terra, faleceu ontem às
primeiras horas do dia. Trata-se do conceituado Industrial vimaranense, José
Madeiros dos Santos, de 58 anos, que deixa três filhas. As autoridades
suspeitam de um suicídio, causado pela crise económica que atravessamos e que
tem levado centenas de empresas á falência. O funeral realiza-se amanhã, sábado
dia 4, pelas 15h00, depois de exéquias na capela de Santa Barbara, onde se
encontra depositado em câmara ardente, para ir a exumar em jazigo de família no
cemitério de s. Tiagos. À família enlutada, os nossos sentidos pêsames”.
Acabava assim a vida de um homem, dum pai, dum empresário, dum
honrado cidadão, da qual muitas vidas dependiam. O Dr. Orlando, advogado e
amigo da família, tratou de informou a Cecília, que ela e as irmãs estavam
salvaguardas com a pequena propriedade que o pai lhes deixara, uma vez que
estava em nome dela como mais velha (a Cecília tinha agora 20 anos), de resto,
o passivo da fábrica entre máquinas e propriedade, eram suficientes para saldar
as dívidas à banca e a fornecedores. Leonor tinha 16 e a Noémia apenas 9 anos.
A velha Joaquina já com quase 64, vivia com as meninas que tinha visto nascer,
assim como tinha assistido, há 46 anos atrás, ao parto de Dona Cecília de
Albuquerque, quando Dona Adelaide (mãe das meninas) veio à luz.
Durante muito tempo ninguém entrou no escritório, até ao dia em que Joaquina resolveu
dar uma arrumação à dependência. Escondeu bem o revólver que a polícia devolveu
depois do incidente e tratou de limpar tudo, abriu as janelas para a divisão
apanhar ar, mas as portas ainda continuaram por muito tempo encerradas. Noémia
foi a que mais sentiu, por não compreender muito bem como tudo aconteceu, pois
tinham-lhe poupado muitos dos pormenores daquele dia fatídico.
CHÁVENA COM HISTÓRIA
CAPÍTULO 7
PORTO
Clara só soube do sucedido, no primeiro de Maio desse ano, uma
sexta-feira (que ainda não era feriado em Portugal), quando o Macedo apareceu
em Vilar com uma garrafa de vinho do Porto, provando que não se esqueceu dela e
querendo festejar os seus 48 anos. Quis saber como ia a sua vida e como andavam
os tratamentos do pequeno Maciel. Por fim, acabou por lhe dar a notícia do
desaparecimento do seu finado patrão, José de Medeiros e de como andava a vida
das meninas e da velha Joaquina. Falou-lhe como tinha arranjado emprego de
motorista em Águas Santas na Maia. Durante a conversa, Clara acabou por
desabafar e contar como apareceu em Guimarães para trabalhar há dez anos atrás.
Desfiou-lhe o rosário da vida que passou, que era viúva (quase duas vezes...)
que nada sabia dos irmãos nem da filha que tinha deixado entregue à comadre em
Amarante, que nunca mais visitou e tinha muitas saudades. Macedo comprometeu-se
a levá-la a Amarante, mais para o verão e em data a combinar. Despediu-se, mas
ficou entre eles um certo sentimento que ia além da amizade, com a promessa de
a visitar mais vezes.
GUIMARÃES
Em S. Tiago de Gesta, as quatro mulheres vestidas de luto, iam
levando a vida e confortando-se mutuamente. Joaquina, a quem pegar numa enxada
nunca meteu medo, amanhou a terra e tirava assim algum do sustento para
alimentar as quatro bocas da casa. Conseguiam mais uns cobres para fazer
compras na venda, com os bordados que Cecília fazia, sentada no terraço ao sol
e muitas vezes aos serões. Leonor depressa aprendeu a bordar e ajudava a irmã,
mas por essa altura, já arrastava a asa a um rapaz mais velho oito anos,
acabado de voltar de Coimbra com o curso de direito. Era filho de um criador de
gado duma freguesia vizinha, gente de bem e abastados quanto possível. Começou
a namorar com o consentimento da irmã e veio a casar no começo do ano seguinte,
indo viver para Vila do Conde, onde o marido tinha montado um escritório de
advocacia, especializado direito sucessório. Ao partir, prometeu ajudar às
irmãs sempre que possível e visitá-las assim que pudesse.
