terça-feira, 3 de novembro de 2020

CARTAS DE SETEMBRO


 



CARTA AO LUCIANO SOBRE LUANDA
 
Ao melhor amigo que encontrei na vida militar
 
 


 
 
Ermesinde, 11 de Novembro de 2007
 
 
          Amigo Luciano
 
 
 
     Faz hoje 35 anos que não nos vimos!            
    Nesse dia longínquo de Novembro de 1972, despedimo-nos à porta de armas do Quartel do RAAF em Queluz, já vestidos à civil e com o documento carimbado da nossa passagem à disponibilidade no bolso. Demos um abraço forte, trocamos endereços e desejamos um ao outro, felicidades com um até sempre! Estávamos com pressa, eu de apanhar o “Foguete” para o Porto, tu de apanhares o barco para o Barreiro.
    Nunca te escrevi, tu foste mais corajoso e passados alguns meses, mandaste-me dizer que casaste com a Rosa, enviaste-me até uma foto do vosso enlace. Quando em 1997, o nosso amigo Pinho me convidou para ir a Lisboa, a um encontro comemorativo dos 25 anos do nosso regresso do ultramar, aceitei, convencido que te encontrava. Apesar de rever muitos dos nossos amigos, aqueles que com nós passaram pelo mesmo limbo na vida, tu não apareceste por qualquer motivo e eu fiquei triste. Claro que abracei e relembrei momentos vividos, com o Franco, o Liberato, o Vicente e muitos outros mas... faltavas tu meu amigo, era contigo que eu gostava ter falado daqueles tempos, dos momentos que vivemos, dos livros que lemos, dos filmes que vimos, da poemas que escrevemos, da cidade de Luanda que palmilhamos rua a rua.
   Lembraste do Bowling em Alvalade, próximo à Igreja da Sagrada Família, enfrente ao Hospital Militar, ao lado daquela esplanada onde tantas vezes estivemos? E a Praça da Maianga onde apanhávamos o “Machimbombo” para a praia, ou Berliet para a Base. Ali era a baixa, onde haviam as montras da “Saratoga” e outras casas chiques. Onde havia o Museu de Luanda, o fotografo “Salvador” e o “Bitok” onde comíamos os Chocos com tinta. Onde jogávamos xadrez na “Biker” e bebíamos uns bons finos na esplanada da “Portugália”, acompanhados de um pires de dobrada, mesmo enfrente à elitista “Versalhes”. Logo por trás, havia o “Campino” que tinha umas moelas deliciosas em pratos de barro?
      E o Mercado da Maria da Fonte, onde por 50 escudos, comprávamos um quilo de camarão para comer na cantina da Base Aérea, acompanhados de uma grade de cerveja Nocal, Cuca, ou a Eka, “a loira tropical”. Aquele Praça onde tinha a estátua da Maria da Fonte e começava aquela grande avenida dos Combatentes. Passamos lá tantas vezes a caminho em busca de prazer nas meninas do B.O. (Bairro Operário). Depois parávamos na cervejaria “Apolo 11” para mais um fino e um pratinho de camarão que era oferta?
  Recordaste dos passeios que dávamos pela Baía, que ao pôr-do-sol era maravilhosa, com a sua avenida marginal, as palmeiras e as esplanadas?
   E da Ilha de Luanda quando íamos para a praia do “Tamariz” ou da “Barracuda”. E  naquelas noites de calor, quando íamos comer um caldo-verde no restaurante do “Ti Maria Conceição”? E a praia de Belas, com palmeiras pelo areal e o cheiro a peixe na seca, ou o cheirinho bom a banana assada nas fogueiras da praia? E a “Restinga” onde havia aquele buteco o “Tá-Mar” que quando havia mais dinheiro lá entravamos para um copo. Recordo-me de outros como: o “Acrópole”, o “Lorde”, o “Muxima”.
      Lembraste do futebol nos “Coqueiros” e do Hóquei em patins no “Ferroviário”? E os passeios pela Fortaleza, pela Sé, onde haviam aquelas ruas estreitinhas, onde descobrimos o bom bacalhau no “Floresta”? 
     Lembraste dos cinemas ao ar livre como o “Miramar” e outros, onde víamos um bom filme acompanhados de uma CUCA? E o “Restauração” onde vimos o Percy Sleid, a Elisabete, o Nelson Ned e outros cantores. O Teatro “Avenida” onde nos deliciamos com tantas peças de bom teatro, como “A Ratoeira” da Aghata Cristie que desenhei o logótipo?
     Recordaste, quando um de nós recebia um envelope azul (Valor declarado) com dinheiro e logo íamos defronte à Base, ao Bairro Salazar, comer um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo, com uma cerveja e só custava dezassete e quinhentos? E no dia seguinte íamos gastar ao “Casão” comprando volumes de cigarros? E a cantina onde fazíamos campeonatos de Dominó que o Seixas ganhava sempre? Nessa cantina que ao fim do mês para pagar o débito era um problema com os mil e duzentos escudos que ganhávamos de prémio de especialidade. Dos vinte e cinco tostões por um lugar no Cinema da Base ao ar livre, parecido com o de Grafanil, esse campo militar onde vivemos em tendas montadas na terra, durante quatro meses a comer cabeças de peixe frito nas cozinhas ao ar livre, com as moscas a zumbir e a chuva a cair. Onde enjoamos a compota de maçã no café da manhã, naquelas canecas de alumínio sem asa e com os dedos tapávamos os furos deixados pelos cravos?
     Sabes, ás vezes consigo fechar os olhos e sentir aquele cheiro de Luanda, ver a terra vermelha do Bairro do Prenda e os olhos cor de avelã da Mimi (a arrumadora no teatro). Consigo ainda ver aquela cor de pele linda que a Nandinha tinha (a empregada da pensão na Rua de Serpa Pinto, onde passamos com o Rodrigo e o Franco as férias). Ainda ouço as piadas do Franco, com aquele seu peculiar humor, ou o Vicente a distribuir o correio.
    Lembro todas estas coisa boas, as más? Não quero lembrar, tu também não decerto não queres!
     Perdoa amigo, esta carta já vai longa.
     Recebe um abraço do Carvalho com muitas saudades de Luanda.
 

CARTAS DE SETEMBRO

 





CARTA AO SILÊNCIO
 
 
 


 
Ermesinde Setembro de 2019
 
 
Senhor Silêncio      
 
 
 
 
 
