S. JOÃO E OS TRIPEIROS
A História de um Feriado
(Texto original, publicado na Revista Ponto de Encontro de Julho de
2001 )
A
história é curiosa e mostra o protagonismo que, já na altura, a Comunicação
Social tinha. Estávamos em Janeiro de 1911 e a República Portuguesa dava os
primeiros passos. A monarquia tinha sido destronada apenas três meses antes,
com a revolução de 5 de Outubro de 1910. O Governo Provisório da República
assumia a governação do país e, desde logo, começava a introduzir mudanças na
sociedade portuguesa que espelhavam, muito naturalmente, os ideais da nova
ordem republicana. Numa tentativa de implementar a nova ordem junto da
população, o Governo Provisório redefiniu os dias feriados em Portugal. Por
decreto, a República instituiu como feriados nacionais o 5 de Outubro
(instauração da República) e o 1º de Dezembro (restauração da independência em
1640), para além do Natal e do Ano Novo. Mas o mesmo decreto impunha, a cada
município do país, a escolha de um dia feriado próprio:
E foi
com este propósito que a Comissão Administrativa do Município do Porto reuniu a
19 de Janeiro de 1911. Logo foi sugerido a data de 24 de Junho para feriado
municipal. O facto não causa espanto. Afinal de contas, o S. João era, já na
altura, uma festa com longa tradição na cidade do Porto. A primeira alusão
aos festejos populares data já do século XIV, pela mão do famoso cronista do reino,
Fernão Lopes. Em 1851, os jornais relatavam a presença de cerca de 25 mil
pessoas nos festejos sanjoaninos entre os Clérigos e a Rua de Santo António.
Referendo popular
Contudo,
a sugestão de eleger o S. João como feriado municipal da Invicta foi contestada
por outros membros da Comissão Administrativa do Município do Porto, que
mostraram opiniões diversas. Foi então que foi lembrado e inspirado no alto
princípio democrático, que não devia a Comissão deliberar nada sem que o povo
do Porto, por qualquer forma, se pronunciasse em tal assunto. Para solucionar o
imbróglio, o Jornal de Notícias dispôs-se a organizar um surpreendente
referendo popular para escolher o feriado municipal. Logo no dia 21 de Janeiro,
somente dois dias após a reunião da Comissão Administrativa, foi colocado na
primeira página do jornal o anúncio da "Consulta ao Povo do Porto",
explicando toda a situação e a forma de participação. As pessoas teriam que
enviar, até ao dia 2 de Fevereiro, "um bilhete-postal ou meia folha de papel
dentro de envelope" para a redacção do jornal, com a indicação do dia de
sua preferência. E, para recompensar o trabalho dos leitores, o Jornal de
Notícias oferecia "dez valiosos prémios" - o mais valioso era de 10
mil réis, cerca de cem escudos - a serem sorteados de entre todos aqueles que
votassem no dia eleito. Porto ser considerada "a capital do trabalho",
o 1º de Maio quase passava para a liderança da votação. Até que, a 4 de
Fevereiro de 1911, foram publicados os totais finais da consulta popular: o dia
24 de Junho foi o mais votado, com 6565 votos, seguido pelo 1º de Maio, com
3075 votos, o dia de Nossa Senhora da Conceição, com 1975 votos, e o dia 9 de
Julho, com oito. "Ficou, pois, vencedor o dia de S. João que é aquele que
o povo do Porto escolhe para ser o de feriado municipal". Só não se sabe
se o vencedor do sorteio chegou a receber os seus 100 escudos…promessa
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