Mostrar mensagens com a etiqueta CARTAS DE SETEMBRO. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta CARTAS DE SETEMBRO. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
terça-feira, 3 de novembro de 2020
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA AO MEU
BISNETO
O Meu
cenourinha
Ermesinde
Setembro de 2010
Meu querido bisneto
Fábio
Nesta
altura que te escrevo, ainda só tens dois anos e meio. A tua mãe deixa-te cá em
casa de segunda a sexta e eu e a tua bisavó, tomamos conta de ti. Logo pela
manhãzinha quando chegas, metes-te na cama junto da avó a beber o teu biberão
de leite e queres sempre ver o “Ruca” na televisão. Eu brinco muitas vezes contigo,
faço-te aviões de papel e desenhos para colorires. Tenho numa parede da sala a escala do teu crescimento com as datas da tua altura. Brincas muito na marquise
com a tua garagem cheia carros e vens sempre ter comigo, para te colocar uma
rampa que sai facilmente. Sabes de cor muitas das músicas da publicidade da
televisão, desde o “Pingo doce”ao “Preço Certo”. Andas sempre a dançar, a tua
bisavó até te chama «cú-de-rôla» pela maneira com que te maneias. Adoras tudo
que seja instrumentos de música. És tão engraçado… És um menino lindo, com teus
olhos azuis e o teu cabelo dourado, mesmo tirando algumas perrices (que ás
vezes fazes), és muito meigo e quando à noite vais embora com a tua mãe, dizes
sempre: «Chau buxinho!». Nós adorámos-te e quando não vens, a casa parece
vazia.
Na
altura que leres esta carta, já não devo cá estar, mas tenho esperança que vais
ter um futuro melhor que o nosso, melhores que dos teus avós ou mesmo os teus
tios. Sabes, é que eu nunca consegui incutir nos meus filhos e muito menos nos
meus netos, o gosto por ler, estudar e ser alguém na vida. Apesar das coisas
hoje serem mais fáceis que no meu tempo, é mais difícil noutros aspectos, não
há trabalho, fecham muitas fábricas que mandam para o desemprego milhares de
pessoas. As falências são a ordem do dia, com a crise monetária e a
globalização (é curioso, como esta palavra era tão nova para mim… Hoje deve ser
normal, infelizmente…).
Cheguei
à idade que tenho hoje (62), um pouco frustrado com muitas coisas que pensei,
que seriam diferentes. Estou a falar de sonhos que tive ou de muitas coisas que
quis fazer e não fiz. Nunca tenhas medo de investir nos teus sonhos, luta por
eles e não passes a vida a adiá-los, o tempo passa tão depressa e depois… nunca
se tem tempo. Ás vezes são pequenas coisas, que por serem pequenas pensamos
que: «Qualquer dia penso nisso!». Nunca te esqueça que a felicidade é efémera,
ela é feita de pequenos momentos. Sabes, ás vezes até um cheiro a fruta madura
na fruteira da sala, nos pode trazer à lembrança bons momentos de infância. Ou
então, uma simples música pode-nos transportar para momentos vividos em felicidade. Por
exemplo: O teu trisavô e meu pai, adorava ouvir “Fascinação”, nunca soube
porquê, mas que lhe acendia um brilho nos olhos é verdade. Eu um dia de olhos
fechados, pensei tanto em Luanda, que senti o cheiro da terra molhada secando
com o sol, depois de uma chuvava. Pensar nas coisas e tetar concretizá-las.
Adivinho
que vais ser um menino feliz, és inteligente, vais estudar e ser alguém. Teus
pais adoram-te, a tua mãe foi a minha primeira neta e apesar de teres nacido
quando ela ainda era tão nova, em demonstrado muita maturidade e responsabilidade,
tal como teu pai, um rapaz trabalhador que tenho a certeza, tudo vai fazer para
que nada te falte. És o Sol da vida deles e da nossa, só espero que quando
leres esta carta, sintas que o teu bisavô que te amou muito, seja para ti um
exemplo na tua vida, com votos de muita felicidade.
Um
beijo grande Fabinho
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA A CESÁRIO COSTA
Ao escritor que não conheço pessoalmente
Ermesinde, Setembro de 2006
Prezado amigo Cesário Costa
Talvez nunca vá ler esta carta,
primeiro porque não me conhece, depois, nem sabe que ela existe e por fim, é
que nunca lha enviei.
Sabe, tenho a mania da
discrição, gosto de passar na vida despercebido, é a minha maneira de ser e
como quase nada ganhei (não materialmente) mas emocionalmente, das poucas vezes
que me mostrei ao mundo, penso que não tem importância para ninguém aquilo que
penso, digo ou escrevo.
Tirando algumas letras de
minha autoria, que me dão uma enorme comoção quando as ouço cantar, mesmo
sentindo que quem as ouve pouco ou nada as entende, não porque não sejam
estendíveis, mas porque infelizmente se ouve muito mal o fado. Ou da dezena de
pseudo livros que me deram um enorme gozo escrever e que para infelicidade
minha nunca ninguém leu, nem aqueles para quem foram destinados. Primeiro
porque nem edições de autor sou capaz de fazer, depois, confesso, que a culpa
recai totalmente nesta minha mania de estar recolhido no meu canto longe do
mundo e de todos, no entanto, gosto sempre que fique (escrito pelo menos), o
meu modo de pensar em relação ás coisas que para muitos pode não ter interesse,
mas que é a maneira (a minha maneira), de pensar que talvez um dia alguém me
leia e me dê algum valor quando muito, póstumo! As razões desta minha mania,
não interessam para aqui, nem vou ocupa-lo com as minhas lamúrias.
A minha carta vem a
propósito do seu livro “Memórias da memória”, que me foi oferecido pelo
Leopoldino Serrão e como tem o prefácio de Hélder Pacheco, faz com que junte
dois dos nossos amigos comuns no mesmo gesto literário.
Ler é uma das coisas
melhores da vida, mas escrever, além do seu lado intimista é uma atitude
solitária mas muito reconfortante.
Quando escrevi as minhas
me,órias de infância no meu: “Enquanto me Lembro...”, rebusquei nas minhas
lembranças e vivências dum tempo de carência (o nosso tempo), com a esperança
que algum dos meus netos um dia as saboreie e o possa ajudar a superar alguma
vicissitude que a vida lhe traga, com o meu exemplo de muita perseverança e
vontade de viver, embora confesse, um pouco desiludido...
Li o seu livro com muito
agrado, envolvido nas suas palavras, levado pelas atitudes em relação à vida,
passeando pelos mesmos lugares onde andou. Quando o conteúdo dum livro nos
tocam assim tão de perto, devoramos as páginas e revemos todos os momentos como
se fossem nossos, o livro que nos retracta a vivência de alguém tão coincidente
com a nossa, passa a ser a nossa vivência, tantos são os pontos convergentes.
Se não repare:
Apenas o Douro e três anos de diferença nos
separa à nascença, o Cesário em Gaia e eu no Porto. Trabalhamos os dois desde
muito novos e como meu pai fazia caixas de jóias, também passei aos 11 anos
pela contrastaria, com as peças de prata que meu pai aplicava.
O edifício em mármore do Banco Pinto de
Magalhães na esquina de Sampaio Bruno, onde o Cesário ia comprar a prata, foi
feita em maqueta de madeira por meu pai, para que na confeitaria “Cunha” a
cobrirem de açúcar, para o dia da sua inauguração. Fui lá muitas vezes depois,
quando meu pai me mandava com o postal duma letra para pagar, pedir para que
adiassem a data de liquidação ou fazer uma reforma a 90 dias.