Ouvir o silêncio é fazer descansar o espírito. De quando em vez sabe tão bem! Ficar distraído, de olhar distante, vazio, sentir o corpo lentamente esvaziar até quase deixar de ouvir o respirar.... Depois, escolher um dos dois caminhos:
       Aquele em que imaginamos uma paisagem enevoada, em tons de cinzentos, cada vez mais ténues como brumas, e nos vai levando de montanha em montanha cada vez mais longe, voando ao sabor da brisa, mais e mais, até ao vazio total do pensamento (o mais difícil de atingir), porque há sempre algo que nos preocupa, que ocupa a nossa mente.
      Ou então aquele que nos leva a uma introversão, ou seja, uma concentração de espírito, um recolhimento íntimo da alma, a uma introspecção. Resumindo: Um exame ao nosso interior... Pensar em quem somos, para que somos, pensar em quem amamos, pensar nos nossos sonhos, nas nossas legítimas ambições. Enfim, meditar.
      Numa dessas ocasiões quase chorei, quando me senti tão abandonado, que tive tantas saudades de mim!.. Do tudo que fui, de tudo que fiz. E perguntei-me:Onde estão aquelas dezenas de amigos, que me acompanharam nos ralis, nos passeios, nos jantares, nos fados, nas horas bem passadas em francos convívios!? É grande a minha tristeza, por não ter sabido preservar essas amizades, (ou não seriam!).
      E aqueles que estavam a meu lado nas horas más que tive, na guerra, na traição, na falência, nos momentos infelizes!? Será que nem a esses eu soube ser grato?
      Depois, bem! depois vem sempre o cansaço, porque o silêncio também cansa. Então, para nos encontrar-mos, nada melhor que a nossa música preferida, muito baixinho nos auscultadores, até acordar lentamente o silêncio, e voltar-mos à triste (quase sempre) realidade  da nossa vida. Àquela por quem lutamos dia a dia, numa luta constante pela sobrevivência, tentando não ferir aqueles de quem gostamos, e principalmente tentando ser feliz, que é das coisas mais difíceis que existem. Embora por vezes, por tão pouco, a felicidade era tão simples: Se nos contentasse-mos com o que temos; Se nunca fizesse-mos aos outros, o que não queríamos que nos fizessem a nós; E principalmente, se fizesse-mos um pequeno esforço para compreender os outros!... A vida seria com toda a certeza bem melhor, e nós éramos mais felizes.
     Mas...Existem muitos momentos na vida que estamos sós, alguns mesmo irremediavelmente sós. E embora haja muitas formas de solidão, das piores que existe, é aquela em que nos sentimos sozinhos no meio da multidão. Quando gostamos  daquilo que os outros não gostam, ”Não devíamos de gostar, de quem não canta a mesma canção” ( Diz o Rui Veloso, nas palavras de Carlos Tê) nem fazem um esforço para gostar; Quando  temos sentido de humor, e tentamos contar uma anedota que ninguém a compreende; Quando ninguém gosta de ler Eça, Steinbeck, Jorge Amado ou Garcia Marques, e assim não podemos lê-los juntos; Quando ninguém gosta de Sinatra, Betânia, Strauss ou Beethoven, e não os podemos ouvir juntos; Quando ninguém gosta de Woody Allen, Clint Eastwood ou De Niro, e nunca podemos ver esses filmes juntos; Quando não gostam de ir ao teatro, ouvir poesia ou visitar um museu, e só vibram com um jogo de futebol, uma telenovela, um mexerico; e nunca com o mistério dum bom filme policial!... Com a beleza de Melanie Griffith ou o talento de Al Pacino. Por tudo isto, é que estamos sós no meio de tanta gente.
   Por tudo isso é que se faz poesia, por tudo isto é que sofremos com o que escrevemos, tentando pôr no papel, esta amálgama de sentimentos que nos rói a alma, este sentir que sentimos tanto. E é por isto tudo que vivemos a vida  com paixão, sensíveis a tudo, até ao amor que não nos dão; Ás traições que nos fazem; Até ás lutas que travamos e ficamos sempre prejudicados, só para que os outros não sofram, porque gostamos da vida e de todos; Dos filhos e do Sol; Da chuva e de pasteis de nata; Da Lua e dum cigarro; Do nevoeiro no Douro e dum café bem tirado; De tudo, tudo, até de quem de mim não gosta.
     Por isso temos necessidade de escrever, e escrever... É um acto solitário. Entre o monitor e o teclado, apenas o pensamento voa no espaço do silêncio, amontoando letras do alfabeto em palavras , frases em conceitos, textos em narrativas. Levados pela imaginação, vamos gerando no papel  sentimentos que transmitimos aos outros  nas mais variadas formas.
      Vestir a pele do criminoso da vitima e do detective num livro policial, conseguir caminhar ao lado da personagem que  criámos, dar-lhe vida, amá-la e matá-la, ser o dono do seu destino; Ir onde se quer em qualquer altura, viajar com quem se quiser a qualquer momento; Ser-se bom ou cruel; Rico ou pobre; Fazer-se tudo que nos der na ideia, até amor... com quem passamos a vida a sonhar. Descrever uma paixão, só o consegue quem esteve apaixonado. Descrever o acto de fazer amor é difícil se não se disser as palavras todas, como na pornografia tão difícil de escrever, que o digam Cassandra Rios, ou Dallas Mayo, pseudónimos de grandes escritores, de grandes novelas pornográficas conhecidas no mundo inteiro, perseguidos pela censura, falsos moralistas, beatas e mulheres frustradas.         
      O amor e a poesia, andaram sempre de braço dado, não gosto dos poemas que falem de morte ou desgraça. Todas as paixão que tive, foram fontes de inspiração para mim. É maravilhoso ouvir em público, cantar um poema nosso, e saber que ninguém sabe a quem se referem aquelas palavras, só eu sei mais ninguém. Algumas quadras emendei-as, à última hora, num último instante, pois denunciavam indiscretamente a quem se destinavam, mas guardo na memória o original. Depois, as letras que faço e que cantam, contam uma situação, levam uma mensagem:

Se pudesse alguém pesar/O amor que a gente sente

Teu amor para meu pesar/Pesava mais porque mente.

E se mesmo assim depois/Negasses o resultado

Eu mentia pelos dois/Só para te ter a meu lado.
 
Ou assim: 

És alma gémea da minha/Gostas de tudo que eu gosto

Tu podias ser só minha/ Mas não és para meu desgosto.

 
Ou ainda assim quando partiste:


Nem adeus me disseste/ Um beijo apenas me deste/Tão leve que o ar levou

Com a pressa que partiste/Em maus olhos tu nem viste/A saudade que ficou.
 
Ou assim quando voltaste:


Tu voltaste finalmente/Agora sim sou feliz

Não há passado, o presente/Nasce quando tu sorris.
 
Ou assim este recado:


Nada nem ninguém pode entender/O que me vai na alma de momento

Só eu a conheço e ando a viver/Este amor inconstante como o vento.

Quando vier o frio me gelar/Os lábios da boca que a beijou

Em gavetas vai decerto encontrar/Poemas seus que o vento não levou.
 
Mas... e o medo?


Á Muito que o meu anseio/Era ter-te nos meus braços

Mas sempre havia pelo meio/Muitos medos, outros passos.

Até que um dia vieste/Como quem vem para se dar

E lembro até que trouxeste/Olhos tristes de chorar.

Beijei-te como quem tem/Um desejo acumulado

Amei-te como quem vem/Das galeras degredado.
 
No final, o nascer:


Tu vieste com a bruma/Junta á onda que desmaia

Em nuvens feitas de espuma/ Como rendas de cambraia.

Depois veio o Sol, cobriu/Teu corpo que bem me lembro

E um poema floriu/ Nessa manhã de Setembro.
 
Bonito, é quando se sente realmente o que se escreve.
Maravilhoso, é quando se consegue escrever o que se sente.

CARTAS DE SETEMBRO




 

CARTA À ESTUPIDEZ




 
 
 
Ermesinde Setembro de 2020 
 
 
Senhor Confissionário
 
 
 
 
  Sinto que já não tenho aquela alegria ou o prazer, o contentamento de ouvir um aplauso, um elogio por uma letra escrita, de ouvir um fado cantado com uma letra minha, enfim, aquela satisfação de saber que alguém gosta, canta, grava o que eu escrevi. Hoje já não sinto isso, claro que também não estou lá para ouvir, para sentir, mas noto um grande desencanto de ter pensado ingenuamente que podia ombrear ao lado de outros letristas de renome. Tudo isso, principalmente com a miséria que recebo da SPA, que chega a ser ridículo, um autor receber dezoito euros de direitos num ano. Por tudo isto, o desinteresse em escrever apagou-se, não vale a pena, estou cansado, muito cansado.
A vida já não tem grande interesse em ser vivida, apenas se vai sobrevivendo o dia a dia com o pouco que se ganha, mas sem ilusões, sem sonhos, agora já não há tempo e apesar do ditado “enquanto há vida há esperança”,hoje sei que nunca terei o que gostava de ter, aquela sala só minha cheia de livros, filmes, retratos e quadros. Um espólio de recordações que os vindouros apreciassem. 
Sei que nunca irei onde gostava de ter ido à Grécia à Itália ao Egipto, conhecer as civilizações de onde todos viemos, conheci através dos decomentários da tv. Não tenho tempo de fazer o que gostava de deixar feito. Tudo tem sido uma desilusão, desde a família, ao fado, desde os amigos ao modo com que sou obrigado a viver. A esperança de dias melhores desfocou-se, não tenho nada com que me orgulhe, não devo ter sido um bom pai, um bom marido, um bom amigo, falhei com todos e principalmente comigo. Nunca publicarei um livro, nunca serei reconhecido como autor e dias depois do meu fim, ninguém se lembrará de mim. Confesso que não tenho medo de morrer, apenas tenho pavor ao sofrimento. Sei que me calei tanta vez por covardia, quando podia ter falado e mostrado a minha atitude em relação a muitas coisas que os outros não compreenderam. Tudo porque quis viver em paz com os que me rodearam e não quis conduzir uma revolta que me levava à desunião com os meus e ia sofrer por isso porque os amo a todos, à minha maneira é verdade, mas amo. 
Perdi a capacidade de sonhar, rasguei mesmo a lista dos meus sonhos. Agora penso que tudo tinha que ser assim e a vida deu-me o privilegio de conhecer pessoas maravilhosas, algumas perdias como a minha avó, meu pai, assim como muitos amigos. Até um dia, e se a reencarnação for verdade, quando voltar, vou ser diferente, quero ter carro, ser sócio do FCP e nunca ocupar as estantes com livros, ser bruto e ignorante e assim serei recordado por todos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

