S. JOÃO E OS TRIPEIROS
COISAS DE S. JOÃO
A FOGUEIRA E O FOGO DE
ARTIFÍCIO
As fogueiras de S. João são ateadas
nas ruas, por grupos de moradores e amigos que, saltando por cima delas,
demonstram a sua coragem, e têm virtudes purificadoras, tendo em vista a saúde,
o casamento e a felicidade.
À meia-noite do dia 23 de Junho há
fogo de artifício, ou fogo de S. João, que é ainda uma das razões pelas quais o
povo sai à rua. É em direcção à Ribeira que o povo se dirige, juntando-se
milhares de pessoas em ambas as margens do rio Douro, para assistir ao maior
espectáculo do ano, pleno de luz e cor. Os ritos ligados ao sol eram já
celebrados pelos povos primitivos, que, através de magia imitativa, acendiam
fogueiras “fogo do céu”, pois acreditavam trazer para a noite a potência diurna
do sol, que, nesta altura do ano, começava já o seu percurso descendente,
factor que preocupava os povos que dependiam dos ciclos naturais. Relacionados
também com as manifestações ligadas ao fogo são os tradicionais balões de S.
João, feitos em papel e em cores variadas, que, na noite, são cuidadosamente
lançados em direcção ao céu, proporcionando um espectáculo ímpar de centenas de
pontos de luz.
A ÁGUA E AS ORVALHADAS
Além
de trazer consigo apologias ao culto e a rituais pagãos, a água tem particular
função nesta festa enquanto elemento da cena bíblica do Baptismo, protagonizada
por João e Jesus. Na sabedoria popular a água dorme todas as noites, excepto na
noite de S. João. Na noite e madrugada de S. João, a água das orvalhadas é
benta e tem o poder de curar doenças e dar beleza aos jovens e favorecer
amores, entre outros benefícios. Em tempos, houve mesmo na Alameda das
Fontainhas, uma fonte para onde o povo se deslocava na noite de 23 de Junho,
entre a meia-noite e o nascer do Sol, para beber a água ou lavar-se nela. As
orvalhadas são sentidas nesta noite de uma forma mais acentuada e já fazem
parte do ritual da própria festa. Presentemente, a noite de S. João termina na
Foz do Douro, com o povo a rumar em direcção ao mar até ao nascer do dia.
O ALHO-PORRO E O MANJERICO
As ervas aromáticas, próprias desta
altura do ano, assumem nesta festa particular importância, tanto pelos
benefícios que se julga trazerem à saúde, como pelas manifestações que o povo
lhes atribuiu, tornando-as um símbolo do S. João. Também chamadas “ervas de S.
João”, têm virtudes mágicas e terapêuticas, como resquícios de complexos
rituais de culto romanas e célticas. É o caso do alho-porro, ou “alho de S.
João”, que se tornou o símbolo por excelência das Festas de S. João do Porto, e
que é usado democraticamente na noite mais longa do ano para tocar e dar a
cheirar a quem por nós passa, em desejo de boa sorte e fortuna. Os manjericos
são o tipo de erva aromática mais popular nesta festa, habitualmente comprados
em qualquer rua da baixa da cidade, quer para decoração, quer para oferta. São
vendidos em vasos enfeitados com uma bandeirola, presa por um arame, com uma
quadra popular alusiva à Festa, ao Santo e às intenções mais lascivas do povo.
Devem ser “cheirados” com a mão.
O MARTELINHO DE S. JOÃO
Na baixa da cidade, nas bancas onde se
apregoa a venda dos tradicionais manjericos, cravos, erva-cidreira,
”alho-porro”, reparte-se agora o espaço com os modernos martelinhos, elementos
em plástico que produzem um som próprio desta Festa, embora a finalidade do seu
inventor, tenha sido uma forma de criar mais alegrar na queima das fitas na
cidade. Logo a ideia foi aproveitada pelo povo para as imprescindíveis, mas
amistosas “agressões” entre os foliões da noite de S. João. Criado com o propósito
de diversão é o instrumento vital da festa, produzindo sons animados que
contagiam desde o início do dia quem está na cidade, anunciando a diversão mais
tardia. Coloridos, de formas e tamanhos diferentes, são escolhidos conforme a
energia do folião. Servem para “bater” nas cabeças dos passantes, sem que essa
demonstração provoque qualquer incómodo, apenas riso.
A CASCATA
São cenários livres de representações,
com origem provável nos presépios de Natal, talvez pela perfeita simetria entre
as festas solsticiais. A água, elemento imprescindível das cascatas
sanjoaninas, que provavelmente terá dado origem ao seu nome, e a imagem de S.
João Baptista baptizando Jesus são os elementos centrais do conjunto, cujo
cuidado na sua construção nos mostra a particular devoção dos portuenses ao
Santo. Na composição das cascatas surgem verdadeiras aldeias com construções de
casas minúsculas e caminhos traçados de areia e musgos, que são a
reconstituição de lugares da cidade e costumes de outros tempos. As figuras de
barro pintadas de cores vivas, de nome mascates,
são verdadeiras obras de arte popular criadas pelos mascateiros, que
representam as pessoas no seu quotidiano, laborando nas suas profissões, muitas
delas já desaparecidas, e animais que nos dias de hoje já não se vêem nas
cidades. As cascatas, únicas em Portugal e no mundo, são muito coloridas,
algumas mesmo animadas através do movimento das peças e muito enfeitadas, quer
pelo colorido das luzes, quer pelas folhagens e verduras utilizadas, elementos
que, no seu conjunto, dão origem a várias interpretações e que personificam a
vivência desta festa pelo povo. Variam de tamanho e não obedecem a nenhum
modelo de concepção, surgindo consoante a imaginação de quem as ergue com
paixão em qualquer recanto, sejam grupos de pessoas que se organizam para
mostrar a sua criatividade, sejam crianças, que, com as suas modestas cascatas,
organizam um peditório para o Santo. Pela sua autenticidade são sujeitas a um
concurso anual, no qual é eleita a mais bela e tradicional, premiando desta
forma a persistência dos portuenses neste velho hábito. As mais conhecidas e
tradicionais e que ainda subsistem, são a da Alameda das Fontaínhas, local de
romaria e oração, e a cascata frente aos Paços do Concelho, de iniciativa da
Câmara Municipal, tributo à Festa da Cidade.
A GASTRONOMIA
Na noite da Festa ou no dia de S. João
come-se caldo verde com broa, carneiro, anho ou sardinha assada, salada de
pimentos e, para sobremesa, leite-creme. Na madrugada do dia 23 de Junho
bebe-se café com leite e come-se pão com manteiga. As origens desta tradição
são pouco precisas. Há quem diga que o uso do anho ou cabrito se deve à
presença deste animal nas imagens de S. João, numa alusão ao cordeiro de Deus,
e que a sardinha foi introduzida mais tarde por ser mais barata e muito
abundante nesta altura do ano. Como diz o ditado popular, “No S. João, pinga a
sardinha no pão”.
Recuperada a
tradição do bolo de S. João, cuja receita oficial leva farinha, fermento,
frutas cristalizadas, nozes, amêndoas, licor, rum, cognac a gosto e leite para
amassar, este torna-se uma iguaria se acompanhado pelo famoso néctar dos Deuses
– o Vinho do Porto.
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