quinta-feira, 8 de outubro de 2020
MAIANGA "NOVELA" 1
Assistia ao telejornal da manhã, num dia quente de Julho de 2016, no conforto do meu sofá, quando uma notícia me deixou consternado, ao ouvir o nome de Nádia Santos. O jornalista informava:
«Pelo menos 30 pessoas morreram, na sequência de um acidente com um avião militar no aeroporto de Huambo em Angola. O aparelho, que transportava 16 pessoas, pertencia à Força Aérea Nacional, terá embatido no solo quando tentava descolar. O avião transportava para Luanda altas patentes das Forças Armadas Angolanas, tendo escala prevista na localidade de Catumbela. Entre os mortos, estão dois generais, um coronel e a subsecretária das finanças Nádia Santos. Uma missão do Instituto Nacional de Aviação Civil de Angola (INAVIC) está a caminho do local para investigar as causas do acidente».
A Nádia era minha neta, mas só a conheci há poucos anos, quando o meu neto Joel nos apresentou. É esquisito, eu sei, mas vou tentar contar como tudo aconteceu.
O Joel e a Nádia eram colegas de curso na Faculdade de Economia da Universidade do Porto. A Nádia nasceu em Luanda e tinha vindo estudar ao abrigo de um acordo cultural de intercâmbio entre os governos de Angola e Portugal. Era uma mulher linda e de inteligência invulgar, o que a fez ingressar mais tarde, no elenco governativo do seu país. Naquela altura nem sonhavam que eram parentes, mas davam-se bem, estudavam muitas vezes juntos e chegou quase a haver um certo romance entre eles, não fora o namoro de alguns anos que o Joel tinha com a Clarinha. A Nádia vivia na rua da Saudade no Porto em casa de uma velha senhora, ao abrigo do programa de intercâmbio de estudantes em residências particulares. Tinha uma bolsa de estudo dada pelo governo Angolano e tinha solicitado no Consulado Português em Luanda, um visto para cinco anos de estudante do ensino superior para estudar em Portugal.
Angola precisava de gente nova para levar o país rumo ao progresso, depois de tantos anos de guerra: Treze com a guerrilha colonial contra Portugal, que terminara felizmente com o 25 de Abril de 74, e onde eu estive de 70 a 72. Depois, foi a terrível guerra fratricida, entre facções que antes, tinham lutado lado a lado para alcançar a independência, esta guerra durou mais de quinze anos, provocando a morte a milhares de angolanos, com um milhão e setecentos mil refugiados, que atravessaram as fronteiras.
Toda a parte leste de Angola ficou arrasada, a zona do (hoje) Huambo, foi palco de ataques sucessivos durante anos seguidos. A ganância pela riqueza do solo, onde abundam os diamantes, levou à fuga de famílias inteiras, á morte e estropiamento de milhares de crianças vítimas das minas fatais. E foram tantas… Que levou a boa princesa Diana, a criar uma fundação para auxílio às crianças de África e principalmente de Angola, e à desminilização dos terrenos.
Na época colonial, o povo português nunca usufruiu dessa riqueza dos diamantes pertencente a uma empresa estrangeira, a tal que muitos anos antes tinha assinado com o governo fascista de Salazar, permissão para a sua exploração, em troca de favores. Mais a norte, no mar de Cabinda, acontecia o mesmo, mas desta feita, com o petróleo, que desde 1955 (ano da sua descoberta no vale do Kwanza). Em parceria com o governo colonial a Petrofina criou a Fina Petróleos de Angola (Petrangol) e construiu a refinaria de Luanda para processamento do crude.
Foram aos milhares, as pessoas sacrificadas por essa ganância desabrida do poder. Primeiro foram os portugueses, com quase 10.000 de mortos, (conforme atestam as lápides gravadas no moral do Forte do Bom Sucesso em Belém, junto ao Monumento dos mortos do Ultramar). Ainda com quase 5.000 estropiados, que ficaram mutilados e condenados a viverem em cadeiras de rodas, ou afectados psiquicamente pelo que viram e viveram. Nada melhor para demonstrar o que digo, que assistir aos filmes/documentos: “Inferno” e “Monsanto”, “A Guerra” grande série documental de autoria do jornalista Joaquim Furtado que passou na RTP, ou ler os três volumes da “Guerra do Ultramar” editados pelo Círculo dos Leitores com crónicas arrepiantes do escritor João de Melo.
É muito difícil para a juventude de hoje, (que nem é obrigada a fazer o serviço militar), sentir o pânico de saber que ao chegar aos 20 anos (tão bonitos e insubstituíveis para um jovem), saber que a partir do dia em que era chamado para a vida militar, estava iminente a sua mobilização para uma guerra sem verdade, como mais tarde escrevi e o fadista Augusto Fernandes cantou:
Também andei com o vento / Nessa guerra sem verdade
Se demorava mais tempo / Eu morria de saudade.
MAIANGA "NOVELA" 2
A dona Constança vivia sozinha, desde que enviuvara em 1978 e seu único filho emigrara para o Canadá, já á tantos anos… que só conhecia a neta por fotografia e que devia ter quase a idade da Nádia a quem se afeiçoou como uma avó extremosa. A Nádia também nunca lhe dera problemas, era cumpridora com os costumes e os horários da casa, afectuosa com ela, e à dona Constança, sempre lha dava jeito aquele dinheirinho ao fim do mês, a reforma era parca e o que seu filho depositava religiosamente no banco, não era lá grande coisa.
A Casa era muito acolhedora com uma decoração anos 60 e uma lareira em granito, cujo lambril estava repleto de molduras antigas da família. Uma moldura maior que as outras, chamou a atenção da Nádia, a foto ter sido tirada no jardim do antigo aeroporto de Luanda o “Aeroporto Craveiro Lopes”. A senhora Constança mostrou-lhe quem eram aqueles quatro militares:
— Estes três amigos do meu marido, junto com ele, eram “Os Malucos” assim se intitulavam por andarem sempre os quatro juntos, e o nome é feito com o nome deles; Repara: “OS” do meu finado Osvaldo + “MA” de Marcelo + “LU” de Luciano + “COS” de Costa. Estes amigos vieram cá almoçar muitas vezes, são todos de cá da cidade, mas já não os vejo há muitos anos, desde o funeral do meu finado Osvaldo em Agramonte. Sabes Nádia, é curioso, como o teu amigo Joel tem muitas parecenças com o Marcelo, já estive para lhe perguntar, o rosto e o jeito dele… faz-me muito lembrar o Marcelo, depois é muito educado e simpático o teu amigo.
A escritora Margarida Rebelo Pinto tem um livro com o título: “Não Há Coincidências”, eu cá tenho as minhas dúvidas, ou então trata-se do tal destino que anda por aí… Conheci muito bem a Constança e os seus cozinhados. Era uma mulher muito bonita, trabalhou na “Fábrica de Fiação do Jacinto” ali na rua da Torrinha, que depois passou para a Maia, onde em 1974 entrou em autogestão depois de grande luta dos trabalhadores onde a Constança esteve de pedra e cal.
