terça-feira, 3 de novembro de 2020
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA AO HELDER PACHECO
Tudo começou nas décadas de 30/40 com as construções do “Mosquito”. O suplemento desta revista aos quadradinhos, trazia para construir aviões, barcos, casas, etc. Tratavam-se de folhas que se colavam em cartão, recortavam-se pelo tracejado, dobravam-se pelas patilhas e colavam-se as peças até construir o modelo pretendido. Mas nem todos os possuidores da revista tinham a habilidade necessária para a execução dessas pequenas obras de arte. Foi assim que o meu pai, na mesa da sala da pequenina casa onde vivíamos na Rua da Glória, nº 47 (que ainda existe), ia construindo os modelos para todos os rapazes lá da rua a troco de uma moedas. Tinha também, o tal jeito para desenho que era muito apreciado nesse tempo, na litografia, na estamparia de tecidos, na publicidade, etc. que hoje não se dá muito valor com o aparecimento das novas tecnologias, com programas próprios em computadores que põem a desenhar qualquer um.
Fundada em
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA AO LUCIANO SOBRE LUANDA
Ao melhor amigo que encontrei na vida
militar
Ermesinde, 11 de Novembro de 2007
Amigo Luciano
Faz hoje 35 anos que não
nos vimos!
Nesse dia longínquo de Novembro de 1972,
despedimo-nos à porta de armas do Quartel do RAAF em Queluz, já vestidos à
civil e com o documento carimbado da nossa passagem à disponibilidade no bolso.
Demos um abraço forte, trocamos endereços e desejamos um ao outro, felicidades
com um até sempre! Estávamos com pressa, eu de apanhar o “Foguete” para o
Porto, tu de apanhares o barco para o Barreiro.
Nunca te escrevi, tu foste mais corajoso
e passados alguns meses, mandaste-me dizer que casaste com a Rosa, enviaste-me
até uma foto do vosso enlace. Quando em 1997, o nosso amigo Pinho me convidou
para ir a Lisboa, a um encontro comemorativo dos 25 anos do nosso regresso do
ultramar, aceitei, convencido que te encontrava. Apesar de rever muitos dos
nossos amigos, aqueles que com nós passaram pelo mesmo limbo na vida, tu não
apareceste por qualquer motivo e eu fiquei triste. Claro que abracei e
relembrei momentos vividos, com o Franco, o Liberato, o Vicente e muitos outros
mas... faltavas tu meu amigo, era contigo que eu gostava ter falado daqueles
tempos, dos momentos que vivemos, dos livros que lemos, dos filmes que vimos,
da poemas que escrevemos, da cidade de Luanda que palmilhamos rua a rua.
Lembraste do Bowling em Alvalade, próximo
à Igreja da Sagrada Família, enfrente ao Hospital Militar, ao lado daquela
esplanada onde tantas vezes estivemos? E a Praça da Maianga onde apanhávamos o
“Machimbombo” para a praia, ou Berliet para a Base. Ali era a baixa, onde
haviam as montras da “Saratoga” e outras casas chiques. Onde havia o Museu de
Luanda, o fotografo “Salvador” e o “Bitok” onde comíamos os Chocos com tinta.
Onde jogávamos xadrez na “Biker” e bebíamos uns bons finos na esplanada da
“Portugália”, acompanhados de um pires de dobrada, mesmo enfrente à elitista
“Versalhes”. Logo por trás, havia o “Campino” que tinha umas moelas deliciosas
em pratos de barro?
E o Mercado da Maria da Fonte, onde por
50 escudos, comprávamos um quilo de camarão para comer na cantina da Base
Aérea, acompanhados de uma grade de cerveja Nocal, Cuca, ou a Eka, “a loira
tropical”. Aquele Praça onde tinha a estátua da Maria da Fonte e começava
aquela grande avenida dos Combatentes. Passamos lá tantas vezes a caminho em
busca de prazer nas meninas do B.O. (Bairro Operário). Depois parávamos na
cervejaria “Apolo 11”
para mais um fino e um pratinho de camarão que era oferta?
Recordaste dos passeios que dávamos pela
Baía, que ao pôr-do-sol era maravilhosa, com a sua avenida marginal, as
palmeiras e as esplanadas?
E da Ilha de Luanda quando íamos para a
praia do “Tamariz” ou da “Barracuda”. E
naquelas noites de calor, quando íamos comer um caldo-verde no
restaurante do “Ti Maria Conceição”? E a praia de Belas, com palmeiras pelo
areal e o cheiro a peixe na seca, ou o cheirinho bom a banana assada nas
fogueiras da praia? E a “Restinga” onde havia aquele buteco o “Tá-Mar” que
quando havia mais dinheiro lá entravamos para um copo. Recordo-me de outros
como: o “Acrópole”, o “Lorde”, o “Muxima”.
Lembraste do futebol nos “Coqueiros” e do
Hóquei em patins no “Ferroviário”? E os passeios pela Fortaleza, pela Sé, onde
haviam aquelas ruas estreitinhas, onde descobrimos o bom bacalhau no
“Floresta”?
Lembraste dos cinemas ao ar livre como o
“Miramar” e outros, onde víamos um bom filme acompanhados de uma CUCA? E o
“Restauração” onde vimos o Percy Sleid, a Elisabete, o Nelson Ned e outros
cantores. O Teatro “Avenida” onde nos deliciamos com tantas peças de bom
teatro, como “A Ratoeira” da Aghata Cristie que desenhei o logótipo?
Recordaste, quando um de nós recebia um
envelope azul (Valor declarado) com dinheiro e logo íamos defronte à Base, ao
Bairro Salazar, comer um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo, com uma
cerveja e só custava dezassete e quinhentos? E no dia seguinte íamos gastar ao
“Casão” comprando volumes de cigarros? E a cantina onde fazíamos campeonatos de
Dominó que o Seixas ganhava sempre? Nessa cantina que ao fim do mês para pagar
o débito era um problema com os mil e duzentos escudos que ganhávamos de prémio
de especialidade. Dos vinte e cinco tostões por um lugar no Cinema da Base ao
ar livre, parecido com o de Grafanil, esse campo militar onde vivemos em tendas
montadas na terra, durante quatro meses a comer cabeças de peixe frito nas
cozinhas ao ar livre, com as moscas a zumbir e a chuva a cair. Onde enjoamos a
compota de maçã no café da manhã, naquelas canecas de alumínio sem asa e com os
dedos tapávamos os furos deixados pelos cravos?
Sabes, ás vezes consigo fechar os olhos e
sentir aquele cheiro de Luanda, ver a terra vermelha do Bairro do Prenda e os
olhos cor de avelã da Mimi (a arrumadora no teatro). Consigo ainda ver aquela
cor de pele linda que a Nandinha tinha (a empregada da pensão na Rua de Serpa
Pinto, onde passamos com o Rodrigo e o Franco as férias). Ainda ouço as piadas
do Franco, com aquele seu peculiar humor, ou o Vicente a distribuir o correio.