CARTAS DE SETEMBRO







CARTA A QUEM QUISER LER
 
Talvez ao Pai Natal
 
 
 
 

Ermesinde, Setembro de 2007
 
 
      Amigo Etéreo
 
     
      Hoje é dia do meu aniversário, para o próximo ano entro nos sessenta e gostava, enquanto tenho tempo, de lhe agradecer a vida que me tem dado, apesar de ter certas duvidas se o meu amigo existe, pois sinto-me mais um agnóstico que um crente.
      Tal como diz esse sistema filosófico, o meu agnosticismo provem das dúvidas que encontro na vida e do total desconhecimento que tenho do espírito humano. Claro que fui baptizado, crismado e casei pela igreja, não porque acredite na existência de Deus, mas porque fui obrigado a isso. Todavia, acredito na alma humana enquanto comandada pelo cérebro, mas que morre na hora em que morre o corpo. Um pé, um braço, uma mão, depois de separados do corpo não mexem mais. A morte quando é premeditada, é sempre no cérebro que ocorre, seja um tiro na cabeça, a asfixia numa corda ao pescoço, a guilhotina ao ser-se decepado e mesmo as cadeiras eléctrica ou de gás, só é declarada a morte se for cerebral. Mesmo na doença, pode um ser humano viver ligado a uma máquina muito tempo, que a sua morte só acontece quando essa máquina é desligada e o cérebro deixa de funcionar. A inteligência humana, conseguiu fazer máquinas que prolongam a vida do homem, ou substituindo órgãos como o coração e outros, mas nunca se transplantou um cérebro, este é o centro neurálgico de todo o fenómeno da vida. Mesmo na sua concepção, o homem utiliza o cérebro para a erecção e subsequentemente a ejaculação do seu esperma. Pode ser utilizado qualquer método, desde a inseminação artificial ou fertilização in vítreo, mas sempre foi preciso o cérebro. Todos os sentidos, todo o sistema nervoso lhe está ligado, claro que a sua irrigação pelo sangue é fundamental, para isso todo o conjunto de órgãos do corpo têm importância, desde a hematose nos pulmões (transformação do sangue venoso em arterial, com a ajuda do oxigénio), até ao bombeamento do coração (órgão central da circulação sanguínea), que o leva a todo o corpo, passando pelo fígado com a sua função de secreção biliar e glicogénica, até ao pâncreas, aos rins e todos os aparelhos digestivo, respiratório e circulatório. Resumindo: Pode-se viver com um coração artificial, sem um rim, até sem um pulmão, mas nunca sem o cérebro.
        Mas tudo isto sabes muito melhor que eu. Perdoa-me se este (apenas ser humano), não tem razão no que diz, mas é a minha ideia, baseada na minha pouca inteligência e com muito pouco ou nenhum conhecimento de anatomia. Nem é minha intenção fazer a apologia do cérebro, apenas centrar nessa massa encefálica a sede da inteligência, do pensamento, do juízo, de todas as funções psíquicas, centro intelectual de onde imanam todas as ordens do corpo, enfim... A alma do ser humano.
        Essa alma que não creio que vá para lado nenhum depois da morte, faz-me sentir comoção ao ver o sacrifício de um peregrino em Fátima, porque respeito a fé dos outros. Mas também me faz comover de raiva e impotência, ao olhar as crianças morrerem de fome ou o desespero da morte nos campos de guerra. Não consigo ainda entender, o holocausto nem a angustia e a dor dos que sofrem injustamente, escravizados pela ambição desmedida de alguns e a ganância de outros, cegos pelo poder. Que esses fossem castigados pela providência, posso entender, enfim! Mas...”As crianças Senhor, porque lhes dás tanta dor, porque padecem assim?” como diz o poeta Augusto Gil.
       Sou um filho do universo e todos os dias agradeço ás estrelas, a ti, ou a alguém que me ouça, a cama onde durmo, a mesa onde como, o tecto onde me abrigo, a saúde que tenho. Mas sinto uma tristeza enorme, quando não me consigo fazer entender aos olhos dos outros, principalmente dos que me são mais queridos.
       Estou cansado de dar e pouco receber em troca, de sacrificar os meus ideais em prol dos outros sem respeitarem os meus. Estou casado de não ir onde queria ir, de não fazer o que queria fazer, de não ser o que gostava de ser. Tudo porque, confesso, além do medo que me assola de não querer fazer os outros infelizes por minha causa, talvez me falte vontade própria para concretizar tais intentos. Tomo como exemplo a minha vida de quarenta anos de trabalho, onde nunca fui compreendido nem compensado pelo esforço que fiz. Nunca fui devidamente aproveitado pela minha inteligência e arte, apenas explorado pela minha humildade e abnegação ao trabalho.
        Diz a astrologia que seres nascidos no dia em que eu nasci, nunca serão compensados pelo seu esforço e toda a vida trabalharão para enriquecer os outros. Não mata, mas desmoraliza muito, a ser verdade tal premonição. Depois de todos esses anos de trabalho, vivo agora por decreto, com um subsídio para que possa sobreviver, fazendo-me sentir um inútil e vivendo sem vontade, contendo-me nas exigências e sufocando de desejos e sonhos que nunca verei concretizados.
        Hoje tenho vergonha de olhar uma montra, porque sei que nunca comprarei o livro que gosto, a prenda que gostava de dar ou o filme que gostava de ver.
        Abdiquei de quase tudo, recolhi-me feito um eremita a um canto, rasgando os sonhos um a um, zangado com o mundo que muitas me faz pensar que não é o meu, desiludido com os amigos que pensava serem p’ra toda a vida, desiludido com muitas coisas que na minha vida particular acontecem e que pensei nunca acontecerem.
        Faz-me doer, em ter que contar as moedas para tomar um café, comprar o jornal ou um maço de cigarros. Sim cigarros, os eternos e mórbidos companheiros que nunca me deixam só.
        Por manifesta impossibilidade de o fazer hoje, dói-me muito, abdicar da Internet e fechar os olhos a essa janela do mundo. Abdicar de convívios sociais, do fado, do meu pecado da gula, do meu pecado (pecado?) do sexo. Poucas coisas me restam, como um cigarro e esta vontade de escrever, coisas a que nem sei se chamo poemas, mas mesmo que seja uma carta (a não sei quem), que me pudesse tirar estas minhas dúvidas existenciais.
 