Claro que eu fiz parte de “Os Malucos”, esse quarteto que se conheceu na recruta na Serra da Carregueira e jamais se separou até ao final da comissão no ultramar. Éramos confidentes uns dos outros, conhecíamo-nos tão bem que bastava um ter problemas e logo os outros ajudavam no que fosse preciso, fosse o que fosse, por isso éramos os Malucos. Pertencíamos a uma geração de sacrifício, nascidos no após guerra, muitas vezes passamos fome e andamos descalços passeando por uma meninice que nunca tivemos, pois fomos adultos muito cedo. Era uma época em que muitos portugueses davam o ”salto”, emigrando e sacrificando-se a nunca mais verem a família, sem poderem entrar mais no seu país. Eram os desertores do sistema fascista, como o Sérgio Godinho, José Mário Branco, Manuel Alegre e tantos outros. Mas milhares de homens foram à guerra, na esperança de voltarem um dia inteiros. Para isso, contavam com a preciosa “ajuda” psicológica do MNF (Movimento Nacional Feminino) onde as hipócritas esposas dos grandes senhores do governo, de avental aos folhos, propagandeavam a guerra e a “caridadezinha”, oferecendo medalhinhas de Fátima em alumínio, maços de tabaco “Português Suave”, isqueiros com a cruz vermelha, (a que os militares chamavam: “fogareiros do mato”), livros da colecção “Vampiro” (vá lá!..) e “Aerogramas” azuis e amarelos. Todo este ramalhete era rematado com um: «Boa Sorte, até ao seu regresso!», e tinha como cenário o cais de Alcântara, com a Vera Cruz atracado, barreiras de ferro e muitos polícias a postos, para não deixar passar aquelas que iriam ficar viúvas, órfãos ou sem os seus filhos. Aquelas que chorando em altos gritos acenavam de lenço branco, numa despedida aflitiva dos seus ente queridos. Muitas mordendo os lábios de raiva, inconformadas mas impotentes perante o roubo que lhe faziam, sem arredarem o pé, até o paquete da C.C.N. Companhia Colonial de Navegação, (com capacidade para 800 passageiros, transformado em transportador de carne para canhão, levava agora 2000 homens para a guerra), desaparecer no horizonte. Quanto às senhoras “caridosas” do MNF, essas voltavam aos seus lares palacianos, aos chás dançantes, às tardes de “canastra”, ao escândalo do Ballet Rose, às “Misses" da Vera Lagoa, às comemorações do 10 de Junho (com medalhas a titulo póstumo), ao nacional cançonetismo dos reis e rainhas da rádio, ao Benfica e ao Sporting que eram sempre campeões, a Fátima que era a guardião dos “ventos de leste”, aos inquisidores da Pide que assassinaram Humberto Delgado, á censura dos filmes, dos livros, das exposições e peças de teatro. Longe, muito longe dos bairros de lata, da fome e das cadernetas de sanidade das prostitutas. Da emigração clandestina para França, (a pé, atravessando a raia por montes e rios fugindo da GNR, guiados por “passadores” que ganhavam a vida abusando das mulheres dos outros e untando as mãos dos guardas fronteiriços). Enfim, aos brandos costumes e ao marasmo dum povo amordaçado, vivendo no medo de ser “bufado” por um vizinho e ser acordado de madrugada, para um passeio até à rua do Heroísmo, para ser interrogado sobre coisas que não sabia se sabia. Mas o demónio da guerra existiu: Que o diga o Arnaldo que tem um furo no pé; O Augusto que chorava às escondidas, com remorsos de ser obrigado a atirar granadas para uma cubata cheia de gente “turras”; O Seixas que ainda anda em tratamento na hospital Magalhães Lemos; O Zeca alentejano, que roubou uma Walther e na enfermaria deu um tiro boca, por ter a cabeça da piça a cair de podre com um esquentamento apanhado no BO (Bairro Operário); Ou o Fernando que se enforcou com o cinto nos ferros do beliche, quando soube que a mulher lhe pôs os cornos e estava grávida de cinco meses, quando ele estava na guerra à ano e meio. Tudo isto, só porque foram obrigados a lutar numa terra distante, no outro lado do mar, para morrer nas emboscadas no mato, pelas minas, pelo paludismo, pela sede e pela saudade. Tudo para defender um chão que não era nosso, dando a vida pela riqueza dos outros, defendendo as sanzalas e as costas, dos grandes senhores, dos mesmos que diziam aos soldados: «Vão-se embora, não os chamámos cá» mas que fugiram a sete pés para a metrópole, quando os militares abandonaram Angola depois da independência, para serem sustentados anos e anos, com os subsídios do célebre IARN (Instituto de Apoio aos Retorno de Nacionais) em hotéis, pensões, etc. Os chamados “Retornados” que mais tarde se auto-denominaram: ”Espoliados das ex-colónias”, quando exigiram ao estado indemnizações por todas as perdas que tiveram com a descolonização. Sei que houveram muitos com razão, conheci alguns desesperados com a desgraça que os atingiu, mas a maior parte eram egotistas e mais oportunistas. Se não queriam a descolonização para que fugiram? Não se davam bem com os naturais da terra? Não os tratavam como se fossem da família? Porque não ficaram lá? Claro que não falam da forma como maltrataram (os pretos, como diziam), durante anos e anos de colonização, levando-os ao ódio, escravizando-os ao ponto de os fazerem revoltar contra nós, em busca da dignidade que dia a dia lhe roubavam. Muitos desses colonos que choram o património que lá deixaram, muito à custa de manobras duvidosas, e do trabalho de escravos, dizem hipocritamente que não havia racismo, enquanto lhes davam “porrada” e repressão, em troca de meia dúzia de tostões e latas de restos para dar de comer aos filhos. Explorando-os com tudo, até com o artesanato de madeira, comprando (a dez reis de mel coado) na esplanada da “Portugália”, obras escultóricas que faziam crer que nada valiam, para depois decorarem as suas vivendas na metrópole. Por exemplo: Não seria por causa da cor da pele, que o sargento Ramos, na repartição do quartel, mandava o “canuco Zézé”, engraxar as botas dos oito militares da repartição, e depois lhe pagava apenas vinte e cinco tostões de um par, em vez de vinte e cinco vezes oito? E depois... durante muitos anos, alguns desses retornados viveram à grande, com criados para tudo, desde amas para os filhos, até às que abriam as pernas para saciar os senhores feudais de chicote em punho. Durante centenas de anos viveram assim, nessa terra abençoada, que desde o marisco à fruta tudo era a rodos. Enquanto na metrópole a maioria do povo vivia á mingua, destroçado, triste e com fome, calados pela PIDE, amordaçados pela censura e o “aviso prévio”, obrigado a lutar para defender um império podre onde a teoria fascista de Salazar em relação às províncias ultramarinas era: ”Portugal Uno e Indivisível”.
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A Constança, tal como a minha mulher e muitas outras, foram heroínas duma geração, como muitas que ficaram viúvas com a guerra ou sem os pais e irmãos. Pertenceram como nós à mesma condição, também andaram descalças ou de “chinelas”, inventando as suas bonecas de trapos com pouco tempo para brincar, porque eram obrigadas a serem adultas muito cedo. As crianças naquele tempo, mal acabavam o ensino primário, tinham que trabalhar para contribuir para o seu sustento. A vida era difícil e o regime fazia da pobreza uma coisa “linda”, como se (ser pobre) viver na miséria fosse bom. Até nas letras das canções se fazia a apologia da pobreza como por exemplo: “Uma Casa Portuguesa” onde se lê em algumas estrofes escritas pelo jornalista e poeta Reinaldo Ferreira:
A alegria da pobreza
Está nesta grande riqueza
De dar, e ficar contente
E um caldo verde, verdinho
A fumegar na tigela
Na década de 60, eu e minha mulher vivíamos pobres. Eram outros tempos, em que se ia preso por “enganar”, ou seja, desflorar uma rapariga. Pedimos dinheiro emprestado para casar, numa tarde de sábado de Março e chegamos a dormir numa casa emprestada, debaixo dumas escadas sem dinheiro para um colchão. Houve até um certo Natal, no princípio de vida, em que choramos e bebemos juntos, uma garrafa de vinho do porto antes de adormecer. Foram tempos difíceis, mas estivemos casados mais de 50 anos. Fomos muito felizes juntos, vivemos grandes noites de fado, demos grandes passeios, rimo-nos e saboreamos o prazer em muitas noites de amor.