O Cesário em menino corria pelo “Campo”
e passava na Lapa quando fazia entregas na ourivesaria de Antero Quental. Nasci
nesse bairro, nele passei a minha infância (deve ter passado por mim sem me
ver). Muitos anos depois, até a sua Ana Sara nasceu lá na Ordem da Lapa!
Conheci a minha Olga num baile de
garagem, tal como conheceu a sua Maria de Lurdes, ao som das canções tocadas
num gira-discos de vinil, ouvindo o Cliff Richard, a Silvie Vartin, o Roberto
Carlos e tantos outros de quem na época éramos fãs. Casei a 18 de Março de 1967
e o meu amigo, casou exactamente no dia em que no cais de Alcântara, eu
embarcava no Vera Cruz para Angola a 25 de Julho de 1970. Não tenho a certeza,
mas era sábado?
O Cesário tem três filhos: O Francisco,
a Ana e o Jorge. Eu tenho o Gualter, a Helena e a Modesta. Já eram nascidos
quando fui para Angola como Operador de Informações de Artilharia. O amigo já
lá tinha estado como Operador Cripto num batalhão de artilharia. Passamos ambos
pelo Grafanil, o Cesário deu 26 meses de guerra e eu 28 com quatro de “lepra”.
Fez a recruta no GACA 3 em Espinho, eu passei a pronto nesse aquartelamento e
de lá fui mobilizado para a guerra do ultramar.
Em 1958, estive com minha avó na praça
de Carlos Alberto a ver o “General sem medo”, quando íamos a caminho da padaria
Porto no largo Moinho de Vento, enquanto o meu amigo passava junto ao mar de
gente em S. Bento.
Na nossa meninice, lemos os mesmos
livros de quadradinhos como o “Condor” ou o “Cavaleiro Andante” e mais tarde os
mesmos autores como Alves Redol ou Camilo.
Passamos pelos mesmos cinemas do Porto
e gostamos dos mesmos filmes, até gosta do “Clube dos Poetas Mortos”, que faz
parte dos “meus” 10 melhores filmes do mundo.
Passamos pelos mesmos cafés e ambos
gostávamos de ler o “Diário de Lisboa” o meu amigo no Palladium (eu não passava
sem as suas palavras cruzadas) mas, no Café Luar na Areosa.
Tivemos as nossas tertúlias e até ao
“Mariani” fui tantas vezes, nas minhas andanças em busca pelas melhores
“Francesinhas”.
Mesmo o teatro é coincidente em nossas
vidas, fizemos ambos Revista, o meu amigo em Gaia e eu no “Flor de Pedrouços”.
Com tantas coisas em comum, nem o meu
irmão teve uma vivência tão parecida comigo. Talvez sejamos irmãos de leitura,
de sensibilidade em relação ao que nos rodeia, daquilo que gostamos de escrever
e deixar aos nossos filhos.
Felicidades ao Francisco, à Ana e ao
Jorge.
Seja portador de um beijo à Maria de
Lurdes e receba deste seu irmão das palavras, um forte abraço e muitos anos de
vida com saúde.
Sempre ao dispor
Manuel Carvalho
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA AO HELDER PACHECO
À Memória de meu pai
Ermesinde, Setembro de 2007
Amigo Hélder Pacheco
Aqui vai como me pediu, de uma forma sintetizada, o que foi a vida de um
homem que fundou uma das maiores fábricas de brinquedos que existiu na cidade do
Porto. Tinha muito orgulho no meu pai, pois apesar de ser deficiente motor
construiu uma empresa, deu trabalho a muita gente, foi a primeira pessoa na
cidade a adquirir automóvel adaptado ás suas dificuldades. Nunca se resignou à
sua condição, e fez ver aos que podem que na vida tudo é possível com trabalho
e perseverança.
Fico á espera que o meu amigo dê a conhecer ao mundo, no livro que pensa
escreve sobre os grandes industriais da cidade do Porto. Resta esta pequena (grande)
história feita por alguém que sempre acreditou num sonho.
Tudo começou nas décadas de 30/40 com as
construções do “Mosquito”. O suplemento desta revista aos quadradinhos, trazia
para construir aviões, barcos, casas, etc. Tratavam-se de folhas que se colavam
em cartão, recortavam-se pelo tracejado, dobravam-se pelas patilhas e
colavam-se as peças até construir o modelo pretendido. Mas nem todos os
possuidores da revista tinham a habilidade necessária para a execução dessas
pequenas obras de arte. Foi assim que o meu pai, na mesa da sala da pequenina
casa onde vivíamos na Rua da Glória, nº 47 (que ainda existe), ia construindo
os modelos para todos os rapazes lá da rua a troco de uma moedas. Tinha também,
o tal jeito para desenho que era muito apreciado nesse tempo, na litografia, na
estamparia de tecidos, na publicidade, etc. que hoje não se dá muito valor com
o aparecimento das novas tecnologias, com programas próprios em computadores
que põem a desenhar qualquer um.
Meu pai em 1943 com 20 anos e com a poliomielite desde os 2,
locomovia-se com duas muletas e trabalhava como empregado de escritório numa
pequena marcenaria na Rua Mártires da Liberdade. Nessa casa foi fazia outros
serviços, como envernizar (à boneca), caixas de jóias, que depois forrava o
interior com cetim ou veludo e que eram no final decoradas com aplicações em prata. Este trabalho
manual para que tinha muito jeito, deu-lhe a experiência para começar (quando a
oficina de marcenaria fechou), em casa a fazer casinhas para as cascatas,
presépios para o Natal, caixas para as amêndoas na Páscoa, assim como caixas de
costura e de jóias, etc. Tudo isto era feito manualmente com uma serrinha
manual e as peças de madeira presas num pequeno torno apertado na mesa da sala.
Em 1947, meu pai casou com minha mãe e eu vim a nascer em Setembro de
1948 e meu irmão em Fevereiro de 1950. Quis o destino, que em Agosto desse ano,
minha mãe falecesse apenas com vinte anos. Foi então que minha avó paterna se
desdobrou para nos criar, ajudando meu pai que por essa altura, sonhava em
estabelecer-se com uma oficina pequena, mas que desse para sustentar a família,
pois só minha avó tinha algum rendimento do seu trabalho como padeira na
“Padaria Porto” no Largo Moinho de Vento.
Para desenvolver mais o seu trabalho, meu pai encontrou uma pequena
máquina de serrar de tico-tico na Casa Escol em Sá da Bandeira. Esta firma
alemã que ainda hoje existe, embora virada para outra vertente no caso actual,
artigos para combate a fogos etc., tinha ao tempo um gerente, o Sr. Brucher, um
alemão que acreditou no meu pai e lhe entregou a máquina depois ouvir toda a
história e vendo naquele homem de muletas um vontade enorme de vencer na vida
com o seu trabalho, dizendo: — Leve a máquina e paga-me quando puder. Isto
passa-se em 1952, quando meu pai alugou a casa 4 do bairro “Angelina”, também
na rua da Glória, nº 52, adaptou-a ás suas necessidades, trouxe a tal máquina
que seria a primeira de muitas e inaugurou a sua oficina em Novembro desse ano,
com a presença de diversos amigos como: Alfredo Borges que mais tarde abriria
uma das mais conceituadas litografias do Porto a “Inova”; Fernando Batista que
foi gerente da casa de bicicletas do Porto a “Altis”. Um dos amigos que mais o
ajudou foi o Manuel Ferreira Marques, dono da grande fábrica de ourivesaria
“Topázio” no Porto e antigo condiscípulo do Colégio Brotero na Foz do Douro,
onde meu pai estudou, aquando da sua estada até aos 16 anos no Refugio da
Paralisia Infantil na rua Bela também na Foz, de onde saiu a andar de muletas.
