terça-feira, 3 de novembro de 2020

CARTAS DE SETEMBRO


 



CARTA AO HELDER PACHECO
 
À Memória de meu pai
 
 


 
 
Ermesinde, Setembro de 2007
 
Amigo Hélder Pacheco
 
        
    Aqui vai como me pediu, de uma forma sintetizada, o que foi a vida de um homem que fundou uma das maiores fábricas de brinquedos que existiu na cidade do Porto. Tinha muito orgulho no meu pai, pois apesar de ser deficiente motor construiu uma empresa, deu trabalho a muita gente, foi a primeira pessoa na cidade a adquirir automóvel adaptado ás suas dificuldades. Nunca se resignou à sua condição, e fez ver aos que podem que na vida tudo é possível com trabalho e perseverança.
     Fico á espera que o meu amigo dê a conhecer ao mundo, no livro que pensa escreve sobre os grandes industriais da cidade do Porto. Resta esta pequena (grande) história feita por alguém que sempre acreditou num sonho.
 
       

   Tudo começou nas décadas de 30/40 com as construções do “Mosquito”. O suplemento desta revista aos quadradinhos, trazia para construir aviões, barcos, casas, etc. Tratavam-se de folhas que se colavam em cartão, recortavam-se pelo tracejado, dobravam-se pelas patilhas e colavam-se as peças até construir o modelo pretendido. Mas nem todos os possuidores da revista tinham a habilidade necessária para a execução dessas pequenas obras de arte. Foi assim que o meu pai, na mesa da sala da pequenina casa onde vivíamos na Rua da Glória, nº 47 (que ainda existe), ia construindo os modelos para todos os rapazes lá da rua a troco de uma moedas. Tinha também, o tal jeito para desenho que era muito apreciado nesse tempo, na litografia, na estamparia de tecidos, na publicidade, etc. que hoje não se dá muito valor com o aparecimento das novas tecnologias, com programas próprios em computadores que põem a desenhar qualquer um.
    Meu pai em 1943 com 20 anos e com a poliomielite desde os 2, locomovia-se com duas muletas e trabalhava como empregado de escritório numa pequena marcenaria na Rua Mártires da Liberdade. Nessa casa foi fazia outros serviços, como envernizar (à boneca), caixas de jóias, que depois forrava o interior com cetim ou veludo e que eram no final decoradas com aplicações em prata. Este trabalho manual para que tinha muito jeito, deu-lhe a experiência para começar (quando a oficina de marcenaria fechou), em casa a fazer casinhas para as cascatas, presépios para o Natal, caixas para as amêndoas na Páscoa, assim como caixas de costura e de jóias, etc. Tudo isto era feito manualmente com uma serrinha manual e as peças de madeira presas num pequeno torno apertado na mesa da sala.
    Em 1947, meu pai casou com minha mãe e eu vim a nascer em Setembro de 1948 e meu irmão em Fevereiro de 1950. Quis o destino, que em Agosto desse ano, minha mãe falecesse apenas com vinte anos. Foi então que minha avó paterna se desdobrou para nos criar, ajudando meu pai que por essa altura, sonhava em estabelecer-se com uma oficina pequena, mas que desse para sustentar a família, pois só minha avó tinha algum rendimento do seu trabalho como padeira na “Padaria Porto” no Largo Moinho de Vento.
   Para desenvolver mais o seu trabalho, meu pai encontrou uma pequena máquina de serrar de tico-tico na Casa Escol em Sá da Bandeira. Esta firma alemã que ainda hoje existe, embora virada para outra vertente no caso actual, artigos para combate a fogos etc., tinha ao tempo um gerente, o Sr. Brucher, um alemão que acreditou no meu pai e lhe entregou a máquina depois ouvir toda a história e vendo naquele homem de muletas um vontade enorme de vencer na vida com o seu trabalho, dizendo: — Leve a máquina e paga-me quando puder. Isto passa-se em 1952, quando meu pai alugou a casa 4 do bairro “Angelina”, também na rua da Glória, nº 52, adaptou-a ás suas necessidades, trouxe a tal máquina que seria a primeira de muitas e inaugurou a sua oficina em Novembro desse ano, com a presença de diversos amigos como: Alfredo Borges que mais tarde abriria uma das mais conceituadas litografias do Porto a “Inova”; Fernando Batista que foi gerente da casa de bicicletas do Porto a “Altis”. Um dos amigos que mais o ajudou foi o Manuel Ferreira Marques, dono da grande fábrica de ourivesaria “Topázio” no Porto e antigo condiscípulo do Colégio Brotero na Foz do Douro, onde meu pai estudou, aquando da sua estada até aos 16 anos no Refugio da Paralisia Infantil na rua Bela também na Foz, de onde saiu a andar de muletas.
      Começou nesse ano a confeccionar presépios para a quadra de Natal que se avizinhava.  Com dinheiro emprestado, no começo de 1953 já com a ajuda de uma rapariguita como empregada, começou a trabalhar para as diversas quadras festivas do ano. Assim, logo para o Carnaval, fabricava as chamadas “línguas da sogra”, aquelas boquilhas com “gaita” que ao serem sopradas desenrolavam até ao rosto da pessoa próxima, para voltarem à posição inicial. Além destas, haviam “Relas” que ao girar fazia barulho. Chapéu de fantasia, etc. Para a Páscoa, fabricava as caixas de amêndoas algumas com música e outras com patinhos para levar os ovos pintados, etc. Para as cascatas de S. João as tais casinhas, pontes, coretos, castelos, igrejas, etc. Para as praias, fabricava e vendia aos fabricantes de baldes para criança em chapa (folha flandres, igual a chapa usada nas conservas e que muitos brinquedos se produziram no após guerra nas oficinas de Ermesinde), as pás e os ancinhos em madeira. Mas logo começava a fabricar para stock, os presépios para o Natal, para isso, comprava em Gaia (aos fabricantes de capas em palha para as garrafas), a palha com que cobria os telhados dos presépios, aproveitando as espigas secas do centeio, para fazer os berços do menino Jesus. Estes artigos eram vendidos em muitas casas do Porto como Bazar dos Três Vinténs em Cedofeita, a Casa Ametista na Praça dos Poveiros, nas casas de artigos religiosos nas ruas de Mouzinho da Silveira e das Flores, assim como os artigos para cascatas nas casas onde vendiam os bonecos de barro na rua da Assunção.
     Nesta época, a madeira para trabalhar era obtida dos caixotes de sabão da Cuf que meu pai reutilizava. O cartão mais tarde era comprado aos maços, porque a principio, até os maços de cigarros provisórios virados ao contrário, que serviam para as casinhas das cascatas. Assim como os telhados, eram feitos com o cartão canelado das embalagens.
