CHÁVENA COM HISTÓRIA
CAPÍTULO 8
GUIMARÃES
Chegou o ano de 1939 e a Noémia regressou a casa com o curso do
Liceu e 18 anos feitos. Cecília, quase com 39, tinha casado com o Dr. Orlando o
velho amigo e antigo advogado da família, que muito a tinha ajudado na
liquidação da massa falida da fábrica e de toda a burocracia inerente à
quitação. Ficou a viver lá em casa no quarto que era do falecido pai, não
queria abandonar a mana mais nova. Nesse mesmo ano, enterraram a velhinha
Joaquina com 73 anos, cheios de trabalho e canseira.
Leonor todos os anos passava as férias em S. Tiago, com o marido e
os três filhos que agora tinha. A vida no campo corria na paz dos anjos, até
que em Maio desse ano, surgem nos jornais as notícias do flagelo da Guerra na
Europa, que se espalhou pelo mundo e provocou em Portugal enormes efeitos ao
nível económico, social e político.
“Salazar
no dia 1 de Setembro, declara a sua neutralidade no conflito e até 1940, o país
mal sentiu os efeitos da guerra, mas a partir de 1941, começa a disputa do
volfrâmio entre as potências beligerantes. A partir de 8 de Outubro de 1943,
Portugal cedeu a base das Lages nos Açores aos EUA, mas continuou com a sua
politica de neutralidade. Devido ao desequilíbrio dos sistemas de produção da
maioria dos países europeus, Portugal ficou privado de importações e isto
causou um aumento na produção nacional, mas também trouxe consigo o
racionamento dos bens de primeira necessidade (arroz, açúcar, massa, etc.), o
que fez disparar a inflação. Cada família, em função das pessoas que
constituíam o agregado familiar, recebia mensalmente, senhas com que podiam
fazer compras nas lojas tradicionais. Só havia direito a dois pães por dia por
pessoa, formavam-se grandes filas às portas das padarias. As senhas eram
vendidas a um preço imposto pelo Governo, mas o que é verdade, é que os
produtos acabavam sempre por aparecer no mercado negro. A fome grassava nas
ruas das cidades”.
PORTO
Foi neste cenário de grande privação, e depois de ter estado 11
anos no Refugio de Paralisia Infantil, que Maciel (agora com 16 anos) regressou
a casa a andar de muletas. Não era o ideal, mas para quem por destino tinha
andado de rastos, era uma boa maneira de enfrentar o mundo com alguma
esperança. Tinha estudado até ao segundo, ano no colégio Brotéro na Foz, passou
muito tempo na biblioteca do colégio, leu muito e com a inteligência que tinha,
bem acima da média e com o seu dom para trabalhos manuais e desenho, não sentia
medo de enfrentar a adversidade que o esperava. Não queria ser um peso para a
mãe, apesar da sua condição. Sentia-se muitas vezes rejeitado pelas palavras
cruas da mãe, quando desanimada da vida ficava de mau humor, mas ele nunca
esmoreceu, com a simpatia pessoal, a educação e a fluência no trato adquirida
no colégio, tratou de mostrar o que valia. Arranjou maneira de fazer
encadernações em casa, com arte e gosto burilava as lombadas com desenhos a
ouro. Depois, ainda dobrava até altas horas da noite, resmas folhas de papel
para livros encomendados às tipografias. Ainda escrevia cartas e preenchia
documentos quando os vizinhos lhe pediam, porque o analfabetismo, nessa altura,
era de 55% no país. Começou a granjear simpatia e amigos, que já o viam como um
igual sem reparem que era “aleijado”, aliás, palavra que sempre detestou pela
vida fora. Em 1941, com 18 anos e a ajuda do Sr. Correia (um bom vizinho) como
avalista, fez o pedido à Santa Casa de Misericórdia e obteve a chapa com número
de licença para vender lotaria nas ruas do Porto e tornou-se cauteleiro. Não
gostava, sentia até um grande constrangimento, mas todos os dias pela manhã, de
fato de cotim e boné, com as cautelas presas por uma mola ao peito, lá ia
ligeiro nas suas muletas de madeira e almofadadas por ele, apregoando a sorte
grande. Era filho dum famoso industrial de Guimarães sem saber, era a sorte grande
apregoada na rua, por um rejeitado da vida e sem sorte.
A Clarinha padeira, como era conhecida lá na rua, era amiga de
todos, depressa se tornou considerada pela vizinhança. A carência com que se
vivia naquele bairro operário da cidade, fazia crescer a solidariedade entre
todos os que povoavam as chamadas “ilhas”, que eram colmeias de gente pobre. A
casa de Clara resumia-se a uma sala, onde tinha o guarda-fato, a cómoda, uma
mesa com dois bancos corridos, um lavatório em louça com um jarro e um divã onde
dormia. No pequeno quarto onde dormia o Maciel, só cabia a cama e uma mesinha
com o candeeiro de petróleo. Aos pés, uma cortina de chita num arame, escondia
uma arca e algumas roupas. Não tinha porta, apenas um cortinado. A cozinha era
muito pequena, mas tinha um fogão a carvão, uma mesa pequena e um louceiro na
parede para os pratos e tigelas, com as prateleiras forradas de papel recortado
como renda, como se usava para ornamentar as cozinhas. Entre o louceiro e a
entrada, uma pequena mísula servia de suporte ao candeeiro de petróleo e num
canto, um banco com o caneco de madeira com tampa, era o depósito da água que
se trazia do fontanário do largo, por cima e pendurado num prego, estava o
púcaro de esmalte por onde se bebia. Por baixo da mesa, uma tina esmaltada para
os dias de banho. Na parede da sala, dois caixilhos com as imagens de Santo
António e do Sagrado Coração de Maria. Só muito tempo depois, a Clara comprou
ao Sr. Amaral adeleiro em Mártires da Liberdade (a pagar aos poucos), um móvel
louceiro de portas, com duas gavetas para os talheres e toalhas, tendo por cima
duas portas de vidro com prateleiras e ganchos para as canecas do café. Foi ali
que Clara pendurou a chávena que dizia, ser a única prenda que o pai de Maciel
lhe deixara.
“A
guerra tinha terminado em 1945, deixando atrás de si, mais 50 milhões de
mortos. Com o final da guerra, o governo fascista de Salazar decretou luto
oficial de três dias pela morte de Hitler e encomendou mais uma manifestação
“espontânea” no Terreiro do Paço, para o povo lhe manifestar agradecimento por
não ter entrado na guerra, apesar dos festejos por todo o país e principalmente
no Porto, serem de júbilo pela vitória dos Aliados. O ditador iniciou então uma
série de reformas políticas de fachada após a derrota das ditaduras, para se
manter no poder”.
AMARARANTE
Nesse ano em Amarante, morreu de tuberculose a Isabel com 41 anos.
Não deixou filhos “porque Deus não quis”, diziam os vizinhos. Clara soube pela
prima de Paranhos, um mês depois. Nunca mais tinha voltado a ver a filha, desde
1932.
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