domingo, 4 de outubro de 2020

ENQUANTO ME LEMBRO... "MEMÓRIAS" 4


GENTE DESSE TEMPO
 

 





Nesse tempo, ouviam-se pregões pelas ruas das mais diversas coisas, desde guloseimas até aos artigos mais inverosímeis. Ouvia-se as mulheres que vinham de Rebordosa apregoando: “Merca cadeiras ou baaaancos...” em madeira de pinho, como os que se vendiam na rua da Picaria. O Caramileiro que vendia o “Torrão de Alicante” (que ficava preso aos dentes) e aqueles cumpridos de cor branca com riscas vermelhas e apregoava: “Olha o belo caramilo americano...”. As Vareiras (varinas é em Lisboa), de canastra à cabeça com um oleado e algibeira atada à cinta que apregoavam: “Sardinha viviiiiinha”. As galinheiras com seus cestos de rede à cabeça apregoando: “Merca galinhas ou fraaangos”. As leiteiras, que logo pela manhã andavam de porta em porta com o canado e as medidas de alumínio, com que mediam o Quartilho, que era igual a meio litro. As lavadeiras, que faziam o rol da roupa que lavavam e traziam lavada e vinham da Maia com as trouxas nas camionetas da carreira, aquelas que tinham escadas atrás para subir ao tejadilho e acomodar a bagagem. O azeitoneiro que trazia um pau ao ombro com uma giga de cada lado cheias de azeitonas e apregoavam: “Olha a bela azeitoooona”.

Havia ainda o amolador e guarda-soleiro, com aquela gaita-de-beiços em plástico, a bicicleta que ele transformava em roda livre para afiar as tesouras e facas no esmeril. Este velocípede era uma verdadeira oficina ambulante, onde o funileiro com habilidade conseguia tapar buracos nos tachos e nas panelas de alumínio.  

Recordo comovido, uma mulher magra de xaile preto e um filho pela mão, que trazia uns galhos enormes ainda com rama na ponta e que apregoava numa voz fraca: “Chaminééés...” Mas que nada tinha a ver com os homens chamados “Limpa chaminés”, esses, traziam umas cordas ao ombro e andavam sempre de fato-macaco sujo de fuligem. Também de cordas ás costas e boné com uma placa onde tinha gravado o seu número de profissional, andavam os “Carrejões” ou carregadores que fazia carretos e fretes, transportando bagagens e peças de mobiliário. A maior parte eram galegos e passavam o dia junto ás estações de Campanhã, S. Bento e Trindade, na Praça Filipa de Lencastre junto ás camionetas de Braga, em José Falcão no Linhares da Póvoa, na garagem Atlântica das camionetas de Espinho, na rua de Camões nas camionetas de Felgueiras e de Paços de Ferreira, que paravam no largo das traseiras do “Bonnevile de Oliveira” ou "Efacec" e outros locais como os recoveiros espalhados pela cidade. Também com bonés com chapa numerada, andavam os cauteleiros que vendiam a lotaria pelas ruas e apregoavam a sorte grande pela baixa onde também andavam homens a vender gravatas num pau pendurado ao pescoço, que fazia de expositor.

Na Trindade, junto à viela do Bonjardim (aquela onde tinha um urinol em pedra e é hoje um parque de estacionamento), havia o homem das canetas numa banca onde arranjava todo o tipo de aparos para as canetas de tinta permanente. Quase na esquina da rua Fernandes Tomas, havia um cinzelador numa janela, cinzelando a prata colada à pedra com breu e que delicadamente com o buril ia gravando lindos motivos e desenhos. Outros artistas que me fascinavam eram os marmoristas nas oficinas de Mártires da Liberdade e Avenida Rodrigues de Freitas. Eram autênticos escultores trabalhando o mármore, de onde saíam anjos e outras figuras que embelezam muitas sepulturas nos cemitérios e não só.

Haviam os homens da Água e da Electricidade, que cobravam e contavam (com uma pilha), a luz e a água, embora fossem poucas as casas que tinham estes “luxos”, a maioria na minha rua, tinha candeeiros e máquinas de petróleo da “Hipólito” para cozinhar. A água vinha à cabeça em canecos de madeira do fontanário do largo. Esta água era abastecida pela câmara, mas na fonte de Salgueiros passavam as águas do Ribeirinho (nascente dos Montes de Germalde e do Cativo), que enchiam o tanque da “Fonte dos Ablativos” em Cedofeita enfrente à rua da Torrinha (esta fonte encontra-se exposta no Jardim dos SMAS em Nova Sintra) e tinha a dupla função de servir de abastecimento público, funcionando ainda como reservatório para ser utilizada em caso de incêndio.

Em casa, o caneco da água tinham uma tampa e um púcaro de alumínio pendurado para beber. Nesse tempo, havia prateleiros nas cozinhas decorados com tiras de papel estampado com diversos motivos florais. A minha avó fazia-os com jornal, pacientemente recortado a imitar renda. Havia fogões a carvão como o de lá de casa e aos sábados (depois do meu pai receber), ia-mos ao carvoeiro comprar petróleo e álcool para a máquina, carqueja, carvão de choça, de pedra, briquetes e lamas para abafar os assados. Este carvão vinha até ás Antas, no Monte Aventino, em cestas tipo teleférico, desde as minas de S. Pedro da Cova. A carqueja era vendida pelas carquejeiras que subiam a rampa da Corticeira nas Fontaínhas com grandes molhos, vindas de barco pelo Douro para abastecer padarias e carvoarias da cidade.