    Em 1954, uma vizinha que muito ajudava a minha avó a nos criar, eu com 6 anos e meu irmão com 4, começou a interessar-se por meu pai, ajudando-o mesmo no trabalho pois depressa se tornou numa artesã. Esta Senhora de nome Gracinda, que veio a casar com meu pai no ano de 1956, veio a dar o nome “Cindita, Fábrica de Brinquedos e Utilidades em Madeira”, que até era só “Manuel Monteiro de Carvalho Fabricante de Brinquedos”. Foram viver num rés-do-chão da mesma rua da Glória, nº 63, que fazia traseiras com a oficina já existente. Como era preciso um lugar tipo armazém, para guardar os artigos fabricados e como se dera de vago a casa 3 do mesmo bairro, meu pai alugou-a abrindo uma porta interior. Mais tarde fez o mesmo com a casa 2 e a casa 1, ficando um correr de casas desse bairro, a serem uma fabriqueta de brinquedos, já com 6 empregados. Estávamos então em 1960, minha avó faleceu nesse ano com 72 de idade. Entretanto o progresso era visível e meu pai queria dar outro salto, mas só em 1963 novas instalações foram possíveis.
     Na altura, só o J. Cândido da Silva na Rua Monte da Estação em Campanhã, o A. Lopes Coelho de Sousa na Travessa do Campo 24 de Agosto e a “Majora” (que mais tarde se ramificou na “Karto”) com seus jogos, eram os únicos além de nós, que fabricavam brinquedos na cidade. Como as exigências eram cada vez maiores, foi necessário mudar de instalações e a nova fábrica surgiu na Rua Dr. Júlio de Matos mesmo defronte à antiga fábrica de tecidos “Raione”. Havia uma secção de montagem, outra de pintura. Nas traseiras um parque de máquinas para trabalhar madeira aceitável para as necessidades do momento. Tínhamos a residência por cima da fábrica. Aumentaram os postos de trabalho e chegamos em 1974 a ter 12 empregados na produção, além de vendedor e escritório.  
   Vendíamos para bazares de todo o país, mas principalmente para grandes armazenistas como o A. Lopes Coelho de Sousa no Porto (que entretanto se tornara armazenista e importador de brinquedos) e em Lisboa o armazenista A. Fresco, que exportava os nossos artigos em grande escala para as províncias ultramarinas. Com a chegada da revolução de Abril, este mercado desapareceu num ápice, deixando-nos completamente desprevenidos e com mercadorias abandonadas na alfandega que nunca mais recebemos o seu valor. Depois começaram as justas reivindicações por parte dos operários, com aumentos de ordenados, subsídios de férias e de Natal, coisas que até então não havia. Conseguimos aguentar com muito custo, pois tínhamos entretanto, adquirido uma carrinha para transporte de mercadoria, uma vez que o então ”Costa Ramos”, nos levava grande parte dos lucros em transportes.
     Em 1975, com o mercado de brinquedos em crise, avançamos com uma linha de montagem de Armários de quarto de banho, onde chegamos a atingir uma produção de 600 por mês. Todos os armazenistas de Paços Brandão, Cortegaça e arredores, compraram-nos muito, pois a nova legislação, proibia os armários em chapa esmaltada, devido à corrente eléctrica nas casas de banho.
      Em meados de 1977 e com o EAPMEI a atribuir financiamentos às pequenas e médias empresas, fizemos uma proposta para o desenvolvimento da nossa fábrica, uma vez que tivemos conhecimento que ia ser feito um empréstimo a fundos perdidos de 50.000 contos, para uma nova fábrica de brinquedos “A BRINCÁFRICA” no Parque de Celeiros em Braga. Depois de muita burocracia, a resposta foi: Que não viam viabilidade no nosso projecto e preferiam atribuir a verba a uma fábrica de raiz, sem se importarem com a experiência de tantos anos neste sector industrial, em detrimento de outra sem qualquer experiência.
     Foi quando no começo de 1978, um grande armazenista de Lisboa, o “J. Sousa Guimarães”, que tinha agregado a si a empresa “Dinamização” que já no Natal de 1977 tinha lançado uma campanha publicitária na TV para o lançamento do celebre “Jogo da Assembleia”, (com os partidos no semicírculo), contactou-nos para nos fazerem uma proposta tentadora. Comprarem-nos toda a produção mensal, com modelos de brinquedos impostos por eles. Numa altura de crise, com a promessa de todos os meses ter-mos o necessário para os nossos compromissos, sem preocupações em vender… Aceitamos a proposta e entregamos toda a nossa carteira de clientes, depois de assinado o contrato da compra mensal de toda a nossa produção. No começo foi bom, quanto mais fazíamos melhor, só que tivemos que adaptar novos moldes, formas de fabrico diferentes para madeiras ao natural, exigências na troca da madeira de pinho por plátano, amieiro e outras. Adquirimos então uma nova carrinha Mercedes para transportar semanalmente os artigos para Lisboa.
    Vieram depois as exigências legislativas sobre segurança dos brinquedos para as crianças, coisas que até então ninguém se tinha preocupado. Claro que eram razões mais que justas: Nada de arestas, objectos cortantes ou de tamanhos fáceis de engolir. Tudo leis importantes que tão rapidamente aderimos, mas que nos obrigaram a fazer novos ajustes no modo de fabricação.
   Surgiu então a ideia de visitar a maior Feira de Brinquedos do mundo em Nuremberga na Alemanha, com a intenção de conhecer novos modelos e formas de fabrico. A viagem foi paga pelo nosso cliente e durante uma quinzena documentamo-nos e adquirimos todos os conhecimentos possíveis para implementar a “Cindita”.
  Novas técnicas foram introduzidas, como a serigrafia com estampagem mecânica, pintura à pistola com cortina de água, etc. Aumentamos a produção com novos modelos de Matraquilhos, Quadros escolares, Cavalo de Baloiço, Jogos de Xadrez, etc. Entramos depois no campo do brinquedo didáctico, construído sempre com o intuito da criança aprender brincando, com uma apresentação apelativa de cores vivas.
    As coisas correram bem até ao ano de 1979, quando a firma nosso cliente em Lisboa começou a dar sinais de que qualquer coisa não corria bem. Atrasando os pagamentos e deixando de cumprir o acordado. Até que em 1980 abriu falência arrastando-nos para o abismo. Ainda aguentamos a crise que se generalizara a todos os sectores da fábrica. Os clientes antigos tinham agora outros fornecedores, tentamos dar a volta mas fomos impotentes. O pessoal foi abandonando o trabalho com justa causa, quando a falta de pagamento acontecia. Corremos mais uma vez ao IAPMEI mas de nada valeu a crise estava instalada. Até que em 16 de Dezembro de 1981 a “Cindita” entrou em falência técnica e foi o fim.
      