Cecília que em 1932, fez vinte e dois anos e embora tivesse alguns
pretendentes, sentia a responsabilidade de olhar pela irmã mais nova, afastando
assim qualquer ideia de casar ou sair de casa. Noémia, aos onze anos entrou
para o liceu de Guimarães, com a ajuda do Dr. Clemente que a hospedou em sua
casa na cidade. Era uma menina prendada, estudiosa mas triste, com saudades das
irmãs. O bom doutor não tinha filhos e Noémia, era o Sol daquele lar, mas
sempre ansiosa pelas férias da Páscoa, de verão, das festas de Santa Barbara ou
do Natal, para voltar a casa cheia de saudades.
PORTO
Clara voltou nesse ano a Amarante para visitar a filha e os
irmãos, foi no dia dos festejos da Senhora de Lindar, mas... não foi muito bem
recebida pela família, por acharem que ela os tinha esquecido e abandonado a
filha ao Deus-dará. Isabel estava uma mulher com 28 anos, casada sem filhos e a
viver na casa da madrinha que entretanto tinha morrido. Mesmo contando os
infortúnios por que passou, não consegiu demover a família do que sentiam e a
Clara voltou mais triste, amargurada e arrependida da visita. Todos lhe viravam
a cara, até as amigas doutros tempos. Clara de olhos molhados, jurou que tão
cedo não voltaria a Amarante. Macedo que agora era mais do que um simples
amigo, aconselhou-a dar nova volta à sua vida, uma vez que uma das senhoras
onde vivia tinha falecido e a outra estava muito doente e com os parentes a
rondar a casa como abutres, levando jóias e outras coisas de valor. Antes que
pudesse ser responsável pela lapidação do património das velhas senhoras e sem
esperar qualquer agradecimento de tal gente, tratou de procurar uma prima que
também vivia no Porto, para os lados de Paranhos, disposta a dar uma viragem na
sua vida. Clara soube através dessa prima, de uma casinha para alugar na rua da
Flora na Lapa por vinte escudos por mês. Era o ideal.
“A Lapa
ainda hoje pertence à Freguesia de Cedofeita, em tempos, foi uma das Freguesia
mais burguesas do burgo tripeiro, mas que sempre teve nos seus limites, bairros
de operários de gente pobre mas muito bairrista, era o caso do bairro da Lapa
com suas ruas estreitas, escadinhas e vielas, que tem a sua história ligada ao
Cerco do Porto que durou quase um ano, de Julho de 1832 a Agosto de 1833, no
qual as tropas liberais de D. Pedro, estiveram sitiadas pelas forças fieis a D.
Miguel. É neste bairro que se encontra guardado o coração, que o Rei soldado doou á cidade
Invicta, que sofreu com ele o cerco e cujo a essa heróica resistência das suas
gentes, se deve a vitória da causa liberal em Portugal.
A morte do Rei D. Pedro IV, ocorreu no
palácio de Queluz em 24 de Setembro de 1834 e foi a Imperatriz D. Amélia, por
decisão testamentária, que a 5 de Fevereiro de 1835, chegou á barra do Douro
com o real legado, que foi transladado para a igreja da Lapa perante o
testemunho de milhares pessoa, ostentando luto carregado e empunhando tochas
acesas. O cofre com a urna de prata, é aberta de 4 em 4 anos por funcionários
da câmara, para que se proceda à mudança do líquido da jarra de cristal onde o
coração se encontra inserido”.