Pertencemos aos chamados “Amigos de Alex”. Dançamos ao som das músicas do Roberto Carlos e dos tangos do Reinaldo Calheiros em bailes improvisados, de gira-discos em punho pelas garagens dos amigos. Andamos juntos num rancho folclórico e nas marchas da cidade no S. João. Não faltamos no Cinema do Terço à estreia da “Noiva” nem no Júlio Diniz para ver os filmes do Gianni Morandi. Nesse tempo, corríamos os cinemas do Porto e arredores que já não existem, como o Odeon, o Cine Vitória ou o Cine Ermesinde. As sessões eram baratas, mas claro, tinham muitos “cortes” feitos pela censura, por isso foi um escândalo, quando vimos a Romy Schneider nua no filme “A Piscina”. Outro escândalo, foi não nos deixarem entrar no Teatro S. João para ver o filme “Helga, o segredo da maternidade”, porque não tínhamos 21 anos, apesar de sermos casados e já com um filho. Mais tarde no filme de 1988 “Cinema Paraíso”, do realizador Giuseppe Tornatore, pude ver o estrago que a censura fazia nos países fascistas, cortando os “beijos” e outras cenas da fita para não vermos.
— Por favor, não leves a mal, eu faço muito gosto em pagar. Nádia, que adorava o jeitinho dele, semicerrava seus olhos lindos cor de avelã e dizia:
— Ok, só desta vez. Quando receber a bolsa pago-te.
Foi num destes encontros, que o Joel apresentou à Nádia a Clarinha, quando esta ia a caminho da instituição de crédito onde fazia estágio. Nesta empresa, fazia prospecção de mercado para um banco do Porto, onde seu pai o Leandro Guedes, tinha um cargo de destaque e que prometia empregar o Joel, mal este acabasse o curso. A Clarinha tinha acabado de se formar em direito. Era muito simples e doce. O Joel e Clarinha conheceram-se numa festa de casamento de uma amiga comum e já namoravam há dois anos. Pensavam em casar para o ano, mal tivessem a vida estável. Eu conhecia bem o seu pai de outros “carnavais”, mas isso agora não interessa para nada (como diz a outra).
Para comemorar o final de curso, a Nádia e o Joel escolheram, junto com outros condiscípulos finalistas, um passeio no Douro. E foi em 2014, depois da festa da queima e bênção das pastas, a que eu assisti a convite de meu neto, que embarcaram no “Douro Azul” rumo à cidade da Régua. Segundo ele me contou, foi uma viagem deliciosa. Ficou impressionado com a descida dos
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— Estás preocupado, que se passa? Joel disse ser uma caso sem importância, mas precisava de ajuda dela no Power Point para apresentação da sua tese, não estava muito familiarizado com o programa. Nádia logo se ofereceu para o ajudar e ele lembrou-se que me tinha prometido digitalizar algumas fotos da minha vida militar, para mostrar no almoço anual dos meus camaradas do ultramar.
— Que tal aproveitar esse facto para me ensinares a fazer uma apresentação? De pasta em punho, com as fotos que eu tinha escolhido para o evento, meu neto foi a casa da Nádia digitalizar e introduzi-las no tal programa. Ao ver algumas fotos, a Nádia admirou-se de eu ter estado na guerra do ultramar, e como a maioria das fotos eram de Angola, duas delas chamaram a sua atenção. Uma jurava já a ter visto num álbum de fotos antigas de sua avó Nimi, que sua mãe Dalila tinha guardado. A Outra, bem a outra, para alegria da dona Constança, tratava-se do Marcelo do “Malucos” o que confirmava que a senhora era boa fisionomista e em relação ao Joel tinha razão, era neto do amigo do seu Osvaldo. Enquanto a senhora Constança contava as histórias daquela antiga camaradagem ao Joel, a Nádia contactou a mãe por correio electrónico, pedindo-lhe para lhe enviar por encomenda postal o tal álbum, pois tinha que fazer um trabalho sobre a sua árvore genealógica (mentiu para não a assustar) e precisava dessas fotos, assim como de datas de nascimento de seus antepassados, etc. Meu neto ficou um pouco intrigado, mas ela logo o serenou:
— Calma Joel, posso estar enganada, quando tiver o álbum tiramos as dúvidas. No mínimo, podes ser meu primo e eu, bem eu… neta de teu avô! Que mal há nisso? Só se tua avó não gostar…
Algumas imagens eram bem tristes com as ruínas que a guerra deixara naquela Luanda tão linda! Até que a tal foto igual à minha lá estava. Um militar de mangas arregaçadas e boina debaixo do braço, sentado num banco do Jardim de Alvalade, junto à igreja da Sagrada Família. Por trás estava escrito: «Para a Nini com saudades antecipadas, Marcelo», a Nádia tinha razão, o avô do seu amigo Joel, tinha sido o grande amor da sua avó Nini e talvez… pai de sua mãe. Mas nesse caso… era neta do mesmo avô do Joel… e eram primos!
Dona Constança não entendeu logo o espanto da Nádia, mas após a explicação de sua pupila a senhora entrelaçou os dedos das mãos e exclamou:
— O destino prega-nos cada partida… Quem diria que ao vires estudar em Portugal, irias encontrar o teu avô! Mas diz-me Nádia (perguntou a senhora com a curiosidade ao rubro) tua avó nunca te contou quem ele era? Nem a tua mãe?
A Nádia muito paciente começou por narrar o que sua mãe lhe contara, satisfazendo a curiosa da senhora Constança:
— Minha avó Nini nasceu em S. Tomé, era descendente de uma geração de escravos idos de Angola no século IXX. Minha avó era filha de uma criada de quarto que fazia serviço numa casa colonial da roça do “Paraíso”. Desses tempos antigos dos escravos das plantações de cacau, o escritor Miguel Sousa Tavares no seu livro “Equador” traça muito bem o cenário lá vivido, passado no tempo do Rei D. Carlos e do “Ultimato” inglês. Minha avó Nini foi enfermeira no hospital de S. Tomé e lá conheceu um médico pediatra que a trouxe para Angola quando montou consultório em Luanda. Trabalhou alguns anos como enfermeira nesse consultório, acumulando às noites com o part-time de arrumadora no Teatro Avenida na baixa de Luanda. Foi numa dessas noites (estava em cena a peça de Agatha Christie, “A Ratoeira”) que minha avó conheceu, num intervalo da peça, o meu avô, um garboso rapaz de 23 anos por quem se apaixonou no primeiro momento em que o viu. Meu avô que altura trajava à civil, contou-lhe que era militar e qualquer relação entre ambos seria interrompida ao fim da sua comissão de serviço, uma vez que era casado, com filhos e a esposa esperava ansiosa pelo seu regresso à metrópole. Nada demoveu a minha avó, que se ofereceu para madrinha de guerra (estava na moda na altura) e logo a seguir, convidou-o a acompanha-la a sua casa no bairro da Maianga. A relação entre os dois durou pouco mais de um ano, até que em Agosto de 1972, tinha a minha avó 32 anos, ficou grávida para grande susto do meu avô. A Avó Nini tratou de acalmá-lo e esclarecer que não queria nada dele, a responsabilidade duma “produção independente” (como se diz agora) seria totalmente dela pois queria muito ser mãe e a sua idade já ia adiantada. Tinha minha avó 3 meses de gestação quando se despediram e ele voltou para casa. Minha mãe Dalila nasceu em Fevereiro de 1973 e se nem ela conheceu o pai, muito menos eu o meu avô. Não fosse esta foto e feliz coincidência em conhecer o Joel, nunca o teria encontrado.
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— Onde foste buscar esta foto?
Joel contou-me com a ajuda da Nádia, como tinham descoberto aquele segredo com quase 40 anos. No final só consegui dizer:
— Então és mina neta… e agora reparo, tens os olhos lindos, cor de avelã como os da tua avó. E tua mãe como se chama, está bem? A Nádia respeitosamente apenas respondeu com outra pergunta:
— Avô gostava de lhe dar um beijo, posso?