Fundada em 1952, a firma durou quase 30 anos. Meu pai tudo vendeu para cumprir compromissos. Deu entrada com minha mãe Gracinda no Lar do Comércio. Ela não aguentou o desaire e faleceu em 1986. Meu pai veio a falecer a 15 de Setembro de 2002, não sem antes ter tido uma pequena oficina no próprio Lar do Comércio, onde consertava objectos de outros internos e colaborava com a construção do presépio e outras actividades nos eventos que o Lar organizava. Como prémio destas tarefas, chegou a visitar a Madeira a expensas do Lar. Ainda casou pela 3ª vez com a telefonista da instituição.
Nunca parava, só parou quando o coração deixou de trabalhar, ao fim de 77 anos.
 
 
        Um abraço amigo, até qualquer dia
                   Sempre ao dispor
                    Manuel Carvalho
 

CARTAS DE SETEMBRO


 



CARTA AO LUCIANO SOBRE LUANDA
 
Ao melhor amigo que encontrei na vida militar
 
 


 
 
Ermesinde, 11 de Novembro de 2007
 
 
          Amigo Luciano
 
 
 
     Faz hoje 35 anos que não nos vimos!            
    Nesse dia longínquo de Novembro de 1972, despedimo-nos à porta de armas do Quartel do RAAF em Queluz, já vestidos à civil e com o documento carimbado da nossa passagem à disponibilidade no bolso. Demos um abraço forte, trocamos endereços e desejamos um ao outro, felicidades com um até sempre! Estávamos com pressa, eu de apanhar o “Foguete” para o Porto, tu de apanhares o barco para o Barreiro.
    Nunca te escrevi, tu foste mais corajoso e passados alguns meses, mandaste-me dizer que casaste com a Rosa, enviaste-me até uma foto do vosso enlace. Quando em 1997, o nosso amigo Pinho me convidou para ir a Lisboa, a um encontro comemorativo dos 25 anos do nosso regresso do ultramar, aceitei, convencido que te encontrava. Apesar de rever muitos dos nossos amigos, aqueles que com nós passaram pelo mesmo limbo na vida, tu não apareceste por qualquer motivo e eu fiquei triste. Claro que abracei e relembrei momentos vividos, com o Franco, o Liberato, o Vicente e muitos outros mas... faltavas tu meu amigo, era contigo que eu gostava ter falado daqueles tempos, dos momentos que vivemos, dos livros que lemos, dos filmes que vimos, da poemas que escrevemos, da cidade de Luanda que palmilhamos rua a rua.
   Lembraste do Bowling em Alvalade, próximo à Igreja da Sagrada Família, enfrente ao Hospital Militar, ao lado daquela esplanada onde tantas vezes estivemos? E a Praça da Maianga onde apanhávamos o “Machimbombo” para a praia, ou Berliet para a Base. Ali era a baixa, onde haviam as montras da “Saratoga” e outras casas chiques. Onde havia o Museu de Luanda, o fotografo “Salvador” e o “Bitok” onde comíamos os Chocos com tinta. Onde jogávamos xadrez na “Biker” e bebíamos uns bons finos na esplanada da “Portugália”, acompanhados de um pires de dobrada, mesmo enfrente à elitista “Versalhes”. Logo por trás, havia o “Campino” que tinha umas moelas deliciosas em pratos de barro?
      E o Mercado da Maria da Fonte, onde por 50 escudos, comprávamos um quilo de camarão para comer na cantina da Base Aérea, acompanhados de uma grade de cerveja Nocal, Cuca, ou a Eka, “a loira tropical”. Aquele Praça onde tinha a estátua da Maria da Fonte e começava aquela grande avenida dos Combatentes. Passamos lá tantas vezes a caminho em busca de prazer nas meninas do B.O. (Bairro Operário). Depois parávamos na cervejaria “Apolo 11” para mais um fino e um pratinho de camarão que era oferta?
  Recordaste dos passeios que dávamos pela Baía, que ao pôr-do-sol era maravilhosa, com a sua avenida marginal, as palmeiras e as esplanadas?
   E da Ilha de Luanda quando íamos para a praia do “Tamariz” ou da “Barracuda”. E  naquelas noites de calor, quando íamos comer um caldo-verde no restaurante do “Ti Maria Conceição”? E a praia de Belas, com palmeiras pelo areal e o cheiro a peixe na seca, ou o cheirinho bom a banana assada nas fogueiras da praia? E a “Restinga” onde havia aquele buteco o “Tá-Mar” que quando havia mais dinheiro lá entravamos para um copo. Recordo-me de outros como: o “Acrópole”, o “Lorde”, o “Muxima”.
      Lembraste do futebol nos “Coqueiros” e do Hóquei em patins no “Ferroviário”? E os passeios pela Fortaleza, pela Sé, onde haviam aquelas ruas estreitinhas, onde descobrimos o bom bacalhau no “Floresta”? 
     Lembraste dos cinemas ao ar livre como o “Miramar” e outros, onde víamos um bom filme acompanhados de uma CUCA? E o “Restauração” onde vimos o Percy Sleid, a Elisabete, o Nelson Ned e outros cantores. O Teatro “Avenida” onde nos deliciamos com tantas peças de bom teatro, como “A Ratoeira” da Aghata Cristie que desenhei o logótipo?
     Recordaste, quando um de nós recebia um envelope azul (Valor declarado) com dinheiro e logo íamos defronte à Base, ao Bairro Salazar, comer um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo, com uma cerveja e só custava dezassete e quinhentos? E no dia seguinte íamos gastar ao “Casão” comprando volumes de cigarros? E a cantina onde fazíamos campeonatos de Dominó que o Seixas ganhava sempre? Nessa cantina que ao fim do mês para pagar o débito era um problema com os mil e duzentos escudos que ganhávamos de prémio de especialidade. Dos vinte e cinco tostões por um lugar no Cinema da Base ao ar livre, parecido com o de Grafanil, esse campo militar onde vivemos em tendas montadas na terra, durante quatro meses a comer cabeças de peixe frito nas cozinhas ao ar livre, com as moscas a zumbir e a chuva a cair. Onde enjoamos a compota de maçã no café da manhã, naquelas canecas de alumínio sem asa e com os dedos tapávamos os furos deixados pelos cravos?
     Sabes, ás vezes consigo fechar os olhos e sentir aquele cheiro de Luanda, ver a terra vermelha do Bairro do Prenda e os olhos cor de avelã da Mimi (a arrumadora no teatro). Consigo ainda ver aquela cor de pele linda que a Nandinha tinha (a empregada da pensão na Rua de Serpa Pinto, onde passamos com o Rodrigo e o Franco as férias). Ainda ouço as piadas do Franco, com aquele seu peculiar humor, ou o Vicente a distribuir o correio.
    Lembro todas estas coisa boas, as más? Não quero lembrar, tu também não decerto não queres!
     Perdoa amigo, esta carta já vai longa.
     Recebe um abraço do Carvalho com muitas saudades de Luanda.
 

CARTAS DE SETEMBRO

 





CARTA AO SILÊNCIO
 
 
 


 
Ermesinde Setembro de 2019
 
 
Senhor Silêncio      
 
 
 
 
 
Ouvir o silêncio é fazer descansar o espírito. De quando em vez sabe tão bem! Ficar distraído, de olhar distante, vazio, sentir o corpo lentamente esvaziar até quase deixar de ouvir o respirar.... Depois, escolher um dos dois caminhos:
       Aquele em que imaginamos uma paisagem enevoada, em tons de cinzentos, cada vez mais ténues como brumas, e nos vai levando de montanha em montanha cada vez mais longe, voando ao sabor da brisa, mais e mais, até ao vazio total do pensamento (o mais difícil de atingir), porque há sempre algo que nos preocupa, que ocupa a nossa mente.
      Ou então aquele que nos leva a uma introversão, ou seja, uma concentração de espírito, um recolhimento íntimo da alma, a uma introspecção. Resumindo: Um exame ao nosso interior... Pensar em quem somos, para que somos, pensar em quem amamos, pensar nos nossos sonhos, nas nossas legítimas ambições. Enfim, meditar.
      Numa dessas ocasiões quase chorei, quando me senti tão abandonado, que tive tantas saudades de mim!.. Do tudo que fui, de tudo que fiz. E perguntei-me:Onde estão aquelas dezenas de amigos, que me acompanharam nos ralis, nos passeios, nos jantares, nos fados, nas horas bem passadas em francos convívios!? É grande a minha tristeza, por não ter sabido preservar essas amizades, (ou não seriam!).
      E aqueles que estavam a meu lado nas horas más que tive, na guerra, na traição, na falência, nos momentos infelizes!? Será que nem a esses eu soube ser grato?
      Depois, bem! depois vem sempre o cansaço, porque o silêncio também cansa. Então, para nos encontrar-mos, nada melhor que a nossa música preferida, muito baixinho nos auscultadores, até acordar lentamente o silêncio, e voltar-mos à triste (quase sempre) realidade  da nossa vida. Àquela por quem lutamos dia a dia, numa luta constante pela sobrevivência, tentando não ferir aqueles de quem gostamos, e principalmente tentando ser feliz, que é das coisas mais difíceis que existem. Embora por vezes, por tão pouco, a felicidade era tão simples: Se nos contentasse-mos com o que temos; Se nunca fizesse-mos aos outros, o que não queríamos que nos fizessem a nós; E principalmente, se fizesse-mos um pequeno esforço para compreender os outros!... A vida seria com toda a certeza bem melhor, e nós éramos mais felizes.
     Mas...Existem muitos momentos na vida que estamos sós, alguns mesmo irremediavelmente sós. E embora haja muitas formas de solidão, das piores que existe, é aquela em que nos sentimos sozinhos no meio da multidão. Quando gostamos  daquilo que os outros não gostam, ”Não devíamos de gostar, de quem não canta a mesma canção” ( Diz o Rui Veloso, nas palavras de Carlos Tê) nem fazem um esforço para gostar; Quando  temos sentido de humor, e tentamos contar uma anedota que ninguém a compreende; Quando ninguém gosta de ler Eça, Steinbeck, Jorge Amado ou Garcia Marques, e assim não podemos lê-los juntos; Quando ninguém gosta de Sinatra, Betânia, Strauss ou Beethoven, e não os podemos ouvir juntos; Quando ninguém gosta de Woody Allen, Clint Eastwood ou De Niro, e nunca podemos ver esses filmes juntos; Quando não gostam de ir ao teatro, ouvir poesia ou visitar um museu, e só vibram com um jogo de futebol, uma telenovela, um mexerico; e nunca com o mistério dum bom filme policial!... Com a beleza de Melanie Griffith ou o talento de Al Pacino. Por tudo isto, é que estamos sós no meio de tanta gente.
   Por tudo isso é que se faz poesia, por tudo isto é que sofremos com o que escrevemos, tentando pôr no papel, esta amálgama de sentimentos que nos rói a alma, este sentir que sentimos tanto. E é por isto tudo que vivemos a vida  com paixão, sensíveis a tudo, até ao amor que não nos dão; Ás traições que nos fazem; Até ás lutas que travamos e ficamos sempre prejudicados, só para que os outros não sofram, porque gostamos da vida e de todos; Dos filhos e do Sol; Da chuva e de pasteis de nata; Da Lua e dum cigarro; Do nevoeiro no Douro e dum café bem tirado; De tudo, tudo, até de quem de mim não gosta.
     Por isso temos necessidade de escrever, e escrever... É um acto solitário. Entre o monitor e o teclado, apenas o pensamento voa no espaço do silêncio, amontoando letras do alfabeto em palavras , frases em conceitos, textos em narrativas. Levados pela imaginação, vamos gerando no papel  sentimentos que transmitimos aos outros  nas mais variadas formas.
      Vestir a pele do criminoso da vitima e do detective num livro policial, conseguir caminhar ao lado da personagem que  criámos, dar-lhe vida, amá-la e matá-la, ser o dono do seu destino; Ir onde se quer em qualquer altura, viajar com quem se quiser a qualquer momento; Ser-se bom ou cruel; Rico ou pobre; Fazer-se tudo que nos der na ideia, até amor... com quem passamos a vida a sonhar. Descrever uma paixão, só o consegue quem esteve apaixonado. Descrever o acto de fazer amor é difícil se não se disser as palavras todas, como na pornografia tão difícil de escrever, que o digam Cassandra Rios, ou Dallas Mayo, pseudónimos de grandes escritores, de grandes novelas pornográficas conhecidas no mundo inteiro, perseguidos pela censura, falsos moralistas, beatas e mulheres frustradas.         
      O amor e a poesia, andaram sempre de braço dado, não gosto dos poemas que falem de morte ou desgraça. Todas as paixão que tive, foram fontes de inspiração para mim. É maravilhoso ouvir em público, cantar um poema nosso, e saber que ninguém sabe a quem se referem aquelas palavras, só eu sei mais ninguém. Algumas quadras emendei-as, à última hora, num último instante, pois denunciavam indiscretamente a quem se destinavam, mas guardo na memória o original. Depois, as letras que faço e que cantam, contam uma situação, levam uma mensagem:

Se pudesse alguém pesar/O amor que a gente sente

Teu amor para meu pesar/Pesava mais porque mente.

E se mesmo assim depois/Negasses o resultado

Eu mentia pelos dois/Só para te ter a meu lado.
 
Ou assim: 

És alma gémea da minha/Gostas de tudo que eu gosto

Tu podias ser só minha/ Mas não és para meu desgosto.

 
Ou ainda assim quando partiste:


Nem adeus me disseste/ Um beijo apenas me deste/Tão leve que o ar levou

Com a pressa que partiste/Em maus olhos tu nem viste/A saudade que ficou.
 
Ou assim quando voltaste:


Tu voltaste finalmente/Agora sim sou feliz

Não há passado, o presente/Nasce quando tu sorris.
 
Ou assim este recado:


Nada nem ninguém pode entender/O que me vai na alma de momento

Só eu a conheço e ando a viver/Este amor inconstante como o vento.

Quando vier o frio me gelar/Os lábios da boca que a beijou

Em gavetas vai decerto encontrar/Poemas seus que o vento não levou.
 
Mas... e o medo?


Á Muito que o meu anseio/Era ter-te nos meus braços

Mas sempre havia pelo meio/Muitos medos, outros passos.

Até que um dia vieste/Como quem vem para se dar

E lembro até que trouxeste/Olhos tristes de chorar.

Beijei-te como quem tem/Um desejo acumulado

Amei-te como quem vem/Das galeras degredado.
 
No final, o nascer:


Tu vieste com a bruma/Junta á onda que desmaia

Em nuvens feitas de espuma/ Como rendas de cambraia.

Depois veio o Sol, cobriu/Teu corpo que bem me lembro

E um poema floriu/ Nessa manhã de Setembro.
 
Bonito, é quando se sente realmente o que se escreve.
Maravilhoso, é quando se consegue escrever o que se sente.

CARTAS DE SETEMBRO




 

CARTA À ESTUPIDEZ




 
 
 
Ermesinde Setembro de 2020 
 
 
Senhor Confissionário
 
 
 
 
  Sinto que já não tenho aquela alegria ou o prazer, o contentamento de ouvir um aplauso, um elogio por uma letra escrita, de ouvir um fado cantado com uma letra minha, enfim, aquela satisfação de saber que alguém gosta, canta, grava o que eu escrevi. Hoje já não sinto isso, claro que também não estou lá para ouvir, para sentir, mas noto um grande desencanto de ter pensado ingenuamente que podia ombrear ao lado de outros letristas de renome. Tudo isso, principalmente com a miséria que recebo da SPA, que chega a ser ridículo, um autor receber dezoito euros de direitos num ano. Por tudo isto, o desinteresse em escrever apagou-se, não vale a pena, estou cansado, muito cansado.
A vida já não tem grande interesse em ser vivida, apenas se vai sobrevivendo o dia a dia com o pouco que se ganha, mas sem ilusões, sem sonhos, agora já não há tempo e apesar do ditado “enquanto há vida há esperança”,hoje sei que nunca terei o que gostava de ter, aquela sala só minha cheia de livros, filmes, retratos e quadros. Um espólio de recordações que os vindouros apreciassem. 
Sei que nunca irei onde gostava de ter ido à Grécia à Itália ao Egipto, conhecer as civilizações de onde todos viemos, conheci através dos decomentários da tv. Não tenho tempo de fazer o que gostava de deixar feito. Tudo tem sido uma desilusão, desde a família, ao fado, desde os amigos ao modo com que sou obrigado a viver. A esperança de dias melhores desfocou-se, não tenho nada com que me orgulhe, não devo ter sido um bom pai, um bom marido, um bom amigo, falhei com todos e principalmente comigo. Nunca publicarei um livro, nunca serei reconhecido como autor e dias depois do meu fim, ninguém se lembrará de mim. Confesso que não tenho medo de morrer, apenas tenho pavor ao sofrimento. Sei que me calei tanta vez por covardia, quando podia ter falado e mostrado a minha atitude em relação a muitas coisas que os outros não compreenderam. Tudo porque quis viver em paz com os que me rodearam e não quis conduzir uma revolta que me levava à desunião com os meus e ia sofrer por isso porque os amo a todos, à minha maneira é verdade, mas amo. 
Perdi a capacidade de sonhar, rasguei mesmo a lista dos meus sonhos. Agora penso que tudo tinha que ser assim e a vida deu-me o privilegio de conhecer pessoas maravilhosas, algumas perdias como a minha avó, meu pai, assim como muitos amigos. Até um dia, e se a reencarnação for verdade, quando voltar, vou ser diferente, quero ter carro, ser sócio do FCP e nunca ocupar as estantes com livros, ser bruto e ignorante e assim serei recordado por todos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

CARTAS DE SETEMBRO







CARTA A QUEM QUISER LER
 
Talvez ao Pai Natal
 
 
 
 