Lembro todas estas coisa boas, as más? Não
quero lembrar, tu também não decerto não queres!
Perdoa amigo, esta carta já vai longa.
Recebe um abraço do Carvalho com muitas
saudades de Luanda.
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA AO SILÊNCIO
Ermesinde Setembro de 2019
Senhor Silêncio
Ouvir o silêncio é fazer descansar o espírito. De quando
em vez sabe tão bem! Ficar distraído, de olhar distante, vazio, sentir o corpo
lentamente esvaziar até quase deixar de ouvir o respirar.... Depois, escolher
um dos dois caminhos:
Aquele em que
imaginamos uma paisagem enevoada, em tons de cinzentos, cada vez mais ténues
como brumas, e nos vai levando de montanha em montanha cada vez mais longe,
voando ao sabor da brisa, mais e mais, até ao vazio total do pensamento (o mais
difícil de atingir), porque há sempre algo que nos preocupa, que ocupa a nossa
mente.
Ou então
aquele que nos leva a uma introversão, ou seja, uma concentração de espírito,
um recolhimento íntimo da alma, a uma introspecção. Resumindo: Um exame ao
nosso interior... Pensar em quem somos, para que somos, pensar em quem amamos,
pensar nos nossos sonhos, nas nossas legítimas ambições. Enfim, meditar.
Numa dessas
ocasiões quase chorei, quando me senti tão abandonado, que tive tantas saudades
de mim!.. Do tudo que fui, de tudo que fiz. E perguntei-me:Onde estão aquelas
dezenas de amigos, que me acompanharam nos ralis, nos passeios, nos jantares,
nos fados, nas horas bem passadas em francos convívios!? É grande a minha
tristeza, por não ter sabido preservar essas amizades, (ou não seriam!).
E aqueles que
estavam a meu lado nas horas más que tive, na guerra, na traição, na falência,
nos momentos infelizes!? Será que nem a esses eu soube ser grato?
Depois, bem!
depois vem sempre o cansaço, porque o silêncio também cansa. Então, para nos
encontrar-mos, nada melhor que a nossa música preferida, muito baixinho nos
auscultadores, até acordar lentamente o silêncio, e voltar-mos à triste (quase
sempre) realidade da nossa vida. Àquela
por quem lutamos dia a dia, numa luta constante pela sobrevivência, tentando
não ferir aqueles de quem gostamos, e principalmente tentando ser feliz, que é
das coisas mais difíceis que existem. Embora por vezes, por tão pouco, a
felicidade era tão simples: Se nos contentasse-mos com o que temos; Se nunca
fizesse-mos aos outros, o que não queríamos que nos fizessem a nós; E
principalmente, se fizesse-mos um pequeno esforço para compreender os
outros!... A vida seria com toda a certeza bem melhor, e nós éramos mais
felizes.
Mas...Existem muitos momentos na vida que
estamos sós, alguns mesmo irremediavelmente sós. E embora haja muitas formas de
solidão, das piores que existe, é aquela em que nos sentimos sozinhos no meio
da multidão. Quando gostamos daquilo que
os outros não gostam, ”Não devíamos de gostar, de quem não canta a mesma
canção” ( Diz o Rui Veloso, nas palavras de Carlos Tê) nem fazem um esforço
para gostar; Quando temos sentido de
humor, e tentamos contar uma anedota que ninguém a compreende; Quando ninguém
gosta de ler Eça, Steinbeck, Jorge Amado ou Garcia Marques, e assim não podemos
lê-los juntos; Quando ninguém gosta de Sinatra, Betânia, Strauss ou Beethoven,
e não os podemos ouvir juntos; Quando ninguém gosta de Woody Allen, Clint
Eastwood ou De Niro, e nunca podemos ver esses filmes juntos; Quando não gostam
de ir ao teatro, ouvir poesia ou visitar um museu, e só vibram com um jogo de
futebol, uma telenovela, um mexerico; e nunca com o mistério dum bom filme
policial!... Com a beleza de Melanie Griffith ou o talento de Al Pacino. Por
tudo isto, é que estamos sós no meio de tanta gente.
Por tudo isso é que se faz poesia, por
tudo isto é que sofremos com o que escrevemos, tentando pôr no papel, esta
amálgama de sentimentos que nos rói a alma, este sentir que sentimos tanto. E é
por isto tudo que vivemos a vida com
paixão, sensíveis a tudo, até ao amor que não nos dão; Ás traições que nos
fazem; Até ás lutas que travamos e ficamos sempre prejudicados, só para que os
outros não sofram, porque gostamos da vida e de todos; Dos filhos e do Sol; Da
chuva e de pasteis de nata; Da Lua e dum cigarro; Do nevoeiro no Douro e dum
café bem tirado; De tudo, tudo, até de quem de mim não gosta.
Por isso temos necessidade de escrever, e
escrever... É um acto solitário. Entre o monitor e o teclado, apenas o
pensamento voa no espaço do silêncio, amontoando letras do alfabeto em palavras
, frases em conceitos, textos em narrativas. Levados pela imaginação, vamos
gerando no papel sentimentos que
transmitimos aos outros nas mais
variadas formas.
Vestir a pele do criminoso da vitima e do
detective num livro policial, conseguir caminhar ao lado da personagem que criámos, dar-lhe vida, amá-la e matá-la, ser
o dono do seu destino; Ir onde se quer em qualquer altura, viajar com quem se
quiser a qualquer momento; Ser-se bom ou cruel; Rico ou pobre; Fazer-se tudo
que nos der na ideia, até amor... com quem passamos a vida a sonhar. Descrever
uma paixão, só o consegue quem esteve apaixonado. Descrever o acto de fazer
amor é difícil se não se disser as palavras todas, como na pornografia tão
difícil de escrever, que o digam Cassandra Rios, ou Dallas Mayo, pseudónimos de
grandes escritores, de grandes novelas pornográficas conhecidas no mundo
inteiro, perseguidos pela censura, falsos moralistas, beatas e mulheres
frustradas.
O amor e a poesia, andaram sempre de
braço dado, não gosto dos poemas que falem de morte ou desgraça. Todas as paixão que tive, foram
fontes de inspiração para mim. É maravilhoso ouvir em público, cantar um poema
nosso, e saber que ninguém sabe a quem se referem aquelas palavras, só eu sei
mais ninguém. Algumas quadras emendei-as, à última hora, num último instante,
pois denunciavam indiscretamente a quem se destinavam, mas guardo na memória o
original. Depois, as letras que faço e que cantam, contam uma situação, levam
uma mensagem:
Se pudesse alguém pesar/O amor que a gente sente
Teu amor para meu pesar/Pesava mais porque mente.
E se mesmo assim depois/Negasses o resultado
Eu mentia pelos dois/Só para te ter a meu lado.
Ou assim:
És alma gémea da minha/Gostas de tudo que eu gosto
Tu podias ser só minha/ Mas não és para meu desgosto.
Ou ainda assim quando partiste:
Nem adeus me disseste/ Um beijo apenas me deste/Tão leve que o ar levou
Com a pressa que partiste/Em maus olhos
tu nem viste/A saudade que ficou.