Começou nesse ano a confeccionar presépios para a quadra de Natal que se
avizinhava. Com dinheiro emprestado, no
começo de 1953 já com a ajuda de uma rapariguita como empregada, começou a
trabalhar para as diversas quadras festivas do ano. Assim, logo para o
Carnaval, fabricava as chamadas “línguas da sogra”, aquelas boquilhas com
“gaita” que ao serem sopradas desenrolavam até ao rosto da pessoa próxima, para
voltarem à posição inicial. Além destas, haviam “Relas” que ao girar fazia
barulho. Chapéu de fantasia, etc. Para a Páscoa, fabricava as caixas de
amêndoas algumas com música e outras com patinhos para levar os ovos pintados,
etc. Para as cascatas de S. João as tais casinhas, pontes, coretos, castelos,
igrejas, etc. Para as praias, fabricava e vendia aos fabricantes de baldes para
criança em chapa (folha flandres, igual a chapa usada nas conservas e que
muitos brinquedos se produziram no após guerra nas oficinas de Ermesinde), as
pás e os ancinhos em
madeira. Mas logo começava a fabricar para stock, os
presépios para o Natal, para isso, comprava em Gaia (aos fabricantes de capas
em palha para as garrafas), a palha com que cobria os telhados dos presépios,
aproveitando as espigas secas do centeio, para fazer os berços do menino Jesus.
Estes artigos eram vendidos em muitas casas do Porto como Bazar dos Três
Vinténs em Cedofeita, a Casa Ametista na Praça dos Poveiros, nas casas de
artigos religiosos nas ruas de Mouzinho da Silveira e das Flores, assim como os
artigos para cascatas nas casas onde vendiam os bonecos de barro na rua da
Assunção.
Nesta época, a madeira para trabalhar era obtida dos caixotes de sabão
da Cuf que meu pai reutilizava. O cartão mais tarde era comprado aos maços,
porque a principio, até os maços de cigarros provisórios virados ao contrário,
que serviam para as casinhas das cascatas. Assim como os telhados, eram feitos
com o cartão canelado das embalagens.
Em 1954, uma vizinha que muito ajudava a minha avó a nos criar, eu com 6
anos e meu irmão com 4, começou a interessar-se por meu pai, ajudando-o mesmo
no trabalho pois depressa se tornou numa artesã. Esta Senhora de nome Gracinda,
que veio a casar com meu pai no ano de 1956, veio a dar o nome “Cindita,
Fábrica de Brinquedos e Utilidades em Madeira”, que até era só “Manuel Monteiro
de Carvalho Fabricante de Brinquedos”. Foram viver num rés-do-chão da mesma rua
da Glória, nº 63, que fazia traseiras com a oficina já existente. Como era
preciso um lugar tipo armazém, para guardar os artigos fabricados e como se
dera de vago a casa 3 do mesmo bairro, meu pai alugou-a abrindo uma porta
interior. Mais tarde fez o mesmo com a casa 2 e a casa 1, ficando um correr de
casas desse bairro, a serem uma fabriqueta de brinquedos, já com 6 empregados.
Estávamos então em 1960, minha avó faleceu nesse ano com 72 de idade.
Entretanto o progresso era visível e meu pai queria dar outro salto, mas só em
1963 novas instalações foram possíveis.
Na altura, só o J. Cândido da Silva na Rua Monte da Estação em Campanhã,
o A. Lopes Coelho de Sousa na Travessa do Campo 24 de Agosto e a “Majora” (que
mais tarde se ramificou na “Karto”) com seus jogos, eram os únicos além de nós,
que fabricavam brinquedos na cidade. Como as exigências eram cada vez maiores,
foi necessário mudar de instalações e a nova fábrica surgiu na Rua Dr. Júlio de
Matos mesmo defronte à antiga fábrica de tecidos “Raione”. Havia uma secção de
montagem, outra de pintura. Nas traseiras um parque de máquinas para trabalhar
madeira aceitável para as necessidades do momento. Tínhamos a residência por
cima da fábrica. Aumentaram os postos de trabalho e chegamos em 1974 a ter 12 empregados na
produção, além de vendedor e escritório.
Vendíamos para bazares de todo o país, mas principalmente para grandes
armazenistas como o A. Lopes Coelho de Sousa no Porto (que entretanto se
tornara armazenista e importador de brinquedos) e em Lisboa o armazenista A.
Fresco, que exportava os nossos artigos em grande escala para as províncias
ultramarinas. Com a chegada da revolução de Abril, este mercado desapareceu num
ápice, deixando-nos completamente desprevenidos e com mercadorias abandonadas
na alfandega que nunca mais recebemos o seu valor. Depois começaram as justas
reivindicações por parte dos operários, com aumentos de ordenados, subsídios de
férias e de Natal, coisas que até então não havia. Conseguimos aguentar com
muito custo, pois tínhamos entretanto, adquirido uma carrinha para transporte
de mercadoria, uma vez que o então ”Costa Ramos”, nos levava grande parte dos
lucros em transportes.
Em 1975, com o mercado de brinquedos em crise, avançamos com uma linha
de montagem de Armários de quarto de banho, onde chegamos a atingir uma
produção de 600 por mês. Todos os armazenistas de Paços Brandão, Cortegaça e
arredores, compraram-nos muito, pois a nova legislação, proibia os armários em
chapa esmaltada, devido à corrente eléctrica nas casas de banho.
Em meados de 1977 e com o EAPMEI a atribuir financiamentos às pequenas e
médias empresas, fizemos uma proposta para o desenvolvimento da nossa fábrica,
uma vez que tivemos conhecimento que ia ser feito um empréstimo a fundos
perdidos de 50.000 contos, para uma nova fábrica de brinquedos “A BRINCÁFRICA”
no Parque de Celeiros em
Braga. Depois de muita burocracia, a resposta foi: Que não
viam viabilidade no nosso projecto e preferiam atribuir a verba a uma fábrica
de raiz, sem se importarem com a experiência de tantos anos neste sector
industrial, em detrimento de outra sem qualquer experiência.
Foi quando no começo de 1978, um grande armazenista de Lisboa, o “J.
Sousa Guimarães”, que tinha agregado a si a empresa “Dinamização” que já no
Natal de 1977 tinha lançado uma campanha publicitária na TV para o lançamento
do celebre “Jogo da Assembleia”, (com os partidos no semicírculo),
contactou-nos para nos fazerem uma proposta tentadora. Comprarem-nos toda a
produção mensal, com modelos de brinquedos impostos por eles. Numa altura de
crise, com a promessa de todos os meses ter-mos o necessário para os nossos
compromissos, sem preocupações em vender… Aceitamos a proposta e entregamos
toda a nossa carteira de clientes, depois de assinado o contrato da compra
mensal de toda a nossa produção. No começo foi bom, quanto mais fazíamos
melhor, só que tivemos que adaptar novos moldes, formas de fabrico diferentes
para madeiras ao natural, exigências na troca da madeira de pinho por plátano,
amieiro e outras. Adquirimos então uma nova carrinha Mercedes para transportar
semanalmente os artigos para Lisboa.