Ermesinde, Setembro de 2007
 
 
      Amigo Etéreo
 
     
      Hoje é dia do meu aniversário, para o próximo ano entro nos sessenta e gostava, enquanto tenho tempo, de lhe agradecer a vida que me tem dado, apesar de ter certas duvidas se o meu amigo existe, pois sinto-me mais um agnóstico que um crente.
      Tal como diz esse sistema filosófico, o meu agnosticismo provem das dúvidas que encontro na vida e do total desconhecimento que tenho do espírito humano. Claro que fui baptizado, crismado e casei pela igreja, não porque acredite na existência de Deus, mas porque fui obrigado a isso. Todavia, acredito na alma humana enquanto comandada pelo cérebro, mas que morre na hora em que morre o corpo. Um pé, um braço, uma mão, depois de separados do corpo não mexem mais. A morte quando é premeditada, é sempre no cérebro que ocorre, seja um tiro na cabeça, a asfixia numa corda ao pescoço, a guilhotina ao ser-se decepado e mesmo as cadeiras eléctrica ou de gás, só é declarada a morte se for cerebral. Mesmo na doença, pode um ser humano viver ligado a uma máquina muito tempo, que a sua morte só acontece quando essa máquina é desligada e o cérebro deixa de funcionar. A inteligência humana, conseguiu fazer máquinas que prolongam a vida do homem, ou substituindo órgãos como o coração e outros, mas nunca se transplantou um cérebro, este é o centro neurálgico de todo o fenómeno da vida. Mesmo na sua concepção, o homem utiliza o cérebro para a erecção e subsequentemente a ejaculação do seu esperma. Pode ser utilizado qualquer método, desde a inseminação artificial ou fertilização in vítreo, mas sempre foi preciso o cérebro. Todos os sentidos, todo o sistema nervoso lhe está ligado, claro que a sua irrigação pelo sangue é fundamental, para isso todo o conjunto de órgãos do corpo têm importância, desde a hematose nos pulmões (transformação do sangue venoso em arterial, com a ajuda do oxigénio), até ao bombeamento do coração (órgão central da circulação sanguínea), que o leva a todo o corpo, passando pelo fígado com a sua função de secreção biliar e glicogénica, até ao pâncreas, aos rins e todos os aparelhos digestivo, respiratório e circulatório. Resumindo: Pode-se viver com um coração artificial, sem um rim, até sem um pulmão, mas nunca sem o cérebro.
        Mas tudo isto sabes muito melhor que eu. Perdoa-me se este (apenas ser humano), não tem razão no que diz, mas é a minha ideia, baseada na minha pouca inteligência e com muito pouco ou nenhum conhecimento de anatomia. Nem é minha intenção fazer a apologia do cérebro, apenas centrar nessa massa encefálica a sede da inteligência, do pensamento, do juízo, de todas as funções psíquicas, centro intelectual de onde imanam todas as ordens do corpo, enfim... A alma do ser humano.
        Essa alma que não creio que vá para lado nenhum depois da morte, faz-me sentir comoção ao ver o sacrifício de um peregrino em Fátima, porque respeito a fé dos outros. Mas também me faz comover de raiva e impotência, ao olhar as crianças morrerem de fome ou o desespero da morte nos campos de guerra. Não consigo ainda entender, o holocausto nem a angustia e a dor dos que sofrem injustamente, escravizados pela ambição desmedida de alguns e a ganância de outros, cegos pelo poder. Que esses fossem castigados pela providência, posso entender, enfim! Mas...”As crianças Senhor, porque lhes dás tanta dor, porque padecem assim?” como diz o poeta Augusto Gil.
       Sou um filho do universo e todos os dias agradeço ás estrelas, a ti, ou a alguém que me ouça, a cama onde durmo, a mesa onde como, o tecto onde me abrigo, a saúde que tenho. Mas sinto uma tristeza enorme, quando não me consigo fazer entender aos olhos dos outros, principalmente dos que me são mais queridos.
       Estou cansado de dar e pouco receber em troca, de sacrificar os meus ideais em prol dos outros sem respeitarem os meus. Estou casado de não ir onde queria ir, de não fazer o que queria fazer, de não ser o que gostava de ser. Tudo porque, confesso, além do medo que me assola de não querer fazer os outros infelizes por minha causa, talvez me falte vontade própria para concretizar tais intentos. Tomo como exemplo a minha vida de quarenta anos de trabalho, onde nunca fui compreendido nem compensado pelo esforço que fiz. Nunca fui devidamente aproveitado pela minha inteligência e arte, apenas explorado pela minha humildade e abnegação ao trabalho.
        Diz a astrologia que seres nascidos no dia em que eu nasci, nunca serão compensados pelo seu esforço e toda a vida trabalharão para enriquecer os outros. Não mata, mas desmoraliza muito, a ser verdade tal premonição. Depois de todos esses anos de trabalho, vivo agora por decreto, com um subsídio para que possa sobreviver, fazendo-me sentir um inútil e vivendo sem vontade, contendo-me nas exigências e sufocando de desejos e sonhos que nunca verei concretizados.
        Hoje tenho vergonha de olhar uma montra, porque sei que nunca comprarei o livro que gosto, a prenda que gostava de dar ou o filme que gostava de ver.
        Abdiquei de quase tudo, recolhi-me feito um eremita a um canto, rasgando os sonhos um a um, zangado com o mundo que muitas me faz pensar que não é o meu, desiludido com os amigos que pensava serem p’ra toda a vida, desiludido com muitas coisas que na minha vida particular acontecem e que pensei nunca acontecerem.
        Faz-me doer, em ter que contar as moedas para tomar um café, comprar o jornal ou um maço de cigarros. Sim cigarros, os eternos e mórbidos companheiros que nunca me deixam só.
        Por manifesta impossibilidade de o fazer hoje, dói-me muito, abdicar da Internet e fechar os olhos a essa janela do mundo. Abdicar de convívios sociais, do fado, do meu pecado da gula, do meu pecado (pecado?) do sexo. Poucas coisas me restam, como um cigarro e esta vontade de escrever, coisas a que nem sei se chamo poemas, mas mesmo que seja uma carta (a não sei quem), que me pudesse tirar estas minhas dúvidas existenciais.
 
                          Obrigado 

  

CARTAS DE SETEMBRO


 


CARTA AO SERRÃO


Ao amigo que não esqueço
 
 
 
 