                          Obrigado 

  

CARTAS DE SETEMBRO


 


CARTA AO SERRÃO


Ao amigo que não esqueço
 
 
 
 


Ermesinde, Setembro de 2007
 
 
       Amigo Serrão
 
 
      Sei que nunca vais ler esta carta, porque nunca a vou enviar, trata-se apenas de um desabafo ou de uma forma de te dizer o que sinto sem te ouvir nas críticas acutilantes que sempre fazes, que aliás, podem ser muito construtivas, mas que a mim, de nada me valeram. São sempre são sentidas pelo teu ponto de vista e nunca pelo meu. Falar de barriga cheia é simples! Para ti tudo é facilidades e tudo tem que ser como tu queres. Ou não vivesses tu nessa bolha de arrogância e perfeição, sem admitir os erros ou imperfeições dos outros.
       Conhecemo-nos pessoalmente numa livraria, embora te conhecesse de vista há muito tempo, ou mesmo de nome pelos amigos. Tinhas na altura, passado por um momento mau da tua vida, que tive conhecimento pelos jornais.  
        Encontrávamo-nos no café do bairro para leitura dos jornais, principalmente aos sábados. Já nessa ocasião, davas ares de figura importante e muita gente não te via com bons olhos. Mas eu gostava de conversar contigo e não via impedimento na tua condição de pseudo doutor. Talvez fosse precisamente pelo teu modo de ser, que conseguiste sempre safar-te dos casos duvidosos em que te enleavas e que punham os outros de pé atrás. 
        Posso compreender que tenhas o teu modo de pensar, todos temos o nosso! Mas confesso, que a maior parte das vezes não te entendo por mais esforço que faça. Se te falo das minhas dificuldades, que não me posso comprometer com nada no momento, tu insistes com a tua forte personalidade e modo agressivo de dizeres as coisas, que muitas vezes nem queres entender as minhas razões, és sempre tu que sabes e eu nunca sei nada.
       Adorava conversar contigo sobre cinema, literatura e outros temas, tu és uma verdadeira enciclopédia nesses temas, aprendi muito nessas conversas, mas sempre notava em ti um ar de superioridade de petulância até. Mas compreendia, é verdade que compreendia, quem não sente uma certa vaidade quando vê que está a ser superior a alguém? Aturava as tuas taras, sim taras, ou então que nome dás ao gesto que tiveste por exemplo, quando me obrigaste a pagar aquelas cassetes de vídeo, mesmo sem ter possibilidades para tal? Recordo como se fosse hoje:
       Tudo se passou naquela época, em que te dei a ideia de ordenares a tua fabulosa videoteca, com o filme junto do livro de onde foi extraído o enredo, o que quase sempre acontece. Como também estava a fazer o mesmo, embora numa escala muito mais pequena, houve um dia em que me vendeste 25 cassetes de vídeos com filmes repetidos que eu não tinha. Deste-me a possibilidade de tos pagar aos poucos e assim fui cumprindo (contigo não pode haver falhas...), como podia? Um dia em que não tinha mesmo possibilidades, falei contigo com a ideia de poder adiar o pagamento, que diabo! Éramos amigos (ou não?), mas tu foste irredutível e a única forma que arranjaste para solucionar o problema (depois de palavras bem agrestes, tipo: Não tens palavra, prometeste e agora falhas, etc., que muito me magoou), era que eu devolvesse a quantidade de vídeos igual ao valor em falta. Respirei fundo e já em casa, escolhi os filmes que mais me interessavam e devolvi-te os restantes (a minha vontade na altura foi devolver todos). Tu conferiste e assim deste por saldada a minha divida.
       Engoli a tua afronta, primeiro que afinal embora tenhas lido muito, não consegues compreender uma simples amizade. Depois, porque tinhas resolvido para mim, um problema que muito me preocupava sobre o tribunal e as finanças e como nada quiseste em troca... desculpei-te pelo favor que me fizeste, porque como diz o povo: Uma mão lava a outra. 
       Deitei tudo para trás das costas e continuei a ser teu amigo, até porque não te esquecias dos meus anos e mesmo no Natal, tinhas sempre um livro como presente e eu não tinha (nem tenho) nenhum amigo que me dê presentes. Por tudo isso, sacrificava os meus sábados de manhã para de lista em punho, procurar na loja de vídeos em Fernão Magalhães (o que me obrigava a pagar transportes), os filmes que tu querias para gravar.
       Depois precisaste de mim para ser tua testemunha abonatória em tribunal, pelo caso em que estavas envolvido. Nunca faltei (como chegou a fazer o Américo com atestado médico), mesmo com prejuízo no trabalho, pois era-me descontado as horas que perdia para esse efeito, de cada vez que lá ia e foram muitas as vezes. Até que um dia...
      Depois de mudares a tua vida e estar algum tempo sem te ver, continuaste a enviar-me alguns livros pela tua filha, enquanto continuávamos a falar agora pelo telefone. Soube então que estavas bem e eras agora uma espécie de consultor de uma editora, convidaste-me (sabendo que eu tinha alguma coisa escrita e registada na SPA), para fazer parte do livro “Novíssimos” que a tua editora ia publicar, dando oportunidade a novos autores e poetas (letristas no meu caso), para serem editados pela primeira vês. Delirei com a ideia e logo escolhi meia dúzia de coisas para te mandar como me pediste, grato pelo convite e eufórico por ser finalmente editado. O pior veio a seguir... Eu sei que nada se faz de graça, mas a minha alegria era tanta à mistura com muita ingenuidade, que aceitei os requisitos que me impuseste e fui enfrente.
      Para fazer parte de uma pequena edição de 1000 exemplares, era obrigatório cada um dos 30 autores como eu, ficarem com 30 exemplares cada e paga-los a 1.750$00 cada. Ora 30 vezes 1.750$00, dava 52.000$00 que manifestamente eu não tinha. Embora para ti (Deus da facilidade), eu tinha que ter... Quem não tem? Mesmo assim, depois de conversarmos, fizeste-me o grande favor de aceitar essa verba em 3 prestações. Tu nem imaginas o sacrifício que fiz para conseguir pagar-te, porque sempre penso que vives num mundo superior, onde tudo são facilidades e não podes, nem queres, entender os pobres mortais. Sou humano, peco, perdoo, rio, choro, vivo e tenho que me alimentar a mim e aos meus. Não posso pensar no supérfluo, a minha vida tem sido de trabalho, não tenho carro, não tenho muita coisa que gostava, mas tenho o dever de olhar pelos meus e a legitimidade de ser como sou, mas não entendes... mas eu pensava sempre que tu entendias. És culto, lês-te muito, sabes mais das coisas (saberás?), nasceste possivelmente em berço d’oiro e sempre mantiveste um padrão de vida média-alta (pelo menos aparentemente...) só que em relação aos terráqueos mantinhas uma distância de ser superior.
      Muitas vezes penso, que mesmo quando tens um gesto de dádiva para com alguém, é sempre com ares de grande senhor, como se estivesses a fazer um grade favor à humanidade. Ora eu, na minha insignificante existência também penso e ao fazer contas vi: Que os 1000 livros editados foram todos pagos e nenhum de graça, sim porque 30 vezes 30 é igual a 900 e com 30 oferecidos (3 a cada um dos 30 autores), apenas sobraram 10 para ofertas pessoais e publicidade. Como uma edição de autor com 1000 exemplares fica por 700.000$00, esta deu muito lucro pois ficou por 1.750.000$00.
         Par te poder pagar a terceira e última das prestações, tentei pôr à venda (à consignação), alguns desse livros na livraria do bairro, que não aceitou a minha oferta e eu fiquei com todos na estante para oferecer aos amigos.
         Enfim, consegui pagar-te tudo, nada te devo.  
         A par deste caso, fomos conversando sobre a possibilidade de poderes editar dois livros que eu tinha prontos. Um com 100 letras de fados meus e outro (uma novela), sobre o fado na cidade do Porto.
        Entretanto como tinhas saído da tal editora e agora eras sócio de outra, mostras-te interesse e disseste-me, que havia agora mais possibilidades de meus livros serem editados. 
        Depois de tos enviar pela tua filha para tua apreciação e como passou tanto tempo sem o fazeres (ou não tinham mesmo interesse nenhum e nem sabias como mo dizer), falei-te em reavê-los pois tinha que ajustá-los de novo ao tempo, uma vez que num deles, existe uma lista de nomes ligados ao fado e que entretanto tinha crescido.
        De novo te enviei o primeiro pela Cati, depois de te ligar para te informar que estava a trabalhar no segundo. Mais tarde, liguei-te novamente para saberes que estava pronto e ia mandar-to, disseste-me que o 1º tinha muitos erros e que logo que verificasses também o 2º, telefonarias a marcar um encontro, para falarmos sobres a rectificações necessárias agora nos dois.
       Fiquei à espera desde de Maio de 2006, hoje são 12 de Setembro de 2007...
        Tenho consciência que não sou nada como escritor, nem sequer tenho pretensões a isso, no entanto, confesso que sonhei um pouquinho com a possibilidade e o sonho de ser editado.
        Tentei com uma carta que enviei ao responsável pelo pelouro da cultura da Câmara de Valongo, a possibilidade do patrocínio de um dos livros “À Janela do Fado” o tal que fala da vivência do fado no Porto. Não fui atendido, paciência!
        Quis saber o custo de uma edição de autor e pedi que me enviassem orçamentos a várias tipografias. A verba rondava sempre os 350.000$00 para 500 exemplares. Mas claro que eu não tinha, nem tenho esse dinheiro e fiquei á espera de melhores dias, mas a minha relação com o dinheiro é muito fraca... e fui perdendo a esperança.
        Vou escrevinhando algumas coisas, imprimo para guardar em arquivo, gravo em disquetes para desafogar o disco duro e fico com a remota esperança de um dia (quando já não andar por cá) os meus filhos ou netos os leiam.
       Não fora o meu modo recatado de ser, em não gostar de palcos nem protagonismos (mais uma das coisa que criticas) e talvez já tivesse tido essa oportunidade de ver um livro meu publicado. É que ás vezes o que é preciso é ter lata, saber-se encostar aos que podem, frequentar o meio, esperar uma oportunidade, bajular ás vezes e consegue-se. Ou não anda por aí tanta gente armada em intelectual de meia tigela?
        Quanto a ti, estou-te grato pelas oportunidades que me deste e que decerto eu não soube aproveitar.
        Obrigado pela tua ajuda e cá debaixo do teu pedestal te saúdo. Ave Serrão!
 