Ou assim quando voltaste:
Tu voltaste finalmente/Agora sim
sou feliz
Não há passado, o presente/Nasce quando tu sorris.
Ou assim este recado:
Nada nem ninguém pode entender/O
que me vai na alma de momento
Só eu a conheço e ando a viver/Este amor inconstante como o vento.
Quando vier o frio me gelar/Os lábios da boca que a beijou
Em gavetas vai decerto encontrar/Poemas seus que o
vento não levou.
Mas... e o medo?
Á Muito que o meu anseio/Era
ter-te nos meus braços
Mas sempre havia pelo meio/Muitos medos, outros passos.
Até que um dia vieste/Como quem vem para se dar
E lembro até que trouxeste/Olhos tristes de chorar.
Beijei-te como quem tem/Um desejo acumulado
Amei-te como quem vem/Das galeras degredado.
No final, o nascer:
Tu vieste com a bruma/Junta á
onda que desmaia
Em nuvens feitas de espuma/ Como rendas de cambraia.
Depois veio o Sol, cobriu/Teu corpo que bem me lembro
E um poema floriu/ Nessa manhã de Setembro.
Bonito, é quando se sente
realmente o que se escreve.
Maravilhoso, é quando se consegue
escrever o que se sente.
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA À ESTUPIDEZ
Ermesinde
Setembro de 2020
Senhor
Confissionário
Sinto que já não tenho aquela alegria ou o
prazer, o contentamento de ouvir um aplauso, um elogio por uma letra escrita,
de ouvir um fado cantado com uma letra minha, enfim, aquela satisfação de saber
que alguém gosta, canta, grava o que eu escrevi. Hoje já não sinto isso, claro
que também não estou lá para ouvir, para sentir, mas noto um grande desencanto
de ter pensado ingenuamente que podia ombrear ao lado de outros letristas de
renome. Tudo isso, principalmente com a miséria que recebo da SPA, que chega a
ser ridículo, um autor receber dezoito euros de direitos num ano. Por tudo
isto, o desinteresse em escrever apagou-se, não vale a pena, estou cansado,
muito cansado.
A
vida já não tem grande interesse em ser vivida, apenas se vai sobrevivendo o
dia a dia com o pouco que se ganha, mas sem ilusões, sem sonhos, agora já não
há tempo e apesar do ditado “enquanto há vida há esperança”,hoje sei que nunca
terei o que gostava de ter, aquela sala só minha cheia de livros, filmes,
retratos e quadros. Um espólio de recordações que os vindouros
apreciassem.
Sei
que nunca irei onde gostava de ter ido à Grécia à Itália ao Egipto, conhecer as
civilizações de onde todos viemos, conheci através dos decomentários da tv. Não
tenho tempo de fazer o que gostava de deixar feito. Tudo tem sido uma
desilusão, desde a família, ao fado, desde os amigos ao modo com que sou
obrigado a viver. A esperança de dias melhores desfocou-se, não tenho nada com
que me orgulhe, não devo ter sido um bom pai, um bom marido, um bom amigo, falhei
com todos e principalmente comigo. Nunca publicarei um livro, nunca serei
reconhecido como autor e dias depois do meu fim, ninguém se lembrará de mim.
Confesso que não tenho medo de morrer, apenas tenho pavor ao sofrimento. Sei
que me calei tanta vez por covardia, quando podia ter falado e mostrado a minha
atitude em relação a muitas coisas que os outros não compreenderam. Tudo porque
quis viver em paz com os que me rodearam e não quis conduzir uma revolta que me
levava à desunião com os meus e ia sofrer por isso porque os amo a todos, à
minha maneira é verdade, mas amo.
Perdi
a capacidade de sonhar, rasguei mesmo a lista dos meus sonhos. Agora penso que
tudo tinha que ser assim e a vida deu-me o privilegio de conhecer pessoas
maravilhosas, algumas perdias como a minha avó, meu pai, assim como muitos amigos.
Até um dia, e se a reencarnação for verdade, quando voltar, vou ser diferente,
quero ter carro, ser sócio do FCP e nunca ocupar as estantes com livros, ser
bruto e ignorante e assim serei recordado por todos.
segunda-feira, 2 de novembro de 2020
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA A QUEM QUISER LER Talvez ao Pai Natal
Ermesinde, Setembro de 2007 Amigo Etéreo Hoje é dia do meu
aniversário, para o próximo ano entro nos sessenta e gostava, enquanto tenho
tempo, de lhe agradecer a vida que me tem dado, apesar de ter certas duvidas se
o meu amigo existe, pois sinto-me mais um agnóstico que um crente. Tal como diz esse sistema
filosófico, o meu agnosticismo provem das dúvidas que encontro na vida e do
total desconhecimento que tenho do espírito humano. Claro que fui baptizado,
crismado e casei pela igreja, não porque acredite na existência de Deus, mas porque
fui obrigado a isso. Todavia, acredito na alma humana enquanto comandada pelo
cérebro, mas que morre na hora em que morre o corpo. Um pé, um braço, uma mão,
depois de separados do corpo não mexem mais. A morte quando é premeditada, é
sempre no cérebro que ocorre, seja um tiro na cabeça, a asfixia numa corda ao
pescoço, a guilhotina ao ser-se decepado e mesmo as cadeiras eléctrica ou de
gás, só é declarada a morte se for cerebral. Mesmo na doença, pode um ser
humano viver ligado a uma máquina muito tempo, que a sua morte só acontece
quando essa máquina é desligada e o cérebro deixa de funcionar. A inteligência
humana, conseguiu fazer máquinas que prolongam a vida do homem, ou substituindo
órgãos como o coração e outros, mas nunca se transplantou um cérebro, este é o
centro neurálgico de todo o fenómeno da vida. Mesmo na sua concepção, o homem
utiliza o cérebro para a erecção e subsequentemente a ejaculação do seu
esperma. Pode ser utilizado qualquer método, desde a inseminação artificial ou
fertilização in vítreo, mas sempre foi preciso o cérebro. Todos os sentidos,
todo o sistema nervoso lhe está ligado, claro que a sua irrigação pelo sangue é
fundamental, para isso todo o conjunto de órgãos do corpo têm importância,
desde a hematose nos pulmões (transformação do sangue venoso em arterial, com a
ajuda do oxigénio), até ao bombeamento do coração (órgão central da circulação
sanguínea), que o leva a todo o corpo, passando pelo fígado com a sua função de
secreção biliar e glicogénica, até ao pâncreas, aos rins e todos os aparelhos
digestivo, respiratório e circulatório. Resumindo: Pode-se viver com um coração
artificial, sem um rim, até sem um pulmão, mas nunca sem o cérebro. Mas tudo isto sabes muito
melhor que eu. Perdoa-me se este (apenas ser humano), não tem razão no que diz,
mas é a minha ideia, baseada na minha pouca inteligência e com muito pouco ou
nenhum conhecimento de anatomia. Nem é minha intenção fazer a apologia do
cérebro, apenas centrar nessa massa encefálica a sede da inteligência, do pensamento,
do juízo, de todas as funções psíquicas, centro intelectual de onde imanam