Macedo, com os poucos conhecimentos que tinha, arranjou à Clara
trabalho numa padaria no Largo Moinho de Vento (propriedade dos seu novos
patrões), para padeira e já com uma venda fixa na zona da rua de Camões. Tinha
que se levantar de madrugada para estar na padaria às seis horas, para depois
de canastra à cabeça, percorrer as ruas na entrega do pão. Clara aproveitou o
ensejo que a vida lhe dava, fez as trouxas, emalou as roupas e foi morar para a
rua da Flora na Lapa. Como recordação de Guimarães e dum tempo que gostava de
poder esquecer, entre a roupa levou a tal chávena e o pires de porcelana que
José Medeiros lhe tinha dado.
Assim se passaram alguns anos, Muitas feridas o tempo apagou,
outras continuavam à espera de cicatrizarem. Como o tempo tudo apaga e ameniza
as dores como bálsamo, Clara ia levando a sua vida, entre a venda do pão e as
visitas ao Refugio para ver o Maciel. De vez em quando, dava uns passeios com o
seu companheiro, que a visitava amiúde. Aproveitavam os lindos passeios
(chamados passeios pelo rio acima) em batelões pelo rio Douro, fazendo
piqueniques nas margens, com bailaricos animados em Ribeira d’Abade, onde ainda
davam pequenos passeios pela tarde, em “Valboeiros” da pesca do sável.
Conseguiam assim levar uma vida pacata, mas com alguma alegria. Chegaram a
levar num desses passeios o Maciel, numa das ocasiões em que veio a casa de
férias, dando os primeiros passos com as muletas a que ainda não se habituara
bem.
CHÁVENA COM HISTÓRIA
CAPÍTULO 8
GUIMARÃES
Chegou o ano de 1939 e a Noémia regressou a casa com o curso do
Liceu e 18 anos feitos. Cecília, quase com 39, tinha casado com o Dr. Orlando o
velho amigo e antigo advogado da família, que muito a tinha ajudado na
liquidação da massa falida da fábrica e de toda a burocracia inerente à
quitação. Ficou a viver lá em casa no quarto que era do falecido pai, não
queria abandonar a mana mais nova. Nesse mesmo ano, enterraram a velhinha
Joaquina com 73 anos, cheios de trabalho e canseira.
Leonor todos os anos passava as férias em S. Tiago, com o marido e
os três filhos que agora tinha. A vida no campo corria na paz dos anjos, até
que em Maio desse ano, surgem nos jornais as notícias do flagelo da Guerra na
Europa, que se espalhou pelo mundo e provocou em Portugal enormes efeitos ao
nível económico, social e político.
“Salazar
no dia 1 de Setembro, declara a sua neutralidade no conflito e até 1940, o país
mal sentiu os efeitos da guerra, mas a partir de 1941, começa a disputa do
volfrâmio entre as potências beligerantes. A partir de 8 de Outubro de 1943,
Portugal cedeu a base das Lages nos Açores aos EUA, mas continuou com a sua
politica de neutralidade. Devido ao desequilíbrio dos sistemas de produção da
maioria dos países europeus, Portugal ficou privado de importações e isto
causou um aumento na produção nacional, mas também trouxe consigo o
racionamento dos bens de primeira necessidade (arroz, açúcar, massa, etc.), o
que fez disparar a inflação. Cada família, em função das pessoas que
constituíam o agregado familiar, recebia mensalmente, senhas com que podiam
fazer compras nas lojas tradicionais. Só havia direito a dois pães por dia por
pessoa, formavam-se grandes filas às portas das padarias. As senhas eram
vendidas a um preço imposto pelo Governo, mas o que é verdade, é que os
produtos acabavam sempre por aparecer no mercado negro. A fome grassava nas
ruas das cidades”.