— Claro que sim minha querida! Ah que dia maravilhoso, ganhei mais uma neta.
— E eu estou tão contente por te ter encontrado meu avô, só faltava encontrar também o meu pai. Parece que as mulheres desta família têm uma sina especial, terem filhos sem pai.
— Nádia, eu gostava que soubesse como tudo se passou com a tua avó Nini e como ela enfrentou o facto de engravidar.
— Não precisa avô, sei como tudo se passou, minha mãe contou-me depois de minha avó falecer em 2009, tinha 71 anos, tinha eu acabado de fazer os meus 18.
— Então não sabes quem foi o teu pai? A tua mãe nunca te disse? Como se chama ela? Deve ter hoje… 44 anos.
— É verdade avô, a sua filha chamasse Dália e está bem, trabalha no Museu de Luanda, digitalizando e organizando o espólio. Está casada há 18 anos, com um advogado que pertence a um departamento jurídico do ministério da justiça, é o único pai que conheço e tem sido meu amigo. O Museu onde minha mãe trabalha, fica num edifício onde dantes era a “Biker”, o avô lembra-se?
— Se me lembro… passei lá horas a jogar xadrez com o meu amigo Luciano. Nunca voltei a Luanda, o que conheço de hoje é só pela TV. Quem lá foi algumas vezes a trabalho, foi o meu filho Dário e pai do Joel, como técnico de hotelaria. Montou alguns hotéis de referência em Luanda e em (antigamente) Santo António do Zaire, hoje Soyo. Tu não te lembras Joel, foi no ano em que nasceste, em 1992, esse ano foi um caos para nós… Mas sobrevivemos e tu estás aqui um rapagão de quem muito me orgulho.
A Nádia apressou-se a comentar que tinha nascido um ano depois, em 1993, mais precisamente no dia 13 de Maio.
— Mas que teve 92 de tão catastrófico para vós?
O meu neto Joel fez uma síntese do acontecido:
— Foi uma desgraça que me levou a nunca ter conhecido a minha mãe. Tinha nascido a 4 de Fevereiro desse ano e a minha mãe, infelizmente, faleceu no parto. Meu pai deixou-me aos cuidados de meus avós para me criarem. Foram tempos maus para todos, mas meus avós felizmente, fizeram um bom “trabalho” (e abrindo os braços) estou aqui rijo como demonstra o exemplar presente. A Nádia rui-se, mas pesarosa lamentou.
— Lamento o sucedido, logo nesse dia que é tão festivo na minha terra, deram até esse nome ao aeroporto de Luanda.
— È verdade Nádia, foi o dia em que o Salazar tremeu quando em Angola a 4 de Fevereiro de 1961, eclodiu a revolta na esquadra da polícia de Luanda que deu inicio á guerra colonial, o ditador veio á RTP ordenar: «Para Angola rapidamente e em força». Houve mesmo um hino que entupia as rádios nacionais. Com o título: “Angola é Nossa”.
Como nestas coisas não me consigo calar, prossegui:
— Sabes Nádia, já em
«Obrigado portugueses, temos o Santa Maria connosco».
No ano seguinte, em Dezembro de
Desde a independência do Brasil, em 1822, que nenhuma colónia portuguesa cortara com Portugal o seu cordão umbilical, tudo isto, era o começo da queda do império colonial português.
Estávamos na década de 60 e Paris estava em ebulição com o Maio de 68. Os protestos estenderam-se de Praga ao Cairo, de Pequim a Portugal, de Buenos Aires aos EUA. Aqui, a guerra do Vietname foi um dos detonadores, onde se sucederam manifestações de protesto com palavras de ordem: «Abaixo a guerra do Vietname». À cabeça dos jovens franceses, estava Daniel Cohn-Bendit em manifestações de rua, fartos da rotina, e das velhas estruturas decadentes das universidades. Defendiam a revolução dos costumes, com menos autoridade e mais liberdade. Nestes protestos surgiram nomes como Che Guevera, morto na Bolívia um ano antes e os filósofos Marcuse e Sartre, surgiu o Livro Vermelho de Mao e as canções de protesto de Ferré, Bob Dylan e Zeca Afonso; a minissaia da inglesa Mary Quant e os movimentos Hippies, com os símbolos de “Paz e amor”. O Presidente De Gaulle chamou-lhe ”a revolução dos filhos do papá”, mas como dizia Bob Dylan na sua canção: «Os tempos estão a mudar...»
Os trabalhadores da Renault viram os seus salários aumentados, os pais permitiram que os filhos chegassem a casa depois das dez da noite, “ Os Beatles “ trouxeram os cabelos compridos e as calças de boca-de-sino, juntamente com a loucura da sua música; Logo no ano seguinte, em Julho de 69, o homem pôs pela primeira vez os pés na Lua. Restavam algumas conquistas civis, como o divórcio, o aborto, e o reconhecimento da homossexualidade, etc.
No segundo semestre de 68, as águas tinham regressado ao leito. Mas em Portugal ficou tudo, ou quase tudo na mesma, alem da crise académica de Outubro de 68 onde Jorge Sampaio lutou e que durou até ao natal de 69. Foi o maior protesto estudantil contra o Estado Novo em Coimbra e Lisboa.
Mas... nem o “O Último tango em Paris”, nem a Coca-Cola, ou os livros pornográficos da Virgínia Maio cá entrava. Mesmo com a vinda da primavera Marcelista que só fez mudar as moscas, porque a “merda” continuou na mesma. Como dizia Marcelo Caetano em Fevereiro de 1965, na tomada de posse da comissão executiva da União Nacional: «Combatemos sem espectáculo, sem alianças, orgulhosamente sós». Esta expressão política tornou-se numa síntese do que era o isolamento do regime e da solidão política do seu velho líder. Só que um dia... Nove anos depois, em 25 de Abril de
— Mas não foi para ouvir “História” que vieram ter comigo.
— Não avô! Estamos a gostar de ouvir (disse a Nádia) que dizes Joel?
— Ouvir meu avô falar assim, podemos dar graças pela vida que temos hoje. Pena é, que nas escolas não contem aos meninos como se vivia em Portugal naquela época, talvez dessem mais valor à vida e não se perdessem tantos valores que felizmente se vão perdendo. Ainda bem que tive um avô e uma avó que me educaram com exemplos de vida.
— Por falar nisso, tens que levar a Nádia lá a casa, tua avó vais gostar de a conhecer. Não tenhas receio Nádia, vais ver que serás bem recebida, vou prepará-la para o que aconteceu e minha mulher vai compreender com certeza. Vamos preparar um almoço, que dizes Joel?
— Este fim-de-semana não, porque o meu pai está em Zurique a chefiar uma equipa de montagem num hotel, mas para a semana ele está cá e era bom a família estar completa.
— Dizes bem rapaz, então para a semana apresentamos a nossa Nádia à família. Agora já se faz tarde e a tua avó deve estar à espera para almoçar. Dás-me boleia’
— Claro avô, sendo assim, vamos pela Boavista e deixo a Nádia em casa.
— Ok, deixa-me só ir ali defronte buscar o célebre croissant que levo sempre da “Doce Mar” para a tua avó.
Deixamos a Nádia em casa com beijos para a Constança e a promessa que em breve eu a ia visitar.
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A Conversa estava boa, mas todos esperavam com ansiedade, o parecer importante da avó Lara. Joel foi o primeiro a puxar à conversa a opinião da avó.
— Então avó, que tem a dizer sobre a sua nova neta?
A Minha condescendente Lara falou assim:
— Apesar, de só ser neta do teu avô, vou considera-la como minha também e é com uma enorme alegria que a recebo, pois à muito tinha perdido a ideia de ter uma netinha, ainda por mais, disse-me o Joel, nasceste a 13 de Maio. Nossa Senhora nunca me faltou. A Avó Lara levantou-se e disse:
— Vem cá meu amor, dá um abraço grande à tua “nova”avó e sê bem-vinda à nossa família.