todas as ordens do corpo, enfim... A alma do ser humano. Essa alma que não creio
que vá para lado nenhum depois da morte, faz-me sentir comoção ao ver o
sacrifício de um peregrino em Fátima, porque respeito a fé dos outros. Mas
também me faz comover de raiva e impotência, ao olhar as crianças morrerem de
fome ou o desespero da morte nos campos de guerra. Não consigo ainda entender,
o holocausto nem a angustia e a dor dos que sofrem injustamente, escravizados
pela ambição desmedida de alguns e a ganância de outros, cegos pelo poder. Que
esses fossem castigados pela providência, posso entender, enfim! Mas...”As
crianças Senhor, porque lhes dás tanta dor, porque padecem assim?” como diz o
poeta Augusto Gil. Sou um filho do universo e
todos os dias agradeço ás estrelas, a ti, ou a alguém que me ouça, a cama onde
durmo, a mesa onde como, o tecto onde me abrigo, a saúde que tenho. Mas sinto
uma tristeza enorme, quando não me consigo fazer entender aos olhos dos outros,
principalmente dos que me são mais queridos. Estou cansado de dar e
pouco receber em troca, de sacrificar os meus ideais em prol dos outros sem
respeitarem os meus. Estou casado de não ir onde queria ir, de não fazer o que
queria fazer, de não ser o que gostava de ser. Tudo porque, confesso, além do
medo que me assola de não querer fazer os outros infelizes por minha causa,
talvez me falte vontade própria para concretizar tais intentos. Tomo como
exemplo a minha vida de quarenta anos de trabalho, onde nunca fui compreendido
nem compensado pelo esforço que fiz. Nunca fui devidamente aproveitado pela
minha inteligência e arte, apenas explorado pela minha humildade e abnegação ao
trabalho. Diz a astrologia que
seres nascidos no dia em que eu nasci, nunca serão compensados pelo seu esforço
e toda a vida trabalharão para enriquecer os outros. Não mata, mas desmoraliza
muito, a ser verdade tal premonição. Depois de todos esses anos de trabalho,
vivo agora por decreto, com um subsídio para que possa sobreviver, fazendo-me
sentir um inútil e vivendo sem vontade, contendo-me nas exigências e sufocando
de desejos e sonhos que nunca verei concretizados. Hoje tenho vergonha de
olhar uma montra, porque sei que nunca comprarei o livro que gosto, a prenda
que gostava de dar ou o filme que gostava de ver. Abdiquei de quase tudo,
recolhi-me feito um eremita a um canto, rasgando os sonhos um a um, zangado com
o mundo que muitas me faz pensar que não é o meu, desiludido com os amigos que
pensava serem p’ra toda a vida, desiludido com muitas coisas que na minha vida
particular acontecem e que pensei nunca acontecerem. Faz-me doer, em ter que
contar as moedas para tomar um café, comprar o jornal ou um maço de cigarros.
Sim cigarros, os eternos e mórbidos companheiros que nunca me deixam só. Por manifesta
impossibilidade de o fazer hoje, dói-me muito, abdicar da Internet e fechar os
olhos a essa janela do mundo. Abdicar de convívios sociais, do fado, do meu
pecado da gula, do meu pecado (pecado?) do sexo. Poucas coisas me restam, como
um cigarro e esta vontade de escrever, coisas a que nem sei se chamo poemas,
mas mesmo que seja uma carta (a não sei quem), que me pudesse tirar estas
minhas dúvidas existenciais. Obrigado
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA AO SERRÃO
Ao amigo que não esqueço
Ermesinde, Setembro de 2007
Amigo Serrão
Sei que nunca vais ler esta carta, porque
nunca a vou enviar, trata-se apenas de um desabafo ou de uma forma de te dizer
o que sinto sem te ouvir nas críticas acutilantes que sempre fazes, que aliás,
podem ser muito construtivas, mas que a mim, de nada me valeram. São sempre são
sentidas pelo teu ponto de vista e nunca pelo meu. Falar de barriga cheia é
simples! Para ti tudo é facilidades e tudo tem que ser como tu queres. Ou não
vivesses tu nessa bolha de arrogância e perfeição, sem admitir os erros ou
imperfeições dos outros.
Conhecemo-nos pessoalmente numa
livraria, embora te conhecesse de vista há muito tempo, ou mesmo de nome pelos
amigos. Tinhas na altura, passado por um momento mau da tua vida, que tive
conhecimento pelos jornais.
Encontrávamo-nos no café do bairro para
leitura dos jornais, principalmente aos sábados. Já nessa ocasião, davas ares
de figura importante e muita gente não te via com bons olhos. Mas eu gostava de
conversar contigo e não via impedimento na tua condição de pseudo doutor.
Talvez fosse precisamente pelo teu modo de ser, que conseguiste sempre safar-te
dos casos duvidosos em que te enleavas e que punham os outros de pé atrás.
Posso compreender que tenhas o teu modo
de pensar, todos temos o nosso! Mas confesso, que a maior parte das vezes não
te entendo por mais esforço que faça. Se te falo das minhas dificuldades, que
não me posso comprometer com nada no momento, tu insistes com a tua forte
personalidade e modo agressivo de dizeres as coisas, que muitas vezes nem
queres entender as minhas razões, és sempre tu que sabes e eu nunca sei nada.
Adorava conversar contigo sobre cinema,
literatura e outros temas, tu és uma verdadeira enciclopédia nesses temas,
aprendi muito nessas conversas, mas sempre notava em ti um ar de superioridade
de petulância até. Mas compreendia, é verdade que compreendia, quem não sente
uma certa vaidade quando vê que está a ser superior a alguém? Aturava as tuas
taras, sim taras, ou então que nome dás ao gesto que tiveste por exemplo,
quando me obrigaste a pagar aquelas cassetes de vídeo, mesmo sem ter
possibilidades para tal? Recordo como se fosse hoje:
Tudo se passou naquela época, em que te
dei a ideia de ordenares a tua fabulosa videoteca, com o filme junto do livro
de onde foi extraído o enredo, o que quase sempre acontece. Como também estava
a fazer o mesmo, embora numa escala muito mais pequena, houve um dia em que me
vendeste 25 cassetes de vídeos com filmes repetidos que eu não tinha. Deste-me
a possibilidade de tos pagar aos poucos e assim fui cumprindo (contigo não pode
haver falhas...), como podia? Um dia em que não tinha mesmo possibilidades,
falei contigo com a ideia de poder adiar o pagamento, que diabo! Éramos amigos
(ou não?), mas tu foste irredutível e a única forma que arranjaste para solucionar
o problema (depois de palavras bem agrestes, tipo: Não tens palavra, prometeste
e agora falhas, etc., que muito me magoou), era que eu devolvesse a quantidade
de vídeos igual ao valor em
falta. Respirei fundo e já em casa, escolhi os filmes que
mais me interessavam e devolvi-te os restantes (a minha vontade na altura foi
devolver todos). Tu conferiste e assim deste por saldada a minha divida.