Vieram depois as exigências legislativas
sobre segurança dos brinquedos para as crianças, coisas que até então ninguém
se tinha preocupado. Claro que eram razões mais que justas: Nada de arestas,
objectos cortantes ou de tamanhos fáceis de engolir. Tudo leis importantes que
tão rapidamente aderimos, mas que nos obrigaram a fazer novos ajustes no modo
de fabricação.
Surgiu então a ideia de visitar a maior Feira de Brinquedos do mundo em
Nuremberga na Alemanha, com a intenção de conhecer novos modelos e formas de
fabrico. A viagem foi paga pelo nosso cliente e durante uma quinzena
documentamo-nos e adquirimos todos os conhecimentos possíveis para implementar
a “Cindita”.
Novas técnicas foram introduzidas, como a serigrafia com estampagem mecânica,
pintura à pistola com cortina de água, etc. Aumentamos a produção com novos
modelos de Matraquilhos, Quadros escolares, Cavalo de Baloiço, Jogos de Xadrez,
etc. Entramos depois no campo do brinquedo didáctico, construído sempre com o
intuito da criança aprender brincando, com uma apresentação apelativa de cores
vivas.
As coisas correram bem até ao ano de 1979, quando a firma nosso cliente
em Lisboa começou a dar sinais de que qualquer coisa não corria bem. Atrasando
os pagamentos e deixando de cumprir o acordado. Até que em 1980 abriu falência
arrastando-nos para o abismo. Ainda aguentamos a crise que se generalizara a
todos os sectores da fábrica. Os clientes antigos tinham agora outros
fornecedores, tentamos dar a volta mas fomos impotentes. O pessoal foi
abandonando o trabalho com justa causa, quando a falta de pagamento acontecia.
Corremos mais uma vez ao IAPMEI mas de nada valeu a crise estava instalada. Até
que em 16 de Dezembro de 1981
a “Cindita” entrou em falência técnica e foi o fim.
Fundada em 1952, a
firma durou quase 30 anos. Meu pai tudo vendeu para cumprir compromissos. Deu
entrada com minha mãe Gracinda no Lar do Comércio. Ela não aguentou o desaire e
faleceu em 1986. Meu pai veio a falecer a 15 de Setembro de 2002, não sem antes
ter tido uma pequena oficina no próprio Lar do Comércio, onde consertava
objectos de outros internos e colaborava com a construção do presépio e outras
actividades nos eventos que o Lar organizava. Como prémio destas tarefas,
chegou a visitar a Madeira a expensas do Lar. Ainda casou pela 3ª vez com a
telefonista da instituição.
Nunca parava, só parou quando o coração deixou de trabalhar, ao fim de
77 anos.
Um abraço amigo, até qualquer dia
Sempre ao dispor
Manuel Carvalho
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA AO LUCIANO SOBRE LUANDA
Ao melhor amigo que encontrei na vida
militar
Ermesinde, 11 de Novembro de 2007
Amigo Luciano
Faz hoje 35 anos que não
nos vimos!
Nesse dia longínquo de Novembro de 1972,
despedimo-nos à porta de armas do Quartel do RAAF em Queluz, já vestidos à
civil e com o documento carimbado da nossa passagem à disponibilidade no bolso.
Demos um abraço forte, trocamos endereços e desejamos um ao outro, felicidades
com um até sempre! Estávamos com pressa, eu de apanhar o “Foguete” para o
Porto, tu de apanhares o barco para o Barreiro.
Nunca te escrevi, tu foste mais corajoso
e passados alguns meses, mandaste-me dizer que casaste com a Rosa, enviaste-me
até uma foto do vosso enlace. Quando em 1997, o nosso amigo Pinho me convidou
para ir a Lisboa, a um encontro comemorativo dos 25 anos do nosso regresso do
ultramar, aceitei, convencido que te encontrava. Apesar de rever muitos dos
nossos amigos, aqueles que com nós passaram pelo mesmo limbo na vida, tu não
apareceste por qualquer motivo e eu fiquei triste. Claro que abracei e
relembrei momentos vividos, com o Franco, o Liberato, o Vicente e muitos outros
mas... faltavas tu meu amigo, era contigo que eu gostava ter falado daqueles
tempos, dos momentos que vivemos, dos livros que lemos, dos filmes que vimos,
da poemas que escrevemos, da cidade de Luanda que palmilhamos rua a rua.
Lembraste do Bowling em Alvalade, próximo
à Igreja da Sagrada Família, enfrente ao Hospital Militar, ao lado daquela
esplanada onde tantas vezes estivemos? E a Praça da Maianga onde apanhávamos o
“Machimbombo” para a praia, ou Berliet para a Base. Ali era a baixa, onde
haviam as montras da “Saratoga” e outras casas chiques. Onde havia o Museu de
Luanda, o fotografo “Salvador” e o “Bitok” onde comíamos os Chocos com tinta.
Onde jogávamos xadrez na “Biker” e bebíamos uns bons finos na esplanada da
“Portugália”, acompanhados de um pires de dobrada, mesmo enfrente à elitista
“Versalhes”. Logo por trás, havia o “Campino” que tinha umas moelas deliciosas
em pratos de barro?
E o Mercado da Maria da Fonte, onde por
50 escudos, comprávamos um quilo de camarão para comer na cantina da Base
Aérea, acompanhados de uma grade de cerveja Nocal, Cuca, ou a Eka, “a loira
tropical”. Aquele Praça onde tinha a estátua da Maria da Fonte e começava
aquela grande avenida dos Combatentes. Passamos lá tantas vezes a caminho em
busca de prazer nas meninas do B.O. (Bairro Operário). Depois parávamos na
cervejaria “Apolo 11”
para mais um fino e um pratinho de camarão que era oferta?
Recordaste dos passeios que dávamos pela
Baía, que ao pôr-do-sol era maravilhosa, com a sua avenida marginal, as
palmeiras e as esplanadas?
E da Ilha de Luanda quando íamos para a
praia do “Tamariz” ou da “Barracuda”. E
naquelas noites de calor, quando íamos comer um caldo-verde no
restaurante do “Ti Maria Conceição”? E a praia de Belas, com palmeiras pelo
areal e o cheiro a peixe na seca, ou o cheirinho bom a banana assada nas
fogueiras da praia? E a “Restinga” onde havia aquele buteco o “Tá-Mar” que
quando havia mais dinheiro lá entravamos para um copo. Recordo-me de outros
como: o “Acrópole”, o “Lorde”, o “Muxima”.
Lembraste do futebol nos “Coqueiros” e do
Hóquei em patins no “Ferroviário”? E os passeios pela Fortaleza, pela Sé, onde
haviam aquelas ruas estreitinhas, onde descobrimos o bom bacalhau no
“Floresta”?
Lembraste dos cinemas ao ar livre como o
“Miramar” e outros, onde víamos um bom filme acompanhados de uma CUCA? E o
“Restauração” onde vimos o Percy Sleid, a Elisabete, o Nelson Ned e outros
cantores. O Teatro “Avenida” onde nos deliciamos com tantas peças de bom
teatro, como “A Ratoeira” da Aghata Cristie que desenhei o logótipo?