       Um abraço do amigo
          Manuel Carvalho
 

CARTAS DE SETEMBRO


 




CARTA OU INVENTÁRIO
 
Aos principais interessados
 
 
 


Ermesinde, Setembro de 2007
 
 
          Amigo inventariante
 
        
         A pretexto de um inventário para actualização de apólice de seguro do recheio de casa, muni-me de papel e lápis, e fui de sala em quarto tomando nota do meu património. Era pouco e de baixo valor, apenas inflacionado pelo valor estimativo. Não se tratam de grandes peças de mobiliário, caríssimas antiguidades, quadros famosos, louças finíssimas, roupas de marca, tapeçarias ou luxuosos objectos de decoração, carros, propriedades ou acções da bolsa. Não, são apenas coisas simples, ganhas e pagas (muitas vezes a prestações) com o trabalho de uma vida. Não seriam totalmente aquelas coisas que adorava de ter, mas são coisas e objectos especiais que para outros seriam decerto banais ou mesmo pindéricas.
      Tirando o mobiliário normal dum quarto ou duma sala, as roupas necessárias para cama ou de vestir, os apetrechos inerentes e electrodomésticos imprescindíveis numa cozinha, os aparelhos de imagem e som normais de lar modesto, restavam aquelas coisas de intimo valor, que não sei se valeu a pena ter adquirido ao longo do tempo, pois embora tivesse incutido aos filhos o seu intrínseco valor, via com grande tristeza que não lhe davam a devida importância, contrariando aquele dito antigo que para a educação das crianças, conta muito o exemplo que se dá.
      Duma biblioteca de mais de mil e quinhentos volumes de vários autores, de uma biblioteca musical com mais de oitocentos CD’s e de uma videoteca de mais de mil e duzentos filmes gravados em cassetes, poucos, muitos poucos mesmo leram, ouviram ou viram. Tirando o cinema que um deles vê e gosta, outra que gosta mas não vê e outra que vê mas só lhe dá uma importância relativa. Nenhum deles alguma vez leu, a não ser (em percentagem), de um a dois livros em 30 anos.
       Põe-se a questão: Para onde irá tudo isto amanhã, para o lixo? Doado a uma biblioteca? Haverá uma instituição cultural que receba este acervo? Não consigo imaginar os filhos a dividirem entre si tudo isto e darem aos netos para enriquecer o seu intelecto. As crianças hoje têm todo o saber digitalizado, para que querem um livro? É muito mais estimulante um jogo de vídeo que um bom filme. Um aparelho de mp3 ou um telemóvel com música, do que o obsoleto vinil ou cassetes.
       Sempre desejei, tudo aquilo que todos os pais desejam, a felicidade dos filhos. Nunca impus que fossem doutores e sempre lhes dei a liberdade de serem o que quisessem ser. Também não tive recursos para lhes dar melhor do que dei! Mas tenho a certeza absoluta que lhes dei o meu exemplo, pela educação, pelo trabalho, pelos valores da amizade, do amor e da verdade. Sei que os genes dos filhos também são os da mãe e talvez os dela se tenham sobreposto aos meus. Devem ter herdado do lado materno, um pouco do desprendimento pelas coisas cultas, pelas artes, pela literatura. Também o lado agressivo com que enfrentam qualquer problema que se lhe depare na vida. Não herdaram de mim a vergonha, a serenidade, a discrição, a calma.
      Dentro dessa minha serenidade, vou tentar viver o tempo que me resta a pensar: Que façam o que acharem melhor com tudo que lhes deixo.
      Ficam neste inventário:
      Livros de guerra, romances, erotismo, policiais, históricos, aventura, colecções de diversos autores portugueses e estrangeiros.
      Música diversa, principalmente fado, em vinil, cassetes e CD’s. Fados de minha autoria gravados por muita gente ao longo dos anos.
      Filmes gravados em vídeo, portugueses e estrangeiros, de guerra, western’s, policiais, aventuram, eróticos, dramas e comédias. 
       Algumas colecções de filatelia, fluminismo e numismática, cromos, jornais, chávenas, copos.
       Enfim, tudo em que gastei com meus proventos em vez de comprar um carro, ser sócio do FCP ou viajar pela Europa a ver os jogos dos campeões europeus. Mas será que era mais feliz? Será que fazia os meus mais felizes? Se calhar fazia, a avaliar por muita gente que conheço.
       Entretanto em 2010, fiz uma lista que ainda possuo e doei à Biblioteca de Ermesinde 1.000 livros. Mandaram uma carrinha da Junta cá a casa e levaram tudo em caixas de cartão. O Presidente da Junta nem me agradeceu, apenas um email que dizia assim:
 
«Exmo. Senhor
Serve o presente para agradecer a oferta dos livros que, amavelmente, fez para a Biblioteca da Junta de Freguesia de Ermesinde.
Grato pelo importante apoio concedido para o enriquecimento do nosso espólio bibliotecário apresneto os melhores cumprimentos.
 
Por delegação do Exmo. Sr. Presidente da Junta
O Tesoureiro
Romeu Maia» 
 
 
        Um braço amigo inventariante
 

CARTAS DE SETEMBRO

 






CARTA AO VERISSIMO
 
Aos meus colegas de 26 anos de trabalho
 
 
 

Ermesinde, Setembro de 2007
 
 
        Sr. Veríssimo
 
        
        Além de ser levado pela ganância, empurrado pelo “Cavaquismo” e possuidor duma ignorância a toda a prova, sem educação ou aptidão para gerir seja o que for, ingrato para quem o ajudou a enriquecer o seu património, melhor não se podia esperar dum homem inculto e desprovido de personalidade. Reles, mentiroso e muitas vezes cruel, odiado até pelo filho (herdeiro da sua ganância) e incapaz de saber distinguir aqueles que o quiseram ajudar nas más horas que passou, na empresa que fundou com a ajuda do sócio Manuel Moreira, esse sim, pilar fundamental da firma de publicidade  Moreira & Verissímo, que com a sua saída provocou o a derrocada final, numa empresa pioneira e em franco progresso, mas que não soube acompanhar as novas tecnologias do mercado e oportunidades do momento em causa. E porquê? Eu conto, pela experiência de 26 anos ao serviço da empresa:
 
1982 — Os primeiros 3 anos foram de sacrifício, de trabalho sem condições ao frio, ao sol e muitas vezes desenhando em mesas improvisadas com pingos de chuva a caírem, etc. Mas sempre na ansiedade de conquistar melhorias nas condições de trabalho e benefícios salariais, uma vez que era a única empresa do sector na cidade. Havia naquele tempo um bom lote de profissionais, considerados por muitos como verdadeiros “artistas”. É deste viveiro que mais tarde (anos depois), vão nascer empresas que chegam a fazer uma forte oposição comercial.
 