A carne comprava-se no talho da Lapa, acima da mercearia da Pina e junto ao “Damaneto” que vendia mobílias a prestações, ou no talho do Zé à entrada de Mártires da Liberdade, pegado ao portal  onde era a famosa "Japoneza" e onde a Guidinha apanhava malhas nas meias de vidro. Ás terças, passava a Emilinha “Fressureira” que era do Campo Lindo e vendia de porta em porta tripas enfarinhadas, fígado e outras miudezas a que se chamava fressuras. A pobreza em que se vivia não deixava comer muita carne, os bifes eram raros, por isso naquele tempo haviam muita gente com a saúde debilitada e em grande estado de fraqueza. Era um tempo de muitas doenças e dos lenços tabaqueiros, suficientemente grandes e vermelhos para camuflar as hemoptises da maldita tuberculose que minava a cidade.   

Vendiam-se doces e biscoitos ao quilo, havia mesmo uma mulher das Cruzes (para os lados das Barrocas), que vendia “Caladinhos” (cornucópias recheadas de creme), mas a nossa predilecção ia para o homem das farturas, com um carro de bicicleta que tinha vidros de correr como uma montra, que cortava as farturas com a tesoura, polvilhava com canela e açúcar para vender a cinco tostões. Ao descer a íngreme rua da Glória, a preocupação maior deste homem, era travar bem o carro, para não acontecer como o Fausto varredor da câmara, a quem destravaram a carroça do lixo e o desgraçado do cavalo foi morrer contra o muro do hospital.

Nos dias de muito calor vinha um homem da Areosa que vendia água fresca da Fonte dos Cortiços, trazia um cântaro de barro coberto com eras e pendurado ao ombro por uma correia de cabedal. No Outono, não faltavam os vendedores de castanhas com cestos e saco de serapilheira e os “Castanheiros” que as assavam no carvão e ficavam cinzentas do sal. Na esquina do jardim do Marquês com João Pedro Ribeiro, mesmo à porta do Asilo do Terço (onde havia uma sala de cinema coberto com uma lona e que nos dias de chuva vinham homens, no intervalo do filme, com uns paus empurrar a lona para escorrer a água da chuva que empoçava), havia aí um assador de castanhas do feitio de uma máquina do comboio, que misturava o fumo com o nevoeiro da cidade.

Também haviam os homens que vinham da Régua com os cestos de rebuçados e na Primavera, vinham mulheres de Gaia vender “Camarinhas” que apanhavam no areal do Senhor da Pedra. Em Maio as vendedeiras de fruta traziam cereja de Resende, pêssegos do Douro e ameixas vermelhas, bem melhores das que apanhávamos das árvores do jardim da Praça da Republica. Neste jardim do “Campo”, assim como no de Arca de Água e do Marquês, o SNI (Secretariado Nacional de Informação, organismo criado durante o Estado Novo), organizava durante o verão, sessões de cinema ao ar livre. Sentado na relva nas noites de calor, vi: “O Cerro dos enforcados”; “Os Saltimbancos”; “Frei Luís de Sousa”; “Os Três da Vida Airada” e muitos outros filmes portugueses. Também cheguei a ir com a minha avó, ouvir a “Música do pau teso”, como ela chamava ás bandas de música que tocavam no coreto do Marquês, enquanto nos bancos do jardim, as “Sopeiras” e os “Magalas” namoravam.

Mas tudo isto foi no tempo em que se fumavam Definitivos, Provisórios, Paris, Três Vintes e outros que se vendiam avulso nos quiosques. Em que haviam jornais a 10 tostões como o J.N., Comércio do Porto, O Primeiro de Janeiro, Norte Desportivo e o Diário do Norte. Em que haviam revistas como O Século Ilustrado, Crónica Feminina, Modas e Bordados, Flama, Plateia e muitas outras que o Estado Novo nos impingia. Nessa altura, os livros do Vilhena eram proibidos e nem sei como se vendia o Cara Alegre que ás vezes trazia anedotas com desenhos de mulheres que nos deliciavam.

Nesse tempo, os nossos heróis eram O Mandrake, o Mascarilha, o Davy Crockett, o Buffalo Bill, o Príncipe Valente e outros que se lia aos quadradinhos no Ciclone, no Condor, no Mosquito, no Falcão, no Cavaleiro Andante e nas bandas desenhadas dos jornais, como o “Reizinho” do Primeiro de Janeiro, que eu recortava e colava tira a tira com sabão, para dar cinema numa caixa de sapatos com uma manivela de arame e cobrava aos outros a entrada na ilha a dois botões. Sim porque qualquer coisa servia para brincar. Com um simples fio estávamos horas a brincar à cama do gato. Com um caco riscava-se no passeio um quadrado e diagonais para jogar ás pedrinhas ou com regos na terra se faziam corridas com sameiras  (caricas em Lisboa) que para se tornarem mais pesadas se punham casca de laranja. As meninas jogavam à macaca ou á corda, mas... Sempre ao ar livre, nunca como hoje sentados nos sofás agarrados ás playstations.  

 


 

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