Ermesinde, Setembro de 2007
 
 
       Amigo Serrão
 
 
      Sei que nunca vais ler esta carta, porque nunca a vou enviar, trata-se apenas de um desabafo ou de uma forma de te dizer o que sinto sem te ouvir nas críticas acutilantes que sempre fazes, que aliás, podem ser muito construtivas, mas que a mim, de nada me valeram. São sempre são sentidas pelo teu ponto de vista e nunca pelo meu. Falar de barriga cheia é simples! Para ti tudo é facilidades e tudo tem que ser como tu queres. Ou não vivesses tu nessa bolha de arrogância e perfeição, sem admitir os erros ou imperfeições dos outros.
       Conhecemo-nos pessoalmente numa livraria, embora te conhecesse de vista há muito tempo, ou mesmo de nome pelos amigos. Tinhas na altura, passado por um momento mau da tua vida, que tive conhecimento pelos jornais.  
        Encontrávamo-nos no café do bairro para leitura dos jornais, principalmente aos sábados. Já nessa ocasião, davas ares de figura importante e muita gente não te via com bons olhos. Mas eu gostava de conversar contigo e não via impedimento na tua condição de pseudo doutor. Talvez fosse precisamente pelo teu modo de ser, que conseguiste sempre safar-te dos casos duvidosos em que te enleavas e que punham os outros de pé atrás. 
        Posso compreender que tenhas o teu modo de pensar, todos temos o nosso! Mas confesso, que a maior parte das vezes não te entendo por mais esforço que faça. Se te falo das minhas dificuldades, que não me posso comprometer com nada no momento, tu insistes com a tua forte personalidade e modo agressivo de dizeres as coisas, que muitas vezes nem queres entender as minhas razões, és sempre tu que sabes e eu nunca sei nada.
       Adorava conversar contigo sobre cinema, literatura e outros temas, tu és uma verdadeira enciclopédia nesses temas, aprendi muito nessas conversas, mas sempre notava em ti um ar de superioridade de petulância até. Mas compreendia, é verdade que compreendia, quem não sente uma certa vaidade quando vê que está a ser superior a alguém? Aturava as tuas taras, sim taras, ou então que nome dás ao gesto que tiveste por exemplo, quando me obrigaste a pagar aquelas cassetes de vídeo, mesmo sem ter possibilidades para tal? Recordo como se fosse hoje:
       Tudo se passou naquela época, em que te dei a ideia de ordenares a tua fabulosa videoteca, com o filme junto do livro de onde foi extraído o enredo, o que quase sempre acontece. Como também estava a fazer o mesmo, embora numa escala muito mais pequena, houve um dia em que me vendeste 25 cassetes de vídeos com filmes repetidos que eu não tinha. Deste-me a possibilidade de tos pagar aos poucos e assim fui cumprindo (contigo não pode haver falhas...), como podia? Um dia em que não tinha mesmo possibilidades, falei contigo com a ideia de poder adiar o pagamento, que diabo! Éramos amigos (ou não?), mas tu foste irredutível e a única forma que arranjaste para solucionar o problema (depois de palavras bem agrestes, tipo: Não tens palavra, prometeste e agora falhas, etc., que muito me magoou), era que eu devolvesse a quantidade de vídeos igual ao valor em falta. Respirei fundo e já em casa, escolhi os filmes que mais me interessavam e devolvi-te os restantes (a minha vontade na altura foi devolver todos). Tu conferiste e assim deste por saldada a minha divida.
       Engoli a tua afronta, primeiro que afinal embora tenhas lido muito, não consegues compreender uma simples amizade. Depois, porque tinhas resolvido para mim, um problema que muito me preocupava sobre o tribunal e as finanças e como nada quiseste em troca... desculpei-te pelo favor que me fizeste, porque como diz o povo: Uma mão lava a outra. 
       Deitei tudo para trás das costas e continuei a ser teu amigo, até porque não te esquecias dos meus anos e mesmo no Natal, tinhas sempre um livro como presente e eu não tinha (nem tenho) nenhum amigo que me dê presentes. Por tudo isso, sacrificava os meus sábados de manhã para de lista em punho, procurar na loja de vídeos em Fernão Magalhães (o que me obrigava a pagar transportes), os filmes que tu querias para gravar.
       Depois precisaste de mim para ser tua testemunha abonatória em tribunal, pelo caso em que estavas envolvido. Nunca faltei (como chegou a fazer o Américo com atestado médico), mesmo com prejuízo no trabalho, pois era-me descontado as horas que perdia para esse efeito, de cada vez que lá ia e foram muitas as vezes. Até que um dia...
      Depois de mudares a tua vida e estar algum tempo sem te ver, continuaste a enviar-me alguns livros pela tua filha, enquanto continuávamos a falar agora pelo telefone. Soube então que estavas bem e eras agora uma espécie de consultor de uma editora, convidaste-me (sabendo que eu tinha alguma coisa escrita e registada na SPA), para fazer parte do livro “Novíssimos” que a tua editora ia publicar, dando oportunidade a novos autores e poetas (letristas no meu caso), para serem editados pela primeira vês. Delirei com a ideia e logo escolhi meia dúzia de coisas para te mandar como me pediste, grato pelo convite e eufórico por ser finalmente editado. O pior veio a seguir... Eu sei que nada se faz de graça, mas a minha alegria era tanta à mistura com muita ingenuidade, que aceitei os requisitos que me impuseste e fui enfrente.
      Para fazer parte de uma pequena edição de 1000 exemplares, era obrigatório cada um dos 30 autores como eu, ficarem com 30 exemplares cada e paga-los a 1.750$00 cada. Ora 30 vezes 1.750$00, dava 52.000$00 que manifestamente eu não tinha. Embora para ti (Deus da facilidade), eu tinha que ter... Quem não tem? Mesmo assim, depois de conversarmos, fizeste-me o grande favor de aceitar essa verba em 3 prestações. Tu nem imaginas o sacrifício que fiz para conseguir pagar-te, porque sempre penso que vives num mundo superior, onde tudo são facilidades e não podes, nem queres, entender os pobres mortais. Sou humano, peco, perdoo, rio, choro, vivo e tenho que me alimentar a mim e aos meus. Não posso pensar no supérfluo, a minha vida tem sido de trabalho, não tenho carro, não tenho muita coisa que gostava, mas tenho o dever de olhar pelos meus e a legitimidade de ser como sou, mas não entendes... mas eu pensava sempre que tu entendias. És culto, lês-te muito, sabes mais das coisas (saberás?), nasceste possivelmente em berço d’oiro e sempre mantiveste um padrão de vida média-alta (pelo menos aparentemente...) só que em relação aos terráqueos mantinhas uma distância de ser superior.
      Muitas vezes penso, que mesmo quando tens um gesto de dádiva para com alguém, é sempre com ares de grande senhor, como se estivesses a fazer um grade favor à humanidade. Ora eu, na minha insignificante existência também penso e ao fazer contas vi: Que os 1000 livros editados foram todos pagos e nenhum de graça, sim porque 30 vezes 30 é igual a 900 e com 30 oferecidos (3 a cada um dos 30 autores), apenas sobraram 10 para ofertas pessoais e publicidade. Como uma edição de autor com 1000 exemplares fica por 700.000$00, esta deu muito lucro pois ficou por 1.750.000$00.
         Par te poder pagar a terceira e última das prestações, tentei pôr à venda (à consignação), alguns desse livros na livraria do bairro, que não aceitou a minha oferta e eu fiquei com todos na estante para oferecer aos amigos.
         Enfim, consegui pagar-te tudo, nada te devo.  
         A par deste caso, fomos conversando sobre a possibilidade de poderes editar dois livros que eu tinha prontos. Um com 100 letras de fados meus e outro (uma novela), sobre o fado na cidade do Porto.
        Entretanto como tinhas saído da tal editora e agora eras sócio de outra, mostras-te interesse e disseste-me, que havia agora mais possibilidades de meus livros serem editados. 
        Depois de tos enviar pela tua filha para tua apreciação e como passou tanto tempo sem o fazeres (ou não tinham mesmo interesse nenhum e nem sabias como mo dizer), falei-te em reavê-los pois tinha que ajustá-los de novo ao tempo, uma vez que num deles, existe uma lista de nomes ligados ao fado e que entretanto tinha crescido.
        De novo te enviei o primeiro pela Cati, depois de te ligar para te informar que estava a trabalhar no segundo. Mais tarde, liguei-te novamente para saberes que estava pronto e ia mandar-to, disseste-me que o 1º tinha muitos erros e que logo que verificasses também o 2º, telefonarias a marcar um encontro, para falarmos sobres a rectificações necessárias agora nos dois.
       Fiquei à espera desde de Maio de 2006, hoje são 12 de Setembro de 2007...
        Tenho consciência que não sou nada como escritor, nem sequer tenho pretensões a isso, no entanto, confesso que sonhei um pouquinho com a possibilidade e o sonho de ser editado.
        Tentei com uma carta que enviei ao responsável pelo pelouro da cultura da Câmara de Valongo, a possibilidade do patrocínio de um dos livros “À Janela do Fado” o tal que fala da vivência do fado no Porto. Não fui atendido, paciência!
        Quis saber o custo de uma edição de autor e pedi que me enviassem orçamentos a várias tipografias. A verba rondava sempre os 350.000$00 para 500 exemplares. Mas claro que eu não tinha, nem tenho esse dinheiro e fiquei á espera de melhores dias, mas a minha relação com o dinheiro é muito fraca... e fui perdendo a esperança.
        Vou escrevinhando algumas coisas, imprimo para guardar em arquivo, gravo em disquetes para desafogar o disco duro e fico com a remota esperança de um dia (quando já não andar por cá) os meus filhos ou netos os leiam.
       Não fora o meu modo recatado de ser, em não gostar de palcos nem protagonismos (mais uma das coisa que criticas) e talvez já tivesse tido essa oportunidade de ver um livro meu publicado. É que ás vezes o que é preciso é ter lata, saber-se encostar aos que podem, frequentar o meio, esperar uma oportunidade, bajular ás vezes e consegue-se. Ou não anda por aí tanta gente armada em intelectual de meia tigela?
        Quanto a ti, estou-te grato pelas oportunidades que me deste e que decerto eu não soube aproveitar.
        Obrigado pela tua ajuda e cá debaixo do teu pedestal te saúdo. Ave Serrão!
 
       Um abraço do amigo
          Manuel Carvalho
 

CARTAS DE SETEMBRO


 




CARTA OU INVENTÁRIO
 
Aos principais interessados
 
 
 