A Nádia correu para abraçar a avó e reparei que não era só meus olhos que choravam. Ficaram ambas aos beijos e logo que a Lara se recompôs, disse para mim:
— Então chorão limpa essas lágrimas e informou a Nádia.
— Sabes que teu avô chora por tudo e por nada, a ver um filme ou uma notícia na televisão. Vamos mas é ao bacalhau antes que esfrie. A Nádia deu um beijo aos tios e ao sentar-se a avó Lara então, proferiu uma frase que ficou na lembrança de todos até hoje.
— Já repararam como ela é tão parecida com o tio?
O Joel entrou na brincadeira e disse ao pai.
— Ó Pai que andaste a fazer lá por Luanda? Vê lá…
O Dário sorriu, mas notou-se que não ficou muito confortável com este dito do filho. Corri a desanuviar o ambiente.
— Quem andou na guerra fui eu…
Logo a Nádia perguntou:
— O Avô, os portugueses devem ter recebido por cá com muita alegria, o final da guerra?
— É verdade Nádia, todos estávamos cheios dessa guerra inútil e foi com a revolução de Abril de 74 que ninguém mais segurou o povo tão martirizado. E prossegui:
— Nem mais um militar para o ultramar! Era uma das muitas palavras de ordem a seguir à revolução de Abril. E o “Grande Dia” chegou, e com ele a libertação de muitos povos, desde a Guiné a Moçambique e de S. Tomé a Angola. Com os acordos de Alvor em 15 de Janeiro de 1975 ficou estabelecido que os três partidos de Angola (FNLA, MPLA e UNITA) constituiriam uma coligação legítima para exercer a soberania em Angola, após a independência a 11 de Novembro de 1975. Era o quebrar das grilhetas, a autodeterminação do vosso povo, que veio em sequência da revolução de 25 de Abril, quando o exército português libertou o povo, dum jugo de quarenta e oito anos de obscurantismo.
Em seguida foi a descolonização possível, com todas as precipitações, com os soldados a quererem vir passar o Natal de
Ao vosso presidente Agostinho Neto, que morreu em 1979, sucedeu José Eduardo dos Santos que assiste ao agravamento e ressurgimento dos combates entre o MPLA e a UNITA, esta última com o apoio da África do Sul. Só em 1990 com o patrocínio da EUA e da URSS, e o sucesso da diplomacia portuguesa, se avança para os chamados acordos de Bicesse, em Abril de
Jonas Savimbi é capturado e morto em 2002 e Eduardo dos Santos acomoda-se no poder até hoje.
— Houveram grandes homens e com boas intenções, o caso do recente falecido Lúcio Lara que faz parte da história de Angola, como patriota, por ter participado activamente na luta contra o colonialismo português e contribuído para a sua independência ao lado de Agostinho Neto. Claro que, como ainda há dias li no jornal Expresso:
«O homem que domina a política angolana quase há 36 anos está a caminho de dar mais um golpe de mestre. Invocando as circunstâncias excepcionais que o país enfrenta, como já o fez em várias outras ocasiões, prepara-se para ficar no palácio presidencial até 2022, quando tiver 80 anos. Nessa altura terá talvez a tentação de proceder a uma sucessão dinástica. Ou então, quem sabe, fazer uma nova alteração da Constituição, como tem ocorrido em vários países africanos, que lhe permita eternizar-se no poder até à morte».
Claro que não concordo com isto, estou a dize-lo aqui em família, mas não o diria abertamente. Não posso esquecer a surpreendente detenção, em Junho, de 15 jovens acusados de preparem um ato de rebelião e atentado contra o Presidente da República. Os jovens são conhecidos por organizarem manifestações pacíficas desde 2011, exigindo a demissão de José Eduardo dos Santos.
Diz ainda o Expresso e eu concordo:
«A situação de Angola alterou-se radicalmente por causa da queda do preço do petróleo, mas o efeito mais nocivo é político”, Só para se ter uma ideia de como o problema é assustador para uma economia que não se conseguiu diversificar, assinale-se que as receitas totais de Angola, de capital e correntes, atingiram em Maio 485 milhões de dólares contra os 3,2 mil milhões no mesmo período do ano passado, uma quebra de 85 por cento, como admite o Ministério angolano das Finanças, no relatório de execução orçamental divulgado a semana passada. “Esta quebra de receitas apanhou os dirigentes angolanos em contramão e evidenciou um país cheio de fragilidades. Não há uma economia alternativa ao petróleo. Criou-se essa aparência mas ela não existe».
— Vejo Nádia que estás por dentro dos problemas que assolam a tua Angola. Sabes que o escritor João Melo mostra outro exemplo e denuncia que ainda recentemente o ministro da Saúde conseguiu impedir, in extremis, a saída em bloco de vários directores de hospitais que queriam demitir-se por causa da escassez de medicamentos. Mas depois estranha que isto esteja a acontecer, quando o preço do petróleo até está acima dos 40 dólares estimados no Orçamento revisto. “A imagem que está a ser passada é a de um Estado aparentemente falido. Ora, o Estado angolano não está falido. O país tem dinheiro. Mas onde está? Pergunta o escritor.
— É um caso mediático Clarinha, é só ver o que diz a imprensa angolana e estrangeira:
«Isabel dos Santos tem vindo a fazer fora do país, nomeadamente em Portugal, grandes investimentos. Só compra o que compra porque é filha do Presidente. Existia em Angola uma ponta de orgulho. Contudo, o sentimento terá mudado com a crise e a recente aquisição da maioria do capital da empresa portuguesa Efacec terá levado a várias críticas no sentido de Isabel dos Santos apostar em Angola para fazer novos investimentos em vez de optar pelo estrangeiro (embora neste caso o cerne da aposta é preparar-se para ganhar os concursos de equipamentos para a barragem do Laúca e outros empreendimentos que se seguem neste sector. Há um mal-estar grande. Isabel dos Santos, a primogénita, é de longe a mais bem sucedida, tendo sido considerada pela revista norte-americana “Forbes”, em Janeiro de 2013, como a primeira bilionária africana. Com posições em Portugal no BPI, NOS, Galp e Efacec, além do banco angolano BIC, os seus investimentos em Angola são muito relevantes, indo das telecomunicações (Unitel) aos cimentos, passando pela banca, diamantes, restauração, imobiliário, televisão e outras áreas de actividade. São conhecidos vários casos em que usou o peso das suas ligações familiares para passar a deter negócios que pretendia. Sendo muito discreta — não dá entrevistas e raramente aparece em público ou em eventos sociais —, Isabel dos Santos já processou publicações portuguesas, como a “Sábado”, por textos sobre a sua actividade empresarial que considera serem danosos para a sua imagem. Mas a reacção mais espectacular foi a compra em 2013 dos direitos de exploração da revista “Forbes” para os mercados de língua portuguesa, pouco depois de a edição norte-americana ter publicado um artigo que questionava a forma como a empresária tinha construído a sua fortuna».
— Se fosses convidada para integrar o elenco governativo, agora que voltas ao teu país com o canudo em economia, aceitavas, mesmo com essa “visão do país”?
— Em que sitio de Luanda moras Nádia?
— Na Maianga, na mesma casa que foi da minha avó Nini e depois de minha mãe. Conhece a Maianga tio?
— Conheço muito bem, estive aí numa pensão em 92.
A Lara então lembrou-se de perguntar:
— Ainda ficas cá muito tempo? É que no próximo domingo de manhã realiza-se no Porto a caminhada das mulheres a favor da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Todos os anos tenho ido com a Clarinha, o ano passado também foi a Sara. Este ano queres vir connosco?