PORTO
Foi neste cenário de grande privação, e depois de ter estado 11
anos no Refugio de Paralisia Infantil, que Maciel (agora com 16 anos) regressou
a casa a andar de muletas. Não era o ideal, mas para quem por destino tinha
andado de rastos, era uma boa maneira de enfrentar o mundo com alguma
esperança. Tinha estudado até ao segundo, ano no colégio Brotéro na Foz, passou
muito tempo na biblioteca do colégio, leu muito e com a inteligência que tinha,
bem acima da média e com o seu dom para trabalhos manuais e desenho, não sentia
medo de enfrentar a adversidade que o esperava. Não queria ser um peso para a
mãe, apesar da sua condição. Sentia-se muitas vezes rejeitado pelas palavras
cruas da mãe, quando desanimada da vida ficava de mau humor, mas ele nunca
esmoreceu, com a simpatia pessoal, a educação e a fluência no trato adquirida
no colégio, tratou de mostrar o que valia. Arranjou maneira de fazer
encadernações em casa, com arte e gosto burilava as lombadas com desenhos a
ouro. Depois, ainda dobrava até altas horas da noite, resmas folhas de papel
para livros encomendados às tipografias. Ainda escrevia cartas e preenchia
documentos quando os vizinhos lhe pediam, porque o analfabetismo, nessa altura,
era de 55% no país. Começou a granjear simpatia e amigos, que já o viam como um
igual sem reparem que era “aleijado”, aliás, palavra que sempre detestou pela
vida fora. Em 1941, com 18 anos e a ajuda do Sr. Correia (um bom vizinho) como
avalista, fez o pedido à Santa Casa de Misericórdia e obteve a chapa com número
de licença para vender lotaria nas ruas do Porto e tornou-se cauteleiro. Não
gostava, sentia até um grande constrangimento, mas todos os dias pela manhã, de
fato de cotim e boné, com as cautelas presas por uma mola ao peito, lá ia
ligeiro nas suas muletas de madeira e almofadadas por ele, apregoando a sorte
grande. Era filho dum famoso industrial de Guimarães sem saber, era a sorte grande
apregoada na rua, por um rejeitado da vida e sem sorte.
A Clarinha padeira, como era conhecida lá na rua, era amiga de
todos, depressa se tornou considerada pela vizinhança. A carência com que se
vivia naquele bairro operário da cidade, fazia crescer a solidariedade entre
todos os que povoavam as chamadas “ilhas”, que eram colmeias de gente pobre. A
casa de Clara resumia-se a uma sala, onde tinha o guarda-fato, a cómoda, uma
mesa com dois bancos corridos, um lavatório em louça com um jarro e um divã onde
dormia. No pequeno quarto onde dormia o Maciel, só cabia a cama e uma mesinha
com o candeeiro de petróleo. Aos pés, uma cortina de chita num arame, escondia
uma arca e algumas roupas. Não tinha porta, apenas um cortinado. A cozinha era
muito pequena, mas tinha um fogão a carvão, uma mesa pequena e um louceiro na
parede para os pratos e tigelas, com as prateleiras forradas de papel recortado
como renda, como se usava para ornamentar as cozinhas. Entre o louceiro e a
entrada, uma pequena mísula servia de suporte ao candeeiro de petróleo e num
canto, um banco com o caneco de madeira com tampa, era o depósito da água que
se trazia do fontanário do largo, por cima e pendurado num prego, estava o
púcaro de esmalte por onde se bebia. Por baixo da mesa, uma tina esmaltada para
os dias de banho. Na parede da sala, dois caixilhos com as imagens de Santo
António e do Sagrado Coração de Maria. Só muito tempo depois, a Clara comprou
ao Sr. Amaral adeleiro em Mártires da Liberdade (a pagar aos poucos), um móvel
louceiro de portas, com duas gavetas para os talheres e toalhas, tendo por cima
duas portas de vidro com prateleiras e ganchos para as canecas do café. Foi ali
que Clara pendurou a chávena que dizia, ser a única prenda que o pai de Maciel
lhe deixara.
“A
guerra tinha terminado em 1945, deixando atrás de si, mais 50 milhões de
mortos. Com o final da guerra, o governo fascista de Salazar decretou luto
oficial de três dias pela morte de Hitler e encomendou mais uma manifestação
“espontânea” no Terreiro do Paço, para o povo lhe manifestar agradecimento por
não ter entrado na guerra, apesar dos festejos por todo o país e principalmente
no Porto, serem de júbilo pela vitória dos Aliados. O ditador iniciou então uma
série de reformas políticas de fachada após a derrota das ditaduras, para se
manter no poder”.