Ermesinde, Setembro de 2007
 
 
          Amigo inventariante
 
        
         A pretexto de um inventário para actualização de apólice de seguro do recheio de casa, muni-me de papel e lápis, e fui de sala em quarto tomando nota do meu património. Era pouco e de baixo valor, apenas inflacionado pelo valor estimativo. Não se tratam de grandes peças de mobiliário, caríssimas antiguidades, quadros famosos, louças finíssimas, roupas de marca, tapeçarias ou luxuosos objectos de decoração, carros, propriedades ou acções da bolsa. Não, são apenas coisas simples, ganhas e pagas (muitas vezes a prestações) com o trabalho de uma vida. Não seriam totalmente aquelas coisas que adorava de ter, mas são coisas e objectos especiais que para outros seriam decerto banais ou mesmo pindéricas.
      Tirando o mobiliário normal dum quarto ou duma sala, as roupas necessárias para cama ou de vestir, os apetrechos inerentes e electrodomésticos imprescindíveis numa cozinha, os aparelhos de imagem e som normais de lar modesto, restavam aquelas coisas de intimo valor, que não sei se valeu a pena ter adquirido ao longo do tempo, pois embora tivesse incutido aos filhos o seu intrínseco valor, via com grande tristeza que não lhe davam a devida importância, contrariando aquele dito antigo que para a educação das crianças, conta muito o exemplo que se dá.
      Duma biblioteca de mais de mil e quinhentos volumes de vários autores, de uma biblioteca musical com mais de oitocentos CD’s e de uma videoteca de mais de mil e duzentos filmes gravados em cassetes, poucos, muitos poucos mesmo leram, ouviram ou viram. Tirando o cinema que um deles vê e gosta, outra que gosta mas não vê e outra que vê mas só lhe dá uma importância relativa. Nenhum deles alguma vez leu, a não ser (em percentagem), de um a dois livros em 30 anos.
       Põe-se a questão: Para onde irá tudo isto amanhã, para o lixo? Doado a uma biblioteca? Haverá uma instituição cultural que receba este acervo? Não consigo imaginar os filhos a dividirem entre si tudo isto e darem aos netos para enriquecer o seu intelecto. As crianças hoje têm todo o saber digitalizado, para que querem um livro? É muito mais estimulante um jogo de vídeo que um bom filme. Um aparelho de mp3 ou um telemóvel com música, do que o obsoleto vinil ou cassetes.
       Sempre desejei, tudo aquilo que todos os pais desejam, a felicidade dos filhos. Nunca impus que fossem doutores e sempre lhes dei a liberdade de serem o que quisessem ser. Também não tive recursos para lhes dar melhor do que dei! Mas tenho a certeza absoluta que lhes dei o meu exemplo, pela educação, pelo trabalho, pelos valores da amizade, do amor e da verdade. Sei que os genes dos filhos também são os da mãe e talvez os dela se tenham sobreposto aos meus. Devem ter herdado do lado materno, um pouco do desprendimento pelas coisas cultas, pelas artes, pela literatura. Também o lado agressivo com que enfrentam qualquer problema que se lhe depare na vida. Não herdaram de mim a vergonha, a serenidade, a discrição, a calma.
      Dentro dessa minha serenidade, vou tentar viver o tempo que me resta a pensar: Que façam o que acharem melhor com tudo que lhes deixo.
      Ficam neste inventário:
      Livros de guerra, romances, erotismo, policiais, históricos, aventura, colecções de diversos autores portugueses e estrangeiros.
      Música diversa, principalmente fado, em vinil, cassetes e CD’s. Fados de minha autoria gravados por muita gente ao longo dos anos.
      Filmes gravados em vídeo, portugueses e estrangeiros, de guerra, western’s, policiais, aventuram, eróticos, dramas e comédias. 
       Algumas colecções de filatelia, fluminismo e numismática, cromos, jornais, chávenas, copos.
       Enfim, tudo em que gastei com meus proventos em vez de comprar um carro, ser sócio do FCP ou viajar pela Europa a ver os jogos dos campeões europeus. Mas será que era mais feliz? Será que fazia os meus mais felizes? Se calhar fazia, a avaliar por muita gente que conheço.
       Entretanto em 2010, fiz uma lista que ainda possuo e doei à Biblioteca de Ermesinde 1.000 livros. Mandaram uma carrinha da Junta cá a casa e levaram tudo em caixas de cartão. O Presidente da Junta nem me agradeceu, apenas um email que dizia assim:
 
«Exmo. Senhor
Serve o presente para agradecer a oferta dos livros que, amavelmente, fez para a Biblioteca da Junta de Freguesia de Ermesinde.
Grato pelo importante apoio concedido para o enriquecimento do nosso espólio bibliotecário apresneto os melhores cumprimentos.
 
Por delegação do Exmo. Sr. Presidente da Junta
O Tesoureiro
Romeu Maia» 
 
 
        Um braço amigo inventariante
 

CARTAS DE SETEMBRO

 






CARTA AO VERISSIMO
 
Aos meus colegas de 26 anos de trabalho
 
 
 

Ermesinde, Setembro de 2007
 
 
        Sr. Veríssimo
 
        
        Além de ser levado pela ganância, empurrado pelo “Cavaquismo” e possuidor duma ignorância a toda a prova, sem educação ou aptidão para gerir seja o que for, ingrato para quem o ajudou a enriquecer o seu património, melhor não se podia esperar dum homem inculto e desprovido de personalidade. Reles, mentiroso e muitas vezes cruel, odiado até pelo filho (herdeiro da sua ganância) e incapaz de saber distinguir aqueles que o quiseram ajudar nas más horas que passou, na empresa que fundou com a ajuda do sócio Manuel Moreira, esse sim, pilar fundamental da firma de publicidade  Moreira & Verissímo, que com a sua saída provocou o a derrocada final, numa empresa pioneira e em franco progresso, mas que não soube acompanhar as novas tecnologias do mercado e oportunidades do momento em causa. E porquê? Eu conto, pela experiência de 26 anos ao serviço da empresa:
 
1982 — Os primeiros 3 anos foram de sacrifício, de trabalho sem condições ao frio, ao sol e muitas vezes desenhando em mesas improvisadas com pingos de chuva a caírem, etc. Mas sempre na ansiedade de conquistar melhorias nas condições de trabalho e benefícios salariais, uma vez que era a única empresa do sector na cidade. Havia naquele tempo um bom lote de profissionais, considerados por muitos como verdadeiros “artistas”. É deste viveiro que mais tarde (anos depois), vão nascer empresas que chegam a fazer uma forte oposição comercial.
 
1985 — Nos 5 anos seguintes, melhoraram as condições, agora com estiradores e material (que até aí era pago pelos próprios trabalhadores), e instalações de mais qualidade. Começaram a haver aumentos bianuais de salários, gratificações no Natal e almoço anual. A produção aumentou e entrou mais pessoal, chegando a trabalhar na empresa 25 pessoas.
 
1990 — Nestes 8 anos a seguir, foi a entrada no mundo da informática, um passo gigante na vanguarda do sector de produção. Desenho computorizado com programas específicos para corte em plother. Máquinas de fresagem e corte de esferovite em grandes volumes. Impressoras de jacto de tinta para grandes e pequenos formatos. Aquisição de grandes instalações para camiões de grande tonelagem. Aumento de postos de trabalho que atingem nesta altura 30 empregados. Aumentos anuais de salários, gratificações na Páscoa e Natal, almoço anual e distribuição mensal de senhas de refeição.
 
1998 — São os 3 anos onde vai começar a descalabro. A sociedade que até então era de dois sócios, dá lugar a mais dois (os filhos). Descapitalizam a empresa com obras megalómanas. Novas instalações para: Escritórios, sala de reuniões e 4 gabinetes de luxo, orçado em mais de 20.000 contos. Central telefónica no valor de mais de 1.000 contos. 4 Automóveis comerciais para a gerência no valor de 9.000 contos. Modificação total da identidade da empresa desde simples cartões à publicidade nas viaturas, com custos acrescidos de mais de 1.000 contos pagos a um designer particular. A partir desta altura terminam os aumentos salariais, acabam todas as gratificações e terminam os almoços anuais da empresa. Os sócios da empresa, passam a auferir os quatro, 2.000 contos mensais. O pessoal eventual (a recibo verde), é afastado e os 16 que ficam, recebam no total ao fim do mês 1.600 contos (menos que os 4 gerentes). É desviado da empresa materiais e serviços que não são contabilizados e dois dos sócios abrem empresas paralelas. Cava-se um buraco orçamental a empresa fica descapitalizada e a “crise” instalou-se. Enquanto isso, o património particular aumenta com: Automóveis topo de gama. Casas de luxo. Apartamentos no Algarve. Viagens ao estrangeiro de férias, pagas pela empresa. Motos de grande cilindrada para filhos e netos. Telemóveis topo de gama para toda a família. Passagens d’Ano e festas de Carnaval no estrangeiro. Desorganização total na empresa.
 