— Claro que vou, então não sou uma defensora de causas? O meu visto ainda dá até dia 29 de Junho, dia 30 embarco.
— Então vais ter connosco ao jardim da Boavista, junto à Casa da Música. O percurso começa aí e termina no Castelo do Queijo. O Joel espera por nós e traz-nos para almoçar. O teu avô Marcelo vai estar atento ao assado. Ouviste meu menino? (menino era comigo…). Já agora, vê quando arranjas tempo para arrumar o sótão que está em pantanas desde da última vez que lá foste, sabes que já não tenho pernas para andar a subir e a descer.
— Segunda e terça estou livre, posso vir ajudar! Ofereceu-se a Nádia.
— Eu também não tenho trabalho, amanhã, dia 10 é feriado.
— Boa! Exclamou o Joel. Vamos os três arrumar e aproveito para mostrar à Nádia “A Caverna do Saber”, sabes que é assim que meu avô chama ao sótão desde que eu era pequeno?
MAIANGA "NOVELA" 7
— É maravilhoso penetrar neste mundo. — Dizia o Joel — A biblioteca era muito maior, mas o meu avô desiludido com a falta de interesse do meu pai, ofereceu à Junta de Freguesia quase um milhar de livros para a biblioteca. Dos que ainda ficaram, já os li quase todos, mundos idealizados por grandes escritores, só quem não experimentou não sabe o que é esta sensação boa de sair do mundo por uns instantes; Estar num café de Londres a desenhar a Sally ao lado de Philip, na “Servidão Humana” de Somerset Maugham; Ou aprender com a Tehura a arte das caricias, nas belas ilhas do pacífico, nas “Três Sereias” de Irving Wallace; Que bom ter estado ao lado do tenente Krafft, na “Fábrica de Oficiais” do Kirst; Ou ter conhecido a Adriana na “Romana” de Moravia; Fazer parte de “Uma Família Inglesa” de Júlio Dinis e conhecer a Amélia do “Crime do Padre Amaro” do Eça; Ser o Homem do leme no “Mostrengo” de Fernando Pessoa, e o marinheiro no “Fado” de José Régio. Que bom é poder viver estas personagens com o prazer da leitura.
— Tem aqui contos escritos pelo avô? Vou ter que lê-los…
— Sim Nádia, eu dos que li, gostei muito de um dedicado a uma tal Alma Rosa, fadista da época, pela qual meus avós deviam ter um carinho muito especial. Gostei também da descrição que faz sobre a Exposição Mundial de Lisboa, a Expo/98, que deve ter sido fabulosa. Gostei também da descrição minuciosa sobre um cruzeiro (que nunca fizeram) ao Mediterrâneo. Há um conto que gosto em particular que tem o título de “Quando o ano fez anos”. Gostei muito de ler: “Á Janela do Fado”; “O Anjo Encarnado” e muitos, muitos poemas e letras de fado no “Fados & Silêncios”. Sabes que o avô escreveu mais de 350 letras de fado e mais de uma centena foram gravadas por diversos fadistas. Tens aí em K7’s, CD’s e até em vinil, quando quiseres ouvir…
— Tem aqui uma boa colecção de literatura erótica — Disse a Clarinha — Quero ler isto… O Joel brincou com ela:
— És muito tola… Mas sei que vais gostar. Tens aí livros da célebre escritora brasileira Cassandra Rios, que cá eram proibidos, assim como tudo que fosse pornográfico. Havia uma livraria na rua de Cedofeita (o Sérgio) que os mandava vir clandestinamente. O Avô guardou, alguns que ainda eram do nosso bisavô Daniel, o tal que teve uma marcenaria e faliu seis anos depois da revolução de Abril. Dividiu pelos dois filhos o que lhe restou, algumas louças, roupa de cama e muitos livros, depois partiu para um lar de idosos, onde a segunda esposa morreu dois anos depois, cansada e envergonhada da falência, “nunca soube pegar a vida pelos cornos” como diz o avô.
A Nádia estava encantada:
— Adoro cinema e tem aqui filmes que já ouvi falar mas que nunca vi.
— Tens aqui, Claro que com o DVD, estas cassetes tornaram-se obsoletas. Ainda assim podes ver e rever, filmes há muito esquecidos, outros ultrapassados como dizem, mas eu não acredito, o cinema é intemporal, é uma questão de adaptarmos a história ao nosso tempo. Que fez Coppola e o argumentista Jonh Milius, ao escreveram o argumento para o “Apocalypse Now”? Foram buscar a celebre subida do Patna no rio Menam do” Lord Jim” de Conrad e contaram outra história. Depois, como podem estar ultrapassados filmes maravilhosos como: O Doutor Jivago; Laurence da Arábia; Uma Ponte Longe de mais; Era uma vez na América; Rio Bravo; Ladrões de bicicletas; Ben-Hur; Clube dos Poetas Mortos; West Side Story; Cinema Paraíso e Perfume de Mulher? Só para citar os onze melhores filmes de sempre, que o avô me mostrou (a eleição é dele, que nunca consegui tirar um para fazer o “Top 10”). Seja o género de filme que for, quem gosta de cinema como eu também gosto (deve ser de família) sabe apreciar um bom filme, numa boa sala de cinema, um ecrã gigante no escuro e com um bom som. Mas... também é bom, ao lado de uma boa companhia, num sofá confortável, com um bom copo ao lado, sabe bem!
— És muito tolo, estás a querer dizer alguma coisa? — Disse a Clarinha. Sabes Nádia, este menino é capaz de passar tardes a ver filmes, bem… às vezes não os vimos até ao fim…
— Sois muito malandros… Também, formam um par muito bonito e atenção, quero vir ao vosso casamento. — Ainda vais vir com teu namorado… Não digas, que com um palminho de rara dessas, não tens lá alguém à tua espera…
— Talvez, não digo que não. Mas mude-mos de assunto. Quanto ao cinema, onde é que a gente ia?
— Diz o meu pai que lá em Luanda, no célebre cinema ao ar livre “Miramar” era maravilhoso assistir a um filme de cerveja e cigarro na mão...
— É verdade, poucos cinemas cobertos há em Luanda. Num deles, no “Restauração”, minha avó Nini chegou a ver grandes espectáculos com cantores como: Nelson Ned, Percy Slide, Nilton César e tantos outros. Havia ainda o Teatro Avenida, onde ela trabalhou como arrumadora.
Depois de quase tudo visto e arrumado, desceram à sala onde eu fazia (que fazia) as palavras cruzadas.
— Então meninos gostaram do que viram?
— Parabéns avô. Tratasse de um belo espólio. Sempre que cá voltar quero dar mais uma “voltinha”.
— Sempre que quiseres, tens que tirar todo o tempo perdido… E tu Clarinha gostas-te?
— Muito Sr. Marcelo, esta parte da casa o seu neto nunca me tinha mostrado e há uns livros que quero muito ler.
— Podes levar e ler quando quiseres, os livros foram feitos para isso, seres desfolhados e lidos, nas estantes ficam tristes.
Fechei o jornal quando o Joel disse:
— Este cheirinho que vem da cozinha diz-me que está quase pronto o nosso almoço. Avó quer ajuda?
A Lara de avental e mangas arregaçadas surgiu à porta da cozinha:
— Vamos lá gente, hoje há “Frango com cerveja à minha moda”. O Almoço correu lindamente e ficou tudo combinado para domingo. A Lara leu o prospecto da Liga:
«A Caminhada Solidária com as Mulheres vítimas de Cancro da mama. Decorre no dia 16 de Junho, domingo, às 09h30, numa iniciativa promovida pelo Grupo de Voluntariado do Porto da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), visando sensibilizar as mulheres para a prevenção da doença através do exercício físico.