AMARARANTE
Nesse ano em Amarante, morreu de tuberculose a Isabel com 41 anos.
Não deixou filhos “porque Deus não quis”, diziam os vizinhos. Clara soube pela
prima de Paranhos, um mês depois. Nunca mais tinha voltado a ver a filha, desde
1932.
CHÁVENA COM HISTÓRIA
CAPÍTULO 9
PORTO
Maciel, só muitos anos depois, soube que teve uma irmã. Por agora
e apesar da sua condição, era disputado pelas raparigas de lá da rua da Flora.
Tinha um certo encanto na forma de falar, além de ser uma figura de homem
bonito. Com o timbre de voz que possuía, em 1946 foi escolhido por um anúncio
do Portuense Rádio Clube, quando procuravam gente para fazer pequenos papéis
para o chamado, teatro radiofónico que foi o antecessor das novelas de hoje.
Conheceu nessa altura: Mena Matos, João Manuel, Fernando Gonçalves e outras
vozes da rádio. Como ganhava pouco e não era sempre, Maciel arranjou emprego
numa oficina da rua de Mártires da Liberdade, mesmo defronte à rua dos Bragas.
Seu trabalho consistia em forrar a veludo ou cetim caixas de jóias, fazia aplicações
de motivos de prata em estojos diversos, envernizava caixas de costura, montava
porta-retratos, e muitos outros artigos em madeira, decorava ainda álbuns de
fotografias com aplicações em prata. Como era da confiança do patrão, este
mandava-o muitas vezes à Contrastaria na Av. Rodrigues de Freitas, para ser
aplicado o punção do contrate nas peças de prata, que levava numa pequena saca
pendurada ao pescoço por dentro da camisa. Pertencia na época ao sindicato dos
ourives e no dia de Santo Elói tinha sempre feriado. Não ganhava muito, mas
finalmente tinha um ordenado semanal, que depois de pagar ao Sr. João do tasco
onde almoçava, por dois escudos diários, dava para entregar o restante em casa,
para ajudar a mãe nas despesas e não se sentir um inútil.
Foi por esta altura, que se mudou para a rua da Flora, mais
propriamente para a “ilha do Mesquita”, vinda do Carvalhido, fugida aos
maus-tratos que o marido lhe dava, a Maria Inês, conhecida por “Miquinhas”, com
as suas três filhas. A Zeza de 19 anos e a mais nova, a Lina de 14. A Mariana,
que era a filha do meio, tinha quase 16 anos, trabalhava como gaspeadeira de
malas na rua de Alferes de Malheiro. Em pouco tempo se tornou uma das raparigas
mais bonitas da rua. Dizia quem a conheceu: «A Mariana era uma carinha de riso,
era mesmo um encanto vê-la de caneco da água à cabeça subindo a rua, sempre com
um sorriso nos lábios e uma palavra de agrado para toda a gente».
Mariana encontrava-se com Maciel todos os dias a caminho do
trabalho, desciam a Lapa e no Campo da Republica, cada um tomava a sua
direcção. Muitas vezes ficavam a conversar no banco do jardim e em pouco tempo
se enfeitiçaram de amores, Ela, pelos seus galanteios, pela sua firmeza e
convicções. Ele, pela sua beleza e nobreza de carácter. Começaram a namorar em
segredo, com bilhetinhos às escondidas e encontros furtivos. Ele tinha 23 e
ela, 16 anos.
O Maciel na oficina onde trabalhava e como era bom em contas e a
escrever, pois fora dos melhores alunos em caligrafia, o patrão mudou-o de lugar
e pô-lo no escritório. Passou a ser empregado de escritório com toda a
responsabilidade na escrita. O cargo era melhor remunerado e mais a seu gosto.
Maciel andava feliz, agora vestia fato e gravata de acordo com a sua posição,
mas... duas coisas o traziam preocupado. A primeira, era a certeza absoluta que
o amor que Mariana lhe tinha, não queria a pena dela, mas amor verdadeiro,
queria que fosse o suficiente para nunca se arrepender, de casar com um homem
diminuído fisicamente como ele, tanto, que chegou a fazer que tropeçava de
propósito em plena rua, só para ver a reacção dela. Felizmente foi a melhor,
ajudando-o com firmeza, sem se importar com o que ouvia das pessoas que
paravam, como: “coitadinho do aleijado”, insurgindo-se mesmo, não consentindo que
o tratassem assim. A segunda coisa, que trazia Maciel preocupado, era saber se
em caso de descendência, seus filhos teriam a mesma doença que o tinha afectado
a ele. Para isso, consultou o velho Dr. Gomes de Araújo, que lhe tirou todas as
dúvidas, afirmando que a poliomielite, não é uma doença transmissível nem
hereditária. Desfeitas estas preocupações, tratou de pedir à Senhora
“Miquinhas” autorização para namorar a Mariana. Depois de ela fazer 17 anos em
Agosto, casaram em 7 de Dezembro de 1947, na Igreja de Cedofeita, tendo como
padrinhos o Sr. Lopes e a esposa, vizinhos lá da rua. Foi uma cerimónia modesta
só com a família de ambas as partes, onde nem mesmo o sogro faltou. Afastado da
família o Sr. Sousa, apresentou-se no casamento da sua Mariana, para lhe dar um
envelope com cem escudos e uma bonita caneca em vidro para o vinho. O Sr.
Sousa, era “Carrejão” de profissão e tinha poiso na Estação de Campanhã.
«“Carrejão”
era o nome que se dava aos homens, ou moços de fretes, que carregavam coisas
diversas às costas. Nas cidades, estavam normalmente junto às estações de
caminho-de-ferro, ou de camionagem. Nas aldeias, carregavam com um burro e eram
chamados de “Almocreves”. Os “Carrejões” pertenciam ao mesmo sindicato dos
estivadores e carregadores. Usavam muitas vezes um saco se serapilheira na
cabeça que lhes descia pelas costas e umas cordas com que prendiam a
carga».
Assim, com o ordenado dele e da Mariana, mais o que a mãe ganhava
na padaria, dava para viverem os três sem grandes “folestrias”. Ocuparam o
quarto do Maciel e tudo correu na normalidade, até Mariana ficar grávida,
deixando o emprego de maleira para ajudar a Clara com a venda do pão.
Pelo S. João, Mariana estava de seis meses, naquele ano ficou
sentada à porta de casa com o Maciel, vendo a festa lá na rua. Enquanto a
Clara, andava atenta à fogueira na rua, onde à meia-noite e como mandava a
tradição, se fazia o café e torrava o pão com manteiga para todos.
“Com
tradições muito antigas o S. João da Lapa, que ficou na história com a célebre
quadra:
Eu fui ao S. João a Lapa / E da Lapa
fui ao Bonfim
Estava tudo embandeirado / Com
bandeiras de cetim.
Era dos
mais populares da cidade e nesse dia de Junho, as ruas do bairro ficavam
engalanadas com ramalhos que faziam arco, presos com uma arame a meio, um balão
feito de papel de seda, era iluminado com velas. Depois um festão colorido
ligava os vários arcos de uma ponta a outra da rua.
Durante
dias, andavam os homens com rebanhos de carneiros para vender. Ali mesmo na rua,
depois de tosquiados á tesoura e a lã amarrada, os homens matavam e esfolavam
os carneiros. Na véspera de S. João, preparava-se a assadeira para levar ao
forno da padaria. O anho era temperando com azeite e colorau e sentia-se no ar
um cheiro bom a loureiro e alhos, coentros e alecrim. Os miúdos faziam as
cascatas nos passeios, com musgo, pedrinhas e um pratinho para as moedas. Havia
sempre o altar dos três santos populares, depois, pediam assim aos que
passavam:
— Meu
senhor, dê-me um tostãozinho para o S. João...
Mulheres vendiam vasos de manjerico, com
quadras de S. João impressas em papel colorido e coladas em arames finos como
se fossem bandeirinhas, vendiam também alho-porro e a erva-cidreira. Nas lojas,
vendiam-se os pirilampos e os balões feitos de papel, para serem lançados ao ar
com uma mexa embebida em petróleo depois de bem abertos á custa de abanadores
que insuflavam o ar. Eram os característicos balões de S. João e não havia rua
que não lançasse um, eram como estrelas luzidias que pairavam no ar, naquela
noite de 23 para 24 de Junho.
As fogueiras pela rua abaixo crepitavam
e faziam curiosos bailados de sombras nas paredes. Casais de namorados
saltavam-nas com cuidado para não se queimarem nem entornar a cafeteira do
café, ou a grelha das sardinhas que assavam no fogo. Dizia-se naquele tempo,
que quem saltasse a fogueira na noite de S. João, em número impar de saltos e
no mínimo três vezes, fica por todo o ano protegido de todos os males.
As Rusgas passavam rua abaixo com
alegria, ranchos de gente dançando e festejando o S. João. Vinham doutros
bairros e os homens traziam ramalhos e balões, tocavam bombo, concertina, viola
e ferrinhos e as mulheres batiam com testos e panelas, cantando:
Orvalhadas, orvalhadas / E viva o rancho
das mulheres casadas
E repenica, repenica, repenica/O S. João
a mijar em bica
Era
assim o S. João daquele tempo...”
Nessa noite, a Mariana sentiu uma vontade enorme de ir na rusga da
rua, como fazia com as irmãs, quando morava no Carvalhido, mas com aquela
barriga, nem pensar.
A 20 de Setembro de 1948, Mariana deu à luz na Maternidade de
Júlio Dinis, um menino robusto e perfeito, para alegria e alívio do pai Maciel.
Tinha dado um neto à sua mãe, a Clara era avó aos 66 anos. O rapaz foi
registado na Freguesia de Cedofeita com o nome de Marcelo de Sousa Meneses de
Castro, Filho de Maciel Meneses de Castro e de Mariana da Silva Sousa. Foi uma
alegria, embora a vida ainda não estivesse estabilizada para isso, mas como a
avó Clara dizia: “Antes de tirar a sopa, chega sempre para mais um”.
Havia uma vizinha, a dona Palmira, senhora de 32 anos que vivia
mesmo defronte com uma filha, a Filomena de dez anos, que estudava no colégio
Liverpool na rua da Torrinha. A Palmirinha era uma senhora “fina”, solteira e
resguardada pelo pai da filha, um homem da classe alta e chefe dos escritórios
da CUF. Senhora de boa índole e sempre pronta a colaborar com os vizinhos. Como
gostava muito do casal e da criança agora nascida, resolveu ajudá-los como
podia, oferecendo roupas para a caminha do bebé, etc., e assim nasceu uma
grande amizade que havia de durar pela vida fora.
Pelo S. João de 49 a Mariana ficou de novo grávida e em Fevereiro
do 1950, no dia 1, nasceu o segundo rapaz, que se veio a chamar Alberto de
Sousa Meneses de Castro. A vida não corria de feição, mas sobreviviam como
podiam até ao dia em que a Mariana adoeceu com uma inflamação do peritónio,
tendo que ser operada de urgência no Hospital de Santo António, a intervenção
cirúrgica complicou-se e a Mariana entrou em coma, vindo a falecer de uma
Peritonite aguda, no dia 1 de Setembro de 1950. Tinha apenas vinte anos e
Maciel em pranto, dizia que foi um roubo de Deus. Foi a catástrofe total para
ele, viúvo com dois filhos e a mãe com quase 70 anos.
CHÁVENA COM HISTÓRIA











