O ANJO VERMELHO
ANTES DO QUATRO
Logo
a seguir ao Maio de 74, Maciel arranjou um quinto andar numa rua muito
sossegada, com a intenção de nos podermos encontrar sem qualquer sobressalto.
Lentamente
foi levando as suas coisas mais precisas, até que depois de entregar ao
senhorio a casa onde vivi a minha adolescência, passou a viver definitivamente
nesse apartamento que comprara em meu nome na rua das Vertigens, no Porto.
Ainda
leccionou mais um ano, mas ao fazer quarenta e três, como tinha mais de vinte
como professor universitário, pediu uma licença sem vencimento durante dois
anos, com o intuito de aos quarenta e cinco anos se afastar de vez. Queria
viver a sua vida fazendo o que mais gostava. Foi por essa altura, Julho de
1975, que comecei a visitá-lo com mais assiduidade, assumindo a minha condição
de sua amante. O caso de pensarem no prédio que era meu pai, ajudou de
sobremaneira para que as minhas visitas fossem levadas para o caso de uma filha
extremosa que cuida de seu pai.
Inventava
saídas em serviço e passava tardes em sua companhia no maior deleite, apagando
o fogo da paixão que nos devorava com enorme volúpia e luxúria. Tinha sempre os
tempos e os modos controlados, para que Dário e mesmo meu filho, não
desconfiassem da vida dupla que levava. Sentia-me uma “Lolita” de vinte e três
anos, mantendo uma relação quase incestuosa com o viúvo de minha mãe. Não podia
parar, amava-o como nunca tinha amado na vida e ela (a vida), era demasiado
curta para pensar em desistir. Maciel vivia feliz e amava-me loucamente,
aceitando a minha condição de amante e cumprindo todas as minhas exigências de
privacidade. Não me telefonava, não me escrevia, não me chamava, sabia que
sempre que eu pudesse lá estava para amá-lo e servi-lo como sua escrava.
Durante
estes tempos de felicidade, Maciel escreveu sete livros, sempre como Omar
Wilson. Era já grande a sua obra e Tomé Ferrão, seu editor e nosso amigo
pessoal, tinha a discrição suficiente para ser o manto que encobria o nosso
segredo. O Porteiro Pascoal, via subir o barbeiro ou o médico de vez em quando. O editor Ferrão
ou o Santos da galeria de arte, algumas vezes. Mas nunca via descer o Sr.
Osmar… Seria que o senhor estava confinado ao apartamento por alguma
enfermidade? Um dia perguntou-me (como quem quer tirar nabos da púcara), muito
delicadamente:
—
Então menina, o seu pai está melhor? — Ao que disfarçadamente retruquei.
—
Mas, porque pergunta Senhor Pascoal? — O homem atrapalhado lá conseguiu dizer:
—
É que se passam meses sem ver o pai da menina, por vezes ainda me chamava ao
quinto andar, para lhe pôr uma carta ao correio, ultimamente nem isso… Que
pensei nalguma enfermidade!
—
Felizmente não senhor Pascoal, ele é que absorvido pelos seus quadros e livros,
nunca quer sair de casa. — Foi então que me falou na sua maior dúvida, quase
mistério.
—
É que nem correspondência tem recebido ultimamente! Bem, tive que explicar para
sossegar o espírito do homem:
—
Sempre que venho cá, levo-lhe as cartas para o correio, a não ser um caso
urgente, que lhe pede o favor, o que não tem acontecido ultimamente. Quanto à
correspondência que recebe, abri uma caixa postal no posto dos correios e
sempre que cá venho, passo por lá e trago-lha. (mal o Pascoal sabia, que a causa
tinha sido, uma suspeita de excesso de curiosidade da parte dele, quanto á
correspondência). O homem ficou elucidado e o mistério foi “desvendado”.
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