As actividades iniciam-se com o levantamento do kit da caminhada, com o custo de 5€ que reverterá em favor da Liga, seguido de aquecimento físico. A partida será junto à Casa da Música, e a chegada ao Castelo do Queijo, está prevista para as 13h00». A Nádia e a Clarinha levam um saco com roupa e deixam no carro do Joel, para depois tomarem banho cá em casa e mudarem de roupa antes do almoço.
— A vossa avó pensa em tudo! Organização é o que é…
MAIANGA "NOVELA" 8
8º CAPITULO
Quando
chegou a domingo, lá estávamos todos, elas de calças de treino e camisolas
cor-de-rosa estampadas com o logo da LPCC. Eu e o Joel, ficamos no apoio
logístico, sentados na esplanada do “Orfeu” a fazer horas. Afinal, tínhamos
resolvido almoçar fora e o “Flor do Ave” esperava por nós para um leitãozinho à
moda da Bairrada.
Depois
da caminhada, chegamos a casa para os banhos. Como há dois banheiros em casa, a
Clarinha ocupou um e a Nádia outro. A Lara foi levar toalhas às duas, mas
quando entregou à Nádia, fez uma descoberta tão importante mas que resolveu
deixar para à noite me contar.
Saímos,
já eram 14 horas rumo à Trofa para almoçar o famoso Leitão à Bairrada. A Nádia
nunca tinha provado e adorou. De tarde, aproveitamos para dar um passeio por
Vila do Conde e Póvoa. Ao fim da tarde, eram 19 horas, regressamos a Ermesinde,
mas não fomos para casa, confesso que andava desejoso de mostrar à Nádia e
mesmo à Clarinha, um bom momento de fado. Fomos ao restaurante Regional que aos
domingos, há hora de jantar, havia fado. O Manuel Barbosa recebeu-nos
entusiasticamente, pois ultimamente tem sido rara a nossa presença.
A
Nádia ficou encantada com o acolhimento dos presentes á minha pessoa, e mais
ainda, quando muitos cantaram fados de minha autoria.
—
Ó Avô não o fazia tão famoso nestas andanças. Parece mesmo que vou ficar fã
desta melodiosa canção, poemas bonitos e profundos, mas a guitarra… Adorei
ouvir.
—
Sabes Nádia, o fado é genuinamente português, tanto que foi consagrado como
Património da Humanidade em 2011. Agora está globalizado, ultrapassou as
fronteiras e já ganhou mesmo prémios na World Music. Havia em Luanda algumas
casas de fado como o “Muxima”, o “Támar” e outras, que calculo já não devem
existir.
Agora,
há uma coisa que deves saber. O Fado aprendesse a ouvir nestas casas, não pelos
CD’s… Aqui, todo o ambiente a “ele” inerente, desde a vela sobre na mesa, os
petiscos, o vinho e até as toalhas aos quadradinhos, fazem parte juntamente com
o silêncio, o xaile das cantadeiras e o sentimento que se põe tanto a cantar,
como a ouvir o fadista de olhos fechados, que dá tudo de si á alma do fado, com
os requebros que faz na garganta, com seu modo de sentir o que diz o poema. Tudo
isto é o ritual do fado. Por isso o fado nunca é igual duas vezes, tão
diferente do CD que capta aquele momento “só” e não ouves mais o seu estilo
diferente como muitas das vezes acontece.
—
Muito bem Sr. Marcelo — Disse a Clarinha — Se tivesse tido esta explicação
antes, teria gostado muito mais do fado. Joel, tens que me trazer mais vezes,
adorei tudo isto.
Fadistas presentes como o Zé Ferreira, Rosita e Nelson Duarte vieram-nos cumprimentar. Apresentei-lhes a minha (nova) neta, mas creio que não compreenderam muito bem o que se passava, paciência…
A
noite foi muito agradável, o Joel e a Clarinha foram levar a Nádia a casa,
depois de nos deixar a nós. Como a Lara estava ansiosa por me contar a sua
descoberta, foi directa ao assunto:
—
Sabes aquela mancha, a flor que tenho nas costas?
—
Sim. Que tem? Já tens isso de nascença.
—
De nascença, dizes bem! Agora repara, como pode a Nádia ter uma igual e no
mesmo sítio que eu tenho? Se ela não me pertence… O Dário e o Joel têm, mas isso
compreende-se…
—
De facto é curioso… Podia a minha filha, a mãe dela ter… Mas… Não sou eu que
tenho! Está aqui um caso interessante para o nosso amigo Dr. Cardoso, nos
explicar. Amanhã ligo-lhe para marcar uma conversa com ele. Agora vamos dormir.
O
Dr. Cardoso, amigo de muitos anos, esclareceu-nos sobre a famosa mancha que
minha mulher tem nas costas e que nosso filho e neto também possuem.
Segundo
ele, as marcas de nascença são comuns em recém-nascidos, e podem ir
desaparecendo com o tempo ou permanecer pela vida toda. A maioria das marcas de
nascença classifica-se como vascular ou pigmentar. As manchas vasculares são
causadas pelo acúmulo de vasos sanguíneos sob a superfície da pele. Variam de
cor-de-rosa e salmão a vermelho e arroxeado, dependendo da profundidade dos
vasos. As manchas pigmentares (como é o caso) normalmente castanhas claras,
cinzas, azuladas ou pretas, são resultado do desenvolvimento anormal de células
da pigmentação. Claro que podem ser, e na maioria dos casos são, hereditárias.
Agora, também pode haver coincidências, mas mancha igual e no mesmo local… essa
pessoa tem que ser familiar da Lara.
Para
os italianos, marcas de nascença são conhecidos como “vogile”, o que significa
desejos. É por isso que a maioria das histórias sobre as manchas, estão
associados aos desejos insatisfeitos da mãe durante a gravidez. Não sei se a
mãe da Lara tinha, mas pode já vir daí.
Contamos
então ao Cardoso, que este caso tinha a ver com o aparecimento da nossa nova
neta. Intrigado com o assunto, teve um raciocínio imediato com uma pergunta:
—
O vosso filho esteve em Angola na mesma data?
O
Chão rui-me debaixo dos pés. Em Setembro de 1992 e a Nádia nasceu em 13 Maio de
1993. Meu Deus! Mais uma vez o destino a pregar-nos partidas… A ser verdade…
Não… Não pode ser…
—
Cardoso á maneira de… através do ADN saber a certeza com 100% certo? É fiável
99%, basta trazeres por exemplo: a escova de dentes, ou cabelo (com raiz) dos
dois, em alguns dias dou-te o resultado, para teres mesmo a certeza.
Saímos
arrasados da casa do Cardoso. A Lara dizia:
—
Mesmo a ser verdade, não podemos culpar ninguém. Se fosse a haver culpados,
eras tu o único.
—
Tens razão Lara… Mas entre tantas mulheres, ele vai encontrar a própria irmã? É
quase impossível de acreditar… É um incesto inconsciente, nem um nem outro
sabiam…
quarta-feira, 7 de outubro de 2020
MAIANGA "NOVELA" 9
9º CAPITULO
Sobre o incesto na Religião:
«Por razões que não entendo ainda, depois da experiência falhada no Jardim do Éden, Deus resolveu fazer uma nova experiência: observar o desenvolvimento e crescimento da população humana. Para isso deu uma ordem muito simples: Crescei e multiplicai-vos. Passadas algumas multiplicações, Deus observou que mandar as pessoas cruzarem-se ao acaso não era assim tão boa ideia, pois começaram a aparecer descendentes com distúrbios genéticos: albinismo, anemia falciforme, fibrose cística, etc. E Ele notou que esses distúrbios ocorriam principalmente em descendes de cruzamentos consanguíneos».