Recordaste, quando um de nós recebia um
envelope azul (Valor declarado) com dinheiro e logo íamos defronte à Base, ao
Bairro Salazar, comer um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo, com uma
cerveja e só custava dezassete e quinhentos? E no dia seguinte íamos gastar ao
“Casão” comprando volumes de cigarros? E a cantina onde fazíamos campeonatos de
Dominó que o Seixas ganhava sempre? Nessa cantina que ao fim do mês para pagar
o débito era um problema com os mil e duzentos escudos que ganhávamos de prémio
de especialidade. Dos vinte e cinco tostões por um lugar no Cinema da Base ao
ar livre, parecido com o de Grafanil, esse campo militar onde vivemos em tendas
montadas na terra, durante quatro meses a comer cabeças de peixe frito nas
cozinhas ao ar livre, com as moscas a zumbir e a chuva a cair. Onde enjoamos a
compota de maçã no café da manhã, naquelas canecas de alumínio sem asa e com os
dedos tapávamos os furos deixados pelos cravos?
Sabes, ás vezes consigo fechar os olhos e
sentir aquele cheiro de Luanda, ver a terra vermelha do Bairro do Prenda e os
olhos cor de avelã da Mimi (a arrumadora no teatro). Consigo ainda ver aquela
cor de pele linda que a Nandinha tinha (a empregada da pensão na Rua de Serpa
Pinto, onde passamos com o Rodrigo e o Franco as férias). Ainda ouço as piadas
do Franco, com aquele seu peculiar humor, ou o Vicente a distribuir o correio.
Lembro todas estas coisa boas, as más? Não
quero lembrar, tu também não decerto não queres!
Perdoa amigo, esta carta já vai longa.
Recebe um abraço do Carvalho com muitas
saudades de Luanda.
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA AO SILÊNCIO
Ermesinde Setembro de 2019
Senhor Silêncio
Ouvir o silêncio é fazer descansar o espírito. De quando
em vez sabe tão bem! Ficar distraído, de olhar distante, vazio, sentir o corpo
lentamente esvaziar até quase deixar de ouvir o respirar.... Depois, escolher
um dos dois caminhos:
Aquele em que
imaginamos uma paisagem enevoada, em tons de cinzentos, cada vez mais ténues
como brumas, e nos vai levando de montanha em montanha cada vez mais longe,
voando ao sabor da brisa, mais e mais, até ao vazio total do pensamento (o mais
difícil de atingir), porque há sempre algo que nos preocupa, que ocupa a nossa
mente.
Ou então
aquele que nos leva a uma introversão, ou seja, uma concentração de espírito,
um recolhimento íntimo da alma, a uma introspecção. Resumindo: Um exame ao
nosso interior... Pensar em quem somos, para que somos, pensar em quem amamos,
pensar nos nossos sonhos, nas nossas legítimas ambições. Enfim, meditar.
Numa dessas
ocasiões quase chorei, quando me senti tão abandonado, que tive tantas saudades
de mim!.. Do tudo que fui, de tudo que fiz. E perguntei-me:Onde estão aquelas
dezenas de amigos, que me acompanharam nos ralis, nos passeios, nos jantares,
nos fados, nas horas bem passadas em francos convívios!? É grande a minha
tristeza, por não ter sabido preservar essas amizades, (ou não seriam!).
E aqueles que
estavam a meu lado nas horas más que tive, na guerra, na traição, na falência,
nos momentos infelizes!? Será que nem a esses eu soube ser grato?
Depois, bem!
depois vem sempre o cansaço, porque o silêncio também cansa. Então, para nos
encontrar-mos, nada melhor que a nossa música preferida, muito baixinho nos
auscultadores, até acordar lentamente o silêncio, e voltar-mos à triste (quase
sempre) realidade da nossa vida. Àquela
por quem lutamos dia a dia, numa luta constante pela sobrevivência, tentando
não ferir aqueles de quem gostamos, e principalmente tentando ser feliz, que é
das coisas mais difíceis que existem. Embora por vezes, por tão pouco, a
felicidade era tão simples: Se nos contentasse-mos com o que temos; Se nunca
fizesse-mos aos outros, o que não queríamos que nos fizessem a nós; E
principalmente, se fizesse-mos um pequeno esforço para compreender os
outros!... A vida seria com toda a certeza bem melhor, e nós éramos mais
felizes.
Mas...Existem muitos momentos na vida que
estamos sós, alguns mesmo irremediavelmente sós. E embora haja muitas formas de
solidão, das piores que existe, é aquela em que nos sentimos sozinhos no meio
da multidão. Quando gostamos daquilo que
os outros não gostam, ”Não devíamos de gostar, de quem não canta a mesma
canção” ( Diz o Rui Veloso, nas palavras de Carlos Tê) nem fazem um esforço
para gostar; Quando temos sentido de
humor, e tentamos contar uma anedota que ninguém a compreende; Quando ninguém
gosta de ler Eça, Steinbeck, Jorge Amado ou Garcia Marques, e assim não podemos
lê-los juntos; Quando ninguém gosta de Sinatra, Betânia, Strauss ou Beethoven,
e não os podemos ouvir juntos; Quando ninguém gosta de Woody Allen, Clint
Eastwood ou De Niro, e nunca podemos ver esses filmes juntos; Quando não gostam
de ir ao teatro, ouvir poesia ou visitar um museu, e só vibram com um jogo de
futebol, uma telenovela, um mexerico; e nunca com o mistério dum bom filme
policial!... Com a beleza de Melanie Griffith ou o talento de Al Pacino. Por
tudo isto, é que estamos sós no meio de tanta gente.
Por tudo isso é que se faz poesia, por
tudo isto é que sofremos com o que escrevemos, tentando pôr no papel, esta
amálgama de sentimentos que nos rói a alma, este sentir que sentimos tanto. E é
por isto tudo que vivemos a vida com
paixão, sensíveis a tudo, até ao amor que não nos dão; Ás traições que nos
fazem; Até ás lutas que travamos e ficamos sempre prejudicados, só para que os
outros não sofram, porque gostamos da vida e de todos; Dos filhos e do Sol; Da
chuva e de pasteis de nata; Da Lua e dum cigarro; Do nevoeiro no Douro e dum
café bem tirado; De tudo, tudo, até de quem de mim não gosta.
Por isso temos necessidade de escrever, e
escrever... É um acto solitário. Entre o monitor e o teclado, apenas o
pensamento voa no espaço do silêncio, amontoando letras do alfabeto em palavras
, frases em conceitos, textos em narrativas. Levados pela imaginação, vamos
gerando no papel sentimentos que
transmitimos aos outros nas mais
variadas formas.
Vestir a pele do criminoso da vitima e do
detective num livro policial, conseguir caminhar ao lado da personagem que criámos, dar-lhe vida, amá-la e matá-la, ser
o dono do seu destino; Ir onde se quer em qualquer altura, viajar com quem se
quiser a qualquer momento; Ser-se bom ou cruel; Rico ou pobre; Fazer-se tudo
que nos der na ideia, até amor... com quem passamos a vida a sonhar. Descrever
uma paixão, só o consegue quem esteve apaixonado. Descrever o acto de fazer
amor é difícil se não se disser as palavras todas, como na pornografia tão
difícil de escrever, que o digam Cassandra Rios, ou Dallas Mayo, pseudónimos de
grandes escritores, de grandes novelas pornográficas conhecidas no mundo
inteiro, perseguidos pela censura, falsos moralistas, beatas e mulheres
frustradas.
