UMA NOTA DE QUINHENTOS
AOS AMIGOS DOS VELHOS TEMPOS
No final da década de cinquenta, o casal de
actores; Igrejas Caeiro e a Irene Velez, cantavam no genérico do popular
programa radiofónico: “Companheiros da Alegria”,
uma frase que ficou sobejamente conhecida:
...Uma
nota de quinhentos não se pode deitar fora...
Hoje como não há notas dessas, seriam
dois euros e cinquenta cêntimos, (que não dava nada jeito para cantar...)
Assim, vou falar ainda, em saudosos escudos.
É verdade que ainda (passados que são
mais de cinquenta anos), não se pode desprezar tal quantia, mas... naquele
tempo muito menos. É que um operário de primeira categoria, ganhava por dia:
doze escudos e cinquenta centavos, ou seja, como se dizia na época: Doze mil e quinhentos, jeito que ficou do tempo dos “Mil Reis”. Que dava ao fim de uma semana de 48
horas de trabalho (só depois é que veio a semana inglesa), setenta e cinco
escudos, o que ao fim do mês somava aproximadamente trezentos escudos (um euro
e cinquenta nos tempos actuais).
Hoje quem não ganhar quinhentas vezes
isso (no mínimo), não consegue levar a vida de bom grado. Imagine-se como vivem
aqueles que apenas ganham um salário mínimo de (vinte e cinco notas de
quinhentos...) Mas ainda piores, estão aqueles que trabalharam uma vida
inteira, descontando dos seus salários para terem uma velhice um pouco menos
triste, e vão sobrevivendo com a miséria de cento e cinquenta euros, ou seja:
sessenta dessas notas de quinhentos escudos.
Só à mais de 75 anos, em 1925, as notas
de quinhentos escudos eram muitas, tantas que o homem que as mandou fazer foi
preso por burla. Alves dos Reis com 29 anos, casado e
pai de três filhos, foi os protagonistas duma das maiores burlas deste país,
mandando emitir 200 mil notas com a efígie de Vasco da Gama, iguais às do Banco
de Portugal que também as mandava fazer à mesma firma inglesa, a londrina
“Waterlow and Sons”. Socorrendo-se dos seus conhecimentos
sobre o funcionamento do banco, forjou dois contratos e várias cartas com
assinaturas e respectivos reconhecimentos notariais falsos. Estas notas eram duplicações de outras,
autênticas emitidas pelo banco de Portugal e para as transportar, socorreu-se
das conhecidas “valises diplomatiques”, malas que não são abertas na alfândega,
ao abrigo da imunidade diplomática. Para fazer circular as notas, criou um
banco, o Angola e Metrópole, entre cujas firmas subscritas algumas são fictícias.
A 23 de Novembro de 1925, são descobertas quatro duplicações, fazem-se diversas
prisões até que Alves dos Reis é preso, assumindo todas as culpas. Cumpriu 20
anos de prisão. Morreu de enfarte em 1955 aos 58 anos É hoje recordado como um
falsário brilhante, a quem não se pode deixar de atribuir uma grande
inteligência.
Por aqui se vê, a
importância que sempre tiveram as notas de quinhentos. Já pensaram o que se pode comprar hoje
com uma nota destas? Apenas um maço de cigarros! Reparem agora nesta diferença:
Um ingresso para uma sessão de cinema
no Carlos Alberto; o “Condor” revista de BD onde vinham as aventuras do “Zorro”
e “Red Rider”; Uma limonada “pirolito” (bebida gasificada com bolinha de
vidro); Uma caixa de fósforos e três cigarros “Português Suave” (que se vendiam
avulso na tabacaria do Melo); Uma broa de mel comprada na confeitaria do
“Campo“ (na praça da república), e ainda cinco tostões de “Raleio” (restos de
bolos e pasteis embrulhados num papel); um bilhete de seis tostões no carro
eléctrico, (para cima, pois para baixo ia-se a pé); Ainda sobrava vinte e cinco
tostões para no dia seguinte, domingo, por volta das três da tarde, ir beber um
copo de leite à confeitaria “Carioca” para ver a série “Bonanza” na recente
criada RTP. (é que na época, só os ricos tinham televisão!).
Mas tudo isto gasto com uma nota (não de
quinhentos), mas de vinte escudos, (aquela verde a quem chamava-mos “Alface”),
ou seja, a vigésima quinta parte de uma nota de quinhentos, que era uma fortuna
para um rapazinho que fazia nesse dia doze anos. O mesmo que dois anos depois, ia gastar
cinco escudos à “Cova da onça” na serra do Pilar. Depois dez escudos à Maria
sem dentes, nas ruínas das ilhas da rua do Paraíso. E com mais quatro anos,
vinte escudos à Madalena na rua do Bonjardim (no Bairro Alto do Porto).
Por essa altura já trabalhava há seis
anos e meu pai lá me dava a semanada que era de quarenta escudos (hoje vinte
cêntimos), mas tinha que dar para os cigarros durante a semana e sobrar para ir
no domingo ao cinema, à matiné do “Júlio Dinis” com a garina (calão da época para se dizer namorada), é que... no escuro,
tirava-se uns troços, fazia-se marmelada.