2001 — São os 5 anos da “Crise”. A sociedade é desfeita e três sócios abandonam a empresa, o único que fica não tem capacidade organizativa, nem sabe gerir os destinos da empresa. Desmoralizado e vitima do sucedido, arrasta a empresa para o caos, desmotivando os trabalhadores e a coberto da “crise”, e não querendo mexer no seu património particular, nem arranjando novas vias de saída da crise, perdendo 80% da carteira de clientes para outras empresas que entretanto foram abrindo ao mercado. Rodeia-se de pessoas que mesmo tentando erguer a empresa, ele começa a ser o obstáculo principal com a ideia predefinida de levar a empresa gradualmente a fechar. As dívidas à banca, ao estado e a fornecedores acumulam-se. Os salários começam a ser pagos em duas e três prestações. A desmotivação é total, não há ninguém que venda e a produção cai mais de 70%. Os filhos com medo de verem lapidado o património particular do patriarca, fazem reuniões sucessivas para venderem a empresa que no momento tem um passivo superior ao activo. Todas as tentativas saem frustradas e para não fechar a empresa, com dívidas por todo o lado, recorrem a mais credito e tentam fazer uma reestruturação, com o despedimento de mutuo acordo, com 5 dos 12 trabalhadores actuais na empresa e com os salários mais altos, apesar de não terem qualquer aumento nos últimos sete anos. Entregando nas mãos da Segurança Social e do Fundo de Desemprego o destino das pessoas, na da taxa etário de 35 aos 60 anos.
 
2007 — Afinal a tão esperada reestruturação nunca chegou. O gerente que não quer, nem sabe gerir, vai levando dia a dia a empresa ao caos. Mesmo na hora de vender a empresa e tentar que o M&V sobreviva, “rói a corda”, insulta os compradores e abandona as negociações, cego pela estupidez que sempre o caracterizou (que o digam, clientes, fornecedores e todas as pessoas que tentavam um diálogo civilizado), para desespero das próprias filhas que ainda pensavam conseguir uma saída para a crise. Com um total desprezo pelas pessoas, deixa a empresa afundar depois de penhoras sucessivas e fecha as portas definitivamente em Fevereiro, pedindo a ajuda do filho que tanto caluniou e culpou pelo descalabro da firma, pois nem para declarar falência o “gerente” teve habilidade. Os poucos empregados na altura, encontravam-se agora com a carta de despedimento na mão e palavras a abater ao débito de 3 meses de ordenado. Outros com quem assinou compromissos ficam de mãos vazias. Foi o fechar de um capitulo da era da publicidade na cidade do Porto. Aquela que tinha sido a empresa pioneira, com credibilidade no mercado, “MÃE” de muitas que hoje existem, fechou as portas da pior maneira.
                         Paz à sua alma!
 
                        Manuel Carvalho
 
(empregado nº7, apesar de em 2005 ser o 2º mais antigo na empresa, mas... a ordem era por nome, para que Álvaro Pinto [afilhado e sobrinho], ficasse em primeiro e o mais antigo, Gerado Ferreira e eu Manuel Carvalho, ficasse afastado, até nisto...)
 

CARTAS DE SETEMBRO





CARTA ÀS MULHERES
 
Ás interessadas
 
 
 
 
Ermesinde, Setembro de 2018
 
 
          Amiga 
 
 
Fetiche é uma condição na qual alguém é sexualmente fixado num objeto inanimado. Pode ser um salto alto, uma linda lingerie ou uma parte do corpo. Os fetiches sexuais ganharam visibilidade sem receios ou vergonhas e hoje são opções preferidas de homens e mulheres. Inclusive, uma das dicas que os sexólogos dāo para melhorar a nossa vida sexual, é sempre experimentar novas sensações.Não se deve ter medo de se soltar e colocar em prática seus fetiches, saiba que não deve haver tabus quando o assunto é sexo! Desde que haja satisfação mútua com o seu parceiro, ter um fetiche pode apimentar a relação e deixar a vida sexual mais prazerosa.
Dos maiores fetiches na sexualidade é sem duvida a lingerie, pela sua textura, a seda o cetim e o nylon, sempre foram como peças íntimas da mulher, um fascínio e uma arma de sedução.  A lingerie, essa segunda pele teve os seus registos na Grécia Antiga. Naquela época, as mulheres usavam uma faixa de tecido em torno do tórax para sustentar os seios e peças parecidas com fraldas de algodão na parte inferior do corpo. Os sutiãs e calcinhas conhecidos atualmente surgiram apenas no início do século XX. Até então, ainda se utilizava espartilhos e crinolinas. As primeiras roupas de baixo tinham como função principal redesenhar a silhueta feminina. A peça de destaque era o espartilho, criado para ser usado sob trajes e vestidos. As mudanças trazidas por este novo contexto industrial não foram suficientes para inaugurar um caráter erótico proposital nas roupas íntimas femininas. Afinal era a praticidade a nova ordem em questão. Isto significa que as peças mantinham seu caráter erótico natural devido à região que veste, porém não teria nenhum apelo proposital para lembrar o sexo, ou seja, um caráter de sedução.
Através de cartões-postais, imagens de mulheres seminuas eram veiculadas. Estas eram prostitutas que posavam em poses sensuais para atrair os olhares masculinos. Nota-se que o caráter erótico-sedutor não se dá em qualquer corpo feminino, mas apenas ao da prostituta.Esta separação entre as duas figuras femininas, esposa/mãe/dona-de-casa e prostituta, constitui uma forte representação para as mulheres desde finais do século XIX, e presentes até grande parte do século XX. Estas representações femininas não separam apenas suas funções sociais, mas também suas funções corporais: o corpo do prazer e o corpo maternal.
Um jornalista brasileiro descreve assim a sua relação com a mulher amada, a sua mulher ideal:
 
A MINHA MULHER IDEAL
 
Quando uma mulher te ama, é capaz de tudo.
Ela compreende-me, a mulher que adoro e veste-se com a lingerie mais sexy, agora sim, não é só nas revistas ou no cinema, não é só nas fotos da net ou da PlayBoy, agora posso ter uma mulher linda, de cinta liga que prende as presilhas ás meias de seda, que veste uma calcinha de seda cheia de glamour, que põe um sutiã de renda justo nos seios lindos. Amo essa mulher glamourosa, que solta o cabelo num gesto unicamente feminino, que veste uma camisa de noite em seda até aos pés cheia de lacinhos e rendas, que acende velas na mesa num jantar a dois, que dispõe velas de cheiro pela casa, que regula a luz o mais suave possível e me chama para jantar.
Essa mulher me entende, deixa-me beijá-la com amor e desejo, deixa-me lamber-lhe as entranhas em fogo e faze-la vir, alcançar o supremo dos orgasmos com a minha boca e dar-lhe um mais pleno dos gozos. Meter-me dentro do seu corpo, fazê-la gozar até lhe mostrar o céu e por fim vir-me dentro dela, ungindo com meu amor supremo e que une uma mulher a um homem. Ela adora o seu homem, que lhe dá o maior dos prazeres no máximo da sua virilidade, que a leva ao infinito do prazer como nunca nenhum homem a levou. Que importa as suas fantasias... Ela também as tem e ele, todas as satisfaz com amor e loucura, esse é o seu homem, eu.
 
                                                                                            Celso Fernandes
 
Como diz o Celso Fernandes:
“...agora sim, não é só nas revistas ou no cinema, não é só nas fotos da net ou da PlayBoy...” É verdade, a maioria de nós só nesses registos teve acesso a mulheres assim vestidas, a nossa mulher, normalmente não tem o discernimento para tal e fica até ofendida se falamos disso... Claro que as novas gerações (penso eu) não se ofendem quando na intimidade se fala do uso da lingerie, mas antigas gerações, pela educação castradora que tiveram, dizem até frases como a que jà ouvi: “Não gostas do meu corpo?... E assim dormem de pijama de flanela. Não adianta oferecer uma camisa de noite que nunca vestem, ou o aquele body em cetim e renda que a amiga lhe ofereceu pelos anos, que foi arrumado na gaveta para sempre...
Regina Navarro, sexológa  brasileira, vai mais longe e define o tamanho, o tecido e a cor da calcinha como sendo senhas. Senhas essas que revelam a identidade erótica de quem a veste. Entre brancas, amarelas, rosas, vermelhas e pretas, temos um leque de intenções, personalidades, sofisticação e ousadia. A amarela, por exemplo, pode dizer de alguém que não quer ter relações sexuais. Já a rosa diz de uma pessoa romântica e presa em ideais. A preta é sofisticada, poderosa e mal intencionada, mas não menos que a vermelha.
Enfim, Fetiches... Ou não!

ENQUANTO ME LEMBRO...