O ANJO VERMELHO
SEXTO
Tomé
Ferrão ligou-lhe a marcar um encontro no Solar do Vinho do Porto pelo fim da
tarde. Queria-lhe falar sobre Maciel. Helga lá estava à hora marcada:
—
Que bonito lugar para um encontro.
—
Além de bonito é muito discreto, o lugar ideal para as perguntas que gostava de
lhe fazer sobre Osmar Wilson, depois, não queria expô-la num lugar muito
público, aqui apenas este pôr-do-sol lindíssimo e o empregado (que por acaso
vem ai), nos vê.
Pediu
dois portos, Burmester 10 anos branco e prosseguiu:
—
Então que me quer o grande editor?
—
Helga, durante as suas recentes arrumações, não encontrou textos (até
incompletos) de poesia ou prosa susceptíveis de serem reunidos para uma
publicação póstuma?
—
Não lhe posso dizer ainda, estou a proceder a uma limpeza do computador, pois
como deve calcular, não gostava que aquele disco duro viesse a ser devassado.
Mas fique certo, que se vir algo que possa ter interesse em ser publicado, será
obviamente o primeiro a saber.
—
Agradeço-lhe a atenção, como muito bem sabe, éramos amigos e a minha intenção
principal é o engrandecimento da obra de Omar Wilson. Estou neste momento a
pensar na publicação para o final do ano, numa antologia das suas poesias, mas
não queria ser extemporâneo, gostava mais de ver nas livrarias uma edição
(embora póstuma), de poesias do autor.
—
Com certeza meu caro, não tenho dúvidas das suas intenções, sei que eram amigos
e confidentes, por tal o Tomé continuará a ter em mim uma amiga, aliás, como
sempre fomos.
—
Muito obrigado pela confiança que em mim deposita.
—
Bom, o vinho acabou e estou atrasada para a última aula. Vou andando e logo que
tenha resposta à sua pergunta, contacto-o. E... parabéns pelo lugar que
escolheu para este encontro.
De
facto o Porto tem lugares lindíssimos que poucos conhecem. Este Solar do Vinho
do Porto, nas traseiras dos jardins do Palácio de Cristal e junto á Quinta da
Macieirinha é maravilhoso... para quem gosta de admirar um lindo pôr-do-sol no
Douro, acompanhado de um cálice de vinho do Porto e claro, uma boa
companhia.
No
dia seguinte, Helga regressou ao apartamento para continuar no computador. Mas
antes, pensando na conversa que teve no dia anterior, procurou pelas gavetas da
escrivaninha o arquivo de disquetes onde Maciel guardava todo o seu trabalho.
Sabia que ele fazia cópias de segurança e queria guardá-las convenientemente.
Talvez as depositasse no banco.
Depois
de encontrar o arquivo que procurava, que aliás, estava bem organizado e
devidamente rotulado, com título, datas de edições, etc., foi passando uma a
uma para um suporte mais convencional, o CD. Verificou que além dos sete livros
publicados, dois romances e cinco de poesia, havia mais um de poesia: “Anjos e
Deuses”.
Helga
conhecia tudo que Maciel escreveu, era sempre a sua primeira leitora, mas este
título não o conhecia… Leu o primeiro poema:
Deuses
Hermes, que és mensageiro dos Deuses, diz-me
Quem é esta mulher / Que meu
coração tanto quer
Mas que nunca me procura
Decerto não me quer
Mas por ela ando a viver / Uma
perfeita loucura
Lete, rio mítico onde as sombras bebiam, diz-me
Que olhos são estes, que olhos
Neles há doçura aos molhos / E
a ternura que me diz
Que é por eles que eu vivo
E que na vida persigo / O
sonho de ser feliz
Nabu, escriba dos Deuses com teu saber, diz-me
Que boca é esta, que boca
Que sempre me provoca /
Incontroláveis desejos
Que boca é esta, que boca / Que
põe minh’alma louca
Com o sabor dos seus beijos.
Deixou-o
para mais tarde ler com atenção. Guardou as disquetes e os CD’s que gravou num
envelope, ia passar pelo banco para os depositar em segurança.
Voltaria
no dia seguinte.
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