1985 — Nos 5 anos seguintes, melhoraram as condições, agora com estiradores e material (que até aí era pago pelos próprios trabalhadores), e instalações de mais qualidade. Começaram a haver aumentos bianuais de salários, gratificações no Natal e almoço anual. A produção aumentou e entrou mais pessoal, chegando a trabalhar na empresa 25 pessoas.
 
1990 — Nestes 8 anos a seguir, foi a entrada no mundo da informática, um passo gigante na vanguarda do sector de produção. Desenho computorizado com programas específicos para corte em plother. Máquinas de fresagem e corte de esferovite em grandes volumes. Impressoras de jacto de tinta para grandes e pequenos formatos. Aquisição de grandes instalações para camiões de grande tonelagem. Aumento de postos de trabalho que atingem nesta altura 30 empregados. Aumentos anuais de salários, gratificações na Páscoa e Natal, almoço anual e distribuição mensal de senhas de refeição.
 
1998 — São os 3 anos onde vai começar a descalabro. A sociedade que até então era de dois sócios, dá lugar a mais dois (os filhos). Descapitalizam a empresa com obras megalómanas. Novas instalações para: Escritórios, sala de reuniões e 4 gabinetes de luxo, orçado em mais de 20.000 contos. Central telefónica no valor de mais de 1.000 contos. 4 Automóveis comerciais para a gerência no valor de 9.000 contos. Modificação total da identidade da empresa desde simples cartões à publicidade nas viaturas, com custos acrescidos de mais de 1.000 contos pagos a um designer particular. A partir desta altura terminam os aumentos salariais, acabam todas as gratificações e terminam os almoços anuais da empresa. Os sócios da empresa, passam a auferir os quatro, 2.000 contos mensais. O pessoal eventual (a recibo verde), é afastado e os 16 que ficam, recebam no total ao fim do mês 1.600 contos (menos que os 4 gerentes). É desviado da empresa materiais e serviços que não são contabilizados e dois dos sócios abrem empresas paralelas. Cava-se um buraco orçamental a empresa fica descapitalizada e a “crise” instalou-se. Enquanto isso, o património particular aumenta com: Automóveis topo de gama. Casas de luxo. Apartamentos no Algarve. Viagens ao estrangeiro de férias, pagas pela empresa. Motos de grande cilindrada para filhos e netos. Telemóveis topo de gama para toda a família. Passagens d’Ano e festas de Carnaval no estrangeiro. Desorganização total na empresa.
 
2001 — São os 5 anos da “Crise”. A sociedade é desfeita e três sócios abandonam a empresa, o único que fica não tem capacidade organizativa, nem sabe gerir os destinos da empresa. Desmoralizado e vitima do sucedido, arrasta a empresa para o caos, desmotivando os trabalhadores e a coberto da “crise”, e não querendo mexer no seu património particular, nem arranjando novas vias de saída da crise, perdendo 80% da carteira de clientes para outras empresas que entretanto foram abrindo ao mercado. Rodeia-se de pessoas que mesmo tentando erguer a empresa, ele começa a ser o obstáculo principal com a ideia predefinida de levar a empresa gradualmente a fechar. As dívidas à banca, ao estado e a fornecedores acumulam-se. Os salários começam a ser pagos em duas e três prestações. A desmotivação é total, não há ninguém que venda e a produção cai mais de 70%. Os filhos com medo de verem lapidado o património particular do patriarca, fazem reuniões sucessivas para venderem a empresa que no momento tem um passivo superior ao activo. Todas as tentativas saem frustradas e para não fechar a empresa, com dívidas por todo o lado, recorrem a mais credito e tentam fazer uma reestruturação, com o despedimento de mutuo acordo, com 5 dos 12 trabalhadores actuais na empresa e com os salários mais altos, apesar de não terem qualquer aumento nos últimos sete anos. Entregando nas mãos da Segurança Social e do Fundo de Desemprego o destino das pessoas, na da taxa etário de 35 aos 60 anos.
 
2007 — Afinal a tão esperada reestruturação nunca chegou. O gerente que não quer, nem sabe gerir, vai levando dia a dia a empresa ao caos. Mesmo na hora de vender a empresa e tentar que o M&V sobreviva, “rói a corda”, insulta os compradores e abandona as negociações, cego pela estupidez que sempre o caracterizou (que o digam, clientes, fornecedores e todas as pessoas que tentavam um diálogo civilizado), para desespero das próprias filhas que ainda pensavam conseguir uma saída para a crise. Com um total desprezo pelas pessoas, deixa a empresa afundar depois de penhoras sucessivas e fecha as portas definitivamente em Fevereiro, pedindo a ajuda do filho que tanto caluniou e culpou pelo descalabro da firma, pois nem para declarar falência o “gerente” teve habilidade. Os poucos empregados na altura, encontravam-se agora com a carta de despedimento na mão e palavras a abater ao débito de 3 meses de ordenado. Outros com quem assinou compromissos ficam de mãos vazias. Foi o fechar de um capitulo da era da publicidade na cidade do Porto. Aquela que tinha sido a empresa pioneira, com credibilidade no mercado, “MÃE” de muitas que hoje existem, fechou as portas da pior maneira.
                         Paz à sua alma!
 
                        Manuel Carvalho
 
(empregado nº7, apesar de em 2005 ser o 2º mais antigo na empresa, mas... a ordem era por nome, para que Álvaro Pinto [afilhado e sobrinho], ficasse em primeiro e o mais antigo, Gerado Ferreira e eu Manuel Carvalho, ficasse afastado, até nisto...)
 

CARTAS DE SETEMBRO





CARTA ÀS MULHERES
 
Ás interessadas
 
 
 
 
Ermesinde, Setembro de 2018
 
 
          Amiga 
 
 
Fetiche é uma condição na qual alguém é sexualmente fixado num objeto inanimado. Pode ser um salto alto, uma linda lingerie ou uma parte do corpo. Os fetiches sexuais ganharam visibilidade sem receios ou vergonhas e hoje são opções preferidas de homens e mulheres. Inclusive, uma das dicas que os sexólogos dāo para melhorar a nossa vida sexual, é sempre experimentar novas sensações.Não se deve ter medo de se soltar e colocar em prática seus fetiches, saiba que não deve haver tabus quando o assunto é sexo! Desde que haja satisfação mútua com o seu parceiro, ter um fetiche pode apimentar a relação e deixar a vida sexual mais prazerosa.
Dos maiores fetiches na sexualidade é sem duvida a lingerie, pela sua textura, a seda o cetim e o nylon, sempre foram como peças íntimas da mulher, um fascínio e uma arma de sedução.  A lingerie, essa segunda pele teve os seus registos na Grécia Antiga. Naquela época, as mulheres usavam uma faixa de tecido em torno do tórax para sustentar os seios e peças parecidas com fraldas de algodão na parte inferior do corpo. Os sutiãs e calcinhas conhecidos atualmente surgiram apenas no início do século XX. Até então, ainda se utilizava espartilhos e crinolinas. As primeiras roupas de baixo tinham como função principal redesenhar a silhueta feminina. A peça de destaque era o espartilho, criado para ser usado sob trajes e vestidos. As mudanças trazidas por este novo contexto industrial não foram suficientes para inaugurar um caráter erótico proposital nas roupas íntimas femininas. Afinal era a praticidade a nova ordem em questão. Isto significa que as peças mantinham seu caráter erótico natural devido à região que veste, porém não teria nenhum apelo proposital para lembrar o sexo, ou seja, um caráter de sedução.
Através de cartões-postais, imagens de mulheres seminuas eram veiculadas. Estas eram prostitutas que posavam em poses sensuais para atrair os olhares masculinos. Nota-se que o caráter erótico-sedutor não se dá em qualquer corpo feminino, mas apenas ao da prostituta.Esta separação entre as duas figuras femininas, esposa/mãe/dona-de-casa e prostituta, constitui uma forte representação para as mulheres desde finais do século XIX, e presentes até grande parte do século XX. Estas representações femininas não separam apenas suas funções sociais, mas também suas funções corporais: o corpo do prazer e o corpo maternal.
Um jornalista brasileiro descreve assim a sua relação com a mulher amada, a sua mulher ideal:
 