Engoli a tua afronta, primeiro que
afinal embora tenhas lido muito, não consegues compreender uma simples amizade.
Depois, porque tinhas resolvido para mim, um problema que muito me preocupava
sobre o tribunal e as finanças e como nada quiseste em troca... desculpei-te
pelo favor que me fizeste, porque como diz o povo: Uma mão lava a outra.
Deitei tudo para trás das costas e
continuei a ser teu amigo, até porque não te esquecias dos meus anos e mesmo no
Natal, tinhas sempre um livro como presente e eu não tinha (nem tenho) nenhum
amigo que me dê presentes. Por tudo isso, sacrificava os meus sábados de manhã
para de lista em punho, procurar na loja de vídeos em Fernão Magalhães
(o que me obrigava a pagar transportes), os filmes que tu querias para gravar.
Depois precisaste de mim para ser tua
testemunha abonatória em tribunal, pelo caso em que estavas envolvido. Nunca
faltei (como chegou a fazer o Américo com atestado médico), mesmo com prejuízo
no trabalho, pois era-me descontado as horas que perdia para esse efeito, de
cada vez que lá ia e foram muitas as vezes. Até que um dia...
Depois de mudares a tua vida e estar
algum tempo sem te ver, continuaste a enviar-me alguns livros pela tua filha,
enquanto continuávamos a falar agora pelo telefone. Soube então que estavas bem
e eras agora uma espécie de consultor de uma editora, convidaste-me (sabendo
que eu tinha alguma coisa escrita e registada na SPA), para fazer parte do
livro “Novíssimos” que a tua editora ia publicar, dando oportunidade a novos
autores e poetas (letristas no meu caso), para serem editados pela primeira
vês. Delirei com a ideia e logo escolhi meia dúzia de coisas para te mandar
como me pediste, grato pelo convite e eufórico por ser finalmente editado. O
pior veio a seguir... Eu sei que nada se faz de graça, mas a minha alegria era
tanta à mistura com muita ingenuidade, que aceitei os requisitos que me
impuseste e fui enfrente.
Para fazer parte de uma pequena edição de
1000 exemplares, era obrigatório cada um dos 30 autores como eu, ficarem com 30
exemplares cada e paga-los a 1.750$00 cada. Ora 30 vezes 1.750$00, dava 52.000$00
que manifestamente eu não tinha. Embora para ti (Deus da facilidade), eu tinha
que ter... Quem não tem? Mesmo assim, depois de conversarmos, fizeste-me o
grande favor de aceitar essa verba em 3 prestações. Tu nem imaginas o
sacrifício que fiz para conseguir pagar-te, porque sempre penso que vives num
mundo superior, onde tudo são facilidades e não podes, nem queres, entender os
pobres mortais. Sou humano, peco, perdoo, rio, choro, vivo e tenho que me
alimentar a mim e aos meus. Não posso pensar no supérfluo, a minha vida tem
sido de trabalho, não tenho carro, não tenho muita coisa que gostava, mas tenho
o dever de olhar pelos meus e a legitimidade de ser como sou, mas não
entendes... mas eu pensava sempre que tu entendias. És culto, lês-te muito, sabes
mais das coisas (saberás?), nasceste possivelmente em berço d’oiro e sempre
mantiveste um padrão de vida média-alta (pelo menos aparentemente...) só que em
relação aos terráqueos mantinhas uma distância de ser superior.
Muitas vezes penso, que mesmo quando tens
um gesto de dádiva para com alguém, é sempre com ares de grande senhor, como se
estivesses a fazer um grade favor à humanidade. Ora eu, na minha insignificante
existência também penso e ao fazer contas vi: Que os 1000 livros editados foram
todos pagos e nenhum de graça, sim porque 30 vezes 30 é igual a 900 e com 30
oferecidos (3 a
cada um dos 30 autores), apenas sobraram 10 para ofertas pessoais e
publicidade. Como uma edição de autor com 1000 exemplares fica por 700.000$00,
esta deu muito lucro pois ficou por 1.750.000$00.
Par te poder pagar a terceira e última
das prestações, tentei pôr à venda (à consignação), alguns desse livros na
livraria do bairro, que não aceitou a minha oferta e eu fiquei com todos na
estante para oferecer aos amigos.
Enfim, consegui pagar-te tudo, nada te
devo.
A par deste caso, fomos conversando
sobre a possibilidade de poderes editar dois livros que eu tinha prontos. Um
com 100 letras de fados meus e outro (uma novela), sobre o fado na cidade do
Porto.
Entretanto como tinhas saído da tal
editora e agora eras sócio de outra, mostras-te interesse e disseste-me, que
havia agora mais possibilidades de meus livros serem editados.
Depois de tos enviar pela tua filha
para tua apreciação e como passou tanto tempo sem o fazeres (ou não tinham mesmo
interesse nenhum e nem sabias como mo dizer), falei-te em reavê-los pois tinha
que ajustá-los de novo ao tempo, uma vez que num deles, existe uma lista de
nomes ligados ao fado e que entretanto tinha crescido.
De novo te enviei o primeiro pela Cati,
depois de te ligar para te informar que estava a trabalhar no segundo. Mais
tarde, liguei-te novamente para saberes que estava pronto e ia mandar-to,
disseste-me que o 1º tinha muitos erros e que logo que verificasses também o
2º, telefonarias a marcar um encontro, para falarmos sobres a rectificações
necessárias agora nos dois.
Fiquei à espera desde de Maio de 2006,
hoje são 12 de Setembro de 2007...
Tenho consciência que não sou nada como
escritor, nem sequer tenho pretensões a isso, no entanto, confesso que sonhei
um pouquinho com a possibilidade e o sonho de ser editado.
Tentei com uma carta que enviei ao
responsável pelo pelouro da cultura da Câmara de Valongo, a possibilidade do
patrocínio de um dos livros “À Janela do Fado” o tal que fala da vivência do
fado no Porto. Não fui atendido, paciência!
Quis saber o custo de uma edição de
autor e pedi que me enviassem orçamentos a várias tipografias. A verba rondava
sempre os 350.000$00 para 500 exemplares. Mas claro que eu não tinha, nem tenho
esse dinheiro e fiquei á espera de melhores dias, mas a minha relação com o
dinheiro é muito fraca... e fui perdendo a esperança.
Vou escrevinhando algumas coisas,
imprimo para guardar em arquivo, gravo em disquetes para desafogar o disco duro
e fico com a remota esperança de um dia (quando já não andar por cá) os meus
filhos ou netos os leiam.
Não fora o meu modo recatado de ser, em
não gostar de palcos nem protagonismos (mais uma das coisa que criticas) e
talvez já tivesse tido essa oportunidade de ver um livro meu publicado. É que
ás vezes o que é preciso é ter lata, saber-se encostar aos que podem,
frequentar o meio, esperar uma oportunidade, bajular ás vezes e consegue-se. Ou
não anda por aí tanta gente armada em intelectual de meia tigela?