O amor e a poesia, andaram sempre de
braço dado, não gosto dos poemas que falem de morte ou desgraça. Todas as paixão que tive, foram
fontes de inspiração para mim. É maravilhoso ouvir em público, cantar um poema
nosso, e saber que ninguém sabe a quem se referem aquelas palavras, só eu sei
mais ninguém. Algumas quadras emendei-as, à última hora, num último instante,
pois denunciavam indiscretamente a quem se destinavam, mas guardo na memória o
original. Depois, as letras que faço e que cantam, contam uma situação, levam
uma mensagem:
Se pudesse alguém pesar/O amor que a gente sente
Teu amor para meu pesar/Pesava mais porque mente.
E se mesmo assim depois/Negasses o resultado
Eu mentia pelos dois/Só para te ter a meu lado.
Ou assim:
És alma gémea da minha/Gostas de tudo que eu gosto
Tu podias ser só minha/ Mas não és para meu desgosto.
Ou ainda assim quando partiste:
Nem adeus me disseste/ Um beijo apenas me deste/Tão leve que o ar levou
Com a pressa que partiste/Em maus olhos
tu nem viste/A saudade que ficou.
Ou assim quando voltaste:
Tu voltaste finalmente/Agora sim
sou feliz
Não há passado, o presente/Nasce quando tu sorris.
Ou assim este recado:
Nada nem ninguém pode entender/O
que me vai na alma de momento
Só eu a conheço e ando a viver/Este amor inconstante como o vento.
Quando vier o frio me gelar/Os lábios da boca que a beijou
Em gavetas vai decerto encontrar/Poemas seus que o
vento não levou.
Mas... e o medo?
Á Muito que o meu anseio/Era
ter-te nos meus braços
Mas sempre havia pelo meio/Muitos medos, outros passos.
Até que um dia vieste/Como quem vem para se dar
E lembro até que trouxeste/Olhos tristes de chorar.
Beijei-te como quem tem/Um desejo acumulado
Amei-te como quem vem/Das galeras degredado.
No final, o nascer:
Tu vieste com a bruma/Junta á
onda que desmaia
Em nuvens feitas de espuma/ Como rendas de cambraia.
Depois veio o Sol, cobriu/Teu corpo que bem me lembro
E um poema floriu/ Nessa manhã de Setembro.
Bonito, é quando se sente
realmente o que se escreve.
Maravilhoso, é quando se consegue
escrever o que se sente.
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA À ESTUPIDEZ
Ermesinde
Setembro de 2020
Senhor
Confissionário
Sinto que já não tenho aquela alegria ou o
prazer, o contentamento de ouvir um aplauso, um elogio por uma letra escrita,
de ouvir um fado cantado com uma letra minha, enfim, aquela satisfação de saber
que alguém gosta, canta, grava o que eu escrevi. Hoje já não sinto isso, claro
que também não estou lá para ouvir, para sentir, mas noto um grande desencanto
de ter pensado ingenuamente que podia ombrear ao lado de outros letristas de
renome. Tudo isso, principalmente com a miséria que recebo da SPA, que chega a
ser ridículo, um autor receber dezoito euros de direitos num ano. Por tudo
isto, o desinteresse em escrever apagou-se, não vale a pena, estou cansado,
muito cansado.
A
vida já não tem grande interesse em ser vivida, apenas se vai sobrevivendo o
dia a dia com o pouco que se ganha, mas sem ilusões, sem sonhos, agora já não
há tempo e apesar do ditado “enquanto há vida há esperança”,hoje sei que nunca
terei o que gostava de ter, aquela sala só minha cheia de livros, filmes,
retratos e quadros. Um espólio de recordações que os vindouros
apreciassem.
Sei
que nunca irei onde gostava de ter ido à Grécia à Itália ao Egipto, conhecer as
civilizações de onde todos viemos, conheci através dos decomentários da tv. Não
tenho tempo de fazer o que gostava de deixar feito. Tudo tem sido uma
desilusão, desde a família, ao fado, desde os amigos ao modo com que sou
obrigado a viver. A esperança de dias melhores desfocou-se, não tenho nada com
que me orgulhe, não devo ter sido um bom pai, um bom marido, um bom amigo, falhei
com todos e principalmente comigo. Nunca publicarei um livro, nunca serei
reconhecido como autor e dias depois do meu fim, ninguém se lembrará de mim.
Confesso que não tenho medo de morrer, apenas tenho pavor ao sofrimento. Sei
que me calei tanta vez por covardia, quando podia ter falado e mostrado a minha
atitude em relação a muitas coisas que os outros não compreenderam. Tudo porque
quis viver em paz com os que me rodearam e não quis conduzir uma revolta que me
levava à desunião com os meus e ia sofrer por isso porque os amo a todos, à
minha maneira é verdade, mas amo.
Perdi
a capacidade de sonhar, rasguei mesmo a lista dos meus sonhos. Agora penso que
tudo tinha que ser assim e a vida deu-me o privilegio de conhecer pessoas
maravilhosas, algumas perdias como a minha avó, meu pai, assim como muitos amigos.
Até um dia, e se a reencarnação for verdade, quando voltar, vou ser diferente,
quero ter carro, ser sócio do FCP e nunca ocupar as estantes com livros, ser
bruto e ignorante e assim serei recordado por todos.
segunda-feira, 2 de novembro de 2020
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA A QUEM QUISER LER Talvez ao Pai Natal
Ermesinde, Setembro de 2007 Amigo Etéreo Hoje é dia do meu
aniversário, para o próximo ano entro nos sessenta e gostava, enquanto tenho
tempo, de lhe agradecer a vida que me tem dado, apesar de ter certas duvidas se
o meu amigo existe, pois sinto-me mais um agnóstico que um crente. Tal como diz esse sistema
filosófico, o meu agnosticismo provem das dúvidas que encontro na vida e do
total desconhecimento que tenho do espírito humano. Claro que fui baptizado,
crismado e casei pela igreja, não porque acredite na existência de Deus, mas porque
fui obrigado a isso. Todavia, acredito na alma humana enquanto comandada pelo
cérebro, mas que morre na hora em que morre o corpo. Um pé, um braço, uma mão,
depois de separados do corpo não mexem mais. A morte quando é premeditada, é
sempre no cérebro que ocorre, seja um tiro na cabeça, a asfixia numa corda ao
pescoço, a guilhotina ao ser-se decepado e mesmo as cadeiras eléctrica ou de
gás, só é declarada a morte se for cerebral. Mesmo na doença, pode um ser
humano viver ligado a uma máquina muito tempo, que a sua morte só acontece
quando essa máquina é desligada e o cérebro deixa de funcionar. A inteligência
humana, conseguiu fazer máquinas que prolongam a vida do homem, ou substituindo
órgãos como o coração e outros, mas nunca se transplantou um cérebro, este é o
centro neurálgico de todo o fenómeno da vida. Mesmo na sua concepção, o homem
utiliza o cérebro para a erecção e subsequentemente a ejaculação do seu
esperma. Pode ser utilizado qualquer método, desde a inseminação artificial ou
fertilização in vítreo, mas sempre foi preciso o cérebro. Todos os sentidos,
todo o sistema nervoso lhe está ligado, claro que a sua irrigação pelo sangue é
fundamental, para isso todo o conjunto de órgãos do corpo têm importância,
desde a hematose nos pulmões (transformação do sangue venoso em arterial, com a
ajuda do oxigénio), até ao bombeamento do coração (órgão central da circulação
sanguínea), que o leva a todo o corpo, passando pelo fígado com a sua função de
secreção biliar e glicogénica, até ao pâncreas, aos rins e todos os aparelhos
digestivo, respiratório e circulatório. Resumindo: Pode-se viver com um coração