(palavras inventadas para dizer apalpadelas).
Lembro-me bem de numa ocasião dessas, ficar-mos atrapalhados quando a luz se
acendeu de repente para o intervalo, e ela ficou mais corada que uma romã. Claro que ainda se tinha que pôr de
parte numa caixinha algum, para juntar como juntei, para dar à que é hoje minha
mulher o “esmalte”, (como se usava na época), mas isso, já poucos se lembram o
que era.
Mas voltando à nota de quinhentos,
posso dizer que com quatro delas casei. Duas pedi emprestado; para pagar o
vestido azul-bebé e os sapatos que ela levou ao altar. A manta de renda foi
emprestada e o cabelo arranjado de graça. Os outros dois gastei numa camisa (a
gravata o Manuel Trigo ofereceu-me), nos sapatos, e nos papéis necessários para
o acto. O fato serviu o que tinha. A igreja o padrinho pagou, (sim, não fazem
de graça!). Quanto ao jantar (sim porque eu casei num sábado ás seis da tarde)
foi lá em casa e constou de frango assado no forno. Quanto á lua-de-mel, fomos á sede da
“Associação F. C. da Triana” onde nos conhecemos e dançávamos folclore. Faziam
baile nessa noite, festejamos com os amigos e depois viemos a pé para casa
(porque nesse tempo podia-se andar de noite), e deitamo-nos por volta da uma
hora da manhã, depois de termos subidos as escadas descalços, para não acordar
ninguém lá em casa. Sim porque nessa altura, ficava-se em casa dos pais até poder
pagar uma renda, (não havia crédito à habitação). Já era domingo, dezanove de
Março de 1967 e o meu filho estava quentinho no ventre da mãe, há mais de sete
meses já lá vão trinta e sete anos...
Era eu menino, já lá vão
muitos anos, encontrei uma dessas notas de quinhentos, estava dobrada em quatro
na berma do passeio das Cardosas. O facto de estar assim dobrada, demonstra que
quem a perdeu a trazia na mão ou guardada (não o suficiente) no bolso de onde
lhe deve ter caído. Hoje toda a gente traz as notas (ou não), numa carteira
daquelas com locais reservados aos cartões de crédito, para todos verem quando
se abre, é a era do dinheiro de plástico. Na época haviam os porta-moedas
meia-lua. Havia quem trouxesse o dinheiro no lenço com um nó a segurar, ou
então nas algibeiras atadas à cinta como as peixeiras, padeiras, leiteiras e
mulheres de outras profissões que já não existem.
Mas a tal nota que eu achei, andei com
ela escondida nas meias como de uma fortuna se tratasse, até pensar bem o que
ia fazer com ela, sem que ninguém pudesse desconfiar da sua procedência, pois
um garoto da minha condição, com dez anos de idade com tal quantia, naquele
tempo era de desconfiar...
A primeira coisa foi ir ao merceeiro
destrocá-la:
— Senhor Júlio o meu pai disse se podia
destrocar estes quinhentos escudos.
— Deixa cá ver, que vai já junta com estas
para pagar aqui ao meu fornecedor do vinho. Entregou-a junta num maço ao homem de
chapéu preto e de pasta de cabedal, dizendo:
— Ora aqui está o seu dinheiro, pode conferir
senhor Acácio, e passe-me o recibozinho.
A mim, entregou-me três notas de cem,
duas de cinquenta, quatro de vinte e ainda três moedas de cinco escudos e duas
de vinte e cinco tostões, seguido de um comentário que me fez compreender, que
não ia demorar muito para meus pais saberem do meu tesouro:
— Estou a ver que há dinheiro fresco! Diz à
tua mãezinha que não se esqueça da continha, que quero fechar o livro do mês
passado.
Comprei uma gravata cinzenta ás riscas
verdes, ao chinês que estava na esquina da Trindade, para dar ao meu pai de
prenda de anos, que me custou quinze escudos. Depois fui à papelaria Aviz e
comprei um livro da colecção aventura: “ Os Três Mosqueteiros” de Alexandre Dumas e gastei mais
vinte escudos. Guardei quinze para mim e dei à minha madrasta os quatrocentos e cinquentas escudos restantes, para ela pagar ao
merceeiro, contando-lhe o sucedido desde que encontrei a nota. Ficou radiante
pelo achado, depois de me fazer jurar que não tinha feito asneiras para
adquirir tal quantia.
Fui com ela liquidar a conta ao senhor
Júlio, onde me comprou um livrinho de colorir e uma caixinha de seis
lápis-de-cor. (porque as mercearias dantes tinham tudo). Trouxe ainda para
casa, duas postas de bacalhau de molhado uma de doze e outra de dezassete
tostões, (estava escrito a lápis azul no lombo) e embrulhadas em jornal; Meio
quartilho de azeite (tirado daquelas máquinas com manivela em cima do balcão,
que mais parece bombas de gasolina com mistura para motorizadas); Cinco quilos
de batatas e três de cebolas; Um cartucho pardo com um quarto de feijão
fradinho; Meio quilo de arroz agulha; Açúcar, sabão (amarelo e do azul),
pimenta, sal e cevada. Deixou ainda pago meio litro de vinho verde tinto, para
eu voltar à noite com uma garrafa buscar. Ainda sobrou dinheiro!