Quanto a ti, estou-te grato pelas
oportunidades que me deste e que decerto eu não soube aproveitar.
Obrigado pela tua ajuda e cá debaixo do
teu pedestal te saúdo. Ave Serrão!
Um abraço do amigo
Manuel Carvalho
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA OU INVENTÁRIO Aos principais interessados
Ermesinde, Setembro de 2007 Amigo inventariante A pretexto de um inventário para actualização de apólice de seguro do
recheio de casa, muni-me de papel e lápis, e fui de sala em quarto tomando nota
do meu património. Era pouco e de baixo valor, apenas inflacionado pelo valor
estimativo. Não se tratam de grandes peças de mobiliário, caríssimas
antiguidades, quadros famosos, louças finíssimas, roupas de marca, tapeçarias
ou luxuosos objectos de decoração, carros, propriedades ou acções da bolsa.
Não, são apenas coisas simples, ganhas e pagas (muitas vezes a prestações) com
o trabalho de uma vida. Não seriam totalmente aquelas coisas que adorava de
ter, mas são coisas e objectos especiais que para outros seriam decerto banais
ou mesmo pindéricas. Tirando o mobiliário normal dum quarto ou duma sala, as roupas
necessárias para cama ou de vestir, os apetrechos inerentes e electrodomésticos
imprescindíveis numa cozinha, os aparelhos de imagem e som normais de lar
modesto, restavam aquelas coisas de intimo valor, que não sei se valeu a pena
ter adquirido ao longo do tempo, pois embora tivesse incutido aos filhos o seu
intrínseco valor, via com grande tristeza que não lhe davam a devida
importância, contrariando aquele dito antigo que para a educação das crianças,
conta muito o exemplo que se dá. Duma biblioteca de mais de mil e quinhentos
volumes de vários autores, de uma biblioteca musical com mais de oitocentos
CD’s e de uma videoteca de mais de mil e duzentos filmes gravados em cassetes,
poucos, muitos poucos mesmo leram, ouviram ou viram. Tirando o cinema que um
deles vê e gosta, outra que gosta mas não vê e outra que vê mas só lhe dá uma
importância relativa. Nenhum deles alguma vez leu, a não ser (em percentagem),
de um a dois livros em 30 anos. Põe-se a questão: Para onde irá tudo isto amanhã, para o lixo? Doado a
uma biblioteca? Haverá uma instituição cultural que receba este acervo? Não
consigo imaginar os filhos a dividirem entre si tudo isto e darem aos netos
para enriquecer o seu intelecto. As crianças hoje têm todo o saber digitalizado,
para que querem um livro? É muito mais estimulante um jogo de vídeo que um bom
filme. Um aparelho de mp3 ou um telemóvel com música, do que o obsoleto vinil
ou cassetes. Sempre desejei, tudo aquilo que todos os pais desejam, a felicidade dos
filhos. Nunca impus que fossem doutores e sempre lhes dei a liberdade de serem
o que quisessem ser. Também não tive recursos para lhes dar melhor do que dei!
Mas tenho a certeza absoluta que lhes dei o meu exemplo, pela educação, pelo
trabalho, pelos valores da amizade, do amor e da verdade. Sei que os genes dos
filhos também são os da mãe e talvez os dela se tenham sobreposto aos meus.
Devem ter herdado do lado materno, um pouco do desprendimento pelas coisas
cultas, pelas artes, pela literatura. Também o lado agressivo com que enfrentam
qualquer problema que se lhe depare na vida. Não herdaram de mim a vergonha, a
serenidade, a discrição, a calma. Dentro dessa minha serenidade, vou tentar viver o tempo que me resta a
pensar: Que façam o que acharem melhor com tudo que lhes deixo. Ficam neste inventário: Livros de guerra, romances, erotismo, policiais, históricos, aventura,
colecções de diversos autores portugueses e estrangeiros. Música diversa, principalmente fado, em vinil, cassetes e CD’s. Fados de
minha autoria gravados por muita gente ao longo dos anos. Filmes gravados em vídeo, portugueses e estrangeiros, de guerra,
western’s, policiais, aventuram, eróticos, dramas e comédias. Algumas colecções de filatelia, fluminismo e numismática, cromos,
jornais, chávenas, copos. Enfim, tudo em que gastei com meus proventos em vez de comprar um carro,
ser sócio do FCP ou viajar pela Europa a ver os jogos dos campeões europeus.
Mas será que era mais feliz? Será que fazia os meus mais felizes? Se calhar
fazia, a avaliar por muita gente que conheço. Entretanto em 2010, fiz uma lista que ainda possuo e doei à Biblioteca
de Ermesinde 1.000 livros. Mandaram uma carrinha da Junta cá a casa e levaram
tudo em caixas de cartão. O Presidente da Junta nem me agradeceu, apenas um
email que dizia assim: «Exmo. SenhorServe o
presente para agradecer a oferta dos livros que, amavelmente, fez para a
Biblioteca da Junta de Freguesia de Ermesinde.Grato pelo
importante apoio concedido para o enriquecimento do nosso espólio bibliotecário
apresneto os melhores cumprimentos. Por delegação
do Exmo. Sr. Presidente da JuntaO TesoureiroRomeu Maia» Um braço amigo inventariante
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA AO VERISSIMO Aos meus colegas de
26 anos de trabalho
Ermesinde, Setembro de 2007 Sr. Veríssimo Além de ser levado pela
ganância, empurrado pelo “Cavaquismo” e possuidor duma ignorância a toda a
prova, sem educação ou aptidão para gerir seja o que for, ingrato para quem o
ajudou a enriquecer o seu património, melhor não se podia esperar dum homem
inculto e desprovido de personalidade. Reles, mentiroso e muitas vezes cruel,
odiado até pelo filho (herdeiro da sua ganância) e incapaz de saber distinguir
aqueles que o quiseram ajudar nas más horas que passou, na empresa que fundou
com a ajuda do sócio Manuel Moreira, esse sim, pilar fundamental da firma de
publicidade Moreira & Verissímo, que
com a sua saída provocou o a derrocada
final, numa empresa pioneira e em franco progresso, mas que não soube
acompanhar as novas tecnologias do mercado e oportunidades do momento em causa. E porquê? Eu
conto, pela experiência de 26 anos ao serviço da empresa: 1982 — Os primeiros 3 anos foram de sacrifício, de trabalho sem condições ao
frio, ao sol e muitas vezes desenhando em mesas improvisadas com pingos de
chuva a caírem, etc. Mas sempre na ansiedade de conquistar melhorias nas
condições de trabalho e benefícios salariais, uma vez que era a única empresa
do sector na cidade. Havia naquele tempo um bom lote de profissionais,
considerados por muitos como verdadeiros “artistas”. É deste viveiro que mais
tarde (anos depois), vão nascer empresas que chegam a fazer uma forte oposição
comercial. 1985 — Nos 5 anos seguintes, melhoraram as condições, agora com estiradores e
material (que até aí era pago pelos próprios trabalhadores), e instalações de
mais qualidade. Começaram a haver aumentos bianuais de salários, gratificações no
Natal e almoço anual. A produção aumentou e entrou mais pessoal, chegando a
trabalhar na empresa 25 pessoas. 1990 — Nestes 8 anos a seguir, foi a entrada no mundo da informática, um passo
gigante na vanguarda do sector de produção. Desenho computorizado com programas
específicos para corte em
plother. Máquinas de fresagem e corte de esferovite em
grandes volumes. Impressoras de jacto de tinta para grandes e pequenos
formatos. Aquisição de grandes instalações para camiões de grande tonelagem.