A MINHA MULHER IDEAL
 
Quando uma mulher te ama, é capaz de tudo.
Ela compreende-me, a mulher que adoro e veste-se com a lingerie mais sexy, agora sim, não é só nas revistas ou no cinema, não é só nas fotos da net ou da PlayBoy, agora posso ter uma mulher linda, de cinta liga que prende as presilhas ás meias de seda, que veste uma calcinha de seda cheia de glamour, que põe um sutiã de renda justo nos seios lindos. Amo essa mulher glamourosa, que solta o cabelo num gesto unicamente feminino, que veste uma camisa de noite em seda até aos pés cheia de lacinhos e rendas, que acende velas na mesa num jantar a dois, que dispõe velas de cheiro pela casa, que regula a luz o mais suave possível e me chama para jantar.
Essa mulher me entende, deixa-me beijá-la com amor e desejo, deixa-me lamber-lhe as entranhas em fogo e faze-la vir, alcançar o supremo dos orgasmos com a minha boca e dar-lhe um mais pleno dos gozos. Meter-me dentro do seu corpo, fazê-la gozar até lhe mostrar o céu e por fim vir-me dentro dela, ungindo com meu amor supremo e que une uma mulher a um homem. Ela adora o seu homem, que lhe dá o maior dos prazeres no máximo da sua virilidade, que a leva ao infinito do prazer como nunca nenhum homem a levou. Que importa as suas fantasias... Ela também as tem e ele, todas as satisfaz com amor e loucura, esse é o seu homem, eu.
 
                                                                                            Celso Fernandes
 
Como diz o Celso Fernandes:
“...agora sim, não é só nas revistas ou no cinema, não é só nas fotos da net ou da PlayBoy...” É verdade, a maioria de nós só nesses registos teve acesso a mulheres assim vestidas, a nossa mulher, normalmente não tem o discernimento para tal e fica até ofendida se falamos disso... Claro que as novas gerações (penso eu) não se ofendem quando na intimidade se fala do uso da lingerie, mas antigas gerações, pela educação castradora que tiveram, dizem até frases como a que jà ouvi: “Não gostas do meu corpo?... E assim dormem de pijama de flanela. Não adianta oferecer uma camisa de noite que nunca vestem, ou o aquele body em cetim e renda que a amiga lhe ofereceu pelos anos, que foi arrumado na gaveta para sempre...
Regina Navarro, sexológa  brasileira, vai mais longe e define o tamanho, o tecido e a cor da calcinha como sendo senhas. Senhas essas que revelam a identidade erótica de quem a veste. Entre brancas, amarelas, rosas, vermelhas e pretas, temos um leque de intenções, personalidades, sofisticação e ousadia. A amarela, por exemplo, pode dizer de alguém que não quer ter relações sexuais. Já a rosa diz de uma pessoa romântica e presa em ideais. A preta é sofisticada, poderosa e mal intencionada, mas não menos que a vermelha.
Enfim, Fetiches... Ou não!

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

INTERVALO

                                                                      INTERVALO

ENTRE LIVROS

LEMBRANDO AMIZADES



 

LEMBRANDO AMIZADES


 



1ª PARTE





A TRADIÇÃO
 
 
Era uma tradição antiga, os grupos excurcionistas, os mealheiros nos tascos e os grupos orgranizados com as caixas de 20 amigos, pequenas formas de guardar dinheiro cotizando durante o ano, para no final se receber a maquia acomulada. Durante o ano, haviam empréstimos aos sócios a pequenos juros, que acomulados era lucros a juntar ao bolo final. Eram depois distribuidos pelo Natal equitativamente pelos 20 sócios, isto num tempo em que não havia subsídios de forma alguma e eram estes pequenos “bancos” caseiros que ajudavam. Haviam livros próprios de deve e haver para o efeito. Havia um tesoureiro e um vogal eleitos para fazer a “escrita”, normalmente pessoas da confiança de todos.
 
 
 
 
 
OS CAROLAS DA BELA
 
       
Para falar aqui dos “Carolas da Bela”, nada melhor que um artigo publicado a 15 de Setembro de 1998, no jornal “A Voz de Ermesinde” de minha autoria e que passo a transcrever:
 
«Se ainda existissem, faziam no dia 11 de Setembro do ano em curso 20 anos. É verdade, como o tempo passa... O Lugar da Bela era tão diferente do que é hoje, meia dúzia de ruas em terra, poucas casas e muitos eucaliptos, um café na rua principal onde a malta se juntava e foi aí que eu e o Sousa tivemos a ideia, fundar um grupo de amigos que pagassem pontos negativos do Totobola, juntando assim algum dinheiro para poder-mos fazer um passeio/almoço de confraternização. Acordou-se que por cada ponto se pagaria 1$00. Convidamos mais 10 amigos, o Jaime, o Alfredo, o Simões (já falecido), o Carlos, o Raul, o Abílio, o Cruz, o Pereira, o Abreu e o Arnaldo que foi o tesoureiro.     
       Tem a data 17/9, o primeiro boletim registado, ao fim de 50 boletins tínhamos 4.540$00 que deu para no dia 11/8/79 partir-mos em passeio rumo a Amarante. Foi um convívio maravilhoso, muitos outros se fizeram durante anos, desde Rally’s Paper’s, passeios com a família, festas de passagem d’ano, festas de natal, noites de fado, até uma caixa para cotização e levantamentos de dinheiro. E era tão grande a solidariedade entre todos, que estou a recordar aquele dia em que todos juntos, pagamos o aluguer da casa a um dos nossos amigos.
        O Grupo mudou de nome algumas vezes, claro que nem tudo eram “rosas” havia por vezes discordância, pontos de vista diferentes, um por outro saia, outro entrava com novas ideias, mas o grupo inicial continuava, chegamos a ser “Os Cartolas” com o Edgar, o Chico Rosas etc. E em 13/12/85 fomos “A Cambada” com o Gil, o Durão, o Toni, o Gonçalves etc., etc. Até que terminou tudo em Dezembro de 1993. Alguns mudaram de residência, outros não concordaram comos estatutos da época, muitos desistiram simplesmente. Mas tenho a certeza que a maioria sente saudades do grupo, das grandes tardes bem passadas em agradáveis e salutares convívios, da camaradagem bonita que existiu, do orgulho que sentíamos quando ouvíamos os outros dizer: Que grupo unido, que grupo maravilhosos...
        Acabou! Tudo tem um fim, ou já não há Carolas como dantes? Não acredito! Eles andam por aí... E se por acaso se lembrarem, bebam um copo com um “Viva à amizade”, neste dia 11/9 de aniversário dos Ex-Carolas.»
 