Meu Deus!... Quinhentos
escudos eram uma fortuna em 1958.... Ano em que o General Humberto Delgado,
concorreu ás eleições. Ano em que fiz a quarta classe, na escola n.º 61 em Faria Guimarães, (hoje é
uma confeitaria) e onde a servente (hoje auxiliar administrativa) a senhora
Maria Rosa distribuía a sopa e o pão, que a Legião portuguesa trazia. Onde o
professor Quaresma de barbas hirsutas e brancas, dava reguadas nas mãos de quem
não sabia a tabuada (não havia máquinas de calcular!...) e nos obrigava a
cantar aquela cantilena que ate hoje não esqueci:
Dois vezes
um, dois
Dois
vezes dois, quatro
Dois vezes
três, seis, etc.
Mas bonita, era aquela volta no ritmo quando
as sílabas aumentavam
Três vezes
oito, vinte e quatro
Também nos obrigavam a cantar o hino da mocidade rua fora: Cá vamos cantando e rindo... Quando
aos sábados de manhã, de calções remendados e alpercatas, fazíamos ginástica no
campo do F.C.P. na rua da Constituição.
Nesse ano, depois do exame da quarta
classe, fiz ainda a admissão ao liceu e nesse mesmo ano fiz também a comunhão
solene na igreja da Lapa. Claro que tirei fotos na Ramada Alta, de fato
cinzento, laço no braço cartilha e terço, como mandavam as regras. Minha avó
não deixava por menos, nem que se endividasse para isso. Meu irmão no ano a
seguir, dizia em casa que fazia no colégio (era tão rebelde que não andou na
escola do estado), e no colégio
dizia que fazia na Lapa, assim nesse ano não fez a comunhão para desgosto da
minha avó, mas com grande alegria dele, apesar do castigo...
Nesse ano de 1958 comecei a trabalhar
na oficina de brinquedos do meu pai, mergulhando peças de madeira em anilina de
várias cores, e riscando em folhas de cartão com moldes feitos para o efeito,
casinhas, igrejas, coretos e pontes para as cascatas de S. João.
Havia televisão há um ano, era tempo do
Gato Félix, Rim-Tim-Tim, Bonanza, Fúria e a Polícia na Estrada, os Corsários e
a Lassie, só depois veio o concurso A Dama ou O Tigre.
Ouvia-se então ás cinco da tarde no
rádio, a comovente radionovela ”A Paixão de Laura Quintela” patrocinada pelo
“Tide”, que na altura era tal que lavava mais branco. Aos domingos “A Voz dos Ridículos”, nos
emissores do Norte Reunidos. Os discos pedidos todos os dias na Ideal Rádio. E
aos sábados, o programa “Aqui Salgueiros”. A rádio era muito importante na época,
meu pai que tinha uma voz muito bonita, chegou a fazer rádio teatro com: Mena
Matos, Manuel Veludo, Castro Maia e Fernando Gonçalves, no Portuense Rádio
Clube ali na Av. Rodrigues de Freitas junto à rua Entreparedes. A minha mãe,
contava o meu pai, ficava com ciúmes quando a personagem que meu pai interpretava,
beijava a protagonista da história, não adiantava meu pai lhe explicar que era
tudo a fingir.
Depois veio nos anos sessenta, o
programa Festival no Vale formoso, de onde saíram grandes nomes do panorama
cançonetista, desde Marco Paulo até Paco Bandeira, passando Maria de Fátima (O
Passarinho da Festival), por Nelo Silva, Fátima Caldeira, Aurélio Perry, Nelson
Duarte, Rosita e muitos que ficaram pelo caminho. A locução era do Fernando
Gonçalves e da Natália Maria e o patrocínio recordo-me bem, era do “Café da
Sanzala”. Um grande senhor da rádio dos nossos dias, José Neves, declamava
poesia.
Havia também o comboio das seis e meia
no Coliseu. Nessa época, a publicidade na rádio era feita á base de trechos
publicitários e slogans musicados. Quem não recorda por exemplo:
Neto
Costa, Neto Costa
Espumante
sem igual
Neto
Costa, Neto Costa
O melhor
de Portugal...
Ou então:
Pinta,
pinta com a tinta Robialac
É a tinta
que mais pinta que mais dura
Quem não
pinta com a tinta Robialac
Pinta,
pinta p’ra borrar sempre a pintura...
Ou ainda:
Fercou,
Fercou. Fercou
Basta dar uma demão
A tinta faz um vistão
E você pouco gastou...
Sem esquecer aquele:
O Boca doce é bom, é bom é
Diz
o avô e diz o bebé, é é é....
E claro:
Uma
nota de quinhentos, não se pode deitar fora!
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