Aumento de postos de trabalho que atingem nesta altura 30 empregados. Aumentos
anuais de salários, gratificações na Páscoa e Natal, almoço anual e
distribuição mensal de senhas de refeição. 1998 — São os 3 anos onde vai começar a descalabro. A sociedade que até então
era de dois sócios, dá lugar a mais dois (os filhos). Descapitalizam a empresa
com obras megalómanas. Novas instalações para: Escritórios, sala de reuniões e
4 gabinetes de luxo, orçado em mais de 20.000 contos. Central telefónica no
valor de mais de 1.000 contos. 4 Automóveis comerciais para a gerência no valor
de 9.000 contos. Modificação total da identidade da empresa desde simples
cartões à publicidade nas viaturas, com custos acrescidos de mais de 1.000
contos pagos a um designer particular. A partir desta altura terminam os
aumentos salariais, acabam todas as gratificações e terminam os almoços anuais
da empresa. Os sócios da empresa, passam a auferir os quatro, 2.000 contos
mensais. O pessoal eventual (a recibo verde), é afastado e os 16 que ficam,
recebam no total ao fim do mês 1.600 contos (menos que os 4 gerentes). É
desviado da empresa materiais e serviços que não são contabilizados e dois dos
sócios abrem empresas paralelas. Cava-se um buraco orçamental a empresa fica
descapitalizada e a “crise” instalou-se. Enquanto isso, o património particular
aumenta com: Automóveis topo de gama. Casas de luxo. Apartamentos no Algarve. Viagens
ao estrangeiro de férias, pagas pela empresa. Motos de grande cilindrada para
filhos e netos. Telemóveis topo de gama para toda a família. Passagens d’Ano e
festas de Carnaval no estrangeiro. Desorganização total na empresa. 2001 — São os 5 anos da “Crise”.
A sociedade é desfeita e três sócios abandonam a empresa, o único que fica não
tem capacidade organizativa, nem sabe gerir os destinos da empresa.
Desmoralizado e vitima do sucedido, arrasta a empresa para o caos, desmotivando
os trabalhadores e a coberto da “crise”, e não querendo mexer no seu património
particular, nem arranjando novas vias de saída da crise, perdendo 80% da
carteira de clientes para outras empresas que entretanto foram abrindo ao
mercado. Rodeia-se de pessoas que mesmo tentando erguer a empresa, ele começa a
ser o obstáculo principal com a ideia predefinida de levar a empresa
gradualmente a fechar. As dívidas à banca, ao estado e a fornecedores
acumulam-se. Os salários começam a ser pagos em duas e três prestações. A
desmotivação é total, não há ninguém que venda e a produção cai mais de 70%. Os
filhos com medo de verem lapidado o património particular do patriarca, fazem
reuniões sucessivas para venderem a empresa que no momento tem um passivo
superior ao activo. Todas as tentativas saem frustradas e para não fechar a
empresa, com dívidas por todo o lado, recorrem a mais credito e tentam fazer
uma reestruturação, com o despedimento de mutuo acordo, com 5 dos 12
trabalhadores actuais na empresa e com os salários mais altos, apesar de não
terem qualquer aumento nos últimos sete anos. Entregando nas mãos da Segurança
Social e do Fundo de Desemprego o destino das pessoas, na da taxa etário de 35
aos 60 anos. 2007 — Afinal a tão esperada reestruturação nunca chegou. O gerente que não quer,
nem sabe gerir, vai levando dia a dia a empresa ao caos. Mesmo na hora de
vender a empresa e tentar que o M&V sobreviva, “rói a corda”, insulta os
compradores e abandona as negociações, cego pela estupidez que sempre o
caracterizou (que o digam, clientes, fornecedores e todas as pessoas que
tentavam um diálogo civilizado), para desespero das próprias filhas que ainda
pensavam conseguir uma saída para a crise. Com um total desprezo pelas pessoas,
deixa a empresa afundar depois de penhoras sucessivas e fecha as portas
definitivamente em Fevereiro, pedindo a ajuda do filho que tanto caluniou e
culpou pelo descalabro da firma, pois nem para declarar falência o “gerente”
teve habilidade. Os poucos empregados na altura, encontravam-se agora com a
carta de despedimento na mão e palavras a abater ao débito de 3 meses de
ordenado. Outros com quem assinou compromissos ficam de mãos vazias. Foi o
fechar de um capitulo da era da publicidade na cidade do Porto. Aquela que
tinha sido a empresa pioneira, com credibilidade no mercado, “MÃE” de muitas
que hoje existem, fechou as portas da pior maneira. Paz à sua alma! Manuel Carvalho (empregado nº7,
apesar de em 2005 ser o 2º mais antigo na empresa, mas... a ordem era por nome,
para que Álvaro Pinto [afilhado e sobrinho], ficasse em primeiro e o mais
antigo, Gerado Ferreira e eu Manuel Carvalho, ficasse afastado, até nisto...)
1982 — Os primeiros 3 anos foram de sacrifício, de trabalho sem condições ao
frio, ao sol e muitas vezes desenhando em mesas improvisadas com pingos de
chuva a caírem, etc. Mas sempre na ansiedade de conquistar melhorias nas
condições de trabalho e benefícios salariais, uma vez que era a única empresa
do sector na cidade. Havia naquele tempo um bom lote de profissionais,
considerados por muitos como verdadeiros “artistas”. É deste viveiro que mais
tarde (anos depois), vão nascer empresas que chegam a fazer uma forte oposição
comercial.
1990 — Nestes 8 anos a seguir, foi a entrada no mundo da informática, um passo
gigante na vanguarda do sector de produção. Desenho computorizado com programas
específicos para corte em
plother. Máquinas de fresagem e corte de esferovite em
grandes volumes. Impressoras de jacto de tinta para grandes e pequenos
formatos. Aquisição de grandes instalações para camiões de grande tonelagem.
Aumento de postos de trabalho que atingem nesta altura 30 empregados. Aumentos
anuais de salários, gratificações na Páscoa e Natal, almoço anual e
distribuição mensal de senhas de refeição.
2001 — São os 5 anos da “Crise”.
A sociedade é desfeita e três sócios abandonam a empresa, o único que fica não
tem capacidade organizativa, nem sabe gerir os destinos da empresa.
