terça-feira, 20 de outubro de 2020

O ANJO VERMELHO

 





SEXTO




 
Tomé Ferrão ligou-lhe a marcar um encontro no Solar do Vinho do Porto pelo fim da tarde. Queria-lhe falar sobre Maciel. Helga lá estava à hora marcada:
— Que bonito lugar para um encontro.
— Além de bonito é muito discreto, o lugar ideal para as perguntas que gostava de lhe fazer sobre Osmar Wilson, depois, não queria expô-la num lugar muito público, aqui apenas este pôr-do-sol lindíssimo e o empregado (que por acaso vem ai), nos vê.  
Pediu dois portos, Burmester 10 anos branco e prosseguiu:     
— Então que me quer o grande editor?
— Helga, durante as suas recentes arrumações, não encontrou textos (até incompletos) de poesia ou prosa susceptíveis de serem reunidos para uma publicação póstuma?
— Não lhe posso dizer ainda, estou a proceder a uma limpeza do computador, pois como deve calcular, não gostava que aquele disco duro viesse a ser devassado. Mas fique certo, que se vir algo que possa ter interesse em ser publicado, será obviamente o primeiro a saber.
— Agradeço-lhe a atenção, como muito bem sabe, éramos amigos e a minha intenção principal é o engrandecimento da obra de Omar Wilson. Estou neste momento a pensar na publicação para o final do ano, numa antologia das suas poesias, mas não queria ser extemporâneo, gostava mais de ver nas livrarias uma edição (embora póstuma), de poesias do autor. 
— Com certeza meu caro, não tenho dúvidas das suas intenções, sei que eram amigos e confidentes, por tal o Tomé continuará a ter em mim uma amiga, aliás, como sempre fomos.
— Muito obrigado pela confiança que em mim deposita.
— Bom, o vinho acabou e estou atrasada para a última aula. Vou andando e logo que tenha resposta à sua pergunta, contacto-o. E... parabéns pelo lugar que escolheu para este encontro.
De facto o Porto tem lugares lindíssimos que poucos conhecem. Este Solar do Vinho do Porto, nas traseiras dos jardins do Palácio de Cristal e junto á Quinta da Macieirinha é maravilhoso... para quem gosta de admirar um lindo pôr-do-sol no Douro, acompanhado de um cálice de vinho do Porto e claro, uma boa companhia. 
No dia seguinte, Helga regressou ao apartamento para continuar no computador. Mas antes, pensando na conversa que teve no dia anterior, procurou pelas gavetas da escrivaninha o arquivo de disquetes onde Maciel guardava todo o seu trabalho. Sabia que ele fazia cópias de segurança e queria guardá-las convenientemente. Talvez as depositasse no banco.
Depois de encontrar o arquivo que procurava, que aliás, estava bem organizado e devidamente rotulado, com título, datas de edições, etc., foi passando uma a uma para um suporte mais convencional, o CD. Verificou que além dos sete livros publicados, dois romances e cinco de poesia, havia mais um de poesia: “Anjos e Deuses”.
Helga conhecia tudo que Maciel escreveu, era sempre a sua primeira leitora, mas este título não o conhecia… Leu o primeiro poema:

Deuses
    Hermes, que és mensageiro dos Deuses, diz-me
    Quem é esta mulher / Que meu coração tanto quer
    Mas que nunca me procura
    Decerto não me quer
    Mas por ela ando a viver / Uma perfeita loucura
    Lete, rio mítico onde as sombras bebiam, diz-me
    Que olhos são estes, que olhos
    Neles há doçura aos molhos / E a ternura que me diz
    Que é por eles que eu vivo
    E que na vida persigo / O sonho de ser feliz
    Nabu, escriba dos Deuses com teu saber, diz-me
    Que boca é esta, que boca
    Que sempre me provoca / Incontroláveis desejos
    Que boca é esta, que boca / Que põe minh’alma louca
    Com o sabor dos seus beijos.


Deixou-o para mais tarde ler com atenção. Guardou as disquetes e os CD’s que gravou num envelope, ia passar pelo banco para os depositar em segurança.
Voltaria no dia seguinte.

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