Sobre a lei do Incesto em Portugal:
«É o último tabu, mas a legislação portuguesa é omissa quanto à prática do incesto entre adultos e com consentimento mútuo. Em Portugal, a lei nada diz sobre relações incestuosas havidas entre adultos e com consentimento de ambos. Significa isto que, excluindo naturalmente os casos de abuso, o incesto não é crime. “Vigora a ideia de que nenhum comportamento sexual entre adultos, em privado e com consentimento de ambos, pode ser tido como crime. Talvez se tenha entendido que a censura social e moral são suficientes para travar esse comportamento”, admite Eliana Gersão, especialista em Direito da Família”. Em termos legais, Portugal não só não penaliza o incesto consentido entre pessoas adultas, como permite que uma criança nascida dessa relação seja registada em nome de ambos os pais, mesmo que o pai seja também avô ou tio da criança. Mas o facto de o Estado optar por se manter à margem no que se passa sem violência no reduto privado de cada um não quer dizer que os casos de incesto possam ser oficializados perante a lei. O Código Civil português estabelece como impedimento dirimente – ou seja, que não pode ser afastado – o casamento entre parentes em linha recta (pais e filhos, avós e netos…) e em segundo grau da linha colateral (irmãos). Mas no caso de tios e sobrinhos, e demais casos de parentesco de terceiro grau na linha colateral, já não é bem assim».
Sobre o risco de doenças:
«”As crianças nascidas de casais consanguíneos têm um risco real acrescido de desenvolver doenças”, explica o geneticista Jorge Sequeiros, investigador no Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto. “Nos casais sem laços de consanguinidade e sem nenhuma doença recessiva na família, o risco de terem um filho com doença genética ou malformação congénita ronda os 2 ou 3%. No caso dos primos direitos, que partilham um oitavo da sua herança genética, esse risco aumenta para os 4%.”. E no caso de uma criança gerada por irmãos ou por um pai e uma filha? “A probabilidade aumenta para o dobro em comparação com os primos direitos, porque partilham metade dos seus genes”, responde o especialista.
“A probabilidade de se encontrarem indivíduos com um progenitor em comum é muitíssimo pequena, altamente improvável mesmo”, o que não quer dizer que não possa acontecer».
«A Juventude Liberal sueca em Estocolmo aprovou, no seu congresso anual, uma moção controversa onde consideram que as relações amorosas consensuais entre irmãos com mais de 15 anos são um direito inerente a cada um. O jornal The Independent relata que as declarações já foram criticadas por antigos líderes do Partido Liberal Sueco. Não é a primeira vez que a questão é debatida na Europa. Em 2014, cita o jornal britânico, o Conselho Alemão de Ética apelou ao fim da criminalização do incesto». Um dos exemplos, vem do estado de Alabama nos EUA, onde os casamentos incestuosos são permitidos.
Penso muito por exemplo. Nas relações sexuais que se têm no passado, que se esquecem ou desconhecem que alguém nasceu. Será que por exemplo: Alguns frequentadores de prostitutas pensaram alguma vez, que uma dessas mulheres podia ser sua filha, ou mãe? Quantas mulheres vão para a cama com homens, sem saberem que são irmãos ou pais? No caso do incesto é igual. Quantos existirão por desconhecimento? E quando descoberto? Que fazer se for irremediavelmente tarde? Quantos não haverão por aí, abafados por conveniência, guardados em segredos de família. Depois ainda existe o célebre problema das trocas de bebés nas maternidades. O abandono dos filhos, as adoções, raptos, redes de prostituição, etc. Quantos patrões despedem um filho sem saberem? Quantos juízes condenam uma filha sem saberem? Quantos médicos salvam um pai sem saberem? Quantos advogados defendem uma mãe em tribunal? (estou a recordar-me do celebre filme “Madame x”... Quem pode jurar que não?
Depois de todas estas incoerências, não cheguei á conclusão exacta do medo que me toldava o espírito. O destino às vezes é muito cruel. Será a Nádia fruto de uma relação incestuosa inconsciente. Mas ela parece saudável, Mas como posso ter a certeza? Mesmo que seja verdade, foram apenas vítimas do acaso ao conhecerem-se numa dessas esquinas do tempo que a vida tem. Vamos esperar pelo resultado do ADN.
MAIANGA "NOVELA" 10
— Comprei um copo e uma escova de dentes para teres cá sempre que precisares.
— Obrigado avó, de facto faz-me falta, vou já estreá-la…
Depois foi só juntar a escova de dentes do Dário que ainda tinha lá em casa, do tempo em lá viveu.
Resolvemos não dizer nada a ninguém, sem termos a absoluta certeza do que aconteceu. Aproveitei no entanto, para falar com o Dário sobre Angola (assim como não quer a coisa) e chegar ao ponto de lhe perguntar se teve alguma relação durante a sua estada. Contou-me que conheceu alguém numa exposição de pintura em Luanda. Foi uma relação passageira, embora ainda andassem durante o período em que esteve em Luanda. Ela era muito bonita, chamava-se Dália. Foi com um baque que ouvi aquele nome e meu coração em arritmia, quase me saltou do peito. Mas…Consegui disfarçar. Agora tinha a certeza, nem o ADN já poderia mentir. Não contei as minhas suspeitas à Lara para não a afligir.
Estacionamos nos Poveiros e fomos a pé até às Fontainhas onde comemos “farturas”. Vimos o fogo debruçados no muro da alameda. Descemos a Rampa da Corticeira até à Ribeira e subimos a rua de S. João e Mouzinho de Albuquerque. Sempre de mãos dadas para que ninguém se perdesse no meio daquele mar de gente, onde as “marteladas” sucessivas eram constantes. A Nádia estava extasiada, nunca tinha visto nada igual. Nos três últimos anos, tinha conhecido a festa pelo braço da dona Constança, apenas no jardim da Rotunda na Boavista e sempre se deitava cedo, nunca tinha vivido o S. João tão intensamente. Chegamos à Praça da Liberdade onde havia bailarico, já de madrugada com orvalhadas que refrescavam o manjerico. Subimos Passos Manuel, metemos a Santa Catarina e fomos comer uma sardinha e um caldo-verde, no átrio nas traseiras da igreja de Santo Ildefonso. ´
Andávamos devagar, pois a minha idade e da Lara, já não estava para correrias…
Já sentados com o caldo-verde a fumegar nas tigelas, contei à Nádia como eram as Rusgas, que iriam desfilar nas ruas daí a uma semana. Era pena não poder assistir. Foi uma noite memorável e cheia de alegria, não fosse a trágica notícia que a Nádia recebeu por email do padrasto, que sua mãe tinha dado entrada no hospital de S. Paulo em Luanda, com um edema pulmonar.
A Nádia tinha que partir mais cedo que o dia programado. Assim, no dia 26, despedimo-nos da Nádia no aeroporto Sá Carneiro, num voo directo a Luanda com escala em Lisboa e… infelizmente, nunca mais a voltamos a ver.
— Que vamos fazer Marcelo? Afinal ela também é minha neta, filha do nosso filho e irmã do Joel. Tenho pena do Dário, mas tenho a certeza que não sabia que a Dália era sua irmã. Foi o destino que lhe pregou uma partida… A vida tem destas coisas.
— Para já não vamos dizer nada a nenhum deles. Vamos esperar pelo que possa acontecer e este segredo para já, fica guardado connosco.
A Constança foi para o Canadá viver com o filho.
Nunca mais vimos a Nádia, embora nos mandasse fotos do seu casamento e emails com frequência, até ao dia em vi a notícia da queda do avião em que viajava.
Sobre a notícia que vi na televisão, li no JN do dia seguinte, mais em detalhe e houve mesmo uma frase que me deixou mais consternado:
«…a subsecretária das finanças Nádia Santos estava grávida de 2 meses e meio, deixa marido e uma carreira curta mas que se adivinhava de grande êxito, olhando à obra deixada no ministério das finanças do país...
E foi assim que aconteceu, uma história que começou à muitos anos atrás em Luanda, no bairro da MAIANGA.