Desmoralizado e vitima do sucedido, arrasta a empresa para o caos, desmotivando
os trabalhadores e a coberto da “crise”, e não querendo mexer no seu património
particular, nem arranjando novas vias de saída da crise, perdendo 80% da
carteira de clientes para outras empresas que entretanto foram abrindo ao
mercado. Rodeia-se de pessoas que mesmo tentando erguer a empresa, ele começa a
ser o obstáculo principal com a ideia predefinida de levar a empresa
gradualmente a fechar. As dívidas à banca, ao estado e a fornecedores
acumulam-se. Os salários começam a ser pagos em duas e três prestações. A
desmotivação é total, não há ninguém que venda e a produção cai mais de 70%. Os
filhos com medo de verem lapidado o património particular do patriarca, fazem
reuniões sucessivas para venderem a empresa que no momento tem um passivo
superior ao activo. Todas as tentativas saem frustradas e para não fechar a
empresa, com dívidas por todo o lado, recorrem a mais credito e tentam fazer
uma reestruturação, com o despedimento de mutuo acordo, com 5 dos 12
trabalhadores actuais na empresa e com os salários mais altos, apesar de não
terem qualquer aumento nos últimos sete anos. Entregando nas mãos da Segurança
Social e do Fundo de Desemprego o destino das pessoas, na da taxa etário de 35
aos 60 anos.
CARTAS DE SETEMBRO
CARTA ÀS MULHERES
Ás interessadas
Ermesinde, Setembro de 2018
Amiga
Fetiche
é uma condição na qual alguém é sexualmente fixado num objeto inanimado. Pode
ser um salto alto, uma linda lingerie ou uma parte do corpo. Os fetiches
sexuais ganharam visibilidade sem receios ou vergonhas e hoje são opções
preferidas de homens e mulheres. Inclusive, uma das dicas que os sexólogos dāo
para melhorar a nossa vida sexual, é sempre experimentar novas sensações.Não se
deve ter medo de se soltar e colocar em prática seus fetiches, saiba que
não deve haver tabus quando o assunto é sexo! Desde que haja satisfação
mútua com o seu parceiro, ter um fetiche pode apimentar a relação e deixar
a vida sexual mais prazerosa.
Dos
maiores fetiches na sexualidade é sem duvida a lingerie, pela sua textura, a
seda o cetim e o nylon, sempre foram como peças íntimas da mulher, um fascínio
e uma arma de sedução. A lingerie, essa
segunda pele teve os seus registos na Grécia Antiga. Naquela época, as mulheres
usavam uma faixa de tecido em torno do tórax para sustentar os seios e peças
parecidas com fraldas de algodão na parte inferior do
corpo. Os sutiãs e calcinhas conhecidos atualmente surgiram apenas no
início do século XX. Até então, ainda se utilizava espartilhos e
crinolinas. As primeiras roupas de baixo tinham como função principal
redesenhar a silhueta feminina. A peça de destaque era o espartilho, criado
para ser usado sob trajes e vestidos. As mudanças trazidas por este novo
contexto industrial não foram suficientes para inaugurar um caráter erótico
proposital nas roupas íntimas femininas. Afinal era a praticidade a nova ordem
em questão. Isto significa que as peças mantinham seu caráter erótico natural
devido à região que veste, porém não teria nenhum apelo proposital para lembrar
o sexo, ou seja, um caráter de sedução.
Através
de cartões-postais, imagens de mulheres seminuas eram veiculadas. Estas eram
prostitutas que posavam em poses sensuais para atrair os olhares masculinos.
Nota-se que o caráter erótico-sedutor não se dá em qualquer corpo feminino, mas
apenas ao da prostituta.Esta separação entre as duas figuras femininas,
esposa/mãe/dona-de-casa e prostituta, constitui uma forte representação para as
mulheres desde finais do século XIX, e presentes até grande parte do século XX.
Estas representações femininas não separam apenas suas funções sociais, mas
também suas funções corporais: o corpo do prazer e o corpo maternal.
Um
jornalista brasileiro descreve assim a sua relação com a mulher amada, a sua
mulher ideal:
A MINHA MULHER IDEAL
Quando uma mulher te ama, é capaz de
tudo.
Ela compreende-me, a mulher que adoro
e veste-se com a lingerie mais sexy, agora sim, não é só nas revistas ou no
cinema, não é só nas fotos da net ou da PlayBoy, agora posso ter uma mulher
linda, de cinta liga que prende as presilhas ás meias de seda, que veste uma
calcinha de seda cheia de glamour, que põe um sutiã de renda justo nos seios
lindos. Amo essa mulher glamourosa, que solta o cabelo num gesto unicamente
feminino, que veste uma camisa de noite em seda até aos pés cheia de lacinhos e
rendas, que acende velas na mesa num jantar a dois, que dispõe velas de cheiro
pela casa, que regula a luz o mais suave possível e me chama para jantar.
Essa mulher me entende, deixa-me
beijá-la com amor e desejo, deixa-me lamber-lhe as entranhas em fogo e faze-la
vir, alcançar o supremo dos orgasmos com a minha boca e dar-lhe um mais pleno
dos gozos. Meter-me dentro do seu corpo, fazê-la gozar até lhe mostrar o céu e
por fim vir-me dentro dela, ungindo com meu amor supremo e que une uma mulher a
um homem. Ela adora o seu homem, que lhe dá o maior dos prazeres no máximo da
sua virilidade, que a leva ao infinito do prazer como nunca nenhum homem a
levou. Que importa as suas fantasias... Ela também as tem e ele, todas as
satisfaz com amor e loucura, esse é o seu homem, eu.
Celso Fernandes
Como diz o Celso Fernandes:
“...agora sim, não é só nas revistas ou no
cinema, não é só nas fotos da net ou da PlayBoy...” É verdade, a maioria de nós
só nesses registos teve acesso a mulheres assim vestidas, a nossa mulher,
normalmente não tem o discernimento para tal e fica até ofendida se falamos
disso... Claro que as novas gerações (penso eu) não se ofendem quando na
intimidade se fala do uso da lingerie, mas antigas gerações, pela educação
castradora que tiveram, dizem até frases como a que jà ouvi: “Não gostas do meu
corpo?... E assim dormem de pijama de flanela. Não adianta oferecer uma camisa
de noite que nunca vestem, ou o aquele body em cetim e renda que a amiga lhe
ofereceu pelos anos, que foi arrumado na gaveta para sempre...
Regina
Navarro,
sexológa brasileira, vai mais
longe e define o tamanho, o tecido e a cor da calcinha
como sendo senhas. Senhas essas que revelam a identidade erótica de quem a
veste. Entre brancas, amarelas, rosas, vermelhas e pretas, temos um leque de
intenções, personalidades, sofisticação e ousadia. A amarela, por exemplo, pode
dizer de alguém que não quer ter relações sexuais. Já a rosa diz de uma pessoa
romântica e presa em ideais.
A preta é sofisticada, poderosa e mal intencionada, mas não
menos que a vermelha.
Enfim, Fetiches... Ou não!
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