            Faz hoje, 11 de Setembro de 1998, 20 anos
 

 
 
    Claro que ninguém poderá afirmar em sua opinião, como seria hoje o grupo que começou à 20 anos na mesa do café Pub Club, se entretanto não tivesse terminado depois de ter passado por sucessivas mudanças, tantas, que lhe trouxeram o fim definitivamente. Ou talvez não! Pois ainda hoje existem reminiscências desse “núcleo” de boa gente, vejam-se os “Pioneiros” que ainda resistem (embora a sua motivação principal, seja o dinheiro e um ou outro passeio de quando em vez. Motivações aliás, que quase sempre fundamentaram o grupo, tanto que alguns ao tentar modificar estes parâmetros, apressaram-lhe o fim), mas é sempre de louvar a existência deste género de grupos, neste mundo que teima em se tornar global, onde os verdadeiros valores são distorcidos, onde todos nós assistimos à destruição das verdadeiras amizades e aos últimos laivos de solidariedade que sempre nortearam a nossa geração. Quem hoje angariava entre os amigos, a importância necessária para pagar o aluguer de casa a um deles, num momento de dificuldade?
       As mudanças que se vieram a fazer, ao longo dos dezasseis anos que o grupo durou, foram sempre com a intenção de melhorar. Alguns, talvez não fossem compreendidos nos seus propósitos, mas não creio que houvesse um que fosse, que não quisesse o melhor para o grupo. Mesmo aqueles que por teimosia ou definições menos democráticas, quiseram ás vezes impor as suas ideias. Desde os que passaram despercebidos e com ideias parcas, até àqueles que por manifesta irresponsabilidade lesaram seriamente a maioria dos membros do grupo. Passando, pelos que deram o melhor que tinham, como a amizade sincera, ideias produtivas, trabalho e muitas horas em prol bem colectivo.                 
      Todos sem excepção, guardam com alguma saudade, os bons momentos que passaram no seio do grupo, desde o começo com “Os Carolas” em 11 de Setembro de 1978, até ao “CRAC” em 24 de Junho de 1994, passando pelos “Cartolas” e a saudosa “Cambada” de boa memória, que fazia furor em qualquer parte por onde passava, desde o Kilumba (com a mesa da má língua), o Fafe (com a sua mesa no canto do fado), o Monge (com as suas celebres sextas à noite), o Coelho (com o seu cabrito e não só) ou o Moreira (com os seu memoráveis banhos no lago).
       Quem de todos nós, não tem um bom momento desses para contar aos netos, para exemplo de como se podem passar boas horas de alegria e de sã camaradagem, no seio de um grupo de homens amigos, que nunca deixaram más lembranças ou fizeram desacatos pelos lugares por onde passaram, antes pelo contrário! Semearam amizades e colheram alegrias. Apesar de tudo e como diz a cantiga, valeu a pena. Porque “Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”, como disse um dia o nosso Fernando Pessoa.
        Para que conste e a memória não nos atraiçoe, vai aqui cronologicamente descrito com o maior rigor possível, (recorrendo-me de arquivos guardados ao longo dos anos e que vou de vez arrumar no baú das recordações), as passagens ou os momentos mais relevantes, desses anos áureos dos sucessivos grupos por onde passaram quase uma centena de amigos. Mas… Foi assim que tudo começou no dia…
 
 
11-Set.1978
Numa mesa do café Pub-Club e duma conversa entre o Manuel e o Sousa nasce a ideia de fazer uma sociedade do Totobola. Cada ponto perdido valia 1$00, e tinha por finalidade ao fim de um ano, fazer um almoço entre todos. O Sousa dá-lhe o nome “Os Carolas”. É elaborada uma lista de 12 amigos que vêem a ser os fundadores:
      
       Manuel Carvalho (que recebe as cotas)  
       António Sousa
       Arnaldo França (que guarda o dinheiro)
       Adelino da Cruz
       António Simões
       Alfredo Carvalho
       Raul Silva
       António Pereira
       José Carlos
       Jaime Pereira
       Abílio do Carmo 
       António Abreu (que desiste à 2ª semana)         
 
05-Ago.1979
Regista-se o 50º boletim do Totoloto e temos em caixa 4.540$00. (uma fortuna na época!) O Raul tinha sido o que menos pagou no ano: 317$00, o Sousa foi o que mais pagou: 377$00.Foi então criado um troféu para o “Cristo” que veio a ser entregue no fim do almoço, entre aplausos e uma lagrimazita do Sousa. O Carlos conhecia o “Coelho” em Amarante, marcou-se o almoço e a data.
 
11-Ago.1979
Partimos pela manhã rumo a Amarante, dos 11 elementos só 9 vão comer o Cabrito assado, por motivos profissionais o Abílio e o Cruz não nos acompanham. Tudo corre bem, desde os “martinis” pela manhã, ao “Bate” na mesa de pedra debaixo da ramada do Coelho, passando pelo Jogo da Malha, enquanto o Pereira dormia no seu Fiat 600 e o Arnaldo amarrava a empregada à perna da mesa.
Restavam 240$00 e no regresso, paramos no Cortiço em Baltar para o lanche. O Pereira e o Arnaldo descolam-se da malta no Fiat 600 direitos à Bela, quando chegamos já eles bebiam cerveja na esplanada do Pub-Club.
 
26-Ago.1979
Novo ano começa para “Os Carolas”, 4 elementos saem, o Arnaldo o Pereira o Cruz e o Raul, por não concordarem com as novas directrizes do grupo. Entram nesta data o Chico Rosas o Miguel Martins e o Manuel Teixeira (novo proprietário do Pub-Club). O grupo é agora de 10 elementos e o ponto no Totobola subiu para 2$50.
 
28-Jun.1980
No pátio Tony a malta junta-se para festejar com a família o S. Pedro, convida-se mais amigos para uma sardinhada e são distribuídas tarefas, assim:
        Manuel Carvalho – Sardinhas
        António Simões – Garrafão de Vinho
        José Carlos – Refrigerantes
        António Sousa – Azeite e vinagre
        Alfredo Carvalho – Pimentos
        Manuel Teixeira – Cervejas
        Abílio do Carmo – Guardanapos
        Jaime Pereira – Discos e Cassetes
        Chico Rosas – Carvão
        António José (Tony) – Pátio, chapa e tijolos
        António Pereira – Aparelhagem de som, tigelas
        Arnaldo França – Azeitonas (oferta)
        Edgar D’Almeida – Cebolas
        Mário Tobias – Broa
        José Vaz – Caldo-verde
        Carlos Bernardo – Garrafão de Vinho
 
Gastamos 1.760$00 que foram divididos por todos.
 
18-Jul.1980
Eram 11 horas da noite nessa sexta-feira de calor no pátio do Tony. “Os Carolas” reuniram para escolher o local e a data do passeio e almoço desse ano. Ficou aprovado que íamos ao Gerez almoçar ao Abadia e na volta, o remate era em Matosinhos. Além dos 10 amigos do grupo, mais 4 nos acompanhavam como “atrelados”. O Edgar, o Pereira, o Tony e o Arnaldo. Programam-se os meios de transporte, assim, o Carlos levava 5, o Alfredo 3, o Jaime mais 3 e o Manuel (do café) os restantes, só que este não  aparece no dia e hora marcados e a malta é distribuída pelos carros do Alfredo e do Jaime. O saldo geral é de 14.236$00.
 
31-Jul.1980
O Jornal de Noticias publica a notícia do nosso passeio, depois de termos oferecido 200$00 para a obra “Todo o homem é meu irmão”. O Simões escreve uma letra para o hino dos “Carolas”, tiram-se fotocópias para levar ao passeio.
 
09-Ago.1980
Partimos pela manhã para Braga em direcção ao Gerez, mas antes, tiramos fotos da partida à porta do Pub-Club. Fica registado para a posterioridade o Carlos, Manuel, Tony, Simões, Alfredo, Jaime, Abílio, Edgar, Pereira, Chico (magoado de uma perna), Miguel, Arnaldo e o Sousa (magoado num dedo da mão). No pequeno-almoço em Braga, o trio Abílio, Tony e Sousa preferem panados. No restaurante Abadia o bacalhau é magnífico e tem como sobremesa especial, um grupo de espanhóis que se juntam a nós nas cantorias. O Sousa recebe pela 2ª vez o prémio do “Cristo”. Tiram-se fotos e compram-se recordações no S. Bento. Perde-se muito tempo e começam certos desentendimentos, mas ainda se vai ao Parque do Gerez ao chã Hipericão. O tempo começa a ser apertado e pára-se em Braga para jantar no restaurante City-Rio, o Simões não janta e só em Famalicão se volta a parar para tal, a hora é tardia e chega-se à Bela com uma desilusão no ar. Cheira a fim…
 
16-Ago.1980
É um sábado, de tarde marca-se uma reunião em Freamunde no restaurante “Magalhães”. Houve votação para a expulsão do Simões que talvez não estivesse inserido no espírito do grupo, seguiram-se muitas cisões, saem o Manuel do café e o Simões. Por solidariedade com o familiar, os cunhados Carlos e Miguel pedem o afastamento. Avizinha-se o fim do grupo, “Os Carolas” desmoronaram-se.      
 

ENQUANTO ME LEMBRO...