Nesse tempo, ouviam-se pregões pelas ruas
das mais diversas coisas, desde guloseimas até aos artigos mais inverosímeis.
Ouvia-se as mulheres que vinham de Rebordosa apregoando: “Merca cadeiras ou
baaaancos...” em madeira de pinho, como os que se vendiam na rua da Picaria. O
Caramileiro que vendia o “Torrão de Alicante” (que ficava preso aos dentes) e
aqueles cumpridos de cor branca com riscas vermelhas e apregoava: “Olha o belo
caramilo americano...”. As Vareiras (varinas é em Lisboa), de canastra à cabeça
com um oleado e algibeira atada à cinta que apregoavam: “Sardinha viviiiiinha”.
As galinheiras com seus cestos de rede à cabeça apregoando: “Merca galinhas ou
fraaangos”. As leiteiras, que logo pela manhã andavam de porta em porta com o
canado e as medidas de alumínio, com que mediam o Quartilho, que era igual a
meio litro. As lavadeiras, que faziam o rol da roupa que lavavam e traziam
lavada e vinham da Maia com as trouxas nas camionetas da carreira, aquelas que
tinham escadas atrás para subir ao tejadilho e acomodar a bagagem. O
azeitoneiro que trazia um pau ao ombro com uma giga de cada lado cheias de
azeitonas e apregoavam: “Olha a bela azeitoooona”.
Havia ainda o amolador e guarda-soleiro, com
aquela gaita-de-beiços em plástico, a bicicleta que ele transformava em roda
livre para afiar as tesouras e facas no esmeril. Este velocípede era uma
verdadeira oficina ambulante, onde o funileiro com habilidade conseguia tapar
buracos nos tachos e nas panelas de alumínio.
Recordo comovido, uma mulher magra de xaile
preto e um filho pela mão, que trazia uns galhos enormes ainda com rama na
ponta e que apregoava numa voz fraca: “Chaminééés...” Mas que nada tinha a ver
com os homens chamados “Limpa chaminés”, esses, traziam umas cordas ao ombro e
andavam sempre de fato-macaco sujo de fuligem. Também de cordas ás costas e
boné com uma placa onde tinha gravado o seu número de profissional, andavam os
“Carrejões” ou carregadores que fazia carretos e fretes, transportando bagagens
e peças de mobiliário. A maior parte eram galegos e passavam o dia junto ás
estações de Campanhã, S. Bento e Trindade, na Praça Filipa de Lencastre junto
ás camionetas de Braga,
Na Trindade, junto à viela do Bonjardim
(aquela onde tinha um urinol em pedra e é hoje um parque de estacionamento), havia o homem das canetas numa banca
onde arranjava todo o tipo de aparos para as canetas de tinta permanente. Quase
na esquina da rua Fernandes Tomas, havia um cinzelador numa janela, cinzelando
a prata colada à pedra com breu e que delicadamente com o buril ia gravando
lindos motivos e desenhos. Outros artistas que me fascinavam eram os
marmoristas nas oficinas de Mártires da Liberdade e Avenida Rodrigues de
Freitas. Eram autênticos escultores trabalhando o mármore, de onde saíam anjos
e outras figuras que embelezam muitas sepulturas nos cemitérios e não só.
Haviam os homens da Água e da Electricidade,
que cobravam e contavam (com uma pilha), a luz e a água, embora fossem poucas
as casas que tinham estes “luxos”, a maioria na minha rua, tinha candeeiros e
máquinas de petróleo da “Hipólito” para cozinhar. A água vinha à cabeça em
canecos de madeira do fontanário do largo. Esta água era abastecida pela
câmara, mas na fonte de Salgueiros passavam as águas do Ribeirinho (nascente
dos Montes de Germalde e do Cativo), que enchiam o tanque da “Fonte dos
Ablativos” em Cedofeita enfrente à rua da Torrinha (esta fonte encontra-se
exposta no Jardim dos SMAS
Em casa, o caneco da água tinham uma tampa e
um púcaro de alumínio pendurado para beber. Nesse tempo, havia prateleiros nas
cozinhas decorados com tiras de papel estampado com diversos motivos florais. A
minha avó fazia-os com jornal, pacientemente recortado a imitar renda. Havia
fogões a carvão como o de lá de casa e aos sábados (depois do meu pai receber),
ia-mos ao carvoeiro comprar petróleo e álcool para a máquina, carqueja, carvão
de choça, de pedra, briquetes e lamas para abafar os assados. Este carvão vinha
até ás Antas, no Monte Aventino, em cestas tipo teleférico, desde as minas de
S. Pedro da Cova. A carqueja era vendida pelas carquejeiras que subiam a rampa da Corticeira nas Fontaínhas com grandes molhos, vindas de barco pelo Douro para abastecer padarias e carvoarias da cidade.