artificial, sem um rim, até sem um pulmão, mas nunca sem o cérebro. Mas tudo isto sabes muito
melhor que eu. Perdoa-me se este (apenas ser humano), não tem razão no que diz,
mas é a minha ideia, baseada na minha pouca inteligência e com muito pouco ou
nenhum conhecimento de anatomia. Nem é minha intenção fazer a apologia do
cérebro, apenas centrar nessa massa encefálica a sede da inteligência, do pensamento,
do juízo, de todas as funções psíquicas, centro intelectual de onde imanam
todas as ordens do corpo, enfim... A alma do ser humano. Essa alma que não creio
que vá para lado nenhum depois da morte, faz-me sentir comoção ao ver o
sacrifício de um peregrino em Fátima, porque respeito a fé dos outros. Mas
também me faz comover de raiva e impotência, ao olhar as crianças morrerem de
fome ou o desespero da morte nos campos de guerra. Não consigo ainda entender,
o holocausto nem a angustia e a dor dos que sofrem injustamente, escravizados
pela ambição desmedida de alguns e a ganância de outros, cegos pelo poder. Que
esses fossem castigados pela providência, posso entender, enfim! Mas...”As
crianças Senhor, porque lhes dás tanta dor, porque padecem assim?” como diz o
poeta Augusto Gil. Sou um filho do universo e
todos os dias agradeço ás estrelas, a ti, ou a alguém que me ouça, a cama onde
durmo, a mesa onde como, o tecto onde me abrigo, a saúde que tenho. Mas sinto
uma tristeza enorme, quando não me consigo fazer entender aos olhos dos outros,
principalmente dos que me são mais queridos. Estou cansado de dar e
pouco receber em troca, de sacrificar os meus ideais em prol dos outros sem
respeitarem os meus. Estou casado de não ir onde queria ir, de não fazer o que
queria fazer, de não ser o que gostava de ser. Tudo porque, confesso, além do
medo que me assola de não querer fazer os outros infelizes por minha causa,
talvez me falte vontade própria para concretizar tais intentos. Tomo como
exemplo a minha vida de quarenta anos de trabalho, onde nunca fui compreendido
nem compensado pelo esforço que fiz. Nunca fui devidamente aproveitado pela
minha inteligência e arte, apenas explorado pela minha humildade e abnegação ao
trabalho. Diz a astrologia que
seres nascidos no dia em que eu nasci, nunca serão compensados pelo seu esforço
e toda a vida trabalharão para enriquecer os outros. Não mata, mas desmoraliza
muito, a ser verdade tal premonição. Depois de todos esses anos de trabalho,
vivo agora por decreto, com um subsídio para que possa sobreviver, fazendo-me
sentir um inútil e vivendo sem vontade, contendo-me nas exigências e sufocando
de desejos e sonhos que nunca verei concretizados. Hoje tenho vergonha de
olhar uma montra, porque sei que nunca comprarei o livro que gosto, a prenda
que gostava de dar ou o filme que gostava de ver. Abdiquei de quase tudo,
recolhi-me feito um eremita a um canto, rasgando os sonhos um a um, zangado com
o mundo que muitas me faz pensar que não é o meu, desiludido com os amigos que
pensava serem p’ra toda a vida, desiludido com muitas coisas que na minha vida
particular acontecem e que pensei nunca acontecerem. Faz-me doer, em ter que
contar as moedas para tomar um café, comprar o jornal ou um maço de cigarros.
Sim cigarros, os eternos e mórbidos companheiros que nunca me deixam só. Por manifesta
impossibilidade de o fazer hoje, dói-me muito, abdicar da Internet e fechar os
olhos a essa janela do mundo. Abdicar de convívios sociais, do fado, do meu
pecado da gula, do meu pecado (pecado?) do sexo. Poucas coisas me restam, como
um cigarro e esta vontade de escrever, coisas a que nem sei se chamo poemas,
mas mesmo que seja uma carta (a não sei quem), que me pudesse tirar estas
minhas dúvidas existenciais. Obrigado
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA AO SERRÃO
Ao amigo que não esqueço
Ermesinde, Setembro de 2007
Amigo Serrão
Sei que nunca vais ler esta carta, porque
nunca a vou enviar, trata-se apenas de um desabafo ou de uma forma de te dizer
o que sinto sem te ouvir nas críticas acutilantes que sempre fazes, que aliás,
podem ser muito construtivas, mas que a mim, de nada me valeram. São sempre são
sentidas pelo teu ponto de vista e nunca pelo meu. Falar de barriga cheia é
simples! Para ti tudo é facilidades e tudo tem que ser como tu queres. Ou não
vivesses tu nessa bolha de arrogância e perfeição, sem admitir os erros ou
imperfeições dos outros.
Conhecemo-nos pessoalmente numa
livraria, embora te conhecesse de vista há muito tempo, ou mesmo de nome pelos
amigos. Tinhas na altura, passado por um momento mau da tua vida, que tive
conhecimento pelos jornais.
Encontrávamo-nos no café do bairro para
leitura dos jornais, principalmente aos sábados. Já nessa ocasião, davas ares
de figura importante e muita gente não te via com bons olhos. Mas eu gostava de
conversar contigo e não via impedimento na tua condição de pseudo doutor.
Talvez fosse precisamente pelo teu modo de ser, que conseguiste sempre safar-te
dos casos duvidosos em que te enleavas e que punham os outros de pé atrás.
Posso compreender que tenhas o teu modo
de pensar, todos temos o nosso! Mas confesso, que a maior parte das vezes não
te entendo por mais esforço que faça. Se te falo das minhas dificuldades, que
não me posso comprometer com nada no momento, tu insistes com a tua forte
personalidade e modo agressivo de dizeres as coisas, que muitas vezes nem
queres entender as minhas razões, és sempre tu que sabes e eu nunca sei nada.
Adorava conversar contigo sobre cinema,
literatura e outros temas, tu és uma verdadeira enciclopédia nesses temas,
aprendi muito nessas conversas, mas sempre notava em ti um ar de superioridade
de petulância até. Mas compreendia, é verdade que compreendia, quem não sente
uma certa vaidade quando vê que está a ser superior a alguém? Aturava as tuas
taras, sim taras, ou então que nome dás ao gesto que tiveste por exemplo,
quando me obrigaste a pagar aquelas cassetes de vídeo, mesmo sem ter
possibilidades para tal? Recordo como se fosse hoje:
Tudo se passou naquela época, em que te
dei a ideia de ordenares a tua fabulosa videoteca, com o filme junto do livro
de onde foi extraído o enredo, o que quase sempre acontece. Como também estava
a fazer o mesmo, embora numa escala muito mais pequena, houve um dia em que me
vendeste 25 cassetes de vídeos com filmes repetidos que eu não tinha. Deste-me
a possibilidade de tos pagar aos poucos e assim fui cumprindo (contigo não pode
haver falhas...), como podia? Um dia em que não tinha mesmo possibilidades,
falei contigo com a ideia de poder adiar o pagamento, que diabo! Éramos amigos
(ou não?), mas tu foste irredutível e a única forma que arranjaste para solucionar
o problema (depois de palavras bem agrestes, tipo: Não tens palavra, prometeste
e agora falhas, etc., que muito me magoou), era que eu devolvesse a quantidade
de vídeos igual ao valor em
falta. Respirei fundo e já em casa, escolhi os filmes que
mais me interessavam e devolvi-te os restantes (a minha vontade na altura foi
devolver todos). Tu conferiste e assim deste por saldada a minha divida.
Engoli a tua afronta, primeiro que
afinal embora tenhas lido muito, não consegues compreender uma simples amizade.
Depois, porque tinhas resolvido para mim, um problema que muito me preocupava
sobre o tribunal e as finanças e como nada quiseste em troca... desculpei-te
pelo favor que me fizeste, porque como diz o povo: Uma mão lava a outra.
Deitei tudo para trás das costas e
continuei a ser teu amigo, até porque não te esquecias dos meus anos e mesmo no
Natal, tinhas sempre um livro como presente e eu não tinha (nem tenho) nenhum
amigo que me dê presentes. Por tudo isso, sacrificava os meus sábados de manhã
para de lista em punho, procurar na loja de vídeos em Fernão Magalhães
(o que me obrigava a pagar transportes), os filmes que tu querias para gravar.
Depois precisaste de mim para ser tua
testemunha abonatória em tribunal, pelo caso em que estavas envolvido. Nunca
faltei (como chegou a fazer o Américo com atestado médico), mesmo com prejuízo
no trabalho, pois era-me descontado as horas que perdia para esse efeito, de
cada vez que lá ia e foram muitas as vezes. Até que um dia...
Depois de mudares a tua vida e estar
algum tempo sem te ver, continuaste a enviar-me alguns livros pela tua filha,
enquanto continuávamos a falar agora pelo telefone. Soube então que estavas bem
e eras agora uma espécie de consultor de uma editora, convidaste-me (sabendo
que eu tinha alguma coisa escrita e registada na SPA), para fazer parte do
livro “Novíssimos” que a tua editora ia publicar, dando oportunidade a novos
autores e poetas (letristas no meu caso), para serem editados pela primeira
vês. Delirei com a ideia e logo escolhi meia dúzia de coisas para te mandar
como me pediste, grato pelo convite e eufórico por ser finalmente editado. O
pior veio a seguir... Eu sei que nada se faz de graça, mas a minha alegria era
tanta à mistura com muita ingenuidade, que aceitei os requisitos que me
impuseste e fui enfrente.
Para fazer parte de uma pequena edição de
1000 exemplares, era obrigatório cada um dos 30 autores como eu, ficarem com 30
exemplares cada e paga-los a 1.750$00 cada. Ora 30 vezes 1.750$00, dava 52.000$00
que manifestamente eu não tinha. Embora para ti (Deus da facilidade), eu tinha
que ter... Quem não tem? Mesmo assim, depois de conversarmos, fizeste-me o
grande favor de aceitar essa verba em 3 prestações. Tu nem imaginas o
sacrifício que fiz para conseguir pagar-te, porque sempre penso que vives num
mundo superior, onde tudo são facilidades e não podes, nem queres, entender os
pobres mortais. Sou humano, peco, perdoo, rio, choro, vivo e tenho que me
alimentar a mim e aos meus. Não posso pensar no supérfluo, a minha vida tem
sido de trabalho, não tenho carro, não tenho muita coisa que gostava, mas tenho
o dever de olhar pelos meus e a legitimidade de ser como sou, mas não
entendes... mas eu pensava sempre que tu entendias. És culto, lês-te muito, sabes
mais das coisas (saberás?), nasceste possivelmente em berço d’oiro e sempre
mantiveste um padrão de vida média-alta (pelo menos aparentemente...) só que em
relação aos terráqueos mantinhas uma distância de ser superior.
Muitas vezes penso, que mesmo quando tens
um gesto de dádiva para com alguém, é sempre com ares de grande senhor, como se
estivesses a fazer um grade favor à humanidade. Ora eu, na minha insignificante
existência também penso e ao fazer contas vi: Que os 1000 livros editados foram
todos pagos e nenhum de graça, sim porque 30 vezes 30 é igual a 900 e com 30
oferecidos (3 a
cada um dos 30 autores), apenas sobraram 10 para ofertas pessoais e
publicidade. Como uma edição de autor com 1000 exemplares fica por 700.000$00,
esta deu muito lucro pois ficou por 1.750.000$00.
Par te poder pagar a terceira e última
das prestações, tentei pôr à venda (à consignação), alguns desse livros na
livraria do bairro, que não aceitou a minha oferta e eu fiquei com todos na
estante para oferecer aos amigos.
Enfim, consegui pagar-te tudo, nada te
devo.
A par deste caso, fomos conversando
sobre a possibilidade de poderes editar dois livros que eu tinha prontos. Um
com 100 letras de fados meus e outro (uma novela), sobre o fado na cidade do
Porto.
Entretanto como tinhas saído da tal
editora e agora eras sócio de outra, mostras-te interesse e disseste-me, que
havia agora mais possibilidades de meus livros serem editados.
Depois de tos enviar pela tua filha
para tua apreciação e como passou tanto tempo sem o fazeres (ou não tinham mesmo
interesse nenhum e nem sabias como mo dizer), falei-te em reavê-los pois tinha
que ajustá-los de novo ao tempo, uma vez que num deles, existe uma lista de
nomes ligados ao fado e que entretanto tinha crescido.
De novo te enviei o primeiro pela Cati,
depois de te ligar para te informar que estava a trabalhar no segundo. Mais
tarde, liguei-te novamente para saberes que estava pronto e ia mandar-to,
disseste-me que o 1º tinha muitos erros e que logo que verificasses também o
2º, telefonarias a marcar um encontro, para falarmos sobres a rectificações
necessárias agora nos dois.
Fiquei à espera desde de Maio de 2006,
hoje são 12 de Setembro de 2007...
Tenho consciência que não sou nada como
escritor, nem sequer tenho pretensões a isso, no entanto, confesso que sonhei
um pouquinho com a possibilidade e o sonho de ser editado.
Tentei com uma carta que enviei ao
responsável pelo pelouro da cultura da Câmara de Valongo, a possibilidade do
patrocínio de um dos livros “À Janela do Fado” o tal que fala da vivência do
fado no Porto. Não fui atendido, paciência!
Quis saber o custo de uma edição de
autor e pedi que me enviassem orçamentos a várias tipografias. A verba rondava
sempre os 350.000$00 para 500 exemplares. Mas claro que eu não tinha, nem tenho
esse dinheiro e fiquei á espera de melhores dias, mas a minha relação com o
dinheiro é muito fraca... e fui perdendo a esperança.
Vou escrevinhando algumas coisas,
imprimo para guardar em arquivo, gravo em disquetes para desafogar o disco duro
e fico com a remota esperança de um dia (quando já não andar por cá) os meus
filhos ou netos os leiam.
Não fora o meu modo recatado de ser, em
não gostar de palcos nem protagonismos (mais uma das coisa que criticas) e
talvez já tivesse tido essa oportunidade de ver um livro meu publicado. É que
ás vezes o que é preciso é ter lata, saber-se encostar aos que podem,
frequentar o meio, esperar uma oportunidade, bajular ás vezes e consegue-se. Ou
não anda por aí tanta gente armada em intelectual de meia tigela?
Quanto a ti, estou-te grato pelas
oportunidades que me deste e que decerto eu não soube aproveitar.
Obrigado pela tua ajuda e cá debaixo do
teu pedestal te saúdo. Ave Serrão!
Um abraço do amigo
Manuel Carvalho
Subscrever:
Mensagens (Atom)