A carne comprava-se no talho da Lapa, acima
da mercearia da Pina e junto ao “Damaneto” que vendia mobílias a prestações, ou
no talho do Zé à entrada de Mártires da Liberdade, pegado ao portal onde era a famosa "Japoneza" e onde a
Guidinha apanhava malhas nas meias de vidro. Ás terças, passava a Emilinha
“Fressureira” que era do Campo Lindo e vendia de porta em porta tripas
enfarinhadas, fígado e outras miudezas a que se chamava fressuras. A pobreza em
que se vivia não deixava comer muita carne, os bifes eram raros, por isso
naquele tempo haviam muita gente com a saúde debilitada e em grande estado de
fraqueza. Era um tempo de muitas doenças e dos lenços tabaqueiros,
suficientemente grandes e vermelhos para camuflar as hemoptises da maldita
tuberculose que minava a cidade.
Vendiam-se doces e biscoitos ao quilo, havia
mesmo uma mulher das Cruzes (para os lados das Barrocas), que vendia
“Caladinhos” (cornucópias recheadas de creme), mas a nossa predilecção ia para
o homem das farturas, com um carro de bicicleta que tinha vidros de correr como
uma montra, que cortava as farturas com a tesoura, polvilhava com canela e açúcar
para vender a cinco tostões. Ao descer a íngreme rua da Glória, a preocupação
maior deste homem, era travar bem o carro, para não acontecer como o Fausto
varredor da câmara, a quem destravaram a carroça do lixo e o desgraçado do
cavalo foi morrer contra o muro do hospital.
Nos dias de muito calor vinha um homem da
Areosa que vendia água fresca da Fonte dos Cortiços, trazia um cântaro de barro
coberto com eras e pendurado ao ombro por uma correia de cabedal. No Outono,
não faltavam os vendedores de castanhas com cestos e saco de serapilheira e os “Castanheiros”
que as assavam no carvão e ficavam cinzentas do sal. Na esquina do jardim do
Marquês com João Pedro Ribeiro, mesmo à porta do Asilo do Terço (onde havia uma
sala de cinema coberto com uma lona e que nos dias de chuva vinham homens, no
intervalo do filme, com uns paus empurrar a lona para escorrer a água da chuva
que empoçava), havia aí um assador de castanhas do feitio de uma máquina do
comboio, que misturava o fumo com o nevoeiro da cidade.
Também haviam os homens que vinham da Régua
com os cestos de rebuçados e na Primavera, vinham mulheres de Gaia vender
“Camarinhas” que apanhavam no areal do Senhor da Pedra. Em Maio as vendedeiras
de fruta traziam cereja de Resende, pêssegos do Douro e ameixas vermelhas, bem
melhores das que apanhávamos das árvores do jardim da Praça da Republica. Neste
jardim do “Campo”, assim como no de Arca de Água e do Marquês, o SNI
(Secretariado Nacional de Informação, organismo criado durante o Estado Novo),
organizava durante o verão, sessões de cinema ao ar livre. Sentado na relva nas
noites de calor, vi: “O Cerro dos enforcados”; “Os Saltimbancos”; “Frei Luís de
Sousa”; “Os Três da Vida Airada” e muitos outros filmes portugueses. Também
cheguei a ir com a minha avó, ouvir a “Música do pau teso”, como ela chamava ás
bandas de música que tocavam no coreto do Marquês, enquanto nos bancos do jardim, as
“Sopeiras” e os “Magalas” namoravam.
Mas tudo isto foi no tempo em que se fumavam
Definitivos, Provisórios, Paris, Três Vintes e outros que se vendiam avulso nos
quiosques. Em que haviam jornais a 10 tostões como o J.N., Comércio do Porto, O
Primeiro de Janeiro, Norte Desportivo e o Diário do Norte. Em que haviam
revistas como O Século Ilustrado, Crónica Feminina, Modas e Bordados, Flama,
Plateia e muitas outras que o Estado Novo nos impingia. Nessa altura, os livros
do Vilhena eram proibidos e nem sei como se vendia o Cara Alegre que ás vezes
trazia anedotas com desenhos de mulheres que nos deliciavam.
Nesse tempo, os nossos heróis eram O
Mandrake, o Mascarilha, o Davy Crockett, o Buffalo Bill, o Príncipe Valente e
outros que se lia aos quadradinhos no Ciclone, no Condor, no Mosquito, no Falcão,
no Cavaleiro Andante e nas bandas desenhadas dos jornais, como o “Reizinho” do
Primeiro de Janeiro, que eu recortava e colava tira a tira com sabão, para dar
cinema numa caixa de sapatos com uma manivela de arame e cobrava aos outros a
entrada na ilha a dois botões. Sim porque qualquer coisa servia para brincar. Com um simples fio estávamos horas a brincar à cama do gato. Com um caco
riscava-se no passeio um quadrado e diagonais para jogar ás pedrinhas ou com
regos na terra se faziam corridas com sameiras (caricas em Lisboa) que para se tornarem mais
pesadas se punham casca de laranja. As meninas jogavam à macaca ou á corda,
mas... Sempre ao ar livre, nunca como hoje sentados nos sofás agarrados ás
